Estudo do Ministério Público aponta presença de resíduos químicos na água potável e alerta para riscos da exposição crônica, apesar de níveis dentro do permitido
Ao todo, foram encontrados 42 ingredientes ativos nas amostras analisadas - Foto: Reprodução Um estudo encomendado pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) revelou que 52% dos municípios catarinenses apresentam resíduos de agrotóxicos na água potável. Entre as substâncias identificadas, cinco têm uso proibido no Brasil. O levantamento foi apresentado ao órgão nesta quarta-feira, 28 de janeiro.
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Ao todo, foram encontrados 42 ingredientes ativos nas amostras analisadas. Segundo o MPSC, os dados indicam que a poluição por agrotóxicos não se restringe à água, atingindo também o solo e o ar. Com base nos resultados, o órgão pretende intensificar a atuação para reduzir os impactos dos resíduos químicos sobre a população e o meio ambiente.
A estratégia prevê ações em duas frentes: regional, com a criação de grupos de trabalho e a instauração de procedimentos administrativos nas promotorias; e nacional, buscando sensibilizar o Ministério da Saúde para a revisão dos limites considerados aceitáveis de resíduos químicos na água potável.
Apesar da presença de agrotóxicos, o MPSC ressalta que a água distribuída em Santa Catarina não é considerada imprópria para consumo. “Embora contenha resíduos de agrotóxicos, a água distribuída pela rede de abastecimento em Santa Catarina é segura ao consumo e não oferece risco imediato ao consumidor. Os processos de tratamento garantem proteção contra inúmeros contaminantes perigosos”, afirmou a promotora de Justiça Aline Restel Trennepohl.
Ainda assim, o órgão faz um alerta para a exposição crônica aos agrotóxicos. Estudos científicos apontam que o contato contínuo, por ingestão, pele ou ar, pode causar efeitos cumulativos e aumentar, a longo prazo, o risco de doenças como linfoma não-Hodgkin, câncer de estômago, próstata e tireoide, além de alterações endócrinas e neurológicas.
Estudo durou cinco anos e analisou todos os municípios
O levantamento foi realizado entre 2018 e 2023, dentro do Programa Alimento Sem Risco, do MPSC, que atua no monitoramento e combate ao uso indiscriminado de agrotóxicos. As análises ocorreram em laboratórios credenciados, com coletas em águas tratadas de mananciais superficiais e subterrâneos que abastecem os 295 municípios do estado.
O objetivo foi identificar as substâncias presentes, suas concentrações e a conformidade com a legislação brasileira. O estudo apontou que 155 municípios registraram a presença de agrotóxicos na água.
Segundo a promotora Aline Trennepohl, a água é a etapa final do ciclo de contaminação. “Estamos falando de todo um ambiente poluído, de resíduos que, antes de chegar à água, ocuparam o ar e o solo”, explicou.
Regiões com maior concentração
Os dados mostram variações significativas entre as regiões catarinenses. No Oeste, 63 dos 118 municípios apresentaram ao menos um ingrediente ativo. No Norte, foram 11 de 26 (42,3%); na Serra, 10 de 30 (33,3%); na Grande Florianópolis, 12 de 21 (57,1%); e no Sul, 35 de 46 municípios (76,1%). No Vale do Itajaí, 24 dos 54 municípios (44,4%) registraram resíduos.
O Vale do Itajaí é apontado como uma das regiões mais críticas. Em Imbuia, foram identificados 17 tipos diferentes de resíduos, incluindo dois ingredientes proibidos desde 2019, além de um fungicida em concentração considerada elevada por especialistas. Já em Ituporanga, foram detectados 23 ingredientes ativos, com nove substâncias acima de 1 micrograma por litro.
Além desses municípios, resíduos de agrotóxicos de uso proibido também foram encontrados em Balneário Camboriú, Rancho Queimado, Canelinha, Itaiópolis e São João do Sul.