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Aula de responsabilidade em Brasília

Por Cláudio Prisco Paraíso
30/05/2026 - 08h30

Santa Catarina saiu maior da tumultuada sessão da Câmara dos Deputados que aprovou, de maneira açodada e sem o necessário amadurecimento, a proposta que altera a escala de trabalho 6x1 e reduz a jornada semanal para 40 horas.

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Dos 16 deputados federais catarinenses, 10 votaram contra a matéria. Um gesto de coragem política, responsabilidade institucional e compromisso com a realidade econômica do país. Em um ambiente contaminado pelo populismo eleitoral, os parlamentares catarinenses que se posicionaram contra tiveram altivez para enfrentar o tema com racionalidade, algo raríssimo na atual legislatura.

Mais do que um simples voto, foi uma demonstração de maturidade diante de uma pauta que mexe diretamente com a vida de mais de 200 milhões de brasileiros, impacta empresas, trabalhadores, cadeias produtivas e a competitividade nacional.

Mostra sua cara

A condução da votação escancarou, definitivamente, o verdadeiro perfil do presidente da Câmara, Hugo Motta.

Com apenas 36 anos, o parlamentar paraibano demonstrou falta de envergadura política e ausência de densidade institucional para ocupar um dos cargos mais importantes da República.

Vassalagem

Atendendo aos interesses do Palácio do Planalto e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Motta atropelou qualquer debate sério sobre uma proposta extremamente complexa, que exigiria estudos aprofundados, diálogo com os setores produtivos e, sobretudo, responsabilidade.

Goela abaixo

Nada disso ocorreu. No afogadilho, sem discussão ampla e sem qualquer fase de transição ou testes preliminares, colocou-se em votação uma mudança estrutural no mercado de trabalho brasileiro.

Tratamento de improviso

O Brasil não é um país homogêneo. É uma nação continental, marcada por profundas diferenças regionais, econômicas e sociais.

Há setores produtivos completamente distintos entre Sul, Sudeste, Norte e Nordeste. Existem realidades econômicas incompatíveis entre si. Há segmentos industriais, comerciais e de serviços com dinâmicas próprias.

Ritmo de festa

Mesmo assim, a Câmara decidiu avançar sobre um tema sensível sem avaliar impactos concretos. Economistas e especialistas da área trabalhista vêm alertando que uma mudança dessa magnitude exigiria implementação gradual, testes de viabilidade e análises técnicas profundas, justamente para evitar efeitos colaterais severos na economia.

Risco generalizado

Entre os riscos apontados estão o aumento dos custos operacionais, o encarecimento de produtos e serviços e a redução da geração de empregos. Mas isso virou detalhe secundário.

Tudo eleitoreiro

O que prevaleceu foi o cálculo eleitoral. Para o governo Lula, o interesse central é construir um discurso politicamente rentável para 2026. A preocupação prioritária deixou de ser o futuro econômico do país e passou a ser a reeleição presidencial.

O Brasil ficou em segundo plano. Primeiro vem o projeto político. Essa é a leitura cada vez mais evidente em Brasília.

O peso do Supremo

Nos bastidores, também chama atenção a posição de Hugo Motta diante do consórcio político que hoje une Planalto e Supremo Tribunal Federal.

O presidente da Câmara possui vulnerabilidades e processos que tramitam na Suprema Corte. E Brasília funciona exatamente assim: relações de conveniência, proteção recíproca e alinhamentos de interesse.

Moeda de troca

Hugo Motta cedeu. E grande parte dos deputados também. Não necessariamente por convicção, mas pelo receio eleitoral. Afinal, estamos a poucos meses de o calendário eleitoral ganhar musculatura definitiva, e muitos parlamentares temeram o desgaste de votar contra uma proposta que, superficialmente apresentada, parece simpática à opinião pública.

SC na contramão

É justamente nesse contexto que Santa Catarina merece reconhecimento. Dos 16 deputados federais do estado, 10 votaram contra a proposta. Um desempenho absolutamente desproporcional em relação ao restante do país. Dos 513 deputados federais, apenas 22 votaram contra. Dez eram catarinenses.

Ilha brasileira

Nenhum outro estado teve comportamento semelhante, nem mesmo São Paulo, que possui quase 80 deputados federais. Santa Catarina destacou-se tanto proporcionalmente quanto em números absolutos.

Foi, sem dúvida, o estado que mais resistiu ao populismo travestido de modernização trabalhista.

Quem votou contra

Entre os sete deputados do PL, seis rejeitaram a proposta: Caroline De Toni, Daniel Freitas, Daniela Reinehr, Ricardo Guidi, Zé Trovão e Júlia Zanatta.

O único do PL que não acompanhou o grupo foi Ismael dos Santos, eleito originalmente pelo PSD.

Manda Brasa

Também votaram contra os emedebistas Carlos Chiodini e Rafael Pezenti, além de Fábio Schiochet, do União Brasil, e Gilson Marques, do Novo.

Os votos favoráveis

Votaram a favor os petistas Ana Paula Lima e Pedro Uczai, líder do partido na Câmara.

Também apoiaram a proposta Jorge Goetten, eleito pelo PL e atualmente no Republicanos, além de Ismael dos Santos.

Os ausentes

Dois parlamentares ainda conseguiram protagonizar situação mais constrangedora.

Preferiram fugir do debate. Geovania de Sá, atualmente no Republicanos, embora eleita pelo PSDB, sequer apareceu para votar. Já Valdir Cobalchini, do MDB, estava em Brasília, mas optou por não votar.

Pressão

Uma ausência especialmente simbólica. Cobalchini é de Caçador, cidade do presidente da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina, Gilberto Seleme. A entidade empresarial catarinense manifestou preocupação com a redução da jornada e destacou que os parlamentares que votaram contra demonstraram compromisso com o desenvolvimento econômico e com a responsabilidade institucional.

Convicção e perfil

É evidente que houve pressão sobre os deputados. Mas não apenas do setor produtivo. Os parlamentares catarinenses que se posicionaram contra a proposta também compreenderam o perfil político do estado. Santa Catarina é, hoje, um dos estados mais conservadores do Brasil, com forte identidade bolsonarista e um eleitorado extremamente politizado — talvez o mais politizado do país.

Fiscalização

E esse eleitor acompanha voto, posicionamento e coerência. No fim das contas, os deputados catarinenses que disseram “não” demonstraram exatamente aquilo que faltou à maioria da Câmara: coragem para pensar no país antes da próxima eleição.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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