A bagunça é generalizada. Edson Fachin tentou convencer o país de que havia assumido o controle da crise. Os acontecimentos mostram uma presidência que centraliza processos, mas ainda não consegue transmitir unidade.
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Quando cada ministro anuncia sua própria solução, a autoridade do tribunal se desgasta. O brasileiro já não sabe se acompanha uma Corte ou uma disputa permanente por poder.
O passado pesa
Cristiano Zanin foi advogado de Lula antes de ser indicado por ele ao Supremo. Flávio Dino chegou ao tribunal depois de comandar o Ministério da Justiça do mesmo governo.
Essas trajetórias exigem independência visível, sobretudo em decisões capazes de produzir desgaste para o presidente que os nomeou.
Duas decisões
Lula saiu da prisão em 2019, após a mudança do entendimento do STF sobre a execução da pena em segunda instância. Em 2021, Fachin anulou suas condenações por reconhecer a incompetência da Justiça Federal de Curitiba.
A anulação não foi uma absolvição de mérito, mas retirou a validade das condenações. Politicamente, devolveu a Lula a elegibilidade. É esse histórico que torna pouco convincente qualquer tentativa de apresentar sua relação com o Supremo como distante.
O poder de Moraes
O inquérito das fake news se tornou símbolo da concentração de poderes em Alexandre de Moraes. Para a direita, passou a representar uma atuação judicial marcada por excessos e restrições à liberdade de expressão.
Retirar seu comando das mãos do ministro foi um movimento relevante. Mas trocar o responsável não resolve a discussão sobre limites, duração e controle das investigações. A cobrança precisa alcançar o método, além do nome na relatoria.
Mendonça atingido
Agora, Fachin assumiu o caso envolvendo Moraes e Daniel Vorcaro e determinou a paralisação de apurações do Banco Master e do INSS, diante da discussão sobre possíveis conflitos de interesse.
O movimento também atinge André Mendonça. A pergunta é inevitável: a centralização vai dar segurança às investigações ou reduzir seu ritmo justamente quando elas se aproximam de autoridades?
A resposta terá de aparecer nos atos.
Zanin entra em cena
Neste domingo, Zanin determinou que a Polícia Federal encaminhasse ao seu gabinete a íntegra do conteúdo do celular de Vorcaro. Sustentou que não existe hierarquia entre os ministros e que precisa conhecer as provas para formar sua convicção. Assim como Gilmar Mendes, ele recebeu todos os informes solicitados à PF.
O acesso às provas exige critérios claros. Às vésperas da sessão, porém, a sucessão de ordens reforça a imagem de um Supremo incapaz de organizar sua própria crise sem expor novas divergências.
O interesse de Lula
Uma investigação rigorosa sobre Moraes poderia permitir a Lula tentar se afastar politicamente do ministro. Uma apuração sem consequências, por outro lado, alimentaria a acusação de blindagem.
Isso não prova um acordo. Mas a defesa que aliados de Lula fizeram e continuam fazendo de Moraes agora cobra explicações. Afinal, ambos foram escolhidos pelo próprio presidente.
Meia-sola não resolve
A sessão de 15 de setembro precisa oferecer mais do que uma resposta para as manchetes. Autorizar uma investigação e deixá-la sem perspectiva de conclusão não restaurará a confiança pública.
O país precisa conhecer o alcance da apuração, suas garantias de independência e os fundamentos das decisões. Suspeitas não equivalem a culpa, mas a toga também não pode funcionar como proteção contra o escrutínio.
Reforma de verdade
A saída exige responsabilização individual, limites ao poder monocrático e reformas pelos caminhos constitucionais. O Senado também precisa exercer suas atribuições de fiscalização.
Uma Corte respeitada não depende de ministros intocáveis. Depende de regras que valham para todos, inclusive para quem veste a toga.
Autorizada a investigação (se ninguém pedir vista, o que parece improvável), Alexandre Moraes teria que ser afastado do Supremo.
Fachin quer demonstrar comando. Terá de provar que centralizar processos significa fazer a Justiça avançar. Porque administrar o desgaste dos colegas é muito diferente de recuperar a credibilidade do Supremo.
Este fim de semana promete ser longo para magistrados e políticos.
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Na próxima terça-feira, o STF realizará uma sessão pública para decidir se autoriza a investigação de um integrante da própria Corte. Em 135 anos, o Supremo nunca esteve diante de uma crise interna dessa dimensão.
Um ano fora da curva
O ano de 2026 já entrou para a história do tribunal. O Senado rejeitou Jorge Messias, advogado-geral da União indicado por Lula para o STF, algo que não ocorria desde o governo Floriano Peixoto.
Agora, a Corte será obrigada a discutir publicamente a conduta de um de seus ministros. O Supremo deixou de julgar apenas as crises do país e passou a julgar a própria crise.
Moraes enfraquecido
Alexandre de Moraes chega à sessão menor do que era há poucas semanas. Ele já não controla o inquérito das fake news, retirado de suas mãos e assumido pelo presidente Edson Fachin.
É o primeiro golpe concreto contra o poder acumulado pelo ministro. Moraes continua no tribunal, mas perdeu o instrumento que lhe permitiu centralizar investigações e manter adversários sob pressão.
Sessão para valer?
A pergunta é se teremos uma sessão verdadeira ou apenas uma encenação para aliviar a pressão popular.
Existem suspeitas graves envolvendo a proximidade de Moraes e de sua família com Daniel Vorcaro e o Banco Master. Contratos milionários, mensagens e possíveis pedidos de interferência precisam ser investigados com independência.
Mas autorizar uma investigação é apenas o começo. O país quer consequências.
Investigar não basta
Moraes será afastado? Haverá prazo para concluir a apuração? Os documentos serão públicos? Ou o processo atravessará as eleições e acabará enterrado pelo corporativismo?
Uma investigação sem prazo, transparência e afastamento poderá ser apenas uma meia-sola institucional: suficiente para produzir manchetes, mas incapaz de produzir Justiça.
Lula nas cordas
A sessão acontece no pior momento para Lula. O presidente enfrenta um verdadeiro inferno astral e aparece nas pesquisas sem a vantagem que mantinha sobre Flávio Bolsonaro.
Na maioria dos levantamentos recentes, existe empate no segundo turno. Em outros, Flávio já surge numericamente à frente. O bolsonarista cresce enquanto Lula entra na reta final em curva descendente.
O plano do Planalto
O governo precisa encontrar uma saída. Uma investigação aprovada por consenso, mas sem o afastamento de Moraes, permitiria que Lula tentasse posar de defensor da transparência e se afastar do ministro.
Seria conveniente: o Supremo anunciaria a apuração, Moraes continuaria no cargo e o processo poderia perder força depois das eleições.
Para Lula, seria a oportunidade de dizer que não protege ninguém. Para o STF, uma tentativa de recuperar credibilidade sem atingir profundamente um dos seus.
Os votos de Lula
O problema está nos votos de Flávio Dino e Cristiano Zanin, ambos indicados por Lula ao Supremo.
Se um deles tentar impedir a investigação ou blindar Moraes, o presidente ficará sem discurso. A ligação política será imediata: ministros escolhidos por Lula protegendo o magistrado que se tornou símbolo da atuação institucional contra o bolsonarismo.
Também caberá a Gilmar Mendes escolher entre ajudar o STF a recuperar sua autoridade ou participar de mais uma operação de proteção interna.
Terça-feira decisiva
A próxima terça-feira não decidirá apenas o futuro de Alexandre de Moraes. Colocará em julgamento a credibilidade do STF e produzirá consequências na disputa presidencial.
O país saberá se a era dos superministros começou a terminar ou se o sistema continuará protegendo os seus.
A eleição está aberta, Lula está nas cordas e Moraes chega enfraquecido. Qualquer blindagem terá um custo político gigantesco.
O fim de semana será longo. Mas, para o Supremo e para o Palácio do Planalto, a terça-feira poderá ser ainda mais.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.