O movimento do MDB catarinense de voltar às bases não é apenas simbólico — é, antes de tudo, uma tentativa de reencontrar a sua própria razão de existir. Ao longo de quatro décadas, desde a redemocratização, o partido construiu uma hegemonia territorial e institucional raramente vista na política brasileira. O antigo PMDB — hoje MDB-SC — acumulou prefeituras, cadeiras legislativas e protagonismo nas disputas majoritárias, consolidando uma capilaridade que nenhum adversário conseguiu replicar com a mesma densidade.
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Esse capital político, porém, foi sendo corroído gradualmente. A perda de musculatura eleitoral e de protagonismo institucional abriu espaço para novas forças, especialmente após a ascensão do grupo liderado pelo governador Jorginho Mello, que redesenhou o eixo de poder no Estado. Escanteado da composição majoritária, o MDB reage agora com aquilo que sempre foi sua principal virtude: a capacidade de organização territorial e mobilização interna.
A iniciativa do presidente estadual Carlos Chiodini de promover encontros macro-regionais não é mero rito partidário. Trata-se de um processo deliberativo que busca legitimar, de baixo para cima, a estratégia eleitoral de 2026 — algo que, historicamente, nem sempre ocorreu no partido, inclusive nos tempos de liderança de Luiz Henrique da Silveira, quando as decisões ainda gravitavam fortemente nas cúpulas.
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Quatro caminhos
O MDB colocou sobre a mesa quatro alternativas estratégicas: candidatura própria ao governo, composição como vice numa chapa oposicionista, eventual aproximação com um projeto de esquerda ou manutenção de apoio ao atual governador, mesmo fora da majoritária.
Na prática, o debate revela menos indecisão e mais um processo de redefinição identitária: o partido precisa decidir se quer protagonismo, pragmatismo ou sobrevivência institucional.
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Nome próprio
A hipótese mais consistente continua sendo a candidatura própria. Nesse cenário, o nome do ex-prefeito Antídio Lunelli surge como referência natural, embora o movimento dele em direção à reeleição proporcional mantenha a incógnita aberta.
Caso não haja disposição interna, o próprio Chiodini passa a ser alternativa, inclusive com a possibilidade de uma candidatura isolada ao Senado para garantir presença majoritária.
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Plano B
A segunda via mais plausível é a composição com o projeto liderado por João Rodrigues, do PSD, ocupando a vaga de vice. Trata-se de um arranjo politicamente mais confortável para parte do partido, por manter o MDB no campo de centro-direita sem diluir totalmente sua identidade.
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Distância ideológica
A aproximação com uma frente liderada por Gelson Merisio aparece como cenário remoto. A leitura predominante é que o eleitorado emedebista, majoritariamente conservador, teria dificuldade em assimilar uma guinada para um polo mais à esquerda.
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Ruptura inevitável
Seja qual for o caminho escolhido, uma consequência parece inevitável: o desembarque do governo estadual. Não há compatibilidade política entre disputar protagonismo ou apoiar adversários e permanecer na estrutura administrativa. A lógica partidária, nesse caso, fala mais alto que a conveniência.
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Olhar nacional
O processo de consultas internas inclui ainda a posição do partido sobre o cenário presidencial, com a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro servindo como termômetro ideológico das bases catarinenses. Não se trata apenas de alinhamento nacional, mas de compreender como o eleitor emedebista se posiciona diante da disputa que tende a balizar alianças regionais.
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Sobrevivência
No fundo, o MDB vive um daqueles momentos raros em que precisa escolher entre nostalgia e reinvenção. A volta às bases indica que o partido compreendeu o tamanho do desafio. Resta saber se terá unidade e coragem política para transformar capilaridade histórica em protagonismo futuro — ou se se limitará a administrar a própria relevância.
O tabuleiro eleitoral catarinense começa a ganhar contornos mais nítidos — e, ao mesmo tempo, mais tensionados. Em passagem pelo Oeste, o governador Jorginho Mello reiterou aquilo que já vinha sinalizando: a construção de uma chapa pura do PL ao Senado, com Carol De Toni e Carlos Bolsonaro, tendo ele próprio na disputa pela reeleição e o prefeito Adriano Silva como vice.
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A reafirmação pública não é apenas retórica. Ela cristaliza um movimento político que dialoga diretamente com Brasília, redesenha alianças e impõe uma redefinição de posições dentro e fora do governo estadual.
A decisão ganha força a partir do alinhamento nacional. O ex-presidente Jair Bolsonaro teria se fixado no nome de Carol De Toni, em sintonia com a preferência manifestada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
No caso de Carlos Bolsonaro, a escolha é direta e pessoal, consolidando a lógica familiar e política que estrutura o núcleo decisório do partido. Os Bolsonaro dão as cartas, e os demais ou obedecem ou entram na mira do clã.
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Realidade partidária
A resistência inicial do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que havia sinalizado compromisso com a federação formada por PP e União Brasil, perde força diante do peso político do principal ativo eleitoral da legenda.
Na prática, prevalece a lógica pragmática: quem mobiliza votos define a estratégia. E, nesse desenho, quem puxará votos para a eleição à Câmara — determinante para fundo partidário, fundo eleitoral e tempo de TV — tem sobrenome Bolsonaro. Ponto.
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Aliados dispensáveis
O movimento do governador tem efeito colateral inevitável: MDB e a federação União Progressista ficam fora da majoritária. Foram escanteados pelo governador, apesar de ainda integrarem a administração estadual.
Sem espaço na chapa, a permanência dessas forças no governo passa a ser questionada, abrindo caminho para uma reacomodação que pode ocorrer ainda antes de o calendário eleitoral apertar.
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Cargos
Se MDB e PP forem permanecer com Jorginho, ok. Mas, se esses partidos seguirem outro caminho, que entreguem os cargos estaduais.
Se vão para outro projeto, têm todo o direito — afinal, o governador não confirmou nem levou a bom termo a palavra empenhada de que a vice seria do MDB e a segunda vaga ao Senado, da federação. Falhou.
Eles podem buscar o seu caminho, já que desejam uma participação majoritária, o que é legítimo. Agora, não faz sentido continuar no governo.
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Desconfiança mútua
A exigência de garantias públicas — sobretudo de uma carta assinada por Jair Bolsonaro — por parte de Carol De Toni não faz o menor sentido.
Carol deve estar temendo que o governador possa fazer com ela o que já fez com o MDB e sinaliza fazer com a União Progressista. Ela tem razões para estar com o pé atrás; o governador tem oscilado em suas posições.
Mas é constrangedor pedir que o ex-presidente, preso e com problemas de saúde, escreva uma carta assegurando seu nome. Convenhamos.
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Tripé
A deputada, que é favoritíssima à primeira das duas vagas ao Senado, tem hoje o nome com melhores perspectivas futuras na política de Santa Catarina, indiscutivelmente. Estamos falando de 2030, quando outro nome deverá estar na proa do jogo estadual, caso Jorginho Mello seja reeleito.
Se o vice for mesmo Adriano Silva, o prefeito de Joinville evidentemente buscará a reeleição, pois deve assumir o governo no último ano do mandato.
Sem falar em Topázio Silveira Neto, prefeito de Florianópolis, que, se fizer o sucessor em 2028, também entra no radar estadual.
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Vantagem
Esses são os três grandes nomes para 2030. O colunista, contudo, ousa dizer que o primeiro é o de Carol De Toni — não só por ser mulher, mas por ter uma capacidade de articulação política que os outros dois ainda não alcançaram.
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Anúncio inevitável
Agora é hora de Carol mostrar bom senso. Que proponha, então, em Brasília ou em Santa Catarina, uma reunião conjunta do presidenciável Flávio Bolsonaro, do presidente nacional do partido, Valdemar da Costa Neto, e do governador Jorginho Mello — e que publicamente confirmem e anunciem a chapa majoritária para outubro deste ano, com o próprio Jorginho, Adriano Silva, Carlos Bolsonaro e Carol De Toni.
Pedir uma carta de Jair Bolsonaro, debilitado e preso, não faz o menor sentido.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.