A decisão de Ratinho Júnior de não disputar a Presidência da República nunca surpreendeu este articulista — tratava-se de uma hipótese pouco plausível desde a origem. Jamais foi levada a sério, como de fato não deveria ser.
O que, de fato, causa estranheza é a extensão dessa retirada: ao abdicar também de uma candidatura ao Senado, praticamente assegurada diante de índices de aprovação na casa dos 85%, o governador paranaense rompe a lógica política mais elementar.
O movimento desorganiza o tabuleiro do PSD, frustra expectativas nacionais e produz efeitos colaterais relevantes — inclusive em Santa Catarina, onde João Rodrigues insiste em uma candidatura ao governo.
Mesmo sem apoio, sem discurso e sem projeto.
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Frustração
Desde o início, a pré-candidatura presidencial de Ratinho Júnior era ventilada, mas jamais se apresentou como consistente. Ainda assim, Gilberto Kassab apostava no seu nome: jovem, gestor bem avaliado e à frente de um estado cuja pujança econômica hoje supera a de Rio Grande do Sul e Goiás, governados por Eduardo Leite e Ronaldo Caiado, respectivamente — ambos recém-filiados ao PSD.
Havia, portanto, uma construção política em curso.
E ela foi abruptamente interrompida.
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Incomum
O que realmente destoa dos ritos tradicionais da política brasileira é a recusa ao Senado. Com capital político consolidado, seria uma eleição protocolar — uma vaga praticamente assegurada ao PSD.
Ao optar por concluir o mandato e retornar às atividades empresariais da família, Ratinho Júnior adota um caminho sem paralelo recente.
Não se trata de gesto trivial.
Tampouco de decisão meramente administrativa.
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Família
O próprio governador explicitou que a decisão foi tomada em reunião familiar, e não política.
Esse detalhe é revelador.
Ao falar em “família”, não se restringe ao núcleo doméstico. Envolve, sobretudo, o grupo empresarial liderado por Ratinho, seu pai, com forte presença no setor de comunicação.
Nesse contexto, a dimensão empresarial parece ter pesado mais do que qualquer cálculo partidário.
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Ruídos
Há elementos sensíveis no entorno de Ratinho Jr. que certamente seriam explorados em uma campanha.
Entre eles, a transferência recente de negócios familiares para o Paraguai, com evidente impacto tributário, e a associação envolvendo familiares do ministro Dias Toffoli em empreendimento no setor hoteleiro no Paraná.
São pontos de desgaste potencial.
Isoladamente administráveis.
Mas politicamente incômodos — e, ao que tudo indica, difíceis de explicar em ambiente eleitoral.
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Interrogação
Ao declinar também de compor como vice — hipótese cogitada em uma eventual chapa com Flávio Bolsonaro —, o governador amplia o campo de dúvidas.
A pergunta é inevitável: qual será seu posicionamento?
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Caminho
A permanência no PSD indicaria, em tese, apoio natural a Ronaldo Caiado.
Mas há outras possibilidades:
• alinhar-se ao campo de Flávio Bolsonaro, o que implicaria ruptura partidária;
• adotar neutralidade, hipótese que, em política, raramente é neutra.
Quando há silêncio, normalmente há estratégia.
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Bastidores
Nesse ambiente, ressurgem especulações sobre aproximações pretéritas com Luiz Inácio Lula da Silva — especialmente encontros que envolveram o próprio Ratinho e seu filho.
Um eventual entendimento, ainda que indireto, poderia ajudar a explicar a decisão de retração, sobretudo considerando interesses empresariais sensíveis, como concessões de radiodifusão, que dependem do governo federal.
Não há confirmação.
Mas a sequência dos fatos recomenda cautela — e atenção aos sinais.
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Reflexos em SC
Em Santa Catarina, o impacto é imediato.
A retirada de Ratinho Júnior esvazia ainda mais o já fragilizado projeto de João Rodrigues.
O prefeito de Chapecó sustentava sua pré-candidatura ao governo, em parte, na expectativa de um palanque nacional com o paranaense. Sem essa referência, perde densidade política e narrativa estratégica — algo que, por si só, já era escasso.
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Isolamento
A tentativa de recomposição — com movimentos em direção ao MDB e à União Progressista — ocorre em um ambiente já fragilizado por ruídos internos no PSD.
A ausência de um nome nacional competitivo agrava o isolamento.
A eventual substituição por Ronaldo Caiado não produz o mesmo efeito simbólico nem geopolítico. São perfis distintos, com inserções regionais diferentes.
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Efeito Jorginho
O principal beneficiado é o governador Jorginho Mello.
A fragilização do adversário potencial fortalece sua caminhada à reeleição.
No plano nacional, a tendência de consolidação de uma chapa com Flávio Bolsonaro e Romeu Zema reproduz, em certa medida, a aliança já firmada em Santa Catarina entre PL e Novo — com Jorginho Mello e Adriano Silva.
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Conclusão
Desistir da Presidência era previsível.
Abrir mão do Senado, não.
A decisão de Ratinho Júnior foge ao padrão, tensiona o PSD e redesenha o jogo político — com efeitos que extrapolam o Paraná e chegam, com força, ao tabuleiro catarinense.
Resta observar os próximos movimentos.
A política catarinense, ao longo das últimas cinco décadas, foi marcada por uma engrenagem de poder rara e altamente eficiente: a combinação entre articulação estratégica, atuação de bastidores e capacidade eleitoral. Poucas duplas sintetizam tão bem essa dinâmica quanto os ex-governadores Jorge Konder Bornhausen e Esperidião Amin Helou Filho.
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Quando estiveram juntos, venceram. Quando se afastaram, acumularam derrotas — várias delas. É uma equação simples, quase didática, quase matemática. E agora, às vésperas de mais uma eleição decisiva, tudo indica que voltarão a orbitar o mesmo campo político — ainda que em condições muito diferentes das que marcaram seus anos de ouro.
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Origens
A relação entre ambos remonta ao final dos anos 1970. Foi Jorge Konder Bornhausen quem levou Esperidião Amin ao primeiro escalão do governo estadual, nomeando-o secretário dos Transportes em 1979.
Antes disso, Amin já havia tido oportunidade com o primo de JKB, Antônio Carlos Konder Reis, seu antecessor no governo — igualmente indicado pelos militares e eleito pela Assembleia Legislativa.
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Formação política
Bornhausen presidiu o sistema BESC/CODESC no governo Konder Reis, enquanto Amin foi indicado para a Prefeitura de Florianópolis — nome aprovado pela Assembleia, em um período em que ainda não havia eleições diretas nas capitais.
À época, também cidades consideradas áreas de segurança nacional e instâncias hidro-minerais não elegiam seus prefeitos pelo voto direto — o que só voltaria a ocorrer em 1985.
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Prova de fogo
Após a experiência como prefeito biônico da capital, Amin disputou sua primeira eleição e se elegeu deputado federal em 1978, com 72 mil votos — a maior votação proporcional daquela eleição e, até então, da história de Santa Catarina.
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Estratégia
A escolha de Bornhausen por Amin na Secretaria dos Transportes não foi casual. Já havia ali um desenho estratégico: prepará-lo para disputar o governo em 1982, quando o país retomaria as eleições diretas.
E foi exatamente o que aconteceu.
Amin disputou o governo.
Bornhausen disputou o Senado.
Um operava a engenharia política.
O outro buscava o voto.
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Resultado
Ambos venceram — em disputas apertadas, o que apenas reforça o peso da estratégia combinada.
Não foi coincidência.
Muito menos sorte.
Foi método.
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Estrutura
A engrenagem era clara:
Bornhausen articulava, estruturava e viabilizava.
Amin comunicava, mobilizava e convertia em voto.
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Repeteco
Esse arranjo se repetiu em 1998, novamente com vitória dupla.
Consolidou-se, ali, uma tese difícil de contestar: juntos, eram praticamente imbatíveis. Separados, acumulavam reveses.
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Reencontro
Agora, o cenário sugere uma reaproximação política. Mas o tempo impõe suas condições.
Jorge Konder Bornhausen já não exerce o protagonismo operacional de outrora. Sua influência permanece, mas sem a mesma intensidade na articulação e na logística eleitoral — em função da idade.
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Fôlego
Já Esperidião Amin segue em campo.
Será candidato à reeleição ao Senado, possivelmente em uma chapa encabeçada por João Rodrigues, do PSD.
A diferença é evidente: Amin terá que buscar votos sem o operador que, historicamente, lhe garantia as condições ideais de disputa.
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Desafio
O contexto atual é francamente adverso.
O favoritismo está concentrado no governador Jorginho Mello, candidato à reeleição pelo PL, que vem ampliando sua base política e ocupando espaços estratégicos.
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Será?
Nesse ambiente, Amin aposta em um fator que considera decisivo: o apoio do MDB.
Há sinais de aproximação, inclusive com possibilidade de composição na chapa majoritária — seja na indicação de vice, seja em um alinhamento mais amplo.
O próprio senador tem sinalizado que já recebe manifestações de apoio de lideranças emedebistas.
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Contradição
Há, contudo, um elemento incontornável: a memória política.
MDB e Amin foram adversários históricos por mais de quatro décadas. Essa rivalidade não se dissolve por conveniência eleitoral. Ela permanece viva na militância e em parcelas relevantes do eleitorado.
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Lembrando
O episódio de 1985 é emblemático.
Naquele ano, com a retomada das eleições diretas nas capitais, Amin — então governador — aliou-se ao seu adversário de 1982, Jaison Barreto, já filiado ao PDT.
Os dois formalizaram a Aliança Social Trabalhista (AST) em Florianópolis, com Francisco de Assis Filho (Chiquinho) como candidato a prefeito e Manoel Maneca Dias como vice.
O resultado foi claro: derrota.
O emedebista Edison Andrino venceu com mais de 16 mil votos de vantagem.
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Risco
A eventual aliança entre MDB, PP e PSD pode fazer sentido no papel — envolvendo estruturas partidárias e tempo de televisão —, mas exigirá uma narrativa muito bem construída para ser assimilada pelo eleitor.
Sem isso, o risco é repetir erros clássicos: acordos de cúpula que não se sustentam na base.
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Cenário
O fato é que Esperidião Amin entra em uma das disputas mais desafiadoras de sua trajetória.
Sem o mesmo suporte estratégico de outrora e diante de um adversário fortalecido, precisará reinventar sua forma de fazer campanha.
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Simbolismo
A eventual reaproximação com Jorge Konder Bornhausen tem valor simbólico e histórico.
Mas, desta vez, isso não será suficiente por si só.
A eleição de 2026 exigirá mais do que memória.
Exigirá estrutura, narrativa e, sobretudo, coerência política.
E isso, como a própria história ensina, não se improvisa.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.