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MDB no radar de Lula

Por Cláudio Prisco Paraíso
10/02/2026 - 08h11

O presidente Lula trabalha nos bastidores para repetir, em 2026, uma engenharia política que já se mostrou decisiva em 2010 e 2014 na eleição e reeleição de Dilma Rousseff: atrair o MDB para o seu campo de alianças, ainda no primeiro turno. A operação, porém, está longe de ser simples. O partido é uma confederação de forças regionais, com interesses, identidades ideológicas e projetos de poder muitas vezes conflitantes entre si. O resultado é um tabuleiro fragmentado, em que Brasília enxerga oportunidade, mas os estados impõem resistências — e Santa Catarina é um dos casos mais emblemáticos.

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O Palácio do Planalto sabe que a presença formal do MDB na coligação agregaria tempo de televisão, capilaridade municipal e uma simbologia de centro político que dialoga com o discurso de moderação. Por outro lado, qualquer movimento nessa direção esbarra em diretórios estaduais que orbitam a centro-direita ou mantêm alianças estruturais com adversários do PT.

Vice em pauta

Dois nomes do MDB são hoje os mais citados para compor como vice na chapa de Lula: Renan Filho e Helder Barbalho. Ambos governadores ou ex-governadores jovens, com densidade política regional e herdeiros de estruturas partidárias robustas.

Herdeiros

Renan Filho, ministro dos Transportes, tem a vantagem de preservar mandato no Senado em caso de derrota, o que reduz o risco pessoal da empreitada. Já Helder Barbalho, no Pará, está em segundo mandato como governador e teria um movimento mais irreversível ao deixar o cargo para disputar a vice. São perfis diferentes, mas igualmente funcionais à estratégia de ampliar a frente lulista ao centro.

Dinastias

Não é coincidência que os dois principais cotados sejam filhos de caciques históricos do MDB: Renan Calheiros e Jader Barbalho. O partido, em vários estados, ainda se organiza em torno dessas estruturas familiares e regionais de poder. Isso facilita a negociação nacional, mas também acentua a lógica federativa da sigla, em que cada estado pesa mais do que a direção central.

Ala lulista

Hoje, os polos mais alinhados a Lula dentro do MDB estão em Alagoas, no Pará e no grupo ligado à ministra Simone Tebet. Candidata do partido à Presidência em 2022, Tebet apoiou Lula no segundo turno e integra o governo desde o início do mandato. É um dos principais elos entre o Planalto e o MDB institucional.

Tradição emedebista

Ainda assim, essa ala está longe de ser majoritária de forma automática em uma convenção nacional. O MDB não funciona por alinhamento ideológico linear, mas por correlação de forças entre diretórios e bancadas.

Baleia no comando

O presidente nacional da sigla, Baleia Rossi, representa um campo mais cauteloso. Sua posição tem sido a de evitar um alinhamento automático e preservar a autonomia dos estados. Na prática, isso pode resultar na liberação de diretórios para apoiar Lula onde houver interesse local, sem obrigar o partido a embarcar formalmente na coligação presidencial. É a fórmula clássica do MDB: unidade formal, diversidade real.

Efeito Santa Catarina

Em Santa Catarina, o cenário é particularmente sensível. O MDB estadual está majoritariamente posicionado no campo de centro-direita e mantém interlocução histórica com forças que fazem oposição ao PT no plano nacional. Uma guinada pró-Lula teria forte potencial de gerar desconforto e até debandadas.

História

O partido já não vive seu momento de maior pujança no Estado. Perdeu protagonismo nas grandes cidades e enfrenta divisões internas que reduzem sua capacidade de agir de forma coesa. Qualquer movimento que desagrade parcelas significativas da base pode acelerar um processo de esvaziamento.

Sinais locais

Lideranças tradicionais do MDB catarinense observam o cenário com atenção redobrada. Há quem já avalie alternativas partidárias de olho na janela de transferências, caso o partido caminhe para um alinhamento nacional com Lula. Outros preferem aguardar a definição oficial, apostando que a solução será, mais uma vez, a liberação informal dos estados. O histórico recente mostra que o MDB de Santa Catarina reage mal a decisões verticais vindas de Brasília quando elas contrariam a lógica política local.

Risco calculado

Para Lula, atrair o MDB é estratégico, mas envolve custo. Para o MDB, aderir formalmente à coligação presidencial pode render espaços no governo federal, mas também produzir fissuras em estados onde o antipetismo ainda é eleitoralmente relevante.

Cada um por si

O desfecho mais provável, seguindo a tradição da sigla, é uma solução híbrida: apoio declarado em alguns estados, neutralidade em outros e oposição velada em vários. O MDB dificilmente falará com uma só voz — e é justamente essa ambiguidade que o torna, ao mesmo tempo, desejado e imprevisível no xadrez nacional.

Lealdade sem reciprocidade

Por Cláudio Prisco Paraíso
07/02/2026 - 07h43

A relação do governador Jorginho Mello com o bolsonarismo nacional atravessa um momento delicado — e revelador. Depois de anos se posicionando como um dos mais fiéis escudeiros de Jair Bolsonaro, o catarinense começa a perceber que, na política, lealdade nem sempre gera tratamento proporcional. Decisões tomadas em Brasília, muitas vezes sem sintonia com a realidade de Santa Catarina, têm atropelado articulações construídas com cuidado no plano estadual e exposto o governador a constrangimentos desnecessários dentro do próprio campo aliado.

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O problema não é apenas de vaidade ou de protocolo político. Trata-se de autoridade, previsibilidade e comando de grupo. Quando um governador vê acordos locais serem revistos por pressões externas, a mensagem que chega à base é de instabilidade. E, em política, ruído prolongado quase sempre vira oportunidade para adversários.

Fidelidade comprovada

Jorginho nunca economizou gestos em direção a Bolsonaro. Esteve presente em manifestações, fez reiteradas declarações de apoio, manteve proximidade nos momentos mais sensíveis e sempre se posicionou como um aliado de primeira hora do ex-presidente e de seu entorno político e familiar. Não houve ambiguidade, nem distanciamento tático.

Mão única

Esse histórico reforça a percepção de que o tratamento recente dado ao governador pela cúpula nacional do PL e por aliados do bolsonarismo em Brasília está aquém do que seria esperado de uma relação entre parceiros estratégicos.

Interferência em série

O ponto de tensão se concentra na montagem da chapa majoritária em Santa Catarina. Jorginho vinha conduzindo uma engenharia política ajustada à realidade local, acomodando partidos, lideranças regionais e espaços de poder de forma a montar um palanque competitivo e relativamente coeso.

Guinadas

No meio do processo, porém, decisões e pressões externas passaram a reabrir discussões já encaminhadas. Lideranças nacionais, preocupadas com seus próprios acordos e disputas, passaram a tratar a composição catarinense como peça de um tabuleiro maior — ignorando que, no Estado, as variáveis são outras.

A conta do Senado

A disputa pelas vagas ao Senado virou o principal foco de atrito. Partidos aliados em nível nacional começaram a cobrar espaço na chapa catarinense como parte de “compensações” políticas que extrapolam as fronteiras do Estado. O recado foi claro: sem contemplação, não há alinhamento pleno.

Pressões

Jorginho, que já administrava compromissos locais, viu-se pressionado a rever cenários para atender interesses que não nasceram em Santa Catarina. O resultado é um mal-estar evidente e a sensação de que o governador está pagando uma fatura que não foi emitida por ele.

Desgaste desnecessário

Nada disso inviabiliza o projeto eleitoral. Convenções ainda vão acontecer, ajustes são comuns e a política permite reviravoltas até a última hora. Mas o processo, até aqui, gera desgaste.

Passa ao eleitorado e às lideranças regionais a imagem de um governador que, apesar do cargo e da lealdade demonstrada, não tem controle absoluto sobre a própria aliança. Para adversários experientes, esse tipo de narrativa pode fazer a diferença.

Olho vivo da concorrência

Enquanto a esquerda tende a ter um campo mais previsível do ponto de vista ideológico e partidário, a direita não governista acompanha cada ruído com atenção. João Rodrigues, por exemplo, depende diretamente do grau de conforto — ou desconforto — dos partidos dentro da órbita de Jorginho.

Federação

Siglas como PP, União Brasil e a federação que envolve essas forças tornam-se peças-chave. Se estiverem plenamente contempladas, a tendência é de permanência no projeto do governador. Se se sentirem preteridas, passam a ser alvo natural de uma alternativa à direita.

MDB dividido, como sempre

O MDB mantém sua tradição catarinense: divisão interna. Uma ala mais próxima do governo tende a seguir com Jorginho; outra observa o cenário e não descarta novos arranjos. O partido, como bloco, perde força de imposição, mas continua relevante pela capilaridade regional e pelo peso de suas lideranças locais.

Dois tabuleiros

O desafio de Jorginho Mello é claro: harmonizar o tabuleiro estadual, onde tem domínio político e administrativo, com o tabuleiro nacional, onde prevalecem interesses maiores e, muitas vezes, pouco sensíveis às particularidades de Santa Catarina.

Desafio

Se conseguir impor sua lógica local sem romper com o campo nacional, sai fortalecido. Se continuar sendo surpreendido por movimentos de Brasília, corre o risco de transformar lealdade em vulnerabilidade — e oferecer aos adversários um flanco que, até aqui, ele próprio não havia aberto.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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