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Domingo decide o presidente e começa a encerrar a era Lula-Bolsonaro

Por Cláudio Prisco Paraíso
24/10/2026 - 08h22

Estamos caminhando para a grande definição da disputa presidencial. Pesquisas para todos os gostos: algumas apontam vantagem de Flávio Bolsonaro; outras mostram empate ou diferenças mínimas.

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Independentemente dos prognósticos, há uma questão que ultrapassa domingo: como ficará a política brasileira depois das urnas? O resultado decidirá o governo. Mas também começará a redesenhar a disputa de 2030.

A esquerda envergonhada

Entre 1994 e 2014, o país viveu duas décadas de enfrentamento presidencial entre PT e PSDB.

De um lado, a esquerda petista. Do outro, a social-democracia tucana, a esquerda envergonhada, incapaz de representar o conservadorismo que existia na sociedade.

Havia eleitores de direita. Faltava uma candidatura nacional capaz de lhes dar identidade e protagonismo.

A mudança de eixo

Em 2018, Jair Bolsonaro rompeu aquela estrutura e derrotou Fernando Haddad, o poste escalado por Lula, então preso e impedido de concorrer.

Em 2022, depois da anulação de suas condenações, Lula voltou e venceu Bolsonaro numa eleição apertada.

Agora, com Jair fora da disputa, o primogênito representa esse campo. Mudou o candidato. Permaneceu o enfrentamento entre lulismo e bolsonarismo.

Subestimaram Flávio

Lula, o PT e o governo subestimaram o adversário. Imaginaram uma vitória na maciota. Acreditaram que o sobrenome Bolsonaro não bastaria para sustentar uma candidatura competitiva.

O resultado foi outro: Flávio terminou o primeiro turno à frente. Lula ficou com a obrigação de buscar a reação.

Desde 1989, nenhum segundo colocado na primeira rodada venceu o segundo turno presidencial. A escrita existe para ser derrubada. Mas o desafio está colocado para o petista.

O compromisso cobra

Se Flávio vencer, terá de responder pelo compromisso de não disputar a reeleição. A PEC apresentada no Senado depende de aprovação. Promessa não altera a Constituição.

Mas a palavra empenhada também cobra seu preço. Não seria aceitável defender o fim da reeleição na campanha e descobrir suas vantagens depois de sentar na cadeira.

Cumprido o compromisso, 2030 terá uma disputa aberta dentro da própria direita.

Tarcísio no horizonte

Nesse cenário, Tarcísio de Freitas surge como nome natural. Completaria o segundo mandato em São Paulo, à frente do maior estado e do maior colégio eleitoral brasileiro.

Tem experiência administrativa, projeção e condições de dialogar além do eleitorado bolsonarista.

Mais adiante, Nikolas Ferreira também aparece como liderança de uma nova geração. A direita já não depende exclusivamente de um sobrenome. Há nomes disputando espaço e construindo musculatura.

O PT sem o dono

Uma derrota de Lula obrigaria o PT a fazer o que adiou durante décadas: preparar a sucessão de seu comandante.

O caudilhismo tem esse defeito. Concentra o poder, exige fidelidade e trata qualquer autonomia como ameaça.

Haddad foi utilizado como alternativa, mas acumulou derrotas e não se consolidou como herdeiro eleitoral. O partido teria quatro anos para buscar uma liderança capaz de caminhar sem a mão de Lula.

Alternativas nordestinas

Rui Costa e Camilo Santana entram naturalmente nessa discussão. Ambos governaram estados importantes do Nordeste, passaram pelo ministério de Lula e construíram bases próprias.

São nomes com experiência e estrutura partidária. Isso não significa que tenham projeção suficiente para substituir o líder petista nacionalmente.

Uma coisa é administrar um território favorável. Outra é disputar o país inteiro. O PT precisará descobrir se produziu sucessores ou apenas auxiliares.

Se Lula vencer

Uma vitória de Lula também provocaria um rearranjo profundo na direita. Flávio sairia derrotado, e a família Bolsonaro teria de enfrentar a cobrança pelo resultado.

Isso não extinguiria automaticamente o bolsonarismo. Movimentos políticos não desaparecem por decreto. Mas enfraqueceria a pretensão de reservar outra candidatura presidencial ao mesmo núcleo familiar.

Tarcísio ganharia espaço. E a discussão de 2030 dificilmente deixaria de passar por ele.

Chega do personalismo

Direita e esquerda continuarão existindo. Conservadores e progressistas continuarão disputando projetos. Isso faz parte da democracia.

O que precisa ser superado é a submissão do debate nacional a duas figuras e às suas guerras particulares.

Domingo pode começar a encerrar esse ciclo. Não necessariamente a polarização ideológica, mas a dependência de Lula e Bolsonaro como donos exclusivos dos dois campos.

O Brasil precisa discutir seu futuro. Já passou da hora de deixar de viver aprisionado ao destino de duas famílias políticas.

Lula perdeu a magia e enfrenta a eleição do desempate em meio à fadiga de material

Por Cláudio Prisco Paraíso
23/10/2026 - 08h16

Lula ganhou projeção no movimento sindical dos anos 1970. Em 1980, participou da criação do PT, reunindo sindicalistas, intelectuais, artistas e militantes de esquerda.

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Disputou o governo paulista em 1982 e foi eleito deputado federal constituinte em 1986. A partir dali, o Planalto virou seu destino obsessivo. Quase meio século depois, continua sendo o centro de gravidade do partido.

Três derrotas

Em 1989, chegou ao segundo turno contra Fernando Collor, depois de superar Leonel Brizola por uma diferença estreita. Perdeu.

Em 1994 e 1998, foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso, nas duas vezes em primeiro turno. Mais do que enfrentar um candidato, enfrentou a estabilidade proporcionada pelo Plano Real.

O discurso inflamado não venceu a moeda estável. O eleitor sabia o tamanho do alívio de deixar a inflação para trás.

A embalagem mudou

Para vencer em 2002, o PT mudou a apresentação. José Alencar entrou como vice, Duda Mendonça assumiu o marketing e a campanha tratou de reduzir a resistência ao candidato.

Era a construção do “Lulinha paz e amor”. Alianças e profissionalização eleitoral fizeram diferença.

Lula venceu José Serra e, em 2006, derrotou Geraldo Alckmin. O antigo adversário hoje ocupa sua vice-presidência. A política tem dessas coisas.

A volta apertada

Lula fez Dilma sucessora. Em 2018, preso e impedido de disputar, foi substituído por Fernando Haddad, derrotado por Jair Bolsonaro.

Suas condenações foram posteriormente anuladas pelo STF. Em 2022, voltou à disputa e venceu Bolsonaro por pouco mais de dois milhões de votos.

O retorno já não teve a folga de outras épocas. O líder quase imbatível encontrava os limites de um país profundamente dividido.

A magia se desgastou

Com o tempo, Lula foi perdendo a magia. O sedutor messiânico, o pai dos pobres, o homem que dizia falar ao fundo da alma do brasileiro já não provoca o mesmo encantamento.

A propaganda conserva o personagem. A vida cotidiana cobra resultado. O trabalhador não paga supermercado com lembranças de campanha.

O desgaste não apagou sua força eleitoral. Mas tornou muito mais difícil vender, outra vez, a promessa de redenção.

O desempate

Esta é a sétima candidatura presidencial de Lula. Perdeu as três primeiras, em 1989, 1994 e 1998. Venceu as três seguintes, em 2002, 2006 e 2022.

Domingo será a eleição do desempate.

Buscar um quarto mandato, com toda a estrutura federal à disposição, sem estabelecer uma liderança segura revela o tamanho de sua dificuldade.

O poder continua nas mãos dele. O entusiasmo de outros tempos, não.

Antipetismo resistente

O PT conserva um eleitorado fiel. Indiscutivelmente. Mas também carrega uma rejeição persistente, alimentada pelo mensalão, pelo petrolão e pelo desgaste de tantos anos no comando federal.

O antipetismo foi decisivo contra Haddad em 2018. Agora oferece terreno à candidatura de Flávio Bolsonaro.

Para uma parcela do eleitorado, a disputa tornou-se uma cobrança por alternância.

Bondades sem freio

Vieram reajuste do Bolsa Família, medidas tributárias, perdão de dívidas para microempreendedores e a proposta de transporte gratuito nos fins de semana.

O governo empilha anúncios. Crédito, renúncia de receita, promessa e despesa, porém, não são a mesma coisa. A cifra de R$ 350 bilhões exige demonstração.

A pergunta permanece: por que tamanha criatividade justamente às vésperas da urna? A disposição que faltou para resolver problemas parece inesgotável quando o assunto é conservar o poder.

Sem deslanchar

Os levantamentos recentes mostram uma disputa apertada. Não existe vitória antecipada.

Mas a sucessão de anúncios tampouco assegurou a Lula a liderança que o Planalto procura. O presidente continua obrigado a conquistar votos e superar resistências.

Depois de três mandatos, sua biografia já não basta. O eleitor conhece o personagem. Quer saber por que deveria lhe entregar mais quatro anos.

O partido depois dele

Uma derrota atingiria um partido que nunca conseguiu se libertar da dependência de seu líder.

Dilma e Haddad ocuparam espaço, mas nenhum substituiu Lula como referência eleitoral nacional do PT. O caudilhismo cobra esse preço: concentra o comando e adia a sucessão.

Se o sentimento de mudança prevalecer, Lula será mandado para casa. E o PT terá de encarar a pergunta que empurrou durante décadas: o que será do partido sem o seu dono?

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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