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Pisada na bola

Por Cláudio Prisco Paraíso
29/04/2026 - 08h18

A deputada federal Carol De Toni consolidou-se, ao longo de dois mandatos, como uma das principais vozes catarinenses no Congresso Nacional. Eleita pela primeira vez em 2018, no embalo da onda liderada por Jair Bolsonaro, obteve uma votação expressiva. O desempenho no primeiro mandato foi tão consistente que garantiu a reeleição, já pelo PL, com quase 250 mil votos — um feito relevante em qualquer cenário.

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Mais do que isso: Carol De Toni figurou entre um seleto grupo de 17 deputados federais em todo o país que não dependeram do coeficiente eleitoral partidário para se eleger. Ou seja, conquistou a vaga exclusivamente com votação própria — um indicativo claro de densidade eleitoral. Foi, inclusive, a deputada federal mais votada de Santa Catarina.

No campo proporcional, apenas Ana Campagnolo, com quase 200 mil votos à Assembleia Legislativa, aproximou-se desse desempenho, sem, no entanto, superá-la. Os demais 15 deputados federais eleitos no estado ficaram abaixo da marca de Ana — o que reforça o protagonismo da parlamentar dentro da chamada trincheira liberal.

Na proa

No segundo mandato, que se encaminha para o fim, Carol ampliou sua presença institucional. Presidiu a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a mais poderosa da Câmara dos Deputados, com desempenho consistente. Também exerceu a liderança da minoria — função estratégica que exige articulação política e domínio do regimento. Naturalmente, seu nome passou a ser cogitado como opção viável ao Senado.

Derrapada

Articulada e com trânsito político relevante, vinha construindo um caminho sólido. Até a semana passada.

Em participação em um podcast, a deputada levantou a hipótese de o senador Esperidião Amin não disputar a reeleição, sendo alçado a um eventual ministério em um hipotético governo de Flávio Bolsonaro. Em contrapartida, o PP catarinense apoiaria a reeleição do governador Jorginho Mello.

Tiro no escuro

A proposta, além de politicamente sensível, desconsidera um arranjo previamente estabelecido: a dobradinha entre Amin e Carol De Toni para o Senado, articulada desde o início pelo próprio Jorginho Mello, com o MDB indicando o vice.

Cavalo de pau

Esse desenho, no entanto, sofreu alterações com a entrada do então prefeito de Joinville, Adriano Silva, como vice — movimento que também abriu espaço para Carlos Bolsonaro, o “Carluxo”, na composição majoritária, por indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Fora dessa

O rearranjo político acabou retirando Amin da chapa majoritária. E é nesse contexto que surge a sugestão de transformá-lo em ministro — o que, na prática, significaria excluí-lo da disputa eleitoral.

Reação e ruído

A reação de Esperidião Amin foi imediata e contundente. Até um pouco ríspida, fugindo ao seu estilo. Classificou a proposta como uma “ofensa debochada” e invocou um princípio básico da política e do mundo das negociações: não oferecer ao outro aquilo que não se aceita para si.

Eu, não

O argumento do senador encontra respaldo em fatos recentes. Quando sua própria posição na disputa ao Senado esteve sob ameaça — justamente diante da possibilidade de composição envolvendo Amin e Carlos Bolsonaro —, Carol De Toni reagiu cogitando mudança de partido, com alternativas como o Novo e outras siglas que lhe ofereceram legenda.

Nada disso

Também houve especulações sobre sua eventual indicação a vice de Jorginho Mello, hipótese mencionada por Valdemar da Costa Neto, mas que não prosperou — em parte por falta de aceitação da própria deputada. A contradição, portanto, é evidente: o que não serve para si, seria aceitável para o outro?

Efeito colateral

Politicamente, o episódio produz um efeito inverso ao pretendido. Em vez de enfraquecer, fortalece a posição de Esperidião Amin no tabuleiro eleitoral. A reação firme, somada à sua trajetória de mais de 50 anos de vida pública e mais de quatro décadas de mandatos, reforça a imagem de liderança experiente e respeitada — não só em Santa Catarina, como em Brasília.

Tibieza

Ao mesmo tempo, o episódio acaba por expor fragilidades na construção da candidatura de Carlos Bolsonaro, que ainda não demonstrou aceitação suficiente no cenário catarinense. A simples necessidade de uma articulação dessa natureza já indica que o projeto não engrenou como esperado.

Fora do tom

Carol De Toni construiu, com mérito, uma trajetória política ascendente, ancorada em votos, visibilidade e desempenho institucional. Mas política é também percepção — e movimentos mal calibrados podem custar caro. A sugestão envolvendo Esperidião Amin foi, no mínimo, um erro de avaliação estratégica. E, no máximo, um ruído desnecessário que reconfigura forças no jogo eleitoral. Pisou na bola. Feio.

O ocaso dos ex-governadores

Por Cláudio Prisco Paraíso
28/04/2026 - 07h43

Santa Catarina vive uma situação curiosa — e reveladora. O estado conta hoje com sete ex-governadores vivos, todos protagonistas, em algum momento, de ciclos políticos relevantes. Ainda assim, ao que tudo indica, nenhum deles estará nas urnas em 2026. Um esvaziamento que não é casual: ele traduz o encerramento de uma era e a dificuldade concreta de sobrevivência eleitoral fora do tempo de poder. Não existe vácuo na política, onde segue valendo um dito popular bem antigo: rei morto, rei posto.

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Eles carregam trajetórias muito distintas, mas com praticamente um ponto em comum: todos, por razões diversas, parecem ter chegado ao limite político. Seja por desgaste, cálculo estratégico ou simples perda de espaço, o fato é que nenhum deles demonstra viabilidade real para enfrentar o crivo das urnas neste momento decisivo, de polarização e possível fim da era Lula da Silva.

Importante frisar, ainda, que dois dos sete sequer chegaram ao governo pelo voto direto.

Mandato-tampão

Eduardo Moreira e Leonel Pavan foram alçados ao comando do governo catarinense em circunstâncias muito específicas, dentro da engenharia política construída por Luiz Henrique da Silveira.

Uma era

LHS, durante 16 anos, foi o grande fiador da política catarinense. Sua estratégia de renúncias calculadas abriu espaço para os vices. Primeiro, Moreira assumindo por nove meses. Depois, Pavan completando mandato após nova movimentação do titular, que deixou o Executivo para disputar o Senado, sendo eleito com grande votação em 2010.

Dupla

Nenhum dos dois, Moreira e Pavan, portanto, foi eleito governador. Ambos herdaram o cargo — o que, em política, faz diferença substancial quando se trata de capital eleitoral próprio.

Pavan, hoje, está fora desse tabuleiro: elegeu-se prefeito de Camboriú em 2024, consolidando uma base municipal, enquanto sua filha, Juliana, venceu em Balneário Camboriú. Movimento claro de reposicionamento familiar localizado, não tem, ainda, abrangência estadual.

Colombo isolado

Raimundo Colombo, eleito e reeleito em primeiro turno (2010 e 2014), é talvez o caso mais emblemático de esgotamento político pós-governo e dos novos tempos de um eleitorado bombardeado constantemente por informações as mais diversas.

Histórico

O lageano acumulou derrotas ao Senado em 2018 e 2022, além de uma tentativa frustrada de reverter o resultado via Justiça Eleitoral contra Jorge Seif, que o suplantou por mais de 900 mil votos há três anos e meio.

Congestionado

A esta altura do campeonato, o pessedista enfrenta um dilema objetivo: disputar uma vaga proporcional, em uma região serrana que representa apenas cerca de 7% do eleitorado, altamente congestionada por candidaturas alinhadas ao atual governo e à prefeitura pilotada por Carmen Zanotto.

Na prática, significaria correr o risco de medir votos — algo que, para um ex-governador de dois mandatos, pode ser politicamente devastador. A tendência para Raimundo Colombo é clara: recolhimento.

Moisés incerto

Carlos Moisés da Silva ensaia uma candidatura a deputado federal. Mas, à luz do histórico recente, a hipótese de recuo também é concreta. O articulista, aliás, aposta que ele não colocará o nome nas urnas.

Moisés já havia sinalizado disputar a Prefeitura de Tubarão em 2024 e desistiu. Agora, tende a repetir o movimento.

Ilustre desconhecido

Sua eleição em 2018 esteve diretamente associada à onda de Jair Bolsonaro. Fora desse contexto, nunca conseguiu consolidar base eleitoral consistente, não teve e não tem cacoete político.

Observação

A avaliação predominante nos bastidores é objetiva: Moisés deve evitar o teste das urnas — sobretudo diante do risco de uma votação aquém do simbolicamente aceitável para um ex-chefe do Executivo estadual. Se for para as urnas, pode ficar abaixo dos 10 mil votos.

Paulo Afonso

Paulo Afonso Vieira representa outro ciclo, bem mais distante. Eleito em 1994, teve sua trajetória profundamente marcada pelo episódio dos precatórios, das letras, que gerou desgaste significativo e culminou na derrota para Esperidião Amin na tentativa de reeleição.

O emedebista ainda chegou à Câmara Federal em 2002, mas, desde então, afastou-se gradualmente da vida eleitoral. Hoje, está completamente fora do jogo — por decisão e por contexto.

Aposentadoria

Há ainda Jorge Konder Bornhausen. Mas ele já se retirou da política há anos, em definitivo, até pela idade avançada.

Solitário

O único que continua na ativa e vai enfrentar as urnas com perspectivas é o senador Esperidião Amin, candidato à reeleição.

Vaticínio

O cenário é cristalino: dos ex-governadores vivos, apenas Amin deve se submeter ao crivo popular.

Novos tempos

É o retrato de uma transição política em curso em Santa Catarina, onde novos atores ocupam espaço enquanto antigos protagonistas enfrentam o peso do tempo, do desgaste e da falta de viabilidade eleitoral. Em política, passado conta — mas não garante futuro. E, neste caso, o passado parece ter ficado definitivamente para trás.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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