Na última segunda-feira, em Joinville, a transmissão de cargo na Associação Comercial e Industrial foi muito além de uma cerimônia protocolar. Guilherme Bertani, que deixava a presidência da entidade, aproveitou o evento para fazer um discurso político de peso — com recados claros, críticas diretas e sinalizações sobre como a iniciativa privada do maior município catarinense deve se comportar ao longo do processo eleitoral.
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Bertani foi cirúrgico. Criticou o MDB, lembrando que o Ministério dos Transportes foi conduzido por Renan Calheiros Filho nesses últimos três anos e meio — e que as obras que a região aguarda há décadas continuam no papel. A BR-280, que se arrasta há gerações. A BR-101 no litoral norte, em colapso total. Omissão do governo Lula, descaso do PT, ineficiência do MDB. Ele colocou o dedo na ferida — e fundo.
Mal-estar na sala
O efeito foi imediato. Ao final do discurso, os deputados Carlos Chiodini, federal, e Antídio Lunelli, estadual, deixaram o recinto visivelmente incomodados. No dia seguinte, o MDB tornava pública uma nota de resposta — já que Chiodini preside a sigla no estado. O clima estava criado.
Joinville é MDB
E o mal-estar tem peso histórico. Joinville se confunde, nas últimas décadas, com o próprio MDB. Dois prefeitos da cidade chegaram ao governo do estado: Pedro Ivo Campos e Luiz Henrique da Silveira, este em dois mandatos como governador e três como prefeito. Outros nomes de destaque também passaram pela prefeitura sob a legenda: Udo Döhler mais recentemente e o saudoso Wittich Freitag em seu primeiro dos dois mandatos. O avanço de Joinville se confunde com as administrações MDBistas. Criticar o MDB em Joinville não é pouca coisa.
Gesto inteligente
Coube a Antídio Lunelli o papel de apaziguador. De forma inteligente e elegante, fez contato com Bertani para apresentar o posicionamento do partido e desfazer qualquer mal-entendido. Fez muito bem. Lunelli, duas vezes prefeito de Jaraguá do Sul — cidade única no Brasil pelo seu poderio empresarial e pelo espírito comunitário profundamente arraigado —, sabe da importância de manter pontes abertas com o empresariado da região.
Elogios reveladores
Mas o discurso de Bertani não foi só crítica. Ele elogiou três personalidades — e a escolha não foi aleatória. O ex-prefeito Adriano Silva, sua sucessora Rejane Gambin, ambos do Novo, e o senador Esperidião Amin, destacado na luta pelos recursos e pelas obras rodoviárias no norte do estado. Três nomes. Três recados.
Tabuleiro eleitoral
E veja o que esses elogios revelam no tabuleiro eleitoral. Adriano Silva é vice de Jorginho Mello. Esperidião Amin é candidato à reeleição ao Senado na chapa liderada por João Rodrigues, ao lado de Antídio Lunelli. Ou seja, o empresariado de Joinville e região poderia estar se posicionando em duas frentes ao mesmo tempo — com Jorginho Mello no governo e com Amin e Lunelli no Senado.
Carlos incomoda
Isso, por sua vez, pode enfraquecer os dois candidatos liberais ao Senado da chapa de Jorginho Mello — Carlos Bolsonaro e Carol Detone. Carlos especialmente, pelo componente de vir de fora para ser candidato em Santa Catarina. Isso incomodou a classe empresarial de forma geral. E o incômodo tem endereço.
Votos cruzados
O resultado pode ser uma eleição com votos cruzados na disputa majoritária catarinense. O empresariado mais forte do estado de um lado com Jorginho Mello e Adriano Silva no governo, mas de outro, com Esperidião Amin e Antídio Lunelli no Senado. Joinville falou. Agora é observar se o restante do empresariado estadual acompanha.
E o principal: como se comportará o eleitorado catarinense.
As declarações absurdas, polêmicas e vergonhosas de Lula da Silva contra o povo catarinense na última sexta-feira, em Itajaí, não foram um deslize. Não foram improviso. Ao que tudo indica, foram de caso pensado. Não necessariamente nas abordagens específicas — ninguém roteiriza tamanha grosseria —, mas na estratégia por trás delas.
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Nos bastidores circula com força a avaliação de que Gelson Merísio teria trocado ideias com o inquilino do Palácio do Planalto sobre o tom da manifestação. E quem conhece Merísio sabe que não é homem de deixar as coisas ao acaso. Ele tem um histórico consistente de formulador político. Habilidade rara nos encaminhamentos, e que vai muito além do campo partidário eleitoral. Alcança o Judiciário, onde seu trânsito em Brasília não deixa nada a desejar a muitos parlamentares do Congresso — falo dos dois principais tribunais federais, STF e STJ. Alcança também o meio empresarial, onde atua como colaborador próximo dos acionistas de um dos maiores grupos do país, com penetração internacional: a JBS. Um homem com esse perfil não sugere nada por impulso.
Lógica ofensiva
Então o que teria levado Merísio a sugerir ao presidente uma ofensiva contra Jorginho Melo e contra a própria sociedade catarinense, às vésperas do início da campanha eleitoral — que será deflagrada tão logo as convenções homologatórias sejam realizadas, entre 20 de julho e 5 de agosto? A resposta está nas pesquisas.
João na frente
João Rodrigues vem monopolizando não apenas o espaço na mídia, mas as próprias pesquisas de opinião, com o dobro da intenção de voto de Gelson Merísio. É verdade que Merísio surgiu como candidato há poucos meses, enquanto João Rodrigues está na estrada há quase três anos. Ambos são da mesma região, de Chapecó. Mas os números falam por si.
Polarização calculada
A partir do momento em que Lula polemiza com suas declarações, ele força a polarização a chegar também em Santa Catarina — espelhando o que já está estabelecido no plano nacional, pela via da verticalização: bolsonarismo contra lulismo. E com isso, o espaço para João Rodrigues encolhe. O centro some. Fica só a direita de Jorginho Melo e a esquerda de Gelson Merísio. Simples assim.
Objetivo de Merísio
Pode ter sido exatamente esse o raciocínio de Merísio. O objetivo não é ganhar — nem ele, nem Lula, nem o PT nutrem essa ilusão em Santa Catarina. O objetivo é ficar na segunda posição. Consolidar uma fatia eleitoral robusta o suficiente para oferecer palanque a Lula no estado. Porque Lula vai puxar Merísio, mas Merísio, mais fortalecido, devolve o favor — elevando a votação do presidente no seu projeto de reeleição aqui em Santa Catarina.
Lula derrotas em SC
E Lula tem uma conta aberta com Santa Catarina. A última vez que ganhou uma eleição aqui foi em 2002 — há 24 anos —, quando se elegeu presidente na quarta tentativa e fez no estado, no primeiro turno, a maior votação proporcional do país. No segundo turno, a segunda maior, perdendo apenas para o Acre. Depois disso, derrota atrás de derrota.
Esquerda nunca governou SC
Com um detalhe que não pode ser ignorado: nem o PT nem a esquerda jamais conseguiram eleger um governador em Santa Catarina. O estado esteve sempre vacinado. A única vez que a esquerda chegou ao segundo turno foi em 2022 — não por mérito próprio, mas porque cinco candidatos conservadores dividiram os votos e a pulverização abriu a porta para Décio Lima carimbar o passaporte para o segundo turno.
A qualquer custo
No fundo, é isso. A estratégia toda — os insultos, a polarização forçada, o sacrifício de João Rodrigues — tem um único objetivo final: construir um palanque minimamente digno para Lula em Santa Catarina em 2026. Merísio sabe que não ganha. Lula sabe que não ganha. Mas juntos, calculam que podem fazer um resultado menos vexatório e mais útil ao projeto nacional do PT.
SC não se rende
Santa Catarina, porém, tem memória. Tem caráter. E tem um eleitorado que não se deixa manipular por estratégias armadas aqui ou em Brasília. Vamos observar o desenrolar dos acontecimentos — e apostar que, mais uma vez, as urnas vão responder com clareza.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.