A mais recente declaração de Lula da Silva, de que ainda não decidiu se será candidato à reeleição, caiu como uma bomba no já conturbado ambiente político nacional. Não pela novidade em si — afinal, o tema já vinha sendo ventilado nos bastidores —, mas pelo timing e pelo contexto em que surge. A poucos meses das convenções, trata-se de um movimento que, no mínimo, exige leitura cuidadosa.
Lula está na estrada eleitoral desde 1989. Trata-se de uma das trajetórias mais longevas da história política brasileira, com vitórias, derrotas e reviravoltas que moldaram o cenário nacional nas últimas décadas. Agora, diante de um quadro de desgaste evidente, brutal, tanto do governo quanto da sua imagem pessoal, a deidade vermelha vem com essa conversa de possível desistência. Mas será mesmo?
Os indicadores são claros: rejeição elevada e desaprovação crescente do governo. Em alguns levantamentos, ambos os índices já ultrapassam a marca simbólica dos 50%. Para um presidente em busca de reeleição, trata-se de um cenário extremamente adverso.
Fadiga de material
Com três mandatos no currículo — este último usado única e exclusivamente para se vingar do povo brasileiro (como havia alertado Ciro Gomes em 2022) — e às portas de sua última disputa, Lula parece avaliar o custo político de uma derrota. Encerrar a carreira com revés eleitoral não é, evidentemente, o desfecho desejado por quem tem um ego imensurável e um histórico implacável de perseguição e desconstrução de adversários.
Recado interno
Há, no entanto, uma leitura mais sofisticada — e talvez mais plausível — dessa declaração. O movimento pode ser, essencialmente, um recado interno. Um chamado à mobilização da chamada “cozinha” da esquerda: partidos aliados, lideranças regionais e operadores políticos que, até aqui, não demonstraram o nível de engajamento esperado.
Pressão
Ao levantar a hipótese de não concorrer, Lula pressiona sua base. A mensagem é direta: ou há empenho real na construção da reeleição, ou o projeto pode simplesmente não existir.
Ampliação política
Outro vetor importante dessa sinalização é a tentativa de ampliar o espectro de alianças. Hoje, o campo lulista permanece restrito à extrema esquerda: PT, PSB, PDT, PSOL, PV, PCdoB e Rede. Trata-se de um bloco coeso, porém limitado do ponto de vista eleitoral — e jurássico do ponto de vista programático.
Teto vermelho
A ausência de forças de centro compromete a capacidade de crescimento entre o primeiro e o segundo turno — fator historicamente decisivo em disputas presidenciais. Ao colocar sua candidatura em dúvida, Lula também pode estar tentando forçar a abertura desse leque, criando espaço para novas composições.
Plano alternativo
Nos bastidores, começa a ganhar corpo a discussão sobre um eventual plano B. Nomes como Fernando Haddad e Rui Costa são citados, mas sem grande entusiasmo. A alternativa mais promissora, segundo interlocutores, seria Camilo Santana, ex-governador do Ceará e atual ministro da Educação.
Um nome mais jovem, com perfil técnico e político, que poderia ter capacidade de oxigenar a canhotada — embora, evidentemente, sem o capital eleitoral de Lula.
Impacto amplo
Uma eventual desistência teria efeitos profundos. Não apenas na disputa presidencial, mas em toda a engrenagem eleitoral do país. Governos estaduais, Senado, Câmara Federal e Assembleias Legislativas seriam diretamente impactados.
O lulismo ainda é o principal ativo eleitoral da esquerda brasileira. Retirá-lo do tabuleiro, mesmo que substituído por outro nome competitivo, representa um abalo estrutural. E seria o começo do fim meteórico do PT.
Jogo ou realidade
Resta, portanto, a pergunta central: a declaração do petista trata-se de um blefe calculado ou de uma possibilidade concreta?
No histórico de Luiz Inácio Lula da Silva, movimentos táticos não são novidade. Criar tensão para medir reações faz parte do seu repertório político. Mas, desta vez, o contexto é diferente. O desgaste é real, o ambiente é adverso e o tempo é curto.
Timing
Se a reação esperada não vier — seja da base, seja do eleitorado —, a hipótese de uma retirada deixa de ser retórica e passa a ser concreta.
O relógio está correndo. E, como sempre, Lula joga com o tempo — e com o sistema que também dá sinais de que pode estar o abandonando, diante do brutal desgaste.
A menos de quatro meses das convenções homologatórias, o campo da esquerda em Santa Catarina segue operando em ritmo lento, quase protocolar. O silêncio que predominou nos últimos meses não foi casual: reflete uma acomodação interna que, mesmo após o fechamento da janela partidária e o prazo de desincompatibilizações, pouco se alterou — tanto no plano proporcional quanto na disputa majoritária.
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Os movimentos mais recentes indicam que, enfim, poderá haver alguma reação. Mas, até aqui, o diagnóstico permanece claro: ausência de protagonismo, baixa mobilização e um desenho político que ainda carece de densidade eleitoral.
Contraste
O cenário municipal escancara essa limitação estrutural.
Dos oito prefeitos que deixaram seus cargos para disputar as eleições — casos emblemáticos como Adriano Silva e João Rodrigues — nenhum pertence ao campo da esquerda.
Mais do que isso: nas eleições municipais de 2024, apenas o Partido dos Trabalhadores apresentou algum desempenho relevante entre as siglas desse espectro, elegendo sete prefeitos, concentrados em municípios de pequeno e médio porte. Nenhum desses gestores abriu mão do mandato para voos maiores.
O contraste é evidente.
Parlamentar
No Legislativo, o quadro é igualmente estático.
Não houve movimentações relevantes de deputados estaduais ou federais vinculados à esquerda durante a janela partidária. Nenhuma oxigenação. Permanecem os mesmos nomes, com os mesmos discursos e posicionamentos, sem renovação perceptível.
Arranjo tardio
A formação da chapa majoritária começa, finalmente, a ganhar contornos — ainda que de forma tardia e tímida.
O PSOL decidiu integrar a aliança estadual após tensões no plano nacional, onde o partido rejeitou ampliar a federação já composta por PT, PV e PCdoB.
Em Santa Catarina, prevaleceu o pragmatismo: a sigla aderiu à composição local.
Chapa definida
O desenho que se projeta — ainda sem formalização oficial — aponta para a seguinte configuração:
Governo: Gelson Merisio (PSB)
Vice: Ângela Albino (PDT)
Senado: Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL)
Merisio, inclusive, já teria formalizado sua filiação ao PSB em Brasília, com aval do vice-presidente Geraldo Alckmin — embora, até o momento, sem manifestação pública consistente.
Fantasma
A ausência de protagonismo é o ponto mais sensível.
Merisio, virtual cabeça de chapa, praticamente não circula politicamente. Falta agenda pública consistente, articulação visível e presença em debate.
A percepção dominante é a de uma candidatura ainda pouco materializada no campo político.
Na moita
Em menor grau, o mesmo vale para Décio Lima e demais nomes da esquerda estadual.
Falta narrativa. Falta presença. Falta disputa.
Fora do jogo
Quem ficou fora da equação majoritária foi Dário Berger.
Após tentar a reeleição ao Senado em 2022, não encontrou espaço na atual composição. Ainda assim, foi politicamente acomodado com a nomeação de seu irmão, Djalma Berger, para uma diretoria na Itaipu Binacional — movimento de evidente peso político.
Foco nacional
No pano de fundo, o objetivo permanece claro: melhorar o desempenho de Lula em Santa Catarina, especialmente em relação a 2022, quando foi amplamente derrotado por Jair Bolsonaro.
A eleição estadual, nesse contexto, assume papel instrumental para o projeto nacional.
Inércia
A pergunta que se impõe é direta:
quando a esquerda catarinense vai, de fato, entrar em campanha?
O calendário é implacável. As convenções começam em 20 de julho e se encerram em 5 de agosto.
E eleição, como se sabe, não se vence apenas com arranjo — exige disposição real de disputar.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.