A cena política nacional caminha para uma disputa presidencial que, salvo ruptura fora da curva, será decidida em segundo turno. Lula da Silva chega desgastado, com índices que refletem erosão consistente de popularidade — um desempenho que, em outras circunstâncias, abriria caminho natural para a oposição. Estamos falando, sob essa leitura, do pior governo desde a redemocratização.
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Ainda assim, o que se vê não é uma direita incapaz de se organizar, mas sim um núcleo específico que insiste em tensionar o próprio campo: a família Bolsonaro.
As pesquisas mais recentes indicam o avanço de Flávio Bolsonaro, que já ameaça de forma concreta o favoritismo do atual presidente. O movimento, em tese, consolidaria uma alternativa competitiva. Mas a prática mostra o oposto: conflitos internos, disputas de protagonismo e ataques públicos que fragmentam o eleitorado conservador e oferecem munição gratuita à esquerda.
Fator família
Não se trata, portanto, de uma direita desorganizada como um todo. Há, inclusive, candidaturas consistentes no campo conservador, como a de Ronaldo Caiado, com forte inserção no agronegócio e potencial de atrair votos relevantes no Centro-Oeste.
Mas nenhuma dessas alternativas parece capaz de unificar o campo já no primeiro turno. Enquanto isso, a esquerda segue coesa, alinhada em torno de Lula e sustentada por uma ampla coalizão partidária, a começar pela federação PT, PCdoB e Rede, além de partidos satélites, incluindo legendas mais à esquerda como o PSOL.
O problema central está em outro ponto: a desagregação promovida dentro do próprio bolsonarismo.
Racha interno
O que se observa hoje é uma família em permanente estado de beligerância. Michelle Bolsonaro alterna movimentos que tensionam tanto aliados quanto integrantes do próprio clã.
Já entrou em rota de colisão com Carlos Bolsonaro e também com Eduardo Bolsonaro, evidenciando um ambiente de disputa interna por espaço e influência. E isso ocorre mesmo com Jair Bolsonaro ainda sendo a principal referência do grupo.
Nos bastidores, a disputa por seu espólio político já se mostra intensa.
Seria o nome
Houve, inclusive, articulações em torno de Tarcísio de Freitas como alternativa presidencial — movimento que expôs divergências estratégicas profundas dentro do grupo.
O governador de São Paulo, visto por muitos como o principal nome da direita, optou por não entrar na disputa e buscar a reeleição. Uma decisão prudente diante do ambiente de disputa interna.
Controle familiar
A lógica que prevalece é a de centralização. Para os irmãos Carlos e Eduardo, qualquer liderança emergente fora do núcleo familiar passa a ser vista como ameaça.
É nesse contexto que surgem atritos com nomes como Nikolas Ferreira, apontado como uma das principais lideranças da nova geração da direita e com potencial de protagonismo futuro.
O recado implícito é claro: o futuro do campo conservador, para o clã, deve necessariamente passar pelo sobrenome Bolsonaro.
Reflexos em SC
Santa Catarina, tradicional reduto conservador, tornou-se extensão direta dessa disputa.
A deputada estadual Ana Campagnolo passou a ser alvo de ataques após divergências pontuais, especialmente relacionadas à movimentação de Carlos Bolsonaro no estado e suas conexões com o deputado mineiro.
Esse movimento tem gerado desconforto interno e ampliado tensões dentro do próprio campo político.
Respingos
Ao lado dela, Carol De Toni também entra no radar dessas tensões nacionais, sobretudo por apresentar desempenho eleitoral competitivo — inclusive superior ao de nomes ligados diretamente ao clã.
Ela aparece como favorita à primeira vaga ao Senado em Santa Catarina.
Tudo nítido
A corrida ao Senado em Santa Catarina expõe com clareza o problema: a disputa interna dentro do campo conservador.
A tentativa de impor candidaturas vinculadas ao bolsonarismo mais direto gera resistências locais e amplia a fragmentação de um eleitorado que historicamente tende à convergência.
A consequência é direta: aumento da rejeição, dispersão de votos e risco real de perda de uma vaga estratégica.
Alerta final
O quadro é, no mínimo, paradoxal. Enquanto Lula enfrenta desgaste visível, a oposição mais competitiva trabalha contra si mesma.
Não por divergência programática, mas por disputas personalistas, vaidades e tentativa de controle absoluto de um campo político que já se mostrou maior do que qualquer grupo específico.
Alô, família
Se não houver recomposição — e rápida —, o bolsonarismo corre o risco de produzir aquilo que mais critica: a própria reeleição de Lula.
Missão impossível
No caso de Santa Catarina, o dano pode ser ainda mais profundo, atingindo diretamente a eleição majoritária e, sobretudo, o Senado.
Isso porque Carol De Toni já começa a ser alvo de movimentos internos ligados a aliados de Carlos e Eduardo no estado.
Em termos práticos: há uma pressão para que ela sustente a eleição de Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina — o que tende a ampliar a resistência do eleitor local a essa estratégia.
E isso pode, inclusive, gerar efeitos colaterais no projeto de reeleição do governador Jorginho Mello.
A política, afinal, não costuma perdoar erros primários de coordenação.
A pesquisa da AtlasIntel, divulgada no meio desta semana, trouxe um retrato que, à primeira vista, parece confortável ao Palácio — mas que, ao ser examinado com lupa, acende um sinal amarelo no núcleo político do governo.
O governador Jorginho Mello aparece na iminência dos 50% das intenções de voto, tanto no cenário com João Rodrigues quanto naquele com Décio Lima. Soma-se a isso uma aprovação elevada de sua gestão e o desempenho consistente de Carol De Toni, que desponta com vantagem na disputa pela primeira vaga ao Senado.
Mas é justamente na segunda vaga que reside o ponto de tensão, de dúvida, de preocupação. A presença de Carlos Bolsonaro — o “Carluxo” — começa a produzir mais ruído do que convergência dentro da engrenagem governista.
E agora não apenas conceitualmente, mas com base em dados reais.
Ameaça
Interlocutores próximos ao governo admitem preocupação com o avanço de Esperidião Amin, preterido pelo próprio Jorginho na formação da chapa governista. O senador aparece à frente de Carlos Bolsonaro, o que altera o equilíbrio inicialmente projetado para a composição.
É a lógica
A tendência, à medida que a campanha se intensifique, é de acirramento. Nesse contexto, Carluxo entra em campo sob pressão — um cenário que, historicamente, não combina com estabilidade política. E muito menos com o temperamento do filho “02” de Jair Bolsonaro.
Temperamento
O histórico do ex-vereador carioca é conhecido. Trata-se de um político de perfil combativo, por vezes imprevisível.
Sentindo-se acuado diante da possibilidade real de derrota, pode recorrer à sua conhecida “metralhadora giratória” — estratégia que tensiona o ambiente e amplia conflitos, internos e externos.
Esse tipo de comportamento, em uma campanha estadual já complexa, não interessa a ninguém — muito menos ao próprio Jorginho Mello, que precisa preservar coesão e foco.
Nacionalização
A simples presença de Carlos Bolsonaro na disputa catarinense já projeta a eleição para além das fronteiras do estado.
Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e irmão do senador Flávio Bolsonaro — pré-candidato do PL à Presidência da República —, Carluxo transforma qualquer movimento local em pauta nacional.
Isso impõe um componente adicional de complexidade: o desempenho dele em Santa Catarina cria vínculos diretos com o projeto nacional do partido.
Articulação
Diante desse quadro, a tendência é de intensificação das articulações.
O governador deve buscar alinhamento não apenas com Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, mas também com Flávio Bolsonaro, no sentido de calibrar estratégia, discurso e posicionamento.
A ideia central é clara: evitar ruídos e construir uma narrativa capaz de impulsionar Carlos Bolsonaro sem comprometer o conjunto da obra, que até aqui está bem encaminhado.
Voto casado
Uma das alternativas mais evidentes é o reforço do chamado “voto casado”: Carol De Toni com Carlos Bolsonaro.
Nesse desenho, caberá a Carol um papel estratégico — semelhante ao que já se viu em eleições anteriores, quando lideranças majoritárias atuaram para puxar seus companheiros de chapa.
Precedente
O paralelo histórico é inevitável. Em 2010, Luiz Henrique da Silveira, ao disputar o Senado após dois mandatos como governador, foi categórico ao vincular seu voto ao de Paulo Bauer.
“Quem não votar em Bauer, não vota em mim”, foi, em essência, o recado. O alvo era conter o avanço de Cláudio Vignatti, então filiado ao PT, que ameaçava a segunda vaga.
O resultado foi uma vitória expressiva: Bauer se elegeu com margem confortável, cerca de 250 mil votos à frente de Vignatti. Sem aquele posicionamento firme, o desfecho poderia ter sido outro.
Incógnita
É exatamente esse tipo de movimento que começa a ser desenhado nos bastidores.
Mas, diferentemente de 2010, há um fator de imprevisibilidade relevante: o próprio Carlos Bolsonaro.
Sua candidatura, hoje, é uma incógnita — e, mais do que isso, um ponto potencial de instabilidade dentro de um projeto que, até aqui, se mostrava linear.
Se o sinal amarelo vai evoluir para algo mais grave, dependerá menos dos números e mais da capacidade de articulação — e de contenção — nos próximos meses.
A conferir.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.