Depois de oito anos afastado da militância político-partidária eleitoral — período em que atuou apenas nos bastidores —, Gelson Merisio voltou à cena. E não foi de forma discreta. O reaparecimento ocorreu em Florianópolis, no evento da Frente de Esquerda que oficializou o quarteto da chapa majoritária para a disputa em Santa Catarina.
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A composição vem encabeçada pelo próprio Merisio, tendo Ângela Albino como candidata a vice, além das candidaturas de Décio Lima e Afrânio Bopré ao Senado. E já nesse primeiro movimento público, o ex-deputado tratou de imprimir o tom que pretende adotar na campanha.
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Autocrítica
Fez uma autocrítica explícita: disse estar mais compreensivo, mais maduro, mais sereno e menos explosivo. Ao mesmo tempo, sinalizou com clareza que buscará um contraponto no discurso e no embate eleitoral com o governador Jorginho Mello, a quem reconhece como favorito.
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Memória
Mas não sem lembrar — com evidente intenção estratégica — que também era considerado favorito em 2018, quando acabou atropelado pela onda bolsonarista.
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Antecipação
Antes mesmo que adversários explorassem sua trajetória recente, Merisio se antecipou. Admitiu que apoiou Jair Bolsonaro tanto no primeiro quanto no segundo turno de 2018, contextualizando a decisão dentro do ciclo político nacional daquele momento. Ainda assim, afirmou sentir-se à vontade para empunhar agora a bandeira do PT, da esquerda e de Lula da Silva em Santa Catarina.
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Desconforto
Mas o gesto político não veio sem ruídos. No vídeo em que lideranças de esquerda entoavam a tradicional marchinha ligada a Lula, Merisio aparentou desconforto. Tentou demonstrar naturalidade, mas o esforço não foi suficiente para ocultar certa inibição — algo perceptível em alguém que construiu sua trajetória como político de centro, com inclinações mais à direita, e que agora assume o protagonismo de uma chapa claramente posicionada à esquerda.
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Chamamento
O próprio Merisio revelou que, há cerca de dois meses, foi chamado por Lula para assumir a liderança do embate político em Santa Catarina. Encarou o convite como uma missão: reduzir a vantagem dos conservadores sobre os campos progressistas no estado. Segundo relatou, ouviu do próprio presidente que Santa Catarina foi a unidade da federação onde Lula teve, proporcionalmente, seu pior desempenho em 2022.
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Primeiro passo
O discurso, neste primeiro momento, foi deliberadamente contido. O candidato afirmou que não era hora de estender demais as falas, indicando que o aprofundamento do confronto político ficará para a fase seguinte. Ainda assim, deixou claro que, a partir de agora, o caminho está aberto para a disputa eleitoral.
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Cortando na carne
Há, porém, elementos relevantes que não foram mencionados publicamente, mas orbitam essa construção política. Entre eles, o papel dos irmãos Batista, acionistas da JBS. Merisio foi um dos articuladores da reaproximação dos empresários com Lula, após os episódios de delação que atingiram o então ex-presidente, hoje novamente no comando do Palácio do Planalto.
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Interlocução
Além disso, pesa nos bastidores a atuação do ex-deputado na interlocução que contribuiu para atenuar a situação dos irmãos no Supremo Tribunal Federal, valendo-se de sua rede de contatos na Suprema Corte.
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Fechados
No tabuleiro eleitoral, o contraste de estágios entre as candidaturas chama atenção. Enquanto Merisio surge já com chapa estruturada em sua primeira aparição pública, o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, segue em pré-campanha há cerca de dois anos e meio sem fechar completamente sua composição.
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Quarteto de dois
Por ora, conta apenas com seu nome ao governo e o de Esperidião Amin ao Senado, ainda sem definição de vice e de um segundo nome para a disputa senatorial.
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Organizados
Do outro lado, a esquerda não apenas apresentou sua chapa completa, como também já anunciou os suplentes de ambos os candidatos ao Senado — um indicativo claro de organização e antecipação estratégica.
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Todo vapor
O calendário eleitoral impõe ritmo acelerado. A pré-campanha já está em curso. As convenções partidárias ocorrerão entre 20 de julho e 5 de agosto. O prazo para registro das candidaturas vai de 6 a 15 de agosto. E a campanha oficial começa em 16 de agosto, com duração de 50 dias.
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Bola rolando
Ou seja: o jogo já começou. E, a partir de agora, cada movimento — sobretudo de quem ainda não consolidou sua posição no tabuleiro — passa a ter peso decisivo na definição dos rumos políticos de Santa Catarina.
O governador Jorginho Mello avança na recomposição do seu colegiado em um momento clássico de transição: o período de desincompatibilizações. Com vários auxiliares deixando cargos para disputar as eleições de outubro, o governo entra em fase de ajustes que misturam técnica, confiança pessoal e, inevitavelmente, cálculo político-eleitoral.
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O movimento desta semana é emblemático. Não se trata apenas de preencher vagas — foram sete mudanças no total —, mas de reposicionar peças num tabuleiro que já está sendo montado com foco na reeleição — e, mais à frente, no desenho de um eventual segundo mandato.
Remanejamento
A principal mudança foi o deslocamento de Edson Moritz da presidência da Casan para o comando da Celesc.
A decisão foi sacramentada em reunião extraordinária do Conselho de Administração da companhia elétrica, presidido pelo empresário Glauco José Côrte.
Dinâmica
Não é uma troca trivial. Ao deslocar Moritz, o governador imprime um perfil mais político à Celesc, justamente no momento em que o ambiente eleitoral exige interlocução mais sofisticada com agentes políticos e institucionais — além do velho e bom jogo de cintura, em um momento em que os ânimos pré-eleitorais já vão se acirrando nos bastidores.
Substituição
Na Casan, a solução foi doméstica: assume o engenheiro Pedro Hostmann, profissional com quatro décadas de atuação na companhia — e respeitado no meio.
Aqui, o critério é claro: continuidade operacional com conhecimento técnico acumulado. Um movimento que preserva a rotina administrativa enquanto o foco político se desloca para outras frentes.
Critério
O padrão das escolhas revela a lógica adotada por Jorginho Mello: nomes de confiança, com formação técnica, mas ajustados ao novo ambiente político.
Não por acaso, algumas mudanças dialogam diretamente com o rearranjo partidário. É o caso de Arão Josino, que deixou a Prefeitura de Ascurra, após dois mandatos, para assumir a Secretaria de Planejamento, representando a chegada ao governo do Novo — legenda que indicou o vice no projeto de reeleição, Adriano Silva.
Reforço técnico
Outro movimento relevante foi a chegada de Valdir Cechinel Filho à presidência da Fapesc.
Ex-reitor da Univali por dois mandatos, Cechinel é reconhecido pela densidade acadêmica e capacidade de gestão. É nome de altíssimo gabarito. Sua nomeação eleva o patamar técnico da fundação e sinaliza uma aposta do governo em inovação e ciência como ativos estratégicos.
Coringa
Na Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços, o escolhido foi Edgar Usuy — um verdadeiro “coringa” do governo.
Homem de absoluta confiança do governador, já passou por duas pastas e agora assume a terceira. É o tipo de quadro que não apenas executa, mas também absorve pressões políticas sem comprometer a linha de comando.
Perfil
A troca no comando da Celesc também revela uma inflexão importante.
Tarcísio Rosa deixa a companhia após uma gestão tecnicamente elogiada, mas sem perfil político. Em seu lugar, entra alguém com maior capacidade de articulação — atributo que ganha peso em ano eleitoral.
É a transição clássica: da técnica pura para a técnica com sensibilidade política. São ajustes impostos pelo calendário eleitoral e pelas projeções políticas.
Horizonte
Há ainda um pano de fundo estratégico que começa a ganhar forma. Em um eventual segundo mandato, Jorginho Mello poderá retomar um debate historicamente adiado em Santa Catarina: a privatização de estatais — notadamente das próprias Celesc e Casan.
Cara de paisagem
Tema que passou pelos governos de Raimundo Colombo e Luiz Henrique da Silveira, mas nunca avançou de fato.
Hoje, apenas duas grandes companhias estaduais de energia permanecem públicas no país. A pressão por investimentos tende a recolocar o tema na agenda.
Base
Paralelamente à reorganização administrativa, o governador também atua no front político.
Em almoço com a bancada do PL na Assembleia Legislativa, reforçou metas eleitorais claras: ampliar a bancada estadual de 14 para 15 deputados e a federal de seis para sete.
A base, que já cresceu desde 2022, deverá contar ainda com o reforço de aliados como Republicanos, Novo e Podemos, além da disputa pelas duas vagas ao Senado.
Síntese
O que se observa é um governo que opera em duas frentes simultâneas: ajusta a máquina administrativa, também por necessidade do calendário, enquanto consolida sua engenharia política.
Nada fora do script. Mas, como sempre, o sucesso dessa equação dependerá da capacidade de equilibrar técnica, política e, sobretudo, timing eleitoral.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.