Fechar [x]
APOIE-NOS
Seara/SC
32 °C
16 °C
Início . Blogs e Colunas .Cláudio Prisco Paraíso

Missão Merisio

Por Cláudio Prisco Paraíso
13/03/2026 - 08h27

Há oito anos, o ex-deputado Gelson Merisio enfrentava o maior desafio de sua trajetória política: a disputa pelo governo de Santa Catarina. Era sua primeira eleição majoritária e a campanha começou sob a aura do favoritismo.

:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui

Não por acaso. À época, Merisio presidia a Assembleia Legislativa e tinha no comando da Fazenda estadual seu cunhado, o advogado Antônio Gavazzoni, um dos mais influentes auxiliares do então governador Raimundo Colombo. Na prática, a pré-candidatura orbitava em torno de duas estruturas poderosas: o Palácio Barriga-Verde e o Centro Administrativo — o Governo do Estado e a Assembleia Legislativa.

O cenário indicava um desfecho previsível: Merisio e o emedebista Mauro Mariani se enfrentariam no segundo turno. A política catarinense caminhava para uma disputa convencional — até que um fenômeno nacional alterou completamente o tabuleiro.

Onda Bolsonaro

A eleição de 2018 foi atravessada pelo furacão eleitoral de Jair Bolsonaro. Em Santa Catarina, um estado histórico e essencialmente conservador, o então candidato à Presidência encontrou terreno especialmente fértil. No segundo turno, Bolsonaro alcançou quase 76% dos votos — o terceiro melhor desempenho proporcional do país.

Tarrafada

A chamada “onda Bolsonaro” produziu efeitos em cadeia. O movimento elegeu quatro deputados federais, seis deputados estaduais, além do governador e da vice.

Por apenas 18 mil votos não conquistou também uma das vagas ao Senado, com Lucas Esmeraldino. Ele acabou derrotado por Jorginho Mello, que venceu a disputa ao Senado integrando a chapa liderada por Mauro Mariani. O cabeça de chapa, aliás, cumpriu o combinado e o MDB não lançou candidato à Câmara Alta.

Segundo turno

Apesar do tsunami bolsonarista, Merisio conseguiu avançar ao segundo turno. Quem acabou fora da disputa foi justamente Mauro Mariani, contrariando todas as projeções iniciais.

Eixo deslocado

Mas a segunda etapa da eleição revelou o tamanho da mudança política em curso. Merisio terminou a disputa com cerca de 50 mil votos a menos do que havia obtido no primeiro turno.

A maioria do eleitorado catarinense convergiu para o candidato identificado — ainda que de forma indireta — com Bolsonaro: o até então ilustre desconhecido Carlos Moisés da Silva.

Rebeldia

Curiosamente, o próprio Bolsonaro demonstrava contrariedade com a composição local. Seu apoio explícito era ao candidato ao Senado, Lucas Esmeraldino, e não ao postulante ao governo lançado pelo então PSL à revelia da direção nacional.

Saída estratégica

Derrotado e surpreendido por uma conjuntura que fugiu completamente às previsões tradicionais da política estadual, Merisio optou por uma inflexão em sua trajetória.

Afastou-se das disputas eleitorais e migrou para o ambiente empresarial, assumindo funções como conselheiro da poderosa JBS.

Mergulho

Durante alguns anos permaneceu fora do processo eleitoral direto — até protagonizar um movimento inesperado.

Virada 2022

Em 2022, Merisio deu uma guinada política. De candidato que declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno de 2018, tornou-se coordenador da campanha de Décio Lima ao governo e de Dário Berger ao Senado, numa articulação voltada a oferecer palanque estadual para Luiz Inácio Lula da Silva.

Recusou, inclusive, o convite para ocupar a vice na chapa de Décio Lima. Preferiu atuar nos bastidores da estratégia eleitoral.

Nova missão

Agora, Merisio retorna ao protagonismo eleitoral. A tarefa que lhe foi atribuída é clara: reduzir a enorme diferença eleitoral entre bolsonaristas e lulistas em Santa Catarina.

Em 2022, Bolsonaro venceu Lula no Estado por cerca de 70% a 30% dos votos. Um cenário adverso que o PT e seus aliados pretendem ao menos amenizar na próxima disputa.

Segundo voto

Além disso, a candidatura de Merisio pode contribuir para fortalecer o projeto de eleição ao Senado de Décio Lima, aliado histórico de Lula.

Máquina dupla

Nos bastidores, o projeto conta com um diferencial relevante: a combinação entre estrutura política e apoio empresarial.

De um lado, a máquina federal e as conexões institucionais em Brasília. De outro, o respaldo de uma das maiores empresas do agronegócio mundial, a JBS, onde Merisio atua.

De volta

Essa engrenagem política e econômica tende a dar musculatura à candidatura do ex-deputado, que já percorre o Estado estreitando laços com lideranças do PT — uma aproximação que, anos atrás, seria considerada improvável para alguém historicamente identificado com o campo conservador.

Plano 2027

Mas a pergunta que começa a circular nos bastidores vai além da eleição catarinense.

A candidatura de Merisio atende apenas ao chamado político de Lula e aos interesses estratégicos da JBS? Ou existe algo mais no horizonte?

Esplanada na mira?

Entre interlocutores próximos do Planalto, a avaliação é de que há, sim, uma possibilidade concreta: em um eventual quarto mandato de Lula, Merisio poderia ser lembrado para comandar o Ministério da Agricultura — área diretamente ligada ao setor em que hoje atua no ambiente empresarial.

Timing

Se essa hipótese se confirmará ou não, apenas o tempo dirá. Por enquanto, o que se sabe é que o ex-presidente da Assembleia voltou ao jogo.

E, desta vez, com uma missão que ultrapassa as fronteiras de Santa Catarina.

MDB no Centro

Por Cláudio Prisco Paraíso
12/03/2026 - 07h10

A corrida pelo governo de Santa Catarina começa a ganhar contornos mais claros — e, ao mesmo tempo, mais complexos. O ponto de gravidade das articulações está hoje no MDB, o velho Manda Brasa de guerra, cortejado simultaneamente por dois projetos distintos: o da reeleição do governador Jorginho Mello, do PL, e o da candidatura do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, pré-candidato do PSD ao governo do Estado, que já anunciou sua renúncia para o dia 21 de março.

 :: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui

O pano de fundo dessas conversas revela duas realidades políticas evidentes. De um lado, João Rodrigues enfrenta dificuldades concretas para estruturar uma chapa competitiva — realidade já ilustrada aqui. De outro, o MDB continua dividido, sem rumo definitivo, oscilando entre o pragmatismo eleitoral e as divergências internas que historicamente acompanham o partido em Santa Catarina.

A consequência é que o partido pode acabar se transformando no fiel da balança do processo sucessório.

Primeira perda

Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu com o prefeito de Joinville, Adriano Silva, do Novo. O jovem empresário chegou a ser procurado para assumir a cabeça de chapa de um projeto alternativo. João Rodrigues, inclusive, admitia a possibilidade de disputar o Senado.

A operação, no entanto, foi rapidamente neutralizada pelo governador Jorginho Mello, que agiu com velocidade política e trouxe Adriano Silva para sua própria composição, transformando-o em vice no projeto de reeleição.

Tacada

Com isso, o governo capturou o principal nome do Partido Novo no Estado e esvaziou uma alternativa que poderia reorganizar o tabuleiro pré-eleitoral catarinense.

Base ampliada

Esse não foi um episódio isolado. Antes disso, partidos que inicialmente demonstravam proximidade com o projeto de João Rodrigues foram gradualmente atraídos para a órbita da reeleição do governador.

Legendas

O Podemos é um exemplo. A sigla acabou se alinhando ao bloco governista, que já conta com legendas como o PRD e o Republicanos.

O movimento amplia o arco político do governador e, ao mesmo tempo, reduz o espaço de manobra para Rodrigues. A política também é uma arte matemática.

Caso Lunelli

Mais recentemente, entrou em cena um personagem de peso político e simbólico: o deputado estadual Antídio Lunelli.

Empresário respeitado e ex-prefeito de Jaraguá do Sul, Lunelli construiu reputação administrativa sólida e deixou a prefeitura após dois mandatos muito bem avaliados. Renunciou ao cargo para disputar o governo em 2022, mas acabou preterido pelo próprio partido, que preferiu indicar Udo Döhler como vice de Carlos Moisés.

Desempenho

Mesmo assim, foi eleito deputado estadual como o terceiro mais votado do Estado.

João Rodrigues sondou Lunelli para ser vice em uma eventual chapa que contaria com o MDB. Mais uma vez, porém, o governador entrou em campo: acompanhado da deputada federal Carol De Toni, convidou o deputado para ser primeiro suplente ao Senado na própria chapa de Carol.

Reação interna

O episódio foi relatado por Lunelli na tradicional reunião da bancada estadual do MDB nesta semana.

A reação majoritária dos presentes, entretanto, não foi de entusiasmo com a oferta governista.

Sem argumentos

Há uma percepção interna clara: depois de o partido ter sido afastado da vaga de vice — reservada inicialmente aos emedebistas e posteriormente entregue a Adriano Silva —, torna-se politicamente difícil justificar um alinhamento automático com o projeto de reeleição de Jorginho Mello.

Divisão emedebista

Isso não significa unanimidade. Existe um segmento relevante dentro do MDB que prefere a aproximação com o governo.

Entre os nomes citados nos bastidores estão o secretário de Infraestrutura, Jerry Comper, e o deputado estadual Fernando Krelling. O próprio Lunelli também aparece nesse grupo mais pragmático.

Desafio

Mas a equação não é simples. Mesmo que parte da bancada estadual incline-se nessa direção, permanece a pergunta central: como convencer a base partidária, ainda mais depois da série de reuniões emedebistas realizadas pelo estado?

Resistência

Uma eventual aprovação em convenção poderia formalizar o alinhamento com o governo.

Ainda assim, o caminho não parece pavimentado. O presidente estadual do partido, Carlos Chiodini, não demonstra entusiasmo com essa hipótese. Entre deputados federais e lideranças regionais, o ambiente também está longe de ser consensual.

O MDB, mais uma vez, vive seu clássico dilema interno.

Oferta majoritária

Percebendo esse quadro, João Rodrigues intensificou as conversas. O prefeito chapecoense já admite entregar duas posições da chapa majoritária ao MDB: a vaga de vice-governador e uma candidatura ao Senado.

Parceria inusitada?

Nos bastidores, circula uma possibilidade curiosa: Antídio Lunelli formando dobradinha ao Senado com Esperidião Amin, enquanto o MDB indicaria outro nome para vice.

Movimento Colombo

Outro fator ajuda a explicar a pressa de João Rodrigues. Ele decidiu antecipar o ato de renúncia à prefeitura de Chapecó e o relançamento da candidatura ao governo justamente para neutralizar um movimento paralelo: a tentativa de setores do MDB de atrair o ex-governador Raimundo Colombo para encabeçar uma candidatura própria.

Se isso ocorresse, o projeto de Rodrigues perderia densidade imediatamente — até porque Colombo ainda está filiado ao PSD de Rodrigues e tem perfil de centro-direita.

Aliança improvável

Há quem questione a convivência eleitoral entre MDB e Amin numa mesma chapa — partidos que protagonizaram rivalidades intensas ao longo de mais de quarenta anos da política catarinense.

Mas a política tem seus atalhos.

Outro cenário

Nos bastidores, já se constrói uma narrativa para justificar essa aproximação: impedir a eleição de Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina.

O argumento é simples — e politicamente compreensível: evitar que o estado eleja mais um “senador de fora”, lembrando o episódio da eleição de Jorge Seif em 2022.

Se essa narrativa ganhar corpo, a improvável aliança pode se tornar perfeitamente palatável ao eleitorado catarinense.

A conferir.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

24 horas

Portal49
www.portal49.com.br
© 2020 - 2026 Copyright Portal 49

Portaliza - Plataforma de Jornalismo Digital
WhatsApp

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com a nossa Política de Privacidade. FECHAR