O silêncio de João Rodrigues após a desistência de Ratinho Júnior não era casual. Era sintomático. O ex-prefeito de Chapecó havia apostado em um projeto nacional que lhe daria coerência política no estado. Com a retirada do paranaense da disputa presidencial pelo PSD, abriu-se um vazio — e, com ele, um constrangimento estratégico.
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Mais de um mês depois, João reaparece. E reaparece já alinhado. Em São Paulo, numa articulação conduzida por Gilberto Kassab, sentou-se à mesa com Ronaldo Caiado e Raimundo Colombo. Ali, não apenas marcou presença — assumiu posição. Gravou vídeo, elogiou a trajetória de Caiado e declarou apoio.
O movimento, por si só, já seria relevante. Mas ganhou contornos ainda mais claros com a presença de Carlos Chiodini, presidente estadual do MDB, que também declarou voto no goiano. A imagem que ficou não foi apenas de apoio presidencial. Foi de composição estadual.
A leitura política é direta: desenha-se ali uma chapa. João Rodrigues ao governo, Chiodini como vice, e Esperidião Amin como candidato ao Senado — possivelmente em chapa enxuta, sem segunda vaga competitiva à Câmara Alta.
Chapa posta
A sinalização é inequívoca. PSD e MDB caminham para uma aliança formal em Santa Catarina. A presença simultânea de João e Chiodini, somada ao gesto público de apoio a Caiado, elimina o campo da especulação e aproxima o cenário de uma definição.
Dois palanques
O dado curioso — e politicamente sensível — é a falta de sintonia interna. Enquanto João e Chiodini se alinham ao presidenciável do PSD, Esperidião Amin já declarou apoio a Flávio Bolsonaro. Ou seja, a chapa estadual nasce com um desalinhamento no plano nacional.
Não é inédito, mas tampouco é trivial. Em campanhas majoritárias, coerência de palanque costuma ser ativo — não passivo.
Palanque vazio
O problema maior, no entanto, não está em Santa Catarina. Está no Brasil. A candidatura de Ronaldo Caiado enfrenta um obstáculo estrutural: a ausência de palanques robustos nos maiores colégios eleitorais.
Com Tarcísio
Em São Paulo, maior eleitorado do país, o PSD não terá candidato ao governo. Tarcísio de Freitas caminha para a reeleição com apoio de Kassab — mas não para impulsionar Caiado. Resultado: vazio político.
Mineirices
Em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral, o cenário é ainda mais desfavorável. Romeu Zema pode ser candidato à Presidência ou vice em outra composição, possivelmente com Flávio Bolsonaro. Em qualquer hipótese, o PSD local não gravita em torno de Caiado.
Fator Lula
No Rio de Janeiro, terceiro colégio eleitoral, Eduardo Paes está alinhado com o campo governista. Na Bahia, quarto maior eleitorado, Otto Alencar segue na mesma direção. E assim sucessivamente. No Rio Grande do Sul, Eduardo Leite não assimilou a escolha de Caiado. No Paraná, embora haja declaração formal de apoio, o grupo político local já admite convivência com o projeto do senador Flávio Bolsonaro.
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Santa Catarina, nesse contexto, surge como uma das raras — talvez a primeira — unidades da federação onde Caiado efetivamente terá um palanque minimamente estruturado. Ainda assim, parcial. Ou seja, é um começo dos menos promissores para Caiado.
Conta difícil
O cenário, portanto, é de fragilidade nacional e improviso regional. E isso tem consequência direta para João Rodrigues.
Ao se alinhar a uma candidatura presidencial sem capilaridade, o pré-candidato ao governo assume um risco evidente: carregar um projeto nacional com baixa viabilidade eleitoral. Em termos práticos, é como sustentar um palanque sem transferência de votos.
Trancos e barrancos
E mais: João, que já enfrenta dificuldades para consolidar sua própria pré-candidatura — lançada com antecedência incomum —, passa a dividir o ônus de uma estratégia nacional que, evidentemente, não controla.
Projeção
A fotografia atual sugere uma equação delicada. De um lado, uma chapa estadual em formação, com densidade política. De outro, um presidenciável com dificuldades reais de inserção nos principais centros eleitorais do país.
Timing
Se nada mudar, o risco é claro: João Rodrigues pode estar ancorando sua campanha em um projeto nacional inviável, na melhor linha de estar segurando o caixão político de Caiado e do PSD. E, em política, quando o eixo nacional não sustenta, o impacto no plano estadual costuma ser direto.
A pergunta que permanece é simples — e decisiva: haverá tempo, ou disposição, para uma correção de rota? A conferir.
Santa Catarina, hoje consolidada como o décimo maior colégio eleitoral do país, com cerca de 6,5 milhões de eleitores, volta a assumir protagonismo estratégico no xadrez presidencial. Não apenas pelo volume de votos, mas pela densidade política de suas lideranças e pela capacidade de influenciar encaminhamentos no campo da centro-direita. A pergunta que paira sobre a pré-campanha é objetiva: quantos palanques presidenciais efetivos estarão de pé no estado? A resposta, por ora, oscila entre quatro e dois — e essa variação diz muito sobre a fragmentação e as possíveis convergências que ainda estão em curso.
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No espectro canhoto, não há mistério nem ruído. O palanque está definido, com um quarteto que atua de forma coesa e alinhada para sustentar o nome do PT, seja ele Luiz Inácio Lula da Silva ou um eventual substituto. A engrenagem já está montada, com Gelson Merisio, Décio Lima, Afrânio Boppré e Angela Albino operando de maneira orgânica. Independentemente do desgaste evidente do atual governo federal, a esquerda chega organizada, disciplinada e com estratégia definida — o que, em política, já representa meio caminho andado.
No outro extremo, o cenário é mais dinâmico, porém não menos robusto. Flávio Bolsonaro desponta como o nome de maior densidade eleitoral no espectro da centro-direita e terá, em Santa Catarina, um palanque natural e musculoso: o do governador Jorginho Mello. A estrutura partidária do PL, somada a aliados como Republicanos, Podemos e, possivelmente, setores do PSDB, tende a formar uma base ampla e capilarizada. Aqui não há improviso — há projeto.
Novo fator
A variável que introduz complexidade nesse arranjo atende pelo nome de Romeu Zema. O Novo, que indicou Adriano Silva como vice na chapa de Jorginho, pode criar um palanque paralelo no primeiro turno, caso Zema confirme candidatura. Nesse cenário, Adriano naturalmente se alinharia ao mineiro, em contexto circunstancial e absolutamente pontual dentro do próprio campo liberal.
Nuvem passageira
Mas essa postura pode ser efêmera. Cresce, nos bastidores, a possibilidade de composição entre Zema e Flávio — hipótese que, se concretizada, unificaria o campo já no primeiro turno e eliminaria qualquer ruído interno. Política é timing, e essa decisão deve ser tomada lá na undécima hora, no limite das convenções.
PSD dilema
Se há um ponto de interrogação maiúsculo no tabuleiro catarinense, ele está no PSD. Ronaldo Caiado é o pré-candidato presidencial da sigla, mas enfrenta dificuldades evidentes de capilaridade nacional — e isso se reflete diretamente em Santa Catarina.
O caso mais emblemático é o de João Rodrigues. Pré-candidato ao governo, ele simplesmente silenciou sobre Caiado. Quando Ratinho Júnior ainda orbitava como alternativa presidencial, havia entusiasmo. Com sua saída, veio o silêncio — eloquente, diga-se.
Incógnita
A dúvida é direta: João dará palanque a Caiado ou migrará, na prática, para Flávio Bolsonaro? Hoje, não há sinal concreto de compromisso com o goiano. E política não tolera vácuo.
Amin
Dentro da federação União Progressista, que pretende estar com João Rodrigues, a situação é mais pragmática. Esperidião Amin já sinalizou apoio a Flávio Bolsonaro. Pode haver nuances na composição local, especialmente na relação com João, mas o alinhamento nacional parece consolidado.
Cenário
A leitura é simples: ninguém recusa apoio eleitoral competitivo — ou seja, ninguém, em sã consciência, rasga votos. Flávio, se tiver dois palanques no estado, tende a ocupá-los — como, aliás, pode ocorrer em outras unidades da federação, a exemplo do Paraná, onde ainda não ficou claro se o grupo do governador Ratinho Jr. estará com Caiado ou vai se alinhar a Flávio Bolsonaro. Situação semelhante à de Santa Catarina.
Moro
No estado vizinho, registre-se, Flávio provavelmente estará no palanque do senador Sérgio Moro, agora filiado ao PL. Mas, evidentemente, não deixará de dialogar com outros grupos, especialmente o de Ratinho e seus aliados.
Cenário final
No fim das contas, Santa Catarina pode sair de quatro para dois palanques presidenciais com relativa rapidez. A esquerda já tem o seu. A centro-direita, tudo indica, caminha para uma convergência — seja no primeiro turno ou no segundo.
Caiu do caminhão
O PSD, mais uma vez, parece deslocado do eixo principal das decisões, como aquele cachorro que caiu do caminhão da mudança. E João Rodrigues, que entrou cedo na pré-campanha, há mais de dois anos, agora enfrenta o teste mais delicado: escolher lado.
Porque, no final, eleição majoritária não é sobre neutralidade. É sobre posição.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.