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Futuro do MDB-SC em xeque

Por Cláudio Prisco Paraíso
30/04/2026 - 08h21

O MDB de Santa Catarina carrega uma história que se confunde com a própria redemocratização brasileira. É um partido que marcou época — no país e, sobretudo, no estado —, forjado na resistência, na coragem e na capacidade de articulação em momentos decisivos da vida política catarinense.

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Desde 1965, quando nomes como Doutel de Andrade assumiram o comando da sigla, passando por lideranças como Dejandir Dalpasquale, eleito prefeito pelo PTB em Campos Novos e depois integrado ao MDB. O partido construiu uma trajetória robusta. Ao longo das décadas, figuras como Pedro Ivo Campos, Jaison Barreto, Ernesto De Marco, Chico Libardoni e Laerte Ramos Vieira ajudaram a consolidar o MDB como protagonista da política estadual.

Foi uma agremiação que quase chegou ao governo já em 1982. No retorno das eleições diretas, Jaison Barreto perdeu para Esperidião Amin por uma margem estreita de 12.500 votos.

Consagração

Em 1986, a vitória veio com Pedro Ivo Campos, ainda que seu mandato tenha sido completado por Casildo Maldaner. Em 1994, o partido elegeu o jovem Paulo Afonso Vieira. Já em 2002, sob a liderança de Luiz Henrique da Silveira, o MDB voltou ao topo, derrotando o próprio Amin, sendo posteriormente reconduzido ao cargo e abrindo caminho para a ascensão de Raimundo Colombo, no contexto da chamada tríplice aliança.

Ladeira abaixo

Mas a trajetória recente é bem menos gloriosa. Em 2018, com Mauro Mariani, o MDB ficou fora do segundo turno — um fato inédito até então. Em 2022, repetiu-se o cenário: o partido integrou a chapa de Carlos Moisés com Udo Döhler como vice, mas novamente não alcançou a fase decisiva. A partir daí, o declínio eleitoral tornou-se evidente. Agora, em 2026, o partido enfrenta talvez sua crise mais profunda.

Racha exposto

A promessa de composição com Jorginho Mello — que incluiria o MDB como vice — não se concretizou. Houve mudança de rumo: Jorginho optou por Adriano Silva e tenta, agora, manter o MDB em sua base. O problema é que o partido está literalmente rachado.

Experiência

E não se trata de uma legenda que desconheça conflitos internos. O MDB já viveu embates históricos: Jaison Barreto contra Pedro Ivo Campos; depois, Pedro Ivo contra Luiz Henrique da Silveira; mais adiante, Eduardo Moreira enfrentando Mauro Mariani e Dário Berger. Divergências sempre existiram — mas nunca nesse nível ao qual estamos assistindo.

Vácuo

A diferença central está na ausência de lideranças com densidade política. Hoje, o MDB carece de nomes capazes não apenas de formular e articular estratégias, mas de mobilizar a militância e arrastar apoio popular. Essa lacuna é determinante para o cenário atual.

Lideranças divididas

Neste momento, a maior parte das lideranças relevantes do partido sinaliza preferência por estar ao lado de Jorginho Mello, mesmo após o MDB ter sido preterido da vaga de vice na chapa majoritária.

Suplência

Há, como compensação, a oferta da primeira suplência ao Senado — possivelmente para Antídio Lunelli na chapa de Carol De Toni. Mas, evidentemente, não se trata do mesmo peso político.

Cavalo paraguaio

Por outro lado, essas mesmas lideranças não enxergam em João Rodrigues um nome com capacidade de liderar um projeto eleitoral sólido que reposicione o MDB em condição competitiva no Estado.

Pavimentado

O favoritismo de Jorginho Mello, neste cenário, é considerado amplo. O MDB esteve dentro do governo por três anos e meio. Houve um afastamento recente, um “chega para lá”, mas o governador volta a acenar com espaço em um eventual segundo mandato.

A carta abissal

A situação, que já era delicada, se agravou com a carta aberta do presidente estadual, deputado federal Carlos Chiodini. O documento, duro e considerado por muitos precipitado e fora do tom, rejeita o movimento de grande parte do partido — incluindo deputados estaduais, federais, senador e cerca de 80% dos prefeitos e vice-prefeitos — favorável à aliança com Jorginho. Esse gesto escancarou o racha.

De cima

Chiodini tem respaldo. Conta com o apoio do presidente nacional Baleia Rossi, de quem é vice no diretório nacional. Além disso, detém maioria formal dentro do partido, especialmente na convenção, já que os delegados são, em grande parte, presidentes municipais da sigla. Mas há um detalhe crucial: essa maioria controla o CNPJ, mas não necessariamente os CPFs mais destacados.

CNPJ versus CPF

O MDB vive hoje um dilema clássico: a estrutura formal está de um lado, enquanto o capital político mais expressivo está, majoritariamente, do outro.

Se o partido formalizar apoio a João Rodrigues sem levar consigo suas principais lideranças, o cenário que se desenha é de esvaziamento progressivo.

Pulando fora

Considerando o favoritismo de Jorginho Mello à reeleição, a tendência é que, em caso de vitória, ele consolide ainda mais sua base política, pilotando a máquina estadual. Isso ampliaria, e muito, o risco de debandada no MDB a partir de 2027.

Encruzilhada

O impacto pode ser profundo, especialmente olhando para as eleições municipais de 2028. Sem presença no governo estadual e com lideranças dispersas, o partido corre o risco de perder uma parcela significativa de seu capital político e eleitoral.

Coadjuvante

O MDB, que por seis décadas foi protagonista em Santa Catarina, pode entrar em um ciclo de irrelevância. O racha atual não é apenas mais uma crise interna — é, potencialmente, um ponto de inflexão na história da sigla no estado.

Pisada na bola

Por Cláudio Prisco Paraíso
29/04/2026 - 08h18

A deputada federal Carol De Toni consolidou-se, ao longo de dois mandatos, como uma das principais vozes catarinenses no Congresso Nacional. Eleita pela primeira vez em 2018, no embalo da onda liderada por Jair Bolsonaro, obteve uma votação expressiva. O desempenho no primeiro mandato foi tão consistente que garantiu a reeleição, já pelo PL, com quase 250 mil votos — um feito relevante em qualquer cenário.

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Mais do que isso: Carol De Toni figurou entre um seleto grupo de 17 deputados federais em todo o país que não dependeram do coeficiente eleitoral partidário para se eleger. Ou seja, conquistou a vaga exclusivamente com votação própria — um indicativo claro de densidade eleitoral. Foi, inclusive, a deputada federal mais votada de Santa Catarina.

No campo proporcional, apenas Ana Campagnolo, com quase 200 mil votos à Assembleia Legislativa, aproximou-se desse desempenho, sem, no entanto, superá-la. Os demais 15 deputados federais eleitos no estado ficaram abaixo da marca de Ana — o que reforça o protagonismo da parlamentar dentro da chamada trincheira liberal.

Na proa

No segundo mandato, que se encaminha para o fim, Carol ampliou sua presença institucional. Presidiu a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a mais poderosa da Câmara dos Deputados, com desempenho consistente. Também exerceu a liderança da minoria — função estratégica que exige articulação política e domínio do regimento. Naturalmente, seu nome passou a ser cogitado como opção viável ao Senado.

Derrapada

Articulada e com trânsito político relevante, vinha construindo um caminho sólido. Até a semana passada.

Em participação em um podcast, a deputada levantou a hipótese de o senador Esperidião Amin não disputar a reeleição, sendo alçado a um eventual ministério em um hipotético governo de Flávio Bolsonaro. Em contrapartida, o PP catarinense apoiaria a reeleição do governador Jorginho Mello.

Tiro no escuro

A proposta, além de politicamente sensível, desconsidera um arranjo previamente estabelecido: a dobradinha entre Amin e Carol De Toni para o Senado, articulada desde o início pelo próprio Jorginho Mello, com o MDB indicando o vice.

Cavalo de pau

Esse desenho, no entanto, sofreu alterações com a entrada do então prefeito de Joinville, Adriano Silva, como vice — movimento que também abriu espaço para Carlos Bolsonaro, o “Carluxo”, na composição majoritária, por indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Fora dessa

O rearranjo político acabou retirando Amin da chapa majoritária. E é nesse contexto que surge a sugestão de transformá-lo em ministro — o que, na prática, significaria excluí-lo da disputa eleitoral.

Reação e ruído

A reação de Esperidião Amin foi imediata e contundente. Até um pouco ríspida, fugindo ao seu estilo. Classificou a proposta como uma “ofensa debochada” e invocou um princípio básico da política e do mundo das negociações: não oferecer ao outro aquilo que não se aceita para si.

Eu, não

O argumento do senador encontra respaldo em fatos recentes. Quando sua própria posição na disputa ao Senado esteve sob ameaça — justamente diante da possibilidade de composição envolvendo Amin e Carlos Bolsonaro —, Carol De Toni reagiu cogitando mudança de partido, com alternativas como o Novo e outras siglas que lhe ofereceram legenda.

Nada disso

Também houve especulações sobre sua eventual indicação a vice de Jorginho Mello, hipótese mencionada por Valdemar da Costa Neto, mas que não prosperou — em parte por falta de aceitação da própria deputada. A contradição, portanto, é evidente: o que não serve para si, seria aceitável para o outro?

Efeito colateral

Politicamente, o episódio produz um efeito inverso ao pretendido. Em vez de enfraquecer, fortalece a posição de Esperidião Amin no tabuleiro eleitoral. A reação firme, somada à sua trajetória de mais de 50 anos de vida pública e mais de quatro décadas de mandatos, reforça a imagem de liderança experiente e respeitada — não só em Santa Catarina, como em Brasília.

Tibieza

Ao mesmo tempo, o episódio acaba por expor fragilidades na construção da candidatura de Carlos Bolsonaro, que ainda não demonstrou aceitação suficiente no cenário catarinense. A simples necessidade de uma articulação dessa natureza já indica que o projeto não engrenou como esperado.

Fora do tom

Carol De Toni construiu, com mérito, uma trajetória política ascendente, ancorada em votos, visibilidade e desempenho institucional. Mas política é também percepção — e movimentos mal calibrados podem custar caro. A sugestão envolvendo Esperidião Amin foi, no mínimo, um erro de avaliação estratégica. E, no máximo, um ruído desnecessário que reconfigura forças no jogo eleitoral. Pisou na bola. Feio.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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