A pré-campanha presidencial de 2026 acaba de produzir um paradoxo político dos mais emblemáticos. A recandidatura de Luiz Inácio Lula da Silva ganhou novo fôlego — não por méritos do governo, tampouco por virtudes estratégicas inéditas do PT, mas pelas trapalhadas produzidas no principal campo adversário.
E o epicentro desse movimento atende pelo nome de Flávio Bolsonaro.
O que parecia uma consolidação gradual do nome escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, seu 01, para liderar o projeto conservador nacional começa a se transformar em problema político, eleitoral e familiar. E dos grandes.
Flávio Bolsonaro entrou efetivamente no tabuleiro presidencial em novembro do ano passado, quando foi ungido pelo pai como presidenciável do grupo bolsonarista. A partir dali, passou a ocupar espaço crescente no debate nacional, ainda que sem o mesmo carisma popular do ex-presidente ou a densidade administrativa de outros nomes da direita.
Tempo certo
Mas havia uma bomba-relógio armada. A visita de Flávio ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, então em prisão domiciliar e utilizando tornozeleira eletrônica, evidentemente não era desconhecida nos bastidores de Brasília. Muita gente sabia. E talvez isso explique o comportamento quase contemplativo do PT e do Palácio do Planalto diante do crescimento do senador nos últimos meses.
Corda pra se enforcar
Não houve ataques. Não houve enfrentamento direto. Não houve contraofensiva. Agora fica claro que o lulismo apenas aguardava o momento politicamente mais conveniente para deixar o episódio explodir.
Bastidores
Em Brasília, ninguém acredita em coincidências quando temas dessa magnitude emergem de maneira cirúrgica. Supremo Tribunal Federal, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República, governo federal e PT acabam orbitando o mesmo ambiente político-institucional. Ainda que formalmente distintos, frequentemente operam sob interesses convergentes. É o consórcio que manda, comanda e persegue. O vazamento do caso não ocorreu por acaso nem no improviso. Foi cálculo político.
Ingenuidade
O problema central é que Flávio Bolsonaro, sempre tratado dentro da própria família como o mais moderado e ajuizado dos filhos do ex-presidente, acabou cometendo um erro primário de avaliação política. Porque não se trata apenas da aproximação com Daniel Vorcaro. Trata-se da sucessão de imprudências.
Infantilidade
Gravação de mensagens, interlocução inadequada, ausência de filtros e, sobretudo, incapacidade de perceber a dimensão explosiva de um contato com um personagem já profundamente desgastado no sistema financeiro e sob investigação. A alegação de desconhecimento sobre a situação pretérita de Vorcaro soa frágil politicamente. Afinal, tratava-se de um cidadão em prisão domiciliar, usando tornozeleira eletrônica. O simbolismo é devastador.
Família
O episódio também escancara outra questão estrutural do bolsonarismo: o projeto familiar acima do projeto político. A família Bolsonaro trabalhou intensamente para impedir que se consolidasse uma candidatura natural de Tarcísio de Freitas. E não apenas porque governa o maior estado da federação.
Currículo
Tarcísio reúne atributos objetivos que o colocariam em posição altamente competitiva: preparo técnico, agilidade política, desenvoltura pública e experiência administrativa robusta. Primeiro no Ministério da Infraestrutura do governo Bolsonaro e agora à frente do segundo maior orçamento da República. Mas prevaleceu a lógica familiar.
Sobrenome
Não se estruturou um projeto partidário. Nem institucional. Nem ideológico. Estruturou-se um projeto de poder centrado no sobrenome Bolsonaro. Eis o ponto central da crise.
Sem Plano
Com Jair Bolsonaro inelegível para a Presidência, restaram poucas alternativas viáveis dentro do PL. Se Romeu Zema e Ronaldo Caiado não conseguirem tração nacional suficiente, o cenário passa a favorecer enormemente Lula, mesmo com toda a rejeição acumulada pelo governo federal.
Inacreditável
E aqui reside o aspecto mais impressionante do momento político: Lula pode caminhar para uma reeleição mesmo carregando desgaste administrativo, aumento de reprovação e fadiga do próprio eleitorado. Não pela força do lulismo. Mas pela desorganização da oposição.
Alternativas
O PL começa a perceber que talvez precise procurar uma alternativa fora do núcleo familiar. Mas qual? Michelle Bolsonaro enfrentaria resistências internas imediatas, especialmente na convivência política com Flávio e os demais filhos do ex-presidente.
Rogério Marinho possui preparo técnico e qualidade parlamentar reconhecida, mas não demonstra apelo popular nacional.
Desconhecida
O mesmo vale para Tereza Cristina, respeitada politicamente, porém sem densidade eleitoral suficiente para liderar um projeto presidencial competitivo.
Ou seja: o campo conservador hoje não possui uma solução simples.
Reflexos
E Santa Catarina entra diretamente nessa equação. Dois irmãos de Flávio Bolsonaro têm projetos eleitorais no estado: Carlos Bolsonaro aparece como pré-candidato ao Senado, enquanto Jair Renan Bolsonaro surge como nome para a Câmara Federal. Se Flávio continuar sangrando politicamente, os reflexos serão inevitáveis.
Contaminação
Caso permaneça candidato, mas em trajetória descendente, poderá contaminar eleitoralmente o grupo. Caso seja removido da disputa, abre-se outra crise: quem herdará o espólio político e como ficará o alinhamento interno do PL?
Risco
Especialmente em Santa Catarina, onde o bolsonarismo segue extremamente competitivo e influencia diretamente a montagem da chapa majoritária.
Os próximos movimentos definirão não apenas o futuro da direita nacional, mas também parte importante da engenharia eleitoral catarinense para 2026.
A segunda passagem de Romeu Zema por Santa Catarina em menos de 30 dias deixou marcas profundas dentro do Novo catarinense. E, principalmente, escancarou aquilo que até então era tratado apenas nos bastidores: Adriano Silva e Zema definitivamente não estão na mesma trincheira política.
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O ambiente interno do partido ficou estremecido depois que o ex-governador mineiro resolveu atacar publicamente Flávio Bolsonaro por conta do áudio vazado envolvendo o liberal e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Zema classificou o episódio como “um tapa na cara dos brasileiros” e disse tratar-se de algo “imperdoável”.
A declaração teve repercussão nacional. Mas em Santa Catarina o impacto foi ainda mais delicado.
Constrangimento
Aqui, o principal nome do Novo abriu mão do comando da maior prefeitura catarinense — Joinville — para integrar o projeto de reeleição do governador Jorginho Mello, aliado direto de Flávio Bolsonaro.
Ou seja: Zema atingiu frontalmente o presidenciável do grupo político ao qual Adriano Silva está prestes a se integrar oficialmente.
Tiro no pé
O desconforto foi imediato. E tão logo desembarcou em Santa Catarina para o novo roteiro político, Zema precisou sentar à mesa com Adriano, os deputados Gilson Marques e Matheus Cadorin, além de Eduardo Ribeiro, catarinense que preside a agremiação no plano nacional.
Ali houve uma tentativa evidente de pacificação. O próprio Zema sinalizou recuo e tratou de colocar panos quentes na crise que ajudou a criar.
Distância
Mas Adriano Silva agiu cirurgicamente. Nenhuma foto dos dois juntos foi divulgada. Nem na reunião reservada. Nem nas agendas públicas.
Mais do que isso: Adriano simplesmente não acompanhou Zema nos compromissos realizados em Palhoça e São José, tampouco esteve presente no painel do Conexa 26, promovido pela Associação Empresarial de Florianópolis, mediado pelo presidente da entidade, Célio Bernardi.
Incontrolável
E foi justamente ali que Zema voltou a acionar a metralhadora giratória. No calor do debate, reafirmou que não se arrependia das críticas dirigidas a Flávio Bolsonaro. Ou seja: depois de tentar apagar o incêndio nos bastidores, reacendeu tudo em praça pública. Acrescentando, ainda, mais gasolina.
Prudência
A ausência de Adriano no evento não foi casual. Foi política. O ex-prefeito de Joinville buscou transmitir um sinal inequívoco de prudência e distanciamento estratégico. Até porque o Novo catarinense já havia divulgado nota crítica às declarações de Zema. E as lideranças liberais ligadas a Jorginho Mello passaram a cobrar posicionamentos internos mais firmes.
Pisando em ovos
Adriano Silva sabe que, daqui para frente, precisará pilotar essa relação com extremo cuidado. Porque hoje Zema deixou de ser apenas um presidenciável do Novo. Transformou-se em potencial fator de desgaste para a futura chapa majoritária catarinense.
Incômodo
Politicamente, o problema é menos interno do que externo. Em princípio, ninguém trabalha com rompimento da aliança entre Novo e PL em Santa Catarina. Muito menos com a saída de Adriano Silva da composição governista. Mas a exploração política desse ruído tornou-se inevitável.
Sem noção
E o curioso é que os primeiros a explorar o episódio foram justamente aliados liberais do próprio campo governista. Agora, evidentemente, os adversários também passarão a fazê-lo.
Agora, o que estes e estas liberais sem noção não devem estar levando em consideração é que Adriano Silva era cotado para cabeça de chapa numa composição com o PSD. Com potencial de crescimento, diferentemente de João Rodrigues, que tende a derreter. Como diria a sabedoria popular, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém.
Limiar
Principalmente porque a situação criou uma imagem desconfortável: o principal nome nacional do Novo atacando justamente o presidenciável do grupo político ao qual Adriano pretende se vincular. É bastante perceptível que há liberais, com e sem mandato, desfilando em salto 18, o que não é aconselhável em momentos como o que estamos vivendo.
Isolamento
O cenário ainda pode se agravar. Caso Romeu Zema leve sua candidatura presidencial até o fim e Flávio Bolsonaro também confirme presença na disputa nacional, o ex-governador mineiro encontrará enormes dificuldades para voltar a Santa Catarina com protagonismo político. Porque Adriano Silva dificilmente lhe oferecerá palanque no contexto atual.
Tchau, tchau
E isso já ficou bastante claro nesta segunda passagem pelo estado. Na prática, Adriano até pode administrar institucionalmente a convivência com Zema dentro do Novo. O que ele não fará é vinculá-lo politicamente à futura coligação liderada por Jorginho Mello.
As imagens — ou melhor, a ausência delas — falaram por si. A conferir os desdobramentos.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.