Nunca, em sua história recente, o Supremo Tribunal Federal esteve com a credibilidade tão abalada. A Corte foi nocauteada pela politização, rachada por disputas internas e arrastada para o centro de uma crise criada por seus próprios ministros.
:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui
Durante anos, presidentes do STF evitaram enfrentar o problema. Decisões monocráticas passaram a se sobrepor ao colegiado, enquanto a Corte demonstrava complacência com os progressistas e rigor absoluto contra conservadores.
O tribunal, que deveria proteger a Constituição, passou a ser acusado de interpretá-la, conforme seus interesses políticos.
O caminho para Lula
Foi o Supremo que anulou as condenações de Lula e abriu o caminho para sua candidatura em 2022. Durante aquela eleição, a atuação das instituições foi vista por milhões de brasileiros como desequilibrada em favor do petista, em detrimento de Jair Bolsonaro.
Essa percepção permanece viva e agora retorna com enorme força às vésperas de outra disputa presidencial.
O inquérito sem fim
Grande parte dessa deterioração começou em 2019, com o inquérito das fake news — o “inquérito do fim do mundo”, como o definiu o então ministro Marco Aurélio Mello.
Dias Toffoli instaurou o procedimento de ofício, sem provocação do Ministério Público e sem sorteio. Depois, escolheu Alexandre de Moraes para conduzi-lo.
Nascia uma investigação sem prazo, na qual o próprio Supremo concentrava as posições de vítima, investigador e julgador.
A máquina de perseguição
A partir desse inquérito surgiram buscas, bloqueios, derrubadas de perfis, censura e prisões. As medidas atingiram especialmente bolsonaristas e quem se posicionada à direita, no contexto ideológico.
O excepcional virou rotina. A suspeita ganhou força de prova, a decisão individual passou a valer mais do que as deliberações do plenário, e Alexandre de Moraes acumulou poderes que nenhum ministro deveria possuir em uma democracia.
Fachin desperta
Depois de uma semana de hesitação, Edson Fachin finalmente resolveu assumir o comando do Supremo.
Sua primeira decisão foi retirar Alexandre de Moraes do comando do inquérito das fake news e transferir a condução para a presidência da Corte.
Moraes continuará responsável pelos processos já iniciados, mas não controlará os novos desdobramentos. O movimento indica que o inquérito poderá, finalmente, virar pó.
Moraes sob suspeita
Fachin também convocou uma sessão pública para 15 de setembro, próxima terça-feira. O plenário deverá decidir se será aberta uma investigação contra Moraes pelas suspeitas envolvendo suas relações promíscuas com Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Estão sob questionamento mensagens atribuídas a ele, um contrato estimado em R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório da família do ministro e outro negócio milionário envolvendo aeronaves.
São fatos graves, que exigem investigação independente, transparência absoluta e nenhuma blindagem corporativa.
A guerra da Polícia Federal
A crise atingiu também o comando da Polícia Federal. André Mendonça determinou o afastamento de Andrei Rodrigues. Flávio Dino, por sua vez, mandou reintegrá-lo.
Fachin suspendeu as duas decisões e centralizou o caso na presidência do STF, mantendo Andrei no cargo.
Na prática, deixou claro que ministros não podem transformar a Corte em um campo de batalha no qual cada um utiliza seus processos para anular o colega.
Mendonça permanece forte
Apesar da suspensão de sua decisão sobre Andrei Rodrigues, André Mendonça não perdeu as relatorias envolvendo o Banco Master e o INSS. Até porque ele foi sorteado, diferentemente de Moraes, escolhido por Toffoli.
Alexandre de Moraes, porém, perdeu o controle do inquérito que lhe garantiu poderes extraordinários durante mais de sete anos e terá sua conduta debatida publicamente pelos colegas.
O impacto político e institucional, portanto, foi muito mais duro para Moraes.
A conta chegou
Fachin tenta salvar a autoridade de uma Corte que demorou demais para impor limites aos próprios ministros. Sua reação é necessária, mas não apaga anos de abusos, omissões e decisões politicamente orientadas.
O STF não recuperará sua credibilidade com notas ou discursos. Precisará demonstrar que Alexandre de Moraes também pode ser investigado e que ninguém está acima da lei.
Tudo isso explode a apenas 25 dias das eleições. A crise do Supremo deixou de ser somente jurídica e passou a interferir diretamente na disputa presidencial.
A conta institucional chegou. E poderá ser paga nas urnas.
Estamos a exatos 25 dias das eleições. A propaganda eleitoral gratuita estreou há pouco mais de dez dias, mas ainda não motivou, envolveu ou despertou o interesse da opinião pública.
:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui
Em Santa Catarina, os candidatos percorrem municípios e cumprem suas maratonas, mas encontram pouca gente e despertam ainda menos entusiasmo.
Campanha sem temperatura
O eleitor parece distante da disputa pelo governo. A apatia atinge ainda mais os candidatos à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa, obrigados a disputar atenção entre centenas de nomes.
O Senado provoca alguma curiosidade. Esperidião Amin tenta a reeleição carregando décadas de experiência. Antídio Lunelli representa a força empresarial. Caroline De Toni é uma das revelações da direita. E Carlos Bolsonaro transferiu seu título para o Estado e entrou numa disputa congestionada.
O voto olha para Brasília
A explicação está no cenário nacional. As revelações envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, os contratos milionários do Banco Master com o escritório da família do ministro e a guerra dentro do Supremo transformaram Brasília no centro da eleição.
O 7 de Setembro completou o quadro. A crise saiu dos gabinetes, chegou às ruas e entrou definitivamente na campanha. Já não bastavam os abusos atribuídos durante anos a Moraes e companhia limitada. Agora o próprio ministro está no centro de fatos graves que exigem explicações.
O jogo virou.
Flávio reage
As pesquisas já captam o movimento. Na Quaest, Flávio Bolsonaro e Lula aparecem numericamente empatados, com 41% para cada um no segundo turno.
Na BTG/Nexus, Flávio ultrapassou Lula: 46% a 45%. O Meio/Ideia registrou 46% para cada um. No primeiro turno, a distância caiu para pouco mais de um ponto: 38,4% para Lula e 37,3% para Flávio.
São empates técnicos, mas a direção é evidente. Acabou a vantagem confortável do petista. Flávio cresce, enquanto Lula percebe o adversário ao seu lado.
Alerta no Planalto
A desaprovação do governo Lula chegou a 50%, contra 43% de aprovação. O petista perde força no Nordeste, seu principal reduto, e enfrenta desgaste entre homens e jovens.
Entre os evangélicos, Flávio abriu vantagem. Na BTG/Nexus, aparece com 45% no primeiro turno, contra 27% de Lula. Num confronto direto, a diferença aumenta para 58% a 31%.
O alerta já deve estar tocando de forma ensurdecedora no Palácio do Planalto.
Jorginho na onda
Com toda a atenção voltada para Brasília, as eleições estaduais ficaram menores. Isso favorece quem lidera e dificulta a reação dos adversários.
Em Santa Catarina, a nacionalização beneficia Jorginho Mello. Desde 2018, o Estado consolidou-se como o território mais conservador e bolsonarista entre os maiores colégios eleitorais do país.
Se a campanha estadual continuar morna e a presidencial esquentar, Jorginho terá condições de transformar sua ligação com Jair e Flávio Bolsonaro numa vitória confortável, possivelmente no primeiro turno.
A terceira onda bolsonarista favorece Jorginho, fortalece as candidaturas de direita à Assembleia e cria condições para uma bancada federal expressiva.
O risco no Senado
Para o Senado, entretanto, o PL não tem a garantia das duas vagas. Amin conserva uma base histórica. Lunelli, além da força no setor produtivo, constitui-se no azarão do pleito, com perfil amplamente diferenciado. De Toni e Carlos Bolsonaro disputam o voto mais identificado com o ex-presidente.
O PL pode eleger dois senadores, mas também corre o risco de dividir sua base e conquistar apenas uma vaga. O eleitor terá dois votos, e será necessária organização para que a fragmentação não desperdice a maior onda política do Estado.
Vinte e cinco dias
Lula perde terreno. Flávio cresce. O Supremo ocupa o centro da crise. E Santa Catarina prepara-se para repetir o movimento de 2018 e 2022.
A terceira onda bolsonarista já pode ser vista no horizonte. Quando chegar, deverá carregar Jorginho Mello, fortalecer a direita e redesenhar a disputa pelo Senado.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.