Nos últimos dias, novas pesquisas de opinião voltaram a medir a temperatura da corrida presidencial e trouxeram um dado que, embora ainda situado na margem de erro, é politicamente relevante: Flávio Bolsonaro aparece um ponto percentual à frente de Lula da Silva, que, claramente, entrou em estado de fadiga de material.
:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui
Mais do que a fotografia isolada do momento, o que importa é o filme. E ele vem se repetindo. Levantamentos sucessivos já indicam uma tendência consistente: curva ascendente para Flávio Bolsonaro — um senador “comum” (não fosse o fato de ter sido ungido pelo pai) — e trajetória descendente para a deidade vermelha. Ao longo das últimas oito semanas — ou, se preferirmos, dos últimos dois meses —, o presidente vai consumindo a gordura acumulada que lhe garantia vantagem, enquanto o senador do PL consolida terreno. Para surpresa de muitos, aliás.
Qualidade
Há um componente qualitativo nesse movimento. Flávio Bolsonaro tem adotado um discurso mais equilibrado e sereno, o que lhe permite avançar justamente sobre aquele terço do eleitorado que se mantém distante da polarização clássica — nem lulista, nem bolsonarista; nem alinhado ao PT, nem ao PL. É nesse espaço que, historicamente, se decide uma eleição presidencial. Em 2026, não será diferente.
Fragilidade
Ocorre que, paradoxalmente, essa mesma faixa do eleitorado não tem conseguido, ao longo dos últimos ciclos, viabilizar uma alternativa competitiva fora da polarização — a chamada terceira via, que já virou lenda urbana, ou melhor, eleitoral.
História
Houve tentativas. Marina Silva e Ciro Gomes, em momentos distintos, encarnaram esse papel. Ciro chegou a atingir 22 pontos percentuais em uma eleição. Marina, em 2014, alcançou 12%, num contexto absolutamente atípico, marcado pela morte de Eduardo Campos — de quem era vice — e pela consequente assunção da candidatura da ambientalista.
Nada feito
Ainda assim, nenhuma dessas experiências foi suficiente para romper a lógica dominante da polarização. Em 2022, Simone Tebet surgiu como aposta para furar essa bolha, mas não alcançou sequer 5% dos votos. O padrão se repete: há demanda difusa por uma terceira via, mas não há oferta viável. E o percentual dos que se lançam nessa aventura vem diminuindo.
Manutenção e acirramento
E tudo indica que, em 2026, esse quadro não apenas se manterá como poderá se intensificar. A tendência é de uma polarização ainda mais aguda do que aquela observada no confronto entre Lula e Jair Bolsonaro. Os chamados candidatos nanicos devem novamente registrar votações residuais, incapazes de alterar o eixo central da disputa. Simples assim.
Encruzilhada
É nesse contexto que o PSD se vê diante de uma verdadeira sinuca de bico. O partido insiste na construção de uma candidatura própria, mas esbarra na realidade dos números e na ausência de um nome com densidade nacional suficiente para romper a polarização.
Fora dessa
Ratinho Júnior, governador do Paraná, que chegou a ser ventilado como alternativa, mas já bateu em retirada. Talvez já seja a primeira “vítima” eleitoral do escândalo Master. Naturalmente, todas as atenções se voltaram para Ronaldo Caiado, governador de Goiás, um nome de centro-direita — até com viés mais à direita do que o próprio Ratinho. Havia expectativa de anúncio nesta semana, mas houve um recuo estratégico por parte de Gilberto Kassab, que agora projeta uma definição até o final do mês.
Esquerda disfarçada
Nesse intervalo, ressurge Eduardo Leite como opção. O governador gaúcho, por sua vez, já sinalizou que não pretende disputar o Senado caso não seja o escolhido para a presidência — preferindo concluir seu mandato no Rio Grande do Sul. Trata-se, evidentemente, de um movimento de pressão interna, sobretudo porque o PSD tem como prioridade estratégica a formação de uma bancada robusta no Senado. O gaúcho saiu há pouco das fileiras do PSDB, é esquerdista, embora não pareça extremista como Lula e seus camaradas.
Golpe duplo
Perder Ratinho no Paraná e, eventualmente, Eduardo Leite no Rio Grande do Sul significaria abrir mão de duas cadeiras com alto potencial de vitória. O custo político é elevado para o PSD — o PSDB da vez, de Kassab.
Órbitas
O dilema pessedista agora é estrutural: Eduardo Leite se posiciona no campo da centro-esquerda, enquanto Caiado representa a centro-direita. Ratinho orbitava nesse mesmo espectro. Ou seja, o PSD sequer conseguiu harmonizar internamente uma identidade ideológica clara para sua eventual candidatura presidencial. Não tem nome, não tem projeto, não tem discurso. Alô, João Rodrigues.
Balela
E, mais do que isso, as pesquisas são taxativas: não há, neste momento, espaço político para uma terceira via competitiva. O resto é conversa mole. Aquele eleitor que rejeita a polarização até existe, mas não enxerga — nem em Ratinho, nem em Caiado, tampouco em Leite — uma liderança capaz de protagonizar essa ruptura.
Previsibilidade
O resultado é previsível. Qualquer candidatura alternativa, seja do PSD ou de outra legenda, corre o risco de ser “cristianizada”, como tantas outras no passado recente.
Esgotamento
Diante desse cenário, não é exagero cogitar uma hipótese que, até pouco tempo, pareceria improvável: a possibilidade de definição da eleição ainda no primeiro turno — também pelo fato de Lula estar, politicamente, em fase de desgaste.
Nanicos
Caso os candidatos fora da polarização permaneçam em patamares inexpressivos, a disputa pode se concentrar de tal forma entre os dois polos principais que um deles atinja, já na largada, a maioria necessária.
Tendência
Se isso ocorrer, o Brasil poderá assistir à eleição de seu próximo presidente sem a necessidade de segundo turno — um desfecho que seria, ao mesmo tempo, consequência e símbolo máximo da radicalização do ambiente político nacional.
A quinta-feira impõe um teste de realidade ao prefeito de Chapecó, João Rodrigues. Ele se reúne com Carlos Chiodini (MDB), Esperidião Amin (PP) e Fábio Schiochet (União Brasil). Na pauta, as eleições de 2026 — e, sobretudo, o dilema clássico entre calendário legal e lastro político.
:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui
Rodrigues tem até 4 de abril para renunciar à prefeitura, caso queira disputar o governo. O problema é simples de enunciar e complexo de resolver: antes da renúncia, precisa de garantias; depois dela, não há garantias possíveis — apenas apostas.
O calendário eleitoral cria um hiato perigoso. A desincompatibilização encerra-se em 4 de abril; as convenções homologatórias vão até 5 de agosto. São cerca de 120 dias de incerteza. É esse intervalo que tira o sono do prefeito.
Na prática, Rodrigues buscará dos dirigentes uma sinalização “mais ou menos definitiva”. Quer reduzir o risco de deixar o cargo e, mais adiante, ver MDB e PP optarem por outro arranjo majoritário. Em linguagem direta: evitar ficar “com o pincel na mão”.
PP dividido
No PP, Esperidião Amin reassumiu o comando ao perceber o avanço interno pró-reeleição de Jorginho Mello. Mesmo após ser alijado da majoritária governista, tenta reorganizar o partido.
O obstáculo é conhecido: lideranças expressivas já gravitam em torno do Palácio. E, ainda que Amin conduza uma posição formal, ninguém assegura vitória na convenção.
MDB inclinado
Situação semelhante vive Carlos Chiodini. Nome natural para compor como vice em uma eventual chapa alternativa, acabou preterido quando o desenho governista avançou com Adriano Silva (Novo).
Chiodini sabe que o MDB, em sua maioria qualificada — especialmente entre mandatários —, prefere estar com Jorginho Mello, ainda que fora da chapa principal. E trabalha com um horizonte decisório que empurra a definição para junho — o que, para Rodrigues, pode ser tarde demais.
União federado
No União Brasil, o cenário é distinto. O partido não estruturou previamente um nome competitivo para a majoritária. Mas há um fator institucional incontornável: a federação com o PP.
Logo, qualquer decisão será conjunta — o que adiciona complexidade e reduz previsibilidade.
Força do governo
Enquanto a oposição potencial hesita, o governo avança.
Jorginho Mello combina articulação política com o peso da máquina — a “caneta” — e amplia sua base.
No MDB, o retrato é claro: a senadora Ivete da Silveira e o deputado federal Valdir Cobalchini já declararam apoio. Entre os federais mais relevantes, a adesão é majoritária.
Chiodini talvez conte com Rafael Pezenti — que, por sinal, tem ligação direta com a estrutura governamental.
Alesc
Na Assembleia Legislativa, o padrão se repete.
Antídio Lunelli — inclusive convidado à suplência na chapa de Carol De Toni —, Fernando Krelling e Jerry Comper orbitam o governador. No campo de Rodrigues, alinha-se Mauro De Nadal.
Progressistas
No PP, dois dos três deputados estaduais também se mostram mais próximos de fechar com o governo.
Salto no escuro
A equação é implacável.
Para ser candidato, João Rodrigues precisa renunciar agora.
Para renunciar com segurança, precisaria de garantias que, institucionalmente, só existem nas convenções — onde ninguém controla integralmente o resultado.
Ou seja: qualquer movimento, neste momento, se assemelha a um salto no escuro.
E é exatamente esse ponto que leva o prefeito a reavaliar timing e estratégia.
Conclusão
A reunião desta quinta-feira não decidirá 2026.
Mas definirá o grau de risco que João Rodrigues está disposto a assumir.
Sem uma sinalização robusta — ainda que informal — de MDB e PP, a candidatura nasce vulnerável.
Com ela, nasce desafiadora.
Sem ela, talvez nem nasça.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.