Quatro personagens centrais da política catarinense, protagonistas destacados nas eleições de 2018, voltam ao centro do tabuleiro oito anos depois. Mas agora em posições completamente distintas sob o ponto de vista ideológico, programático, partidário e eleitoral. O cenário desenhado para 2026 em Santa Catarina expõe, de forma cristalina, a impressionante fluidez — ou fragilidade — das alianças políticas brasileiras. Estamos falando de Jorginho Mello, Esperidião Amin, João Rodrigues e Gelson Merisio.
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Os quatro ajudam a explicar, na prática, por que o eleitor brasileiro está cada vez mais distante dos partidos e mais conectado exclusivamente às figuras individuais dos candidatos. O sistema político nacional virou uma espécie de “geleia geral” partidária, onde adversários históricos se aproximam, aliados antigos se enfrentam e campos ideológicos antes inconciliáveis passam a conviver na mesma composição.
O quarteto de 2018
Na eleição de 2018, Esperidião Amin disputou o Senado dobrando com Raimundo Colombo. Gelson Merisio era o candidato a governador daquela coligação, tendo João Paulo Kleinübing como vice. Amin acabou sendo o único eleito daquele grupo.
Com o MDB
Na mesma eleição, Jorginho Mello disputou o Senado numa composição liderada pelo MDB, que tinha Mauro Mariani como candidato ao governo e Napoleão Bernardes, então no PSDB, como vice. Hoje, Napoleão está no PSD como deputado estadual e Mariani diretor do BRDE , indicado por Jorginho, assim como Kleinubing, que se desincompatibilizou em abril.
Naquela chapa ao Senado estavam Jorginho Mello e o tucano Paulo Bauer, que buscava a reeleição. Assim como Amin, Jorginho elegeu-se.
Pelo caminho
Mauro Mariani foi derrotado. Gelson Merisio chegou ao segundo turno, mas acabou superado pelo então azarão Carlos Moisés da Silva, impulsionado pela onda Bolsonaro que varreu o país em 2018. O ilustre desconhecido foi guindado ao comando do estado.
João Rodrigues e o PSD
Também em 2018, João Rodrigues se elegeu deputado federal justamente na chapa proporcional liderada por Gelson Merisio no PSD. Ou seja: Merisio, Amin e João Rodrigues estavam todos no mesmo campo político. Enquanto isso, Jorginho Mello alinhado ao MDB e ao PSDB naquela disputa.
Outra realidade
O quadro atual mostra uma reviravolta completa. João Rodrigues, que depois venceria as eleições para prefeito de Chapecó em 2020 e seria reeleito em 2024, hoje é pré-candidato ao governo do Estado pelo PSD — exatamente o partido pelo qual Gelson Merisio disputou o governo em 2018. Mas agora os dois estão em lados opostos.
Canhotou
Décio Lima foi candidato ao governo em 2018 em chapa pura do PT. Já em 2022, contou com o apoio de toda a esquerda catarinense. E quem coordenou aquela campanha? Gelson Merisio.
Agora, em 2026, Merisio surge como candidato ao governo pelo PSB, sustentado justamente pelo bloco de esquerda, incluindo o PT e seus aliados históricos.
Muita convicção
Ou seja: o mesmo Gelson Merisio que liderava o PSD em 2018, ao lado de Amin e João Rodrigues, hoje está alinhado ao campo político da esquerda catarinense. João Rodrigues, a seu turno, virou adversário direto de Merisio.
Reposicionamento de Amin
Jorginho Mello, eleito governador em 2022, busca agora a reeleição. Esperidião Amin, inicialmente alinhado ao projeto de Jorginho, acabou ficando fora da composição majoritária governista e se aproximou politicamente de João Rodrigues.
Manda brasa
Outro movimento emblemático envolve justamente o MDB. O mesmo MDB com quem Jorginho esteve aliado em 2018 agora também se aproxima de João Rodrigues. A razão é essencialmente política e eleitoral.
Cacife eleitoral
Jorginho Mello optou por trazer Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville pelo Novo, para a vice. E entregou a vaga ao Senado para Carlos Bolsonaro, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Com isso, lideranças que ficaram fora da composição governista, como Esperidião Amin e Carlos Chiodini, acabaram migrando para a órbita política de João Rodrigues.
Labirinto partidário
Esse emaranhado de alianças, rupturas e reposicionamentos deixa evidente a enorme dificuldade do eleitor em compreender o cenário político brasileiro.
O cidadão que votou em Gelson Merisio pelo PSD em 2018 agora o verá disputando a eleição pelo PSB, apoiado pela esquerda e pelo PT, que enfrenta resistência histórica em Santa Catarina.
Pois é
Já o eleitor pessedista tradicional tende naturalmente a acompanhar João Rodrigues, hoje adversário direto de Merisio. O MDB, que esteve com Jorginho Mello, aproxima-se de João Rodrigues. Esperidião Amin, que orbitava o projeto governista, desloca-se para outro campo. E tudo isso acontece em um intervalo de apenas oito anos.
Reforma urgente
O quadro catarinense apenas reproduz um problema estrutural nacional. O Brasil necessita, de forma urgente, de uma ampla e verdadeira reforma política, partidária e eleitoral.
As mudanças implementadas nas últimas décadas produziram avanços pontuais — como cláusula de barreira, restrições às coligações proporcionais e mecanismos de redução da pulverização partidária. Mas, no essencial, o sistema continua disfuncional. E absolutamente hermético.
Gambiarras
Na prática, grande parte das reformas feitas até aqui não passou de remendos, gambiarras legislativas ou acomodações construídas para atender interesses circunstanciais dos grupos dominantes. Persistem mecanismos que contaminam o ambiente político-eleitoral, começando pela reeleição, um dos maiores equívocos institucionais da República contemporânea.
Abecedário
O Brasil continua convivendo com um número excessivo de partidos, muitos deles sem qualquer identidade programática clara. São verdadeiras siglas de aluguel, criadas para negociatas de toda sorte. O resultado é um sistema onde o eleitor já não vota mais em projetos partidários, ideológicos ou programáticos. Vota apenas em pessoas.
Fulanização do voto
E, quando isso acontece, o sistema representativo perde coerência, previsibilidade e consistência democrática. Sem uma profunda reorganização partidária — reduzindo legendas e estabelecendo identidades ideológicas minimamente sólidas — o país continuará refém desse modelo confuso, personalista e contraditório. O caso catarinense é apenas mais uma demonstração explícita dessa realidade.
A chegada do senador Flávio Bolsonaro a Santa Catarina, na próxima sexta-feira, marca mais do que uma simples agenda pré-eleitoral. Trata-se, na prática, do pontapé inicial de sua caminhada presidencial no estado — e já em um ambiente politicamente fragmentado, complexo e repleto de armadilhas.
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Flávio desembarca em Florianópolis para sua primeira visita como presidenciável do PL. A programação inclui, além de compromissos políticos, a participação na estreia de um filme alusivo ao ex-presidente Jair Bolsonaro. No sábado, o evento deve reunir uma ampla mobilização liberal, com representantes de diversas regiões catarinenses, incluindo prefeitos, parlamentares, vereadores e lideranças estaduais, regionais e municipais. Na prática, será tratado como o lançamento informal de sua candidatura à Presidência da República no estado.
Sem exclusividade
Naturalmente, o governador Jorginho Mello, correligionário de Flávio e candidato à reeleição, oferecerá palanque ao presidenciável. No entanto, o cenário está longe de ser homogêneo.
Outra figura de peso que já declarou apoio a Flávio é o senador Esperidião Amin, também candidato à reeleição. A relação entre ambos é sólida, construída ao longo de oito anos de convivência no Senado, desde a eleição de 2018. Mas é justamente aí que começa o problema.
O fator Amin
Inicialmente, Amin integraria a chapa majoritária liderada por Jorginho Mello, compondo dobradinha ao Senado com a deputada Carol De Toni. O cenário mudou radicalmente com a decisão de Jair Bolsonaro de lançar Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina.
Num primeiro momento, cogitou-se uma composição entre Carlos e Amin. Mas prevaleceu a decisão de Jorginho de manter Carol De Toni na chapa. Resultado: Amin foi excluído.
Alternativa única
Sem espaço, o senador buscou abrigo na candidatura ao governo que será liderada por João Rodrigues.
Um palanque, múltiplos presidenciáveis
João Rodrigues, ao lado de seu provável vice, o deputado federal Carlos Chiodini, já assumiu compromisso com o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, de oferecer palanque ao seu projeto presidencial em Santa Catarina.
Amin, por sua vez, não participou desse movimento. Manteve distância. O resultado é uma composição, no mínimo, inusitada: uma mesma chapa estadual com dois presidenciáveis distintos orbitando ao redor. E o fenômeno pode se repetir do outro lado, inclusive.
Novos
O vice de Jorginho, o ex-prefeito Adriano Silva, é correligionário do ex-governador mineiro Romeu Zema, também pré-candidato ao Planalto. Caso Zema confirme candidatura própria — e não componha como vice de Flávio —, Adriano tende a acompanhá-lo, criando mais uma divisão dentro do mesmo palanque.
Constrangimento calculado
Nesse tabuleiro, Amin joga com habilidade. Ao declarar apoio a Flávio Bolsonaro, ele cria um constrangimento evidente para o presidenciável, para Carlos Bolsonaro e para o próprio PL.
Flávio não pode — nem politicamente lhe convém — recusar o apoio de Amin. Ao contrário, trata-se de um ativo relevante. No entanto, aproximar-se demais do senador catarinense pode comprometer diretamente o projeto eleitoral do próprio irmão.
Liderança
Isso porque está praticamente pacificado que uma das vagas ao Senado será de Carol De Toni. A segunda vaga tende a ser disputada entre Carlos Bolsonaro e Esperidião Amin, em uma disputa que, até segunda ordem, promete ser acirrada.
Distância estratégica
Diante disso, qualquer movimento de Flávio Bolsonaro circulando pelo estado ao lado de Amin enfraquece a candidatura de Carlos, que precisa se consolidar junto ao eleitorado catarinense — o que, por si só, já é um belo desafio.
Raízes locais
Mais do que isso: fortalece o discurso de Amin, que tem explorado o argumento de pertencimento. Ele sustenta que Santa Catarina deve eleger um senador “da terra”, destacando sua trajetória de mais de 50 anos de vida pública no estado e mais de quatro décadas de mandatos eletivos.
Cenário sensível
O quadro é delicado, sensível. A passagem de Flávio Bolsonaro por Santa Catarina, neste fim de semana, não será apenas protocolar. Ela exigirá calibragem política fina. A tendência é que o presidenciável seja orientado a manter uma distância calculada de Esperidião Amin — uma “distância regulamentar”, por assim dizer.
Laços de sangue
O objetivo é claro: preservar o apoio estratégico, sem comprometer o projeto eleitoral de Carlos Bolsonaro.
Em resumo, Flávio estreia em Santa Catarina cercado por aliados — mas também por tensões que podem definir o rumo da disputa no território catarinense.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.