Não é apenas Lula que tem motivos para se preocupar com a crise do Supremo. O desgaste pode alcançar candidatos que compartilham seu palanque e ajudaram a transformar Alexandre de Moraes em símbolo da defesa da democracia.
A sessão de terça-feira manteve o STF no centro da campanha. O adiamento deixou as suspeitas abertas e o Planalto sem o encerramento político que poderia lhe dar algum alívio.
Investigar é o mínimo
A questão não era condenar Moraes nem transformá-lo automaticamente em réu. Discutia-se o caminho para examinar suspeitas envolvendo sua relação com Daniel Vorcaro.
Investigar é esclarecer. Se existem elementos que justificam apuração, o cargo não pode funcionar como escudo. Um ministro deve ter garantias de defesa, mas não uma imunidade informal contra perguntas incômodas.
Transparência real
Moraes nega irregularidades. Uma apuração independente interessa, portanto, à própria credibilidade da Corte.
Mensagens, contratos e eventuais vínculos precisam ser examinados com rigor. O acesso a dados deve seguir os requisitos legais. Mas a posição institucional do investigado não pode impedir diligências justificadas.
A resposta precisa vir das provas, não do prestígio da toga.
O passado acompanha
Em 2019, a mudança de entendimento do STF sobre a prisão após condenação em segunda instância permitiu a soltura de Lula. Em 2021, Fachin anulou suas condenações da Lava Jato e ele recuperou a elegibilidade.
São decisões diferentes, com fundamentos próprios. O efeito político foi decisivo para seu retorno à disputa. Esse histórico ajuda a explicar a dificuldade de Lula para se apresentar como observador distante da crise.
A ligação com Moraes
Na presidência do TSE em 2022, Moraes se tornou alvo central das críticas da direita à condução da eleição. Lula e seus aliados defenderam sua atuação.
Isso não permite atribuir a vitória eleitoral a um magistrado. Mas estabelece uma associação política que não desaparece por conveniência. Quem celebrou o ministro quando suas decisões atingiam adversários agora precisa cobrar responsabilidade diante das suspeitas contra ele.
A indicação de Temer
É verdade que Moraes foi indicado ao Supremo por Michel Temer. Antes, havia sido secretário da Segurança Pública de São Paulo no governo Geraldo Alckmin, hoje vice de Lula.
Lembrar quem assinou a indicação é insuficiente. A cobrança sobre Lula recai diante da crise e a defesa que seu campo político fez do ministro.
Os indicados de Lula
Cristiano Zanin votou pela reunião dos casos de Moraes e André Mendonça. Flávio Dino defendeu o mesmo encaminhamento e pediu vista, suspendendo a análise antes do mérito.
Não houve decisão definitiva impedindo uma investigação. Houve adiamento. E ele prolonga um problema político para o presidente que indicou os dois.
Ganhar tempo dentro do tribunal pode significar mais dias de desgaste fora dele.
Alerta no Senado
Em São Paulo, a pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta semana traz Guilherme Derrite com 19%, Simone Tebet e André do Prado com 17% cada, e Marina Silva com 13%. Há empates técnicos, considerando a margem de dois pontos.
O quadro mostra competição, não vagas asseguradas ao campo governista. Mas o levantamento antecede a sessão: não mede seu efeito nem comprova que a crise do STF provocou esses números.
O desgaste continua
Por que uma Corte que exige tanto dos outros encontra tamanha dificuldade para esclarecer suspeitas sobre um dos seus?
Lula pode tentar se afastar. Seus aliados também. Mas a associação política continuará sendo cobrada enquanto faltarem respostas.
O Supremo adiou uma decisão. O debate eleitoral continua. E o custo dessa crise pode chegar a muito mais gente do que aos ministros sentados no plenário.
É difícil esconder a indignação diante do que o Supremo ofereceu ao país nesta terça-feira, dia 15. A sessão que deveria esclarecer suspeitas terminou marcada por confrontos, acusações e uma decisão novamente adiada.
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A Corte precisava demonstrar serenidade e autoridade. Entregou um espetáculo deprimente de divisão interna. Quem esperava respostas assistiu a mais um capítulo da desmoralização institucional.
O “decano” incendeia
De Gilmar Mendes, o ministro mais antigo da casa, seria razoável esperar moderação. Sua atuação no confronto com André Mendonça, porém, reforçou a impressão contrária: em vez de conter o incêndio, acrescentou combustível.
Experiência não pode servir de licença para constranger colegas. O peso de uma toga não aumenta com o volume da voz.
O foco invertido
A sessão deveria avançar na discussão sobre as suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Mas a atuação de Mendonça ocupou o centro do embate.
As condutas de todos podem ser examinadas. O que não convence é transformar questionamentos contra um ministro em obstáculo para esclarecer suspeitas contra outro.
Misturar os casos pode até encontrar defesa processual; politicamente, transmite a imagem de uma proteção corporativa.
Fachin contestado
Flávio Dino questionou a condução do processo e defendeu a análise conjunta dos casos de Moraes e Mendonça. A tentativa de Fachin de apresentar uma Corte organizada voltou a esbarrar na resistência dos próprios colegas.
O resultado foi um tribunal discutindo como julgar, sem chegar à questão que mobilizava o país. Mais uma vez, o rito consumiu a resposta.
A vista conveniente
Dino pediu vista e interrompeu o julgamento. O prazo para devolver o processo é de até 90 dias, o que permite que a indefinição atravesse o calendário eleitoral.
Pedir vista é um instrumento regimental. Isso não impede a crítica ao seu efeito concreto: Moraes ganhou tempo e a sociedade continuou sem resposta.
Para uma Corte mergulhada em suspeitas, a demora cobra um preço que nenhum discurso institucional consegue apagar.
O placar real
Não houve absolvição nem decisão definitiva impedindo uma investigação. O mérito sequer foi analisado. O placar parcial ficou em quatro a três pela separação dos casos.
Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia defenderam análises separadas. Gilmar, Moraes e Cristiano Zanin ficaram pela reunião.
Dino sustentou a análise conjunta, mas seu voto não entrou na contagem após o pedido de vista.
O Supremo adiou a resposta. Não encerrou o assunto.
As cadeiras vazias
Nunes Marques e Dias Toffoli não participaram da votação, após declarações de impedimento ou suspeição. As ausências reduziram ainda mais o número de ministros envolvidos na decisão.
Uma Corte dividida, com integrantes afastados da análise e outros discutindo a própria atuação, oferece ao cidadão uma imagem devastadora.
A conta de Lula
Politicamente, o adiamento também cria dificuldades para Lula. Zanin, seu ex-advogado, votou pela reunião dos processos. Dino, seu ex-ministro da Justiça, defendeu a mesma posição e interrompeu a análise.
Isso não prova comando do Planalto. Mas dificulta o discurso de distanciamento: dois ministros indicados por Lula assumiram posições que, naquele momento, favoreceram a estratégia processual defendida por Moraes.
A oposição continuará explorando essa associação.
Tempo não apaga
Moraes ganhou prazo, mas o Supremo perdeu outra oportunidade de recuperar confiança. E Lula permanece exposto ao desgaste político de uma relação que seus aliados celebraram durante anos.
A eleição não está decidida. Mas uma crise prolongada mantém o assunto vivo justamente na reta final da campanha.
Adiar pode aliviar a situação de um ministro. Não restaura a credibilidade de uma Corte. E muito menos garante alívio nas urnas.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.