O mais recente levantamento do AtlasIntel, com cerca de 1.300 entrevistas realizadas entre os dias 25 e 30 de março, não chega a surpreender no cenário do governo do Estado — mas oferece nuances importantes que merecem atenção mais cuidadosa.
Na corrida pelo Executivo, confirma-se aquilo que outros institutos já vinham apontando: a ampla dianteira do governador Jorginho Mello. Ele aparece com 49,4% das intenções de voto, contra 21,4% de João Rodrigues, enquanto Gelson Merisio surge próximo dos 14%.
O quadro, neste momento, aponta para uma eleição com viés de definição ainda em primeiro turno — em favor de Jorginho. Os demais postulantes (fora o trio citado) somados sequer atingem dois dígitos, um indicativo claro da concentração de forças e da dificuldade de fragmentação do voto.
Mas há mais em jogo do que a liderança folgada do atual governador neste momento de definições.
Merisio cresce
O dado mais instigante da pesquisa está no desempenho de Gelson Merisio. Fora da vida político-partidária desde 2018 — quando foi ao segundo turno contra Carlos Moisés e fez menos votos do que havia conquistado no primeiro round —, ele ressurge com densidade eleitoral imediata.
E aqui reside o contraste: enquanto João Rodrigues constrói sua pré-candidatura há cerca de dois anos e meio, Merisio, praticamente recém-reinserido no processo (seu nome começou a ser ventilado há cerca de dois meses), aparece apenas seis a sete pontos atrás.
Projeção
Trata-se de um sinal inequívoco de potencial de crescimento para o ex-pefelista, que agora vai liderar a frente de esquerda em Santa Catarina. Mantida a trajetória, a tendência é que Merisio avance sobre o segundo lugar, alterando o eixo da disputa e reposicionando o campo oposicionista.
Primeiro turno
Com Jorginho Mello beirando os 50%, o cenário atual sugere uma eleição resolvida sem necessidade de segundo turno. Evidentemente, campanhas ainda têm capacidade de alterar tendências, mas o grau de consolidação do governador impõe um desafio considerável aos adversários.
A oposição, fragmentada e ainda em processo de organização, não demonstra, até aqui, musculatura suficiente para forçar uma segunda etapa.
Favoritismo
No Senado, a pesquisa reafirma uma leitura que já vinha sendo feita há mais de um ano: o protagonismo de Carol De Toni.
Com 30,7%, ela lidera com folga e se consolida como o principal nome da disputa. É, sem exagero, “o nome da vez” em Santa Catarina, com capital político suficiente para encaminhar a conquista da primeira vaga.
Segunda vaga
A novidade aparece na briga pela segunda cadeira. Esperidião Amin, de forma até surpreendente, surge numericamente à frente de Carlos Bolsonaro: 20,1% contra 18,3%.
Ainda que dentro da margem de erro — configurando empate técnico —, o dado tem peso político. O petista Décio Lima aparece em quarto, com 14%. Ou seja, há uma disputa clara pela segunda vaga.
Amin demonstra resiliência eleitoral e capacidade de manter competitividade, enquanto Bolsonaro enfrenta resistências mais estruturais.
Resistência
E aqui está o ponto mais sensível da pesquisa: a percepção do eleitor catarinense sobre a candidatura de Carlos Bolsonaro.
Metade dos entrevistados (50%) considera sua eventual candidatura no estado como oportunismo político. Apenas 25,6% veem sua presença como uma boa alternativa, enquanto outros 20,6% até reconhecem legitimidade, mas fazem ressalvas.
Ou seja: há uma rejeição consolidada ou, no mínimo, uma resistência relevante. Não se trata de desconhecimento — mas de juízo formado.
Desafio
Carlos Bolsonaro carrega, evidentemente, o peso do sobrenome e a força eleitoral do pai, Jair Bolsonaro, que teve votações expressivas em Santa Catarina em 2018 e 2022.
Ainda assim, a transferência automática desse capital político não se confirma de maneira plena.
Colando
O cenário exige estratégia: proximidade intensa com Jorginho Mello e, sobretudo, alinhamento com Carol De Toni tornam-se quase obrigatórios.
A eleição passa, necessariamente, por uma tentativa de “colar” sua imagem às lideranças locais consolidadas. Sem essa ancoragem, o caminho se torna significativamente mais difícil.
Histórico pesa
Por fim, há um componente adicional que não pode ser ignorado: o histórico recente.
Santa Catarina já elegeu, em 2022, Jorge Seif, um nome com vínculos externos ao estado — e a avaliação de seu mandato está longe de ser consensual.
Esse fator contribui para elevar o grau de exigência do eleitor em relação a candidaturas percebidas como “importadas”.
Trocando em miúdos
A pesquisa do AtlasIntel não altera o favoritismo no governo, mas reorganiza a leitura estratégica da disputa.
Merisio emerge como variável relevante, Amin mostra fôlego e Carlos Bolsonaro enfrenta um teste real de adaptação ao eleitor catarinense.
No Senado, uma vaga já parece ter destino; a outra, ao contrário, promete uma disputa intensa — e carregada de significado político.
João Rodrigues consumou, na noite de terça-feira, 31 de março, a renúncia ao cargo de prefeito de Chapecó — posto para o qual havia sido reeleito em outubro de 2024. O movimento, já esperado, formaliza sua entrada plena na disputa pelo governo do Estado, mas inaugura, ao mesmo tempo, uma travessia eleitoral de elevada complexidade.
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O ex-prefeito entra na corrida com dois desafios estruturais muito claros. O primeiro deles é estabelecer uma polarização direta com o atual governador, Jorginho Mello. Trata-se não apenas de uma disputa eleitoral, mas de uma tentativa de construção de confronto ideológico dentro do mesmo campo — o conservador.
A estratégia é evidente: tensionar o ambiente político à direita, criar contraste suficiente para forçar um segundo turno e, a partir daí, reconfigurar o jogo. Não é uma tarefa trivial. Jorginho Mello ostenta um favoritismo consistente e praticamente indiscutível neste momento, sustentado por máquina, visibilidade institucional, resultados administrativos e alinhamento com o bolsonarismo, inclusive com o apoio de Flávio Bolsonaro e o simbólico “22” na urna.
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Fator Merisio
O segundo desafio de João Rodrigues é igualmente sensível: superar Gelson Merisio como alternativa competitiva na disputa estadual.
Se, de um lado, Rodrigues trabalha para assegurar, via convenções homologatórias, o apoio do MDB e da Federação Progressista ao seu projeto, de outro, Merisio avança com uma construção política robusta e já bastante consolidada.
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Socialista
O ex-deputado, que entrou para a política via PFL, deve oficializar — se é que já não o fez — sua filiação ao Partido Socialista Brasileiro, chegando com um ativo político relevante: a unidade praticamente absoluta da esquerda em torno de seu nome.
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Unidade
Trata-se de um alinhamento que ocorre sem fissuras, mesmo diante de um histórico ideológico pretérito de Merisio vinculado a posições mais conservadoras. Não há espaço para dissenso interno.
Sua escolha foi chancelada diretamente por Lula da Silva, o que, na prática, elimina resistências e inibe qualquer contestação nas fileiras progressistas. Simples assim.
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Guarda-chuva
O resultado é uma frente ampla que reúne desde o PT — federado com PCdoB e PV — até legendas como PSOL, PDT e Rede Sustentabilidade, além do próprio PSB e do Solidariedade.
Na prática, estamos falando de um bloco que se aproxima de uma dezena de partidos, operando de forma coesa. É uma realidade que não se pode desprezar.
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Contraponto em SC
Mas não é apenas a engenharia partidária que sustenta a pré-candidatura de Gelson Merisio. Há um componente operacional de peso sendo desenhado a partir de Brasília.
O Palácio do Planalto tem interesse direto no desempenho eleitoral em Santa Catarina, especialmente após o resultado de 2022, quando Jair Bolsonaro impôs uma vantagem expressiva sobre Lula em SC — algo próximo de 70% a 30%.
O objetivo estratégico agora é reduzir essa diferença. Nos cálculos do PT nacional, um cenário de 60% a 40% já seria considerado aceitável, ainda que muito difícil de ser alcançado.
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Ligações de Merisio
Há, contudo, outro fator relevante além da mobilização da máquina federal e da estrutura partidária. Entra em cena um ator de grande capacidade de influência: o grupo JBS.
Gelson Merisio mantém relação próxima com a empresa há pelo menos meia dúzia de anos, atuando no mínimo como conselheiro, com acesso direto aos irmãos Joesley e Wesley Batista.
Esse vínculo não é periférico — tende a se traduzir em suporte político e, sobretudo, em capacidade operacional de campanha, o bom e velho financiamento do processo eleitoral.
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De volta ao passado
É justamente nesse ponto que o ambiente eleitoral ganha um elemento adicional de tensão e expectativa.
Voltou a circular, nos últimos dias, um vídeo de 8 de novembro de 2017, durante os trabalhos conjuntos da CPMI da JBS e da CPI do BNDES. À época, as comissões investigavam as vantagens e os benefícios obtidos pelo grupo JBS em operações de financiamento junto ao banco público.
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João “Verdade”
Nas imagens, o então deputado federal João Rodrigues dirige ataques duros a Wesley Batista, tratando-o como bandido, delinquente e associando sua atuação a práticas de quadrilha.
O conteúdo, resgatado em pleno contexto pré-eleitoral, adiciona um componente político sensível à disputa, sugerindo que a campanha será sangrenta.
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Indústria da carne
Nos bastidores, a leitura é clara: o episódio não apenas reativa memórias incômodas, como também pode influenciar diretamente o comportamento do grupo JBS na eleição.
As informações que circulam indicam a possibilidade de um incremento ainda maior no apoio à campanha de Gelson Merisio, num movimento que teria também um caráter de resposta política — ou, no mínimo, de reposicionamento estratégico diante do histórico de confrontos.
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Terá capacidade?
O fato é que João Rodrigues entra na disputa dispondo de algum capital político, mas ingressa em um tabuleiro mais complexo do que aparentava à primeira vista.
Entre o favoritismo consolidado de Jorginho Mello e a estrutura crescente de Gelson Merisio, sua candidatura dependerá, essencialmente, da habilidade de construir contraste, atrair alianças consistentes e sustentar narrativa em um ambiente de alta competitividade e múltiplos vetores de influência.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.