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O Brasil é master

Por Cláudio Prisco Paraíso
09/05/2026 - 08h10

O caso Banco Master entrou definitivamente na zona de turbulência política e institucional. E, ao contrário do que muitos imaginavam nos bastidores de Brasília — de que o escândalo perderia força, seria acomodado ou acabaria diluído nas conveniências do poder —, os movimentos desta semana sinalizam exatamente o oposto. O ministro André Mendonça deu demonstrações inequívocas, na quarta e na quinta-feira, de que pretende levar as investigações até as últimas consequências, custe a quem custar.

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Na noite de quarta-feira, Mendonça protagonizou uma conversa duríssima com os advogados de defesa do banqueiro — ou ex-banqueiro — Daniel Vorcaro, que segue negociando um acordo de delação premiada. Vorcaro já apresentou os primeiros elementos à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República, mas rapidamente ficou evidente que o conteúdo entregue até agora estaria longe de representar uma abertura completa do jogo.

Blindagem master

A avaliação dentro da investigação é de que figuras estratégicas estariam sendo preservadas. E não apenas personagens do Congresso Nacional. Há nomes do próprio Supremo Tribunal Federal e também integrantes do Poder Executivo orbitando o escândalo.

Tudo ou nada

Diante do material já acumulado pela Polícia Federal, André Mendonça deixou um recado claríssimo aos defensores de Vorcaro: ou a delação é refeita em novas bases, com profundidade e sem blindagens seletivas, ou simplesmente não haverá acordo.

Xilindró

O recado foi tão direto que a própria Polícia Federal já trabalha com a possibilidade de pedir o retorno de Daniel Vorcaro ao presídio. O investigado havia sido transferido para dependências ligadas à PF justamente em razão das negociações envolvendo a colaboração premiada.

Bate-pronto

E a resposta veio menos de 24 horas depois. Na manhã de quinta-feira, a Polícia Federal colocou agentes nas ruas em operação de busca e apreensão que alcançou o senador Ciro Nogueira, seu irmão e outras pessoas ligadas ao núcleo político do presidente nacional do Progressistas.

Dura lex, sed lex

O episódio ganha dimensão ainda maior por um detalhe impossível de ignorar: André Mendonça e Ciro Nogueira integraram o núcleo duro do governo Jair Bolsonaro. Nogueira foi ministro-chefe da Casa Civil. Mendonça ocupou inicialmente a Advocacia-Geral da União e, posteriormente, o Ministério da Justiça. Ou seja, não há espaço para a tese de perseguição seletiva.

Supremas togas

Mais do que isso: Mendonça deixa claro, inclusive para colegas da Suprema Corte, que não pretende empurrar nada para baixo do tapete. O recado interno alcança diretamente ministros como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, citados nos bastidores do escândalo como personagens mencionados em apurações paralelas.

Brasília em polvorosa

A sinalização é cristalina: se houver necessidade de atingir lideranças do Centrão, parlamentares influentes ou figuras que passaram pelo governo passado, isso será feito.

Fora dessa

E há outro aspecto relevante. A família Bolsonaro não aparece vinculada ao caso Master. Tanto que o senador Flávio Bolsonaro já tratou de avisar aliados de que o assunto precisa ser investigado com rigor e sem qualquer tipo de proteção política. O movimento também carrega forte simbolismo eleitoral.

Sem chance

Não faz muito tempo, ainda no segundo semestre do ano passado, Ciro Nogueira emitia sinais de que gostaria de compor como vice uma eventual chapa presidencial liderada por Flávio Bolsonaro. Hoje, porém, o senador piauiense se transforma em um potencial foco de desgaste para setores importantes da direita e do Centrão.

Pivô

Principalmente porque ele ocupa atualmente a coordenação da federação União Progressista, estrutura que reúne o União Brasil e o PP e que terá papel decisivo nas alianças de 2026.

Respingos

E os efeitos não param em Brasília. Eles descem inevitavelmente para os estados. Em Santa Catarina, o União Progressista está alinhado ao projeto de João Rodrigues. E a grande pergunta passa a ser: qual será o tamanho do desgaste eleitoral provocado pelos desdobramentos do caso Master dentro da federação?

Ele também

O prejuízo político mais imediato tende a atingir o senador Esperidião Amin, candidato à reeleição e uma das principais lideranças históricas do Progressistas no país. É verdade — e isso precisa ser registrado — que Amin jamais foi associado à chamada “banda podre” do PP nem aos métodos atribuídos ao grupo político de Ciro Nogueira. Sua trajetória sempre esteve dissociada desse ambiente.

Proximidade incômoda

Mas política trabalha com percepção pública, contaminação de imagem e associação partidária. E, nesse contexto, os reflexos são inevitáveis. A crise envolvendo Ciro Nogueira tende a produzir desgaste não apenas sobre o projeto de reeleição de Esperidião Amin, mas também sobre o próprio palanque estadual apoiado pela federação União Progressista em Santa Catarina.

Apertem os cintos

O caso Master, definitivamente, está longe de terminar. E os próximos capítulos prometem atingir muito mais gente do que Brasília gostaria de admitir.

A geleia partidária catarinense

Por Cláudio Prisco Paraíso
08/05/2026 - 08h18

Quatro personagens centrais da política catarinense, protagonistas destacados nas eleições de 2018, voltam ao centro do tabuleiro oito anos depois. Mas agora em posições completamente distintas sob o ponto de vista ideológico, programático, partidário e eleitoral. O cenário desenhado para 2026 em Santa Catarina expõe, de forma cristalina, a impressionante fluidez — ou fragilidade — das alianças políticas brasileiras. Estamos falando de Jorginho Mello, Esperidião Amin, João Rodrigues e Gelson Merisio.

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Os quatro ajudam a explicar, na prática, por que o eleitor brasileiro está cada vez mais distante dos partidos e mais conectado exclusivamente às figuras individuais dos candidatos. O sistema político nacional virou uma espécie de “geleia geral” partidária, onde adversários históricos se aproximam, aliados antigos se enfrentam e campos ideológicos antes inconciliáveis passam a conviver na mesma composição.

O quarteto de 2018

Na eleição de 2018, Esperidião Amin disputou o Senado dobrando com Raimundo Colombo. Gelson Merisio era o candidato a governador daquela coligação, tendo João Paulo Kleinübing como vice. Amin acabou sendo o único eleito daquele grupo.

Com o MDB

Na mesma eleição, Jorginho Mello disputou o Senado numa composição liderada pelo MDB, que tinha Mauro Mariani como candidato ao governo e Napoleão Bernardes, então no PSDB, como vice. Hoje, Napoleão está no PSD como deputado estadual e Mariani diretor do BRDE , indicado por Jorginho, assim como Kleinubing, que se desincompatibilizou em abril.

Naquela chapa ao Senado estavam Jorginho Mello e o tucano Paulo Bauer, que buscava a reeleição. Assim como Amin, Jorginho elegeu-se.

Pelo caminho

Mauro Mariani foi derrotado. Gelson Merisio chegou ao segundo turno, mas acabou superado pelo então azarão Carlos Moisés da Silva, impulsionado pela onda Bolsonaro que varreu o país em 2018. O ilustre desconhecido foi guindado ao comando do estado.

João Rodrigues e o PSD

Também em 2018, João Rodrigues se elegeu deputado federal justamente na chapa proporcional liderada por Gelson Merisio no PSD. Ou seja: Merisio, Amin e João Rodrigues estavam todos no mesmo campo político. Enquanto isso, Jorginho Mello alinhado ao MDB e ao PSDB naquela disputa.

Outra realidade

O quadro atual mostra uma reviravolta completa. João Rodrigues, que depois venceria as eleições para prefeito de Chapecó em 2020 e seria reeleito em 2024, hoje é pré-candidato ao governo do Estado pelo PSD — exatamente o partido pelo qual Gelson Merisio disputou o governo em 2018. Mas agora os dois estão em lados opostos.

Canhotou

Décio Lima foi candidato ao governo em 2018 em chapa pura do PT. Já em 2022, contou com o apoio de toda a esquerda catarinense. E quem coordenou aquela campanha? Gelson Merisio.

Agora, em 2026, Merisio surge como candidato ao governo pelo PSB, sustentado justamente pelo bloco de esquerda, incluindo o PT e seus aliados históricos.

Muita convicção

Ou seja: o mesmo Gelson Merisio que liderava o PSD em 2018, ao lado de Amin e João Rodrigues, hoje está alinhado ao campo político da esquerda catarinense. João Rodrigues, a seu turno, virou adversário direto de Merisio.

Reposicionamento de Amin

Jorginho Mello, eleito governador em 2022, busca agora a reeleição. Esperidião Amin, inicialmente alinhado ao projeto de Jorginho, acabou ficando fora da composição majoritária governista e se aproximou politicamente de João Rodrigues.

Manda brasa

Outro movimento emblemático envolve justamente o MDB. O mesmo MDB com quem Jorginho esteve aliado em 2018 agora também se aproxima de João Rodrigues. A razão é essencialmente política e eleitoral.

Cacife eleitoral

Jorginho Mello optou por trazer Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville pelo Novo, para a vice. E entregou a vaga ao Senado para Carlos Bolsonaro, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Com isso, lideranças que ficaram fora da composição governista, como Esperidião Amin e Carlos Chiodini, acabaram migrando para a órbita política de João Rodrigues.

Labirinto partidário

Esse emaranhado de alianças, rupturas e reposicionamentos deixa evidente a enorme dificuldade do eleitor em compreender o cenário político brasileiro.

O cidadão que votou em Gelson Merisio pelo PSD em 2018 agora o verá disputando a eleição pelo PSB, apoiado pela esquerda e pelo PT, que enfrenta resistência histórica em Santa Catarina.

Pois é

Já o eleitor pessedista tradicional tende naturalmente a acompanhar João Rodrigues, hoje adversário direto de Merisio. O MDB, que esteve com Jorginho Mello, aproxima-se de João Rodrigues. Esperidião Amin, que orbitava o projeto governista, desloca-se para outro campo. E tudo isso acontece em um intervalo de apenas oito anos.

Reforma urgente

O quadro catarinense apenas reproduz um problema estrutural nacional. O Brasil necessita, de forma urgente, de uma ampla e verdadeira reforma política, partidária e eleitoral.

As mudanças implementadas nas últimas décadas produziram avanços pontuais — como cláusula de barreira, restrições às coligações proporcionais e mecanismos de redução da pulverização partidária. Mas, no essencial, o sistema continua disfuncional. E absolutamente hermético.

Gambiarras

Na prática, grande parte das reformas feitas até aqui não passou de remendos, gambiarras legislativas ou acomodações construídas para atender interesses circunstanciais dos grupos dominantes. Persistem mecanismos que contaminam o ambiente político-eleitoral, começando pela reeleição, um dos maiores equívocos institucionais da República contemporânea.

Abecedário

O Brasil continua convivendo com um número excessivo de partidos, muitos deles sem qualquer identidade programática clara. São verdadeiras siglas de aluguel, criadas para negociatas de toda sorte. O resultado é um sistema onde o eleitor já não vota mais em projetos partidários, ideológicos ou programáticos. Vota apenas em pessoas.

Fulanização do voto

E, quando isso acontece, o sistema representativo perde coerência, previsibilidade e consistência democrática. Sem uma profunda reorganização partidária — reduzindo legendas e estabelecendo identidades ideológicas minimamente sólidas — o país continuará refém desse modelo confuso, personalista e contraditório. O caso catarinense é apenas mais uma demonstração explícita dessa realidade.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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