Há uma dose considerável de ingenuidade — ou de apurada hipocrisia — em tentar vender a ideia de que hoje existe, no MDB catarinense, um ambiente naturalmente favorável para que a militância e os simpatizantes abracem o projeto de Esperidião Amin ao Senado ou se acomodem pacificamente entre duas candidaturas ao governo: Jorginho Mello e João Rodrigues. Há quem esteja fazendo de conta que desconhece a realidade política catarinense.
:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui
Evidentemente, a definição formal ocorrerá na convenção partidária, provavelmente na undécima hora, como historicamente acontece no MDB. Mas uma coisa já está absolutamente clara: o partido não caminhará unido em 2026, independentemente da decisão oficial.
Invocar 2022 para justificar uma eventual migração automática do voto emedebista para Esperidião Amin é um exercício de pouca honestidade intelectual. Naquela eleição, Antídio Lunelli renunciou a uma prefeitura importante (Jaraguá do Sul) para tentar viabilizar sua candidatura ao governo. Não conseguiu consolidar o projeto e acabou engolido pelas circunstâncias políticas.
Agora, o cenário é completamente diferente.
Divisão
Em 2026, o MDB não discute candidatura própria ao governo. Discute quem apoiar. E, como diria o saudoso filósofo popular de Biguaçu: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
De um lado, Carlos Chiodini pode, inclusive, tornar-se vice de João Rodrigues. De outro, existe um grupo robusto que prefere permanecer alinhado ao governo estadual, apostando na recondução de Jorginho Mello e na manutenção dos espaços conquistados ao longo dos últimos três anos e meio.
São cenários políticos absolutamente distintos.
Feridas
Também convém recordar que o velho Manda Brasa saiu bastante machucado das eleições municipais de 2024, sobretudo diante do avanço do PL, que assumiu a liderança no número de prefeitos em Santa Catarina sob o comando de Jorginho Mello.
Isso produz reflexos diretos na base.
Principalmente nos mais de 200 municípios onde o MDB sequer possui prefeito e depende muito mais da sobrevivência política local do que de alinhamentos históricos ou fidelidade ideológica.
Resistência
Imaginar que o eleitorado tradicional emedebista migrará em massa para Esperidião Amin ao Senado é desconhecer décadas de antagonismo político entre MDB e PP em Santa Catarina. Disputas de forte enfrentamento eleitoral, por vezes com grau de radicalização.
Figuras históricas do partido, como Pedro Ivo Campos, certamente não imaginariam um cenário desses sem profundas resistências internas.
E elas existem.
Missão desafiadora
Muito provavelmente, somente no dia 5 de outubro ficará evidente aquilo que já se desenha nos bastidores: Amin terá dificuldades para capturar integralmente o voto emedebista. Se alcançar algo próximo de 30% desse eleitorado, já será um desempenho considerável.
Memória
A história ajuda a explicar o presente. Com vários episódios. Mas vamos nos restringir a um.
Em 1985, Esperidião Amin formou com Jaison Barreto (ex-MDB) a chamada Aliança Social Trabalhista, reunindo PDS e PDT. A chapa tinha Francisco de Assis Filho na cabeça e Maneca Dias como vice.
Do outro lado, o MDB lançou Edison Andrino à prefeitura de Florianópolis.
Resultado: Andrino abriu cerca de 16 mil votos de vantagem e venceu a eleição.
Ou seja, a convivência política entre MDB e Amin jamais foi simples. E continua não sendo.
A pré-campanha presidencial de 2026 acaba de produzir um paradoxo político dos mais emblemáticos. A recandidatura de Luiz Inácio Lula da Silva ganhou novo fôlego — não por méritos do governo, tampouco por virtudes estratégicas inéditas do PT, mas pelas trapalhadas produzidas no principal campo adversário.
E o epicentro desse movimento atende pelo nome de Flávio Bolsonaro.
O que parecia uma consolidação gradual do nome escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, seu 01, para liderar o projeto conservador nacional começa a se transformar em problema político, eleitoral e familiar. E dos grandes.
Flávio Bolsonaro entrou efetivamente no tabuleiro presidencial em novembro do ano passado, quando foi ungido pelo pai como presidenciável do grupo bolsonarista. A partir dali, passou a ocupar espaço crescente no debate nacional, ainda que sem o mesmo carisma popular do ex-presidente ou a densidade administrativa de outros nomes da direita.
Tempo certo
Mas havia uma bomba-relógio armada. A visita de Flávio ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, então em prisão domiciliar e utilizando tornozeleira eletrônica, evidentemente não era desconhecida nos bastidores de Brasília. Muita gente sabia. E talvez isso explique o comportamento quase contemplativo do PT e do Palácio do Planalto diante do crescimento do senador nos últimos meses.
Corda pra se enforcar
Não houve ataques. Não houve enfrentamento direto. Não houve contraofensiva. Agora fica claro que o lulismo apenas aguardava o momento politicamente mais conveniente para deixar o episódio explodir.
Bastidores
Em Brasília, ninguém acredita em coincidências quando temas dessa magnitude emergem de maneira cirúrgica. Supremo Tribunal Federal, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República, governo federal e PT acabam orbitando o mesmo ambiente político-institucional. Ainda que formalmente distintos, frequentemente operam sob interesses convergentes. É o consórcio que manda, comanda e persegue. O vazamento do caso não ocorreu por acaso nem no improviso. Foi cálculo político.
Ingenuidade
O problema central é que Flávio Bolsonaro, sempre tratado dentro da própria família como o mais moderado e ajuizado dos filhos do ex-presidente, acabou cometendo um erro primário de avaliação política. Porque não se trata apenas da aproximação com Daniel Vorcaro. Trata-se da sucessão de imprudências.
Infantilidade
Gravação de mensagens, interlocução inadequada, ausência de filtros e, sobretudo, incapacidade de perceber a dimensão explosiva de um contato com um personagem já profundamente desgastado no sistema financeiro e sob investigação. A alegação de desconhecimento sobre a situação pretérita de Vorcaro soa frágil politicamente. Afinal, tratava-se de um cidadão em prisão domiciliar, usando tornozeleira eletrônica. O simbolismo é devastador.
Família
O episódio também escancara outra questão estrutural do bolsonarismo: o projeto familiar acima do projeto político. A família Bolsonaro trabalhou intensamente para impedir que se consolidasse uma candidatura natural de Tarcísio de Freitas. E não apenas porque governa o maior estado da federação.
Currículo
Tarcísio reúne atributos objetivos que o colocariam em posição altamente competitiva: preparo técnico, agilidade política, desenvoltura pública e experiência administrativa robusta. Primeiro no Ministério da Infraestrutura do governo Bolsonaro e agora à frente do segundo maior orçamento da República. Mas prevaleceu a lógica familiar.
Sobrenome
Não se estruturou um projeto partidário. Nem institucional. Nem ideológico. Estruturou-se um projeto de poder centrado no sobrenome Bolsonaro. Eis o ponto central da crise.
Sem Plano
Com Jair Bolsonaro inelegível para a Presidência, restaram poucas alternativas viáveis dentro do PL. Se Romeu Zema e Ronaldo Caiado não conseguirem tração nacional suficiente, o cenário passa a favorecer enormemente Lula, mesmo com toda a rejeição acumulada pelo governo federal.
Inacreditável
E aqui reside o aspecto mais impressionante do momento político: Lula pode caminhar para uma reeleição mesmo carregando desgaste administrativo, aumento de reprovação e fadiga do próprio eleitorado. Não pela força do lulismo. Mas pela desorganização da oposição.
Alternativas
O PL começa a perceber que talvez precise procurar uma alternativa fora do núcleo familiar. Mas qual? Michelle Bolsonaro enfrentaria resistências internas imediatas, especialmente na convivência política com Flávio e os demais filhos do ex-presidente.
Rogério Marinho possui preparo técnico e qualidade parlamentar reconhecida, mas não demonstra apelo popular nacional.
Desconhecida
O mesmo vale para Tereza Cristina, respeitada politicamente, porém sem densidade eleitoral suficiente para liderar um projeto presidencial competitivo.
Ou seja: o campo conservador hoje não possui uma solução simples.
Reflexos
E Santa Catarina entra diretamente nessa equação. Dois irmãos de Flávio Bolsonaro têm projetos eleitorais no estado: Carlos Bolsonaro aparece como pré-candidato ao Senado, enquanto Jair Renan Bolsonaro surge como nome para a Câmara Federal. Se Flávio continuar sangrando politicamente, os reflexos serão inevitáveis.
Contaminação
Caso permaneça candidato, mas em trajetória descendente, poderá contaminar eleitoralmente o grupo. Caso seja removido da disputa, abre-se outra crise: quem herdará o espólio político e como ficará o alinhamento interno do PL?
Risco
Especialmente em Santa Catarina, onde o bolsonarismo segue extremamente competitivo e influencia diretamente a montagem da chapa majoritária.
Os próximos movimentos definirão não apenas o futuro da direita nacional, mas também parte importante da engenharia eleitoral catarinense para 2026.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.