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Santa Catarina manteve sua posição. Brasília precisa respeitar as urnas

Por Cláudio Prisco Paraíso
29/10/2026 - 08h22

É impressionante a semelhança entre os resultados presidenciais do segundo turno em Santa Catarina.

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Flávio Bolsonaro conquistou 69,42%, contra 30,58% de Lula. Em 2022, Jair Bolsonaro fez 69,27%, enquanto o petista recebeu 30,73%.

A diferença é de apenas 0,15 ponto percentual. Apenas mudou o nome na urna: saiu o pai e entrou o filho. A posição predominante do eleitorado catarinense permaneceu praticamente intacta.

Identidade conservadora

Não foi um entusiasmo passageiro nem uma onda que desapareceu depois de quatro anos. Nada verdade, tudo começou já em 2018. Santa Catarina reafirmou seu perfil conservador e sua resistência ao projeto petista.

Lula venceu nacionalmente, mas voltou a encontrar uma barreira robusta no estado.

O resultado precisa ser compreendido por Brasília. O catarinense tem o direito de escolher seu campo político sem receber tratamento de adversário administrativo.

Jorginho entregou

Jorginho Mello cumpriu sua parte. Reelegeu-se no primeiro turno e trabalhou por uma votação expressiva de Flávio nas duas etapas da disputa.

Também se empenhou pela eleição de Carlos Bolsonaro ao Senado e de Jair Renan à Câmara Federal.

Entregou apoio, estrutura e resultado. A derrota nacional não apaga o desempenho catarinense nem autoriza colocar na conta do governador o que ocorreu fora de suas fronteiras.

Fidelidade antiga

Essa ligação não começou agora. Em 2022, Jorginho acolheu a candidatura de Jorge Seif ao Senado, alinhando sua chapa à preferência de Jair Bolsonaro.

Quatro anos depois, voltou a investir nessa associação. O PL conquistou as duas vagas em disputa e terá os três senadores catarinenses.

Lembrando ainda que elegeu sete deputados federais e 16 estaduais.

É uma demonstração de força político-partidária. Jorginho sai fortalecido no estado, embora tenha perdido a perspectiva de contar com um aliado no Planalto.

Convivência difícil

Jorginho e Lula mantiveram uma relação politicamente distante, marcada por críticas e provocações. Os encontros institucionais coletivos não produziram uma interlocução próxima.

O segundo mandato de ambos começa sob o peso de uma campanha radicalizada. Nada indica uma aproximação espontânea.

Mas governador e presidente não precisam gostar um do outro. Precisam cumprir suas obrigações. A população não pode pagar pela incompatibilidade entre os dois.

Diálogo sem submissão

Jorginho será cobrado a buscar diálogo com o governo federal. Deve fazê-lo com firmeza, sem renunciar às posições que o elegeram.

Relacionamento institucional não exige conversão ao petismo. Tampouco significa baixar a cabeça diante de Lula.

O governador representa Santa Catarina. Tem de apresentar demandas, cobrar recursos e exigir tratamento compatível com a importância econômica do estado. Interlocução não pode ser confundida com submissão.

Recurso não é favor

Rodovias, acessos portuários, infraestrutura e gargalos logísticos precisam de decisões federais. São necessidades concretas de uma economia que trabalha, produz e recolhe impostos.

Dinheiro público não sai do bolso do presidente. Obra federal não é presente para estado politicamente obediente.

Lula também tem a obrigação de construir essa convivência. Governar para todos inclui respeitar quem lhe impôs uma derrota esmagadora nas urnas catarinenses.

Décio no horizonte

A continuidade de Décio Lima à frente do Sebrae Nacional é uma possibilidade política. Sua proximidade com Lula mantém o petista no circuito de influência federal.

Isso, porém, não lhe devolve automaticamente a força eleitoral. Cargo e interlocução não substituem votos.

A esquerda catarinense precisa compreender por que conserva acesso ao poder em Brasília, mas encontra tanta dificuldade para ampliar sua presença nas urnas estaduais.

Merísio ficou abaixo

Gelson Merísio terminou com 15,66%, abaixo dos cerca de 17,4% de Décio no primeiro turno de 2022. Também ficou distante dos 25,04% obtidos por Lula na primeira rodada deste ano.

A promessa de atrair o centro não se materializou. Nem o eleitorado presidencial petista foi integralmente transferido para a candidatura ao governo.

Merísio passou João Rodrigues, mas não incomodou Jorginho. A segunda posição não transforma um resultado eleitoral modesto em demonstração de força.

Brasília e as conexões

Um eventual aproveitamento de Merísio no governo federal dependerá de articulação política e do peso de suas relações empresariais, inclusive com o grupo JBS, cuja empresa de terminais opera em Itajaí.

Mas nenhuma composição substitui a obrigação central dos governos: atender Santa Catarina.

O estado manteve sua posição nas urnas. Jorginho precisa cobrar. Lula precisa governar também para os catarinenses.

Divergência política não pode virar castigo administrativo. Santa Catarina não tem de pedir desculpas por ser conservadora.

Flávio nos EUA: o “imperador” já não controla todo o tabuleiro

Por Cláudio Prisco Paraíso
28/10/2026 - 08h04

A eleição terminou, mas a ofensiva contra Flávio Bolsonaro não esperou a poeira baixar. O tratamento dispensado ao senador tem contornos de perseguição política. A derrota nas urnas foi imediatamente acompanhada por restrições determinadas por Alexandre de Moraes.

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Quase 60 milhões de brasileiros votaram em Flávio. Esse patrimônio político não pode ser apagado pela caneta de um ministro. Sua saída do Brasil abre a possibilidade de uma estratégia para preservar a liderança e levar o enfrentamento ao exterior.

Sete minutos

Segundo reportagem sobre a cronologia do caso, a Polícia Federal pediu a apreensão do passaporte de Flávio sete minutos depois da confirmação de sua derrota.

Sete minutos. Uma velocidade impressionante num país em que investigações e processos frequentemente se arrastam durante anos.

A pergunta é inevitável: o que justificava tamanha urgência naquele momento? A sequência exige uma explicação pública convincente. O habitual “cumpra-se” não basta.

O imperador de toga

Alexandre de Moraes, o Xandão, parece confortável no papel de imperador da República. Decide, restringe, impõe e espera obediência. Quando surgem críticas, o discurso da defesa das instituições entra em cena.

Mas instituição não é propriedade de ministro. Defender o Supremo não significa conceder poderes ilimitados aos seus integrantes.

A Constituição não criou uma monarquia judicial.

A autoridade em questão

Com que autoridade moral Moraes exige confiança irrestrita enquanto deve explicações sobre suas relações com Daniel Vorcaro e o contrato milionário do escritório de sua mulher com o Banco Master?

O rigor que cobra dos outros precisa alcançar sua própria porta. Relações dessa dimensão exigem respostas públicas, investigação independente e transparência absoluta.

O Supremo não pode funcionar como escudo dos próprios integrantes. Cada esclarecimento adiado aprofunda o desgaste da Corte. O cargo exige responsabilidade. Não concede blindagem.

Uma operação articulada

Segundo aliados ouvidos pela Folha de S.Paulo, o governo Trump está ciente da chegada de Flávio aos Estados Unidos. Um interlocutor afirma que a administração americana teria participado ativamente do plano para retirá-lo do Brasil.

O relato reforça a hipótese de uma operação planejada diante da ofensiva judicial. A participação pessoal atribuída a Marco Rubio ainda depende de confirmação.

Se comprovado esse envolvimento, o episódio terá alcançado um patamar muito superior ao de uma simples viagem.

Washington observa

Até as informações disponíveis nesta terça-feira, Trump não havia reconhecido publicamente a vitória de Lula. Também questionou a eleição brasileira, sem apresentar provas.

Flávio encontra nesse ambiente espaço para levar suas contestações sobre o uso da máquina governamental e a atuação do Judiciário a interlocutores americanos.

O Planalto terá de responder politicamente a essa exposição. Uma vitória eleitoral não coloca os atos do governo acima de questionamento.

Fora do alcance da caneta

Estar nos Estados Unidos pode permitir a Flávio organizar apoios e ampliar a repercussão das medidas que denuncia como persecutórias.

A estratégia será testada por sua capacidade de manter o eleitorado mobilizado e construir uma agenda de oposição que ultrapasse a defesa pessoal.

Moraes pode determinar restrições no Brasil. Não controla o debate americano nem a repercussão de seus atos fora do país. Nesse palco, o “imperador” não dá a última palavra.

A hora do Senado

A pressão externa pode ampliar o desgaste do Supremo. Mas a resposta institucional precisa vir do Congresso brasileiro.

Os senadores conservadores serão cobrados pelos compromissos assumidos. Os pedidos de impeachment precisam ser examinados com seriedade, pelos procedimentos constitucionais, sem serem enterrados por conveniência política.

Chega de valentia eleitoral seguida de acomodação em Brasília.

A direita permanece forte

Lula venceu a eleição. A direita continua com governadores, bancadas e milhões de brasileiros que rejeitam o projeto petista.

Tarcísio de Freitas e as demais lideranças terão papel decisivo. Flávio poderá manter protagonismo se transformar essa movimentação em atuação consistente.

O resultado precisa ser reconhecido. O governo precisa ser fiscalizado. E os excessos do Judiciário precisam ser enfrentados pelos meios constitucionais.

A eleição acabou. A oposição continua. O Brasil não pertence ao PT, e a República não pertence a Alexandre de Moraes.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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