Santa Catarina recebe neste sábado os dois protagonistas da disputa presidencial. Na programação apresentada, Lula estará pela manhã na Praça Tancredo Neves, em Florianópolis. Flávio Bolsonaro terá agenda em Joinville e, à tarde, em Chapecó.
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Serão demonstrações de força. Lula tenta renovar o entusiasmo de sua base. Flávio busca transformar o sentimento antipetista em mobilização e votos.
Disputa apertada
O Datafolha divulgado nesta semana apresenta Lula com 46% e Flávio Bolsonaro com 44% no segundo turno. Os números configuram empate técnico, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais. No primeiro turno, Lula aparece com 39%, contra 36% de Flávio.
É um retrato que exige cautela de quem já trata a eleição como resolvida.
Também seria precipitado decretar o favoritismo de Flávio. A oposição tem espaço para buscar a vitória, mas precisa converter expectativa em resultado. Eleição apertada não se ganha com comemoração antecipada.
O peso do Supremo
A crise do STF oferece à direita um argumento de campanha que o Planalto preferiria evitar: a cobrança por limites, transparência e responsabilidade de autoridades que acumularam enorme poder.
Na leitura desta coluna, a associação política de Lula com a defesa de Alexandre de Moraes aumenta seu desgaste. Isso não significa que cada oscilação nas pesquisas possa ser atribuída ao Supremo. Significa que o presidente tem mais um problema para explicar.
Socorro eleitoral
O reajuste de 15,04% do Bolsa Família chega na reta final da eleição. O governo apresenta a medida como recomposição do poder de compra. Politicamente, porém, o calendário fala alto.
O novo valor mínimo do benefício passa de R$ 600 para R$ 691, com os pagamentos reajustados começando em outubro. O governo estima que a medida terá impacto de R$ 5,8 bilhões nas contas de 2026.
Ajudar famílias vulneráveis é necessário. O questionamento é outro: por que a resposta ganha tamanha urgência justamente quando o eleitor está prestes a decidir? Benefício social é política pública e não pode ser tratado como favor de candidato.
A conta fica
O aumento também exige acomodação no Orçamento. A campanha pode celebrar o anúncio, mas alguém terá de explicar como a despesa será financiada.
O brasileiro precisa de renda que dure, emprego e preços que caibam no salário. Medidas de última hora não substituem uma política econômica capaz de devolver tranquilidade às famílias. O palanque passa; a conta permanece.
Senado em foco
O desgaste do Supremo pode pesar especialmente na disputa pelo Senado. A eleição dos senadores ganha importância para quem cobra fiscalização e responsabilidade dos integrantes da Corte.
Para a direita, esse debate precisa sair da indignação genérica. O eleitor deve saber quais compromissos cada candidato assume e como pretende exercê-los dentro da Constituição. Discurso inflamado sem atuação posterior é apenas propaganda.
A força catarinense
Santa Catarina oferece a Flávio um ambiente favorável para ampliar a mobilização conservadora. Mas herança política não é transferência automática de votos.
A referência é a votação expressiva de Jair Bolsonaro em 2022. Aproximar-se daquele desempenho exige organização, presença e capacidade de dialogar também com quem rejeita o PT, mas ainda não se decidiu pelo filho do ex-presidente.
Fadiga de poder
Lula disputa a Presidência pela sétima vez. Sua trajetória assegura reconhecimento, mas também permite à oposição explorar o cansaço com um projeto político que ocupa o centro do debate nacional há décadas.
Flávio tem a oportunidade de apresentar a alternância como caminho. Para aproveitá-la, precisa mostrar o que pretende fazer com a economia, a segurança e o funcionamento das instituições. A rejeição ao adversário abre portas; uma proposta consistente ajuda a conquistar a confiança.
O teste das ruas
Os atos deste sábado serão um teste de mobilização. Público em praça não substitui pesquisa nem urna, mas revela disposição para fazer campanha.
Lula precisa demonstrar capacidade de reação. Flávio precisa dar consistência à promessa de mudança.
Em Santa Catarina, a direita tem terreno para crescer. O ponto de referência é o desempenho de Jair Bolsonaro em 2022, quando recebeu 62% dos votos válidos no primeiro turno e 69% no segundo.
Repetir esses percentuais é outra questão. A atual pesquisa nacional mostra uma disputa apertada, mas não permite projetar automaticamente para Santa Catarina o resultado de 2022. O que o desempenho anterior demonstra é a existência de uma base eleitoral expressiva no Estado, que agora será colocada novamente à prova nas urnas.
Não é apenas Lula que tem motivos para se preocupar com a crise do Supremo. O desgaste pode alcançar candidatos que compartilham seu palanque e ajudaram a transformar Alexandre de Moraes em símbolo da defesa da democracia.
A sessão de terça-feira manteve o STF no centro da campanha. O adiamento deixou as suspeitas abertas e o Planalto sem o encerramento político que poderia lhe dar algum alívio.
Investigar é o mínimo
A questão não era condenar Moraes nem transformá-lo automaticamente em réu. Discutia-se o caminho para examinar suspeitas envolvendo sua relação com Daniel Vorcaro.
Investigar é esclarecer. Se existem elementos que justificam apuração, o cargo não pode funcionar como escudo. Um ministro deve ter garantias de defesa, mas não uma imunidade informal contra perguntas incômodas.
Transparência real
Moraes nega irregularidades. Uma apuração independente interessa, portanto, à própria credibilidade da Corte.
Mensagens, contratos e eventuais vínculos precisam ser examinados com rigor. O acesso a dados deve seguir os requisitos legais. Mas a posição institucional do investigado não pode impedir diligências justificadas.
A resposta precisa vir das provas, não do prestígio da toga.
O passado acompanha
Em 2019, a mudança de entendimento do STF sobre a prisão após condenação em segunda instância permitiu a soltura de Lula. Em 2021, Fachin anulou suas condenações da Lava Jato e ele recuperou a elegibilidade.
São decisões diferentes, com fundamentos próprios. O efeito político foi decisivo para seu retorno à disputa. Esse histórico ajuda a explicar a dificuldade de Lula para se apresentar como observador distante da crise.
A ligação com Moraes
Na presidência do TSE em 2022, Moraes se tornou alvo central das críticas da direita à condução da eleição. Lula e seus aliados defenderam sua atuação.
Isso não permite atribuir a vitória eleitoral a um magistrado. Mas estabelece uma associação política que não desaparece por conveniência. Quem celebrou o ministro quando suas decisões atingiam adversários agora precisa cobrar responsabilidade diante das suspeitas contra ele.
A indicação de Temer
É verdade que Moraes foi indicado ao Supremo por Michel Temer. Antes, havia sido secretário da Segurança Pública de São Paulo no governo Geraldo Alckmin, hoje vice de Lula.
Lembrar quem assinou a indicação é insuficiente. A cobrança sobre Lula recai diante da crise e a defesa que seu campo político fez do ministro.
Os indicados de Lula
Cristiano Zanin votou pela reunião dos casos de Moraes e André Mendonça. Flávio Dino defendeu o mesmo encaminhamento e pediu vista, suspendendo a análise antes do mérito.
Não houve decisão definitiva impedindo uma investigação. Houve adiamento. E ele prolonga um problema político para o presidente que indicou os dois.
Ganhar tempo dentro do tribunal pode significar mais dias de desgaste fora dele.
Alerta no Senado
Em São Paulo, a pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta semana traz Guilherme Derrite com 19%, Simone Tebet e André do Prado com 17% cada, e Marina Silva com 13%. Há empates técnicos, considerando a margem de dois pontos.
O quadro mostra competição, não vagas asseguradas ao campo governista. Mas o levantamento antecede a sessão: não mede seu efeito nem comprova que a crise do STF provocou esses números.
O desgaste continua
Por que uma Corte que exige tanto dos outros encontra tamanha dificuldade para esclarecer suspeitas sobre um dos seus?
Lula pode tentar se afastar. Seus aliados também. Mas a associação política continuará sendo cobrada enquanto faltarem respostas.
O Supremo adiou uma decisão. O debate eleitoral continua. E o custo dessa crise pode chegar a muito mais gente do que aos ministros sentados no plenário.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.