A poucos dias das eleições de 4 de outubro, a disputa pelo Senado merece atenção especial. A força das candidaturas conservadoras alimenta a perspectiva de uma maioria de direita na próxima legislatura.
Em vários Estados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais(os três maiores colégios), Distrito Federal(Capital federal) e tantos outros do Centro Oeste para baixo, as eleições estão virando. Em São Paulo, a Quaest mostra Guilherme Derrite numericamente à frente de Marina Silva e Simone Tebet. E André do Prado já ameaça as ex-ministras. Não significa eleição liquidada, mas demonstra que a esquerda está longe de encontrar terreno livre até mesmo com seus nomes mais conhecidos.
O desgaste do Supremo e a competitividade de Flávio Bolsonaro ajudam a colocar a eleição dos senadores no centro do debate. O eleitor conservador percebe que a disputa pelo poder não termina na Presidência da República.
Eleger o presidente e deixar o Senado nas mãos dos adversários seria uma vitória incompleta. É essa compreensão que pode fortalecer as candidaturas da direita na reta final.
Aqui não surpreende
Em Santa Catarina, esse cenário encontra um eleitorado que já demonstrou sua preferência conservadora em eleições anteriores. O movimento nacional pode reforçar uma disposição que existe aqui há muito tempo.
A perspectiva de eleger dois senadores conservadores, portanto, não nasceu agora. Já estava desenhada na pré-campanha. A questão mais eletrizante é saber quais nomes ocuparão essas duas cadeiras.
O problema de Décio
Décio Lima tenta abrir espaço nesse ambiente. Politicamente, as declarações desastradas de Lula em sua passagem pelo estado dificultaram a aproximação com o eleitor que a esquerda precisava conquistar.
Mas é preciso separar essa avaliação dos números: na Quaest de 24 de setembro, Décio passou de 9% para 10%, uma oscilação positiva. Continua atrás dos três primeiros, embora alcance Carlos Bolsonaro e Esperidião Amin no limite da margem de erro.
Três para duas
Carol de Toni, Carlos Bolsonaro e Esperidião Amin formam o primeiro pelotão numérico. Na mesma Quaest, aparecem com 17%, 16% e 15%, respectivamente, e tecnicamente empatados.
É aí que está o nervo da disputa. Três candidaturas competitivas para apenas duas vagas. Se esse quadro prevalecer, um necessariamente vai sobrar. Sobrenome, trajetória e estrutura partidária entram na conta, mas nenhum desses ingredientes assegura a cadeira antecipadamente.
O azarão
Correndo por fora está Antídio Lunelli. Chegou tarde à disputa e ainda aparece distante dos primeiros colocados. Isso não impede que sua campanha mereça atenção.
Trata-se de uma candidatura leve, com uma apresentação capaz de conversar com quem não escolhe seus dois senadores apenas pela fidelidade partidária. Se haverá tempo e força para surpreender, é outra questão. Mas seria precipitado ignorar seu potencial de conquistar o segundo voto.
Um perfil próprio
Lunelli tem um diferencial: sua trajetória passou pela agricultura, pelo empreendedorismo e pela atividade empresarial antes de chegar à prefeitura de Jaraguá do Sul e à Assembleia Legislativa.
Essa experiência oferece um discurso próprio. Ele pode falar da produção, do trabalho e dos desafios de quem emprega a partir daquilo que viveu. Não é garantia de voto, evidentemente. É uma identidade que sua campanha tem condições de explorar.
O voto traiçoeiro
Nunca podemos perder de vista: o segundo voto é muito traiçoeiro.
Os dois votos têm o mesmo peso na apuração. Um candidato pode não ser a preferência inicial de grande parte do eleitorado e, ainda assim, reunir segundas escolhas suficientes para chegar ao Senado.
É nesse espaço que Lunelli pode buscar crescimento além do MDB. E é também por isso que ninguém do primeiro pelotão deveria se comportar como eleito.
Carisma conta
Amin transborda carisma. Carol transmite empatia na veia. Carlos tem a força do sobrenome Bolsonaro. Lunelli procura transformar sua história de vida em identificação com o eleitor.
Santa Catarina tem tudo para mandar dois conservadores ao Senado. Mas a definição dos nomes permanece aberta.
Na disputa mais eletrizante do estado, o segundo voto pode desarrumar a festa de quem já se considera vencedor.
Há meses venho apontando quatro deficiências da candidatura de João Rodrigues: falta de identidade, de discurso, de estratégia e de viabilidade eleitoral. Agora acrescento uma quinta: falta palanque presidencial capaz de impulsioná-lo.
Não basta se apresentar como conservador. É preciso convencer o eleitor de que existe uma razão para trocar Jorginho Mello por João. Até aqui, os números mostram que essa resposta não chegou.
Merísio encosta
Na Quaest de 24 de setembro, João caiu de 17% para 13%, enquanto Gelson Merísio passou de 4% para 10%. A distância despencou de 13 para três pontos.
É o movimento que temos registrado: Merísio pode reunir o eleitorado de esquerda e disputar a segunda posição. Não significa provocar segundo turno. Significa tirar de João até a condição de principal adversário do governador.
O efeito imagem
A passagem de Lula deixou evidente quem é seu candidato em Santa Catarina. É o efeito imagem. É a fotografia.
As declarações desastradas do presidente podem dificultar a aproximação de Merísio com o centro, mas a identificação com Lula ajuda a organizar o voto de esquerda. Os percentuais não demonstram, sozinhos, de onde veio cada voto. Politicamente, porém, Merísio ganhou uma referência que João continua sem conseguir estabelecer.
O palanque encolheu
Ronaldo Caiado aparece com 3% entre os catarinenses na mesma rodada da Quaest. Flávio Bolsonaro chegou a 50%, contra 45% em agosto. A distância é de 47 pontos.
Esse é o tamanho do problema. Caiado oferece a João uma candidatura presidencial formal, mas pouca força eleitoral no estado. Enquanto Jorginho tem um presidenciável competitivo ao lado, João carrega um aliado que também luta para ganhar tração.
O recado de Criciúma
A manifestação de Vaguinho Espíndola em favor de Flávio expõe o dilema do PSD. Uma liderança importante do partido procura no candidato do PL a força que Caiado não oferece.
A menção a Júlio Garcia e Clésio Salvaro reforça a dimensão regional do movimento, embora não permita presumir um acordo entre eles. O recado político é suficiente: a fidelidade à candidatura presidencial do PSD está sob pressão dentro do próprio partido.
A saída estreita
João já declarou que apoiará Flávio em eventual segundo turno contra Lula, mantendo Caiado no primeiro. Mas nem uma adesão imediata ao candidato do PL resolveria automaticamente sua dificuldade.
O eleitor bolsonarista já encontra em Jorginho uma ligação consolidada. Trocar a declaração de apoio na reta final não transfere esse eleitorado por decreto. João pode mudar o discurso presidencial. O problema da candidatura estadual permanece.
Jorginho ocupou
A associação de Jorginho com Jair Bolsonaro vem de 2022. Agora, Flávio divide seu palanque, Carlos disputa o Senado pelo PL e Jair Renan concorre à Câmara.
João teria de convencer esse mesmo eleitor a abandonar seu principal aliado estadual(Jorginho), por conta do apoio que ele passaria a dar ao presidenciável do PL, partido presido em SC pelo próprio governador. Uma operação impraticável, ainda mais quando Jorginho aparece com larga vantagem.
Sem eira nem beira
Politicamente, João corre o risco de ficar sem eira nem beira: perde espaço para Merísio e não consegue retirar de Jorginho o domínio do campo bolsonarista.
A queda de quatro pontos na Quaest é um sinal de alerta. Corre o sério risco de terminar com um dígito, embora isso seja uma projeção, não uma conclusão do levantamento estatístico. O que está demonstrado é o recuo. A reação ainda precisa aparecer.
Batendo o pino
É nesse contexto que as candidaturas proporcionais começam a bater o pino. O cabeça de chapa não entrega a força esperada, e os aliados procuram outro caminho para impulsionar suas próprias campanhas.
A aproximação com Flávio pode ajudá-los. Para João, o benefício é bem menos evidente. Seus companheiros encontram um palanque para seguir adiante. Ele continua procurando uma razão capaz de fazer sua candidatura sair do lugar.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.