O primeiro debate do segundo turno, domingo à noite, na Bandeirantes, recebeu críticas pela escassez de propostas. Faltou aprofundamento? Faltou. Mas não há novidade no enfrentamento político ocupar o centro do palco.
:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui
Historicamente, cada candidato procura explorar as fragilidades do adversário. Debate presidencial não é seminário. É disputa pelo poder, com todas as suas asperezas.
Houve conteúdo
Não cabe dizer que não se discutiu absolutamente nada. Flávio Bolsonaro encontrou espaço em segurança pública, economia, responsabilidade fiscal e endividamento dos microempreendedores.
Lula ensaiou uma reação na saúde, seu melhor momento, mas ficou por aí. No confronto direto, o eleitor também observa preparo, equilíbrio e capacidade de responder sob pressão.
Pregação aos convertidos
As manifestações foram dirigidas quase exclusivamente aos convertidos. Cada qual abastecendo seu eleitorado com argumentos, provocações e frases prontas para circular nas redes sociais.
Faltou uma abordagem capaz de arrancar o indeciso de sua posição. O confronto produziu munição para as militâncias. Produziu bem menos razões novas para quem ainda não escolheu.
A surpresa foi Flávio
Na estreia em um debate presidencial, Flávio mostrou uma desenvoltura que impressionou. Seguro, tranquilo, articulado, preparado e treinado.
Não se apequenou diante de um presidente que disputa o Planalto pela sétima vez. Tampouco deixou que a experiência do adversário comandasse o encontro.
O estreante entrou para disputar a condução do debate. E conseguiu fazê-lo em momentos importantes, sobretudo nos primeiros blocos.
O veterano travou
Lula também surpreendeu, mas pela dificuldade de concatenar respostas e organizar algumas abordagens. Apresentou-se travado, irritadiço e, em determinados momentos, colérico.
Desde a fundação do PT, em 1980, são 46 anos de atividade partidária. Mais tempo do que os 45 anos de vida de Flávio.
Experiência não lhe falta. Faltou transformar essa bagagem em superioridade diante das câmeras. O veterano não conseguiu enquadrar o estreante.
A fama não resolve
Pode ter pesado a autossuficiência. A velha fama de encantador de serpentes não substitui preparação. Muito menos garante domínio sobre um adversário que chega sabendo o que pretende dizer.
Há políticos de perfil caudilhesco que se acostumam ao aplauso e confundem trajetória com desempenho assegurado.
Não basta invocar o passado. É preciso responder no presente. Lula esteve longe da desenvoltura de que sua campanha precisava.
A obrigação era dele
Lula já chegou atrás a um segundo turno em 1989, contra Fernando Collor. Agora, disputa a reeleição, com a máquina federal nas mãos, depois de terminar a primeira rodada atrás de Flávio.
Precisava produzir um acontecimento capaz de movimentar a semana decisiva. Necessitava de uma reação contundente. Não conseguiu.
Flávio precisava sustentar sua posição e demonstrar condições de enfrentar o presidente. Saiu mais confortável dessa tarefa.
O risco da abstenção
O indeciso que não encontra motivo para escolher pode terminar na abstenção, no branco ou no nulo. Não é destino certo, mas representa um risco para as duas campanhas.
Para quem corre atrás, deixar de conquistar esse eleitor é desperdiçar uma oportunidade. Lula precisava ampliar. Falar apenas para os seus é insuficiente.
Melhor no confronto
Ganhar um debate não significa ganhar a eleição. Mas Flávio saiu-se melhor na forma e encontrou passagens consistentes no conteúdo.
Não cabe decretar mudança eleitoral antes das pesquisas posteriores. Lula, porém, não impôs a superioridade que seu tempo de estrada sinalizava.
A pressão continua sobre o presidente. A estreia de Flávio não ofereceu ao PT o tropeço de que tanto precisava.
A última oportunidade
Agora vêm os cortes, as redes sociais e o aproveitamento eleitoral de cada passagem. Na sexta-feira, 23, a Globo receberá o último confronto antes da votação de domingo.
Lula terá outra oportunidade. Mas chegará com uma obrigação ainda maior: fazer o que não fez na Band.
A experiência estava do lado dele. A desenvoltura, desta vez, esteve do outro.
Entramos na derradeira e decisiva semana da disputa presidencial. Domingo, 25, o eleitor dará a palavra final. Em Santa Catarina, a pergunta não é apenas quem vencerá, mas qual será o tamanho da vantagem de Flávio Bolsonaro.
: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui
O primeiro turno já deixou um recado contundente. Agora, a direita trabalha para transformar a dianteira numa votação esmagadora.
Sem passagem prevista
Como já havíamos registrado, não há retorno previsto dos presidenciáveis ao estado. Santa Catarina é o décimo colégio eleitoral, e a concentração das campanhas está nos territórios mais populosos.
Flávio esteve em Porto Alegre na semana passada. Jorginho Mello e Sergio Moro foram à capital gaúcha se incorporar ao anfitrião Luciano Zucco. Três governadores liberais mobilizados pelo mesmo projeto presidencial.
O tripé decisivo
Lula tenta ampliar sua vantagem no Nordeste e conter o avanço adversário em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Não é uma tarefa pequena. São os três maiores colégios eleitorais do país.
Flávio tem nesses estados os governadores vitoriosos Tarcísio de Freitas, Cleitinho e Douglas Ruas. Lula não dispõe de estrutura política equivalente. Uma coisa é subir ao palanque. Outra é contar com lideranças que acabaram de receber o respaldo das urnas.
A primeira onda
Em 2018, Santa Catarina foi atingida em cheio pela onda bolsonarista. Jair Bolsonaro chegou perto dos 76% dos votos válidos no segundo turno contra Fernando Haddad.
Não foi uma vitória qualquer. Foi um atropelamento eleitoral. O conservadorismo catarinense encontrou uma candidatura nacional com a qual se identificava e respondeu de maneira avassaladora.
Lula cresceu pouco
Em 2022, Bolsonaro passou de aproximadamente 62% no primeiro turno para perto de 70% no segundo. Lula saiu de cerca de 29% e terminou com 30%.
A diferença de capacidade de expansão foi brutal. Bolsonaro incorporou uma parcela expressiva dos votos disponíveis. Lula praticamente bateu no teto.
Santa Catarina voltou a mostrar que a resistência ao PT não era um episódio passageiro.
O filho largou acima
Agora, Flávio conquistou 66,65% dos votos válidos já no primeiro turno. Lula ficou com 25,04%.
O filho de Bolsonaro começou acima do desempenho inicial do pai em 2022. O petista, ao contrário, perdeu terreno. São pontos de partida muito distintos.
Flávio pode ultrapassar os 70%? Pode. Aproximar-se dos 75% de 2018? É a ambição da mobilização conservadora. Não é resultado assegurado, mas tampouco uma pretensão descabida.
Força nas ruas
A motociata de sábado em Florianópolis reuniu, segundo estimativa da Polícia Militar divulgada pela imprensa, 15 mil motos e 50 mil participantes.
Jorginho recebeu Moro, Zucco e lideranças dos três estados. Houve também mobilização na água, com a participação de motos aquáticas. Foi uma demonstração vigorosa da força conservadora.
Os três governadores e os seis senadores eleitos no Sul estão alinhados ao projeto de Flávio. É uma estrutura política de peso. Mas bandeira na rua precisa virar comparecimento à urna.
A esquerda reagiu
A esquerda também promoveu concentrações expressivas em Criciúma e Florianópolis. Não há razão para ignorá-las.
O problema é outro: reunir os convertidos não significa ampliar o eleitorado. O desafio de Lula é conquistar quem não votou nele, e não apenas entusiasmar quem já está ao seu lado.
Militância animada ajuda uma campanha. Sozinha, não derruba uma diferença dessa dimensão.
Merísio não entregou
A candidatura de Gelson Merísio expôs essa dificuldade. Terminou com 15,66%, abaixo do desempenho de Décio Lima em 2022 e quase dez pontos atrás de Lula neste primeiro turno.
A expectativa era aproveitar sua passagem pelo PFL e pelo PSD para buscar votos no centro e na direita. Não aconteceu.
Merísio não construiu a ponte prometida. E nem sequer reproduziu integralmente a votação presidencial da esquerda. A estratégia de ampliação terminou numa candidatura eleitoralmente estreita.
O tamanho da resposta
Domingo mostrará se Santa Catarina repetirá algo mais próximo de 2022 ou de 2018.
O primeiro turno foi profundamente desfavorável à esquerda. Lula recuou, Merísio não ampliou e a direita saiu fortalecida.
Agora, não basta comemorar antecipadamente. A eleição exige mobilização até o último instante. Flávio já tem uma vantagem expressiva. O desafio é transformá-la numa diferença ainda maior.
A grande expectativa não é sobre a disposição conservadora de Santa Catarina. É sobre o tamanho da resposta que sairá das urnas.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.