A semana política catarinense convergiu integralmente para o Sul do estado. Não por acaso. A região se transformou, nos últimos dias, no principal palco da movimentação dos atores centrais da disputa ao governo em 2026. O roteiro não foi casual. Muito menos despretensioso.
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Na terça e quarta-feira, o ex-prefeito de Joinville, Adriano Silva, do Novo, circulou por Criciúma, Araranguá e outros municípios da região Sul. Levou consigo uma mensagem cada vez menos velada nos bastidores: a de que está consolidado como o nome mapeado para compor dobradinha com o governador Jorginho Mello no projeto de reeleição. Ele renunciou à Prefeitura de Joinville para estar apto à disputa — mas somente as convenções vão oficializar as composições.
Adriano avança silenciosamente, apesar de estar submetido a fogo "amigo" vindo diretamente do PL. E avança porque reúne exatamente aquilo que interessa ao atual projeto governista: boa imagem administrativa, baixa rejeição, perfil técnico e capacidade de diálogo com o eleitor urbano e empresarial.
Colosso
Joinville, nunca é demais lembrar, é o maior colégio eleitoral de Santa Catarina. O eleitorado joinvilense foi decisivo, por exemplo, para as duas vitórias de Luiz Henrique da Silveira no começo do século.
PSD forte
Na quarta-feira, foi a vez de João Rodrigues desembarcar no Sul catarinense, região onde seu partido tem musculatura considerável. E não veio sozinho.
João circulou ao lado de Carlos Chiodini, nome já tratado como futuro vice da chapa, e também do senador Esperidião Amin. Com um detalhe politicamente relevante: Antídio Lunelli igualmente se incorporou à agenda. Todos vieram de Brasília.
Planalto Central
Tanto Chiodini quanto Antídio estiveram na capital federal em conversas com o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi. Também participaram de encontros no Senado com o próprio Esperidião Amin.
Na prática, o movimento escancarou uma articulação cada vez mais orgânica entre MDB, Progressistas e o projeto liderado por João Rodrigues.
Roteiro estratégico
A agenda de João Rodrigues no Sul não se resumiu a uma simples visita política. Ainda na quarta-feira, o grupo esteve em Laguna. A programação segue até sábado, passando ainda por Imbituba, São Ludgero, Orleans, Tubarão e Braço do Norte.
Fincando o pé
Ou seja, João e seu grupo estão marcando presença intensiva numa das regiões eleitoralmente mais estratégicas de Santa Catarina.
Jorginho lá
Nesta quinta-feira chegou a vez de o governador Jorginho Mello transferir sua agenda para o Sul.
O chefe do Executivo desembarca em Criciúma para entregar obras rodoviárias e assinar novas ordens de serviço. Depois segue para Treviso, onde também formalizará novos investimentos.
Buona gente
A agenda se encerra à noite em Nova Veneza. E justamente ali ocorrerá um dos momentos politicamente mais emblemáticos da semana. Jorginho Mello e João Rodrigues estarão juntos no mesmo evento, recebendo o título de cidadão honorário da cidade.
Epicentro
Nova Veneza, que respira e transpira o sentimento italiano, reunirá praticamente todo o mundo político catarinense numa solenidade que ganha contornos muito além do caráter protocolar.
Novo cenário
Será o primeiro encontro público entre Jorginho e João depois da incorporação explícita de Antídio Lunelli ao grupo do ex-prefeito de Chapecó.
Antídio, vale lembrar, chegou inclusive a ser sondado para ocupar a condição de primeiro suplente da deputada federal Carol De Toni, mas resolveu mesmo reforçar as fileiras do projeto do PSD.
Dois campos
O cenário catarinense vai se consolidando, neste momento, em torno de dois grandes campos conservadores.
De um lado, Jorginho Mello, com a força da máquina estadual, os resultados administrativos e sua reconhecida habilidade política. Além de estar à frente de um governo sem escândalos, um contraste com o que acontece nacionalmente.
Esforço
Do outro, João Rodrigues estruturando uma frente oposicionista conservadora, buscando musculatura partidária e capilaridade regional.
Ambos percorrem o mesmo território político e disputam praticamente o mesmo eleitorado. A diferença, hoje, aparece nas pesquisas.
Primeiro turno
Os mais variados levantamentos seguem colocando Jorginho Mello acima da casa dos 50% das intenções de voto, normalmente oscilando entre 52% e 54%.
João Rodrigues, por sua vez, permanece estacionado há bastante tempo no teto dos 20%.
Canhotos reunidos
No extremo oposto, a esquerda está reunida em torno de Gelson Merisio, que começa a surgir como elemento importante do processo eleitoral.
O ex-conservador convertido ao socialismo entrou mais tarde no jogo, é verdade.
Crescimento
Merisio já começa a beliscar os dois dígitos nas pesquisas. A tendência observada nos bastidores é de que ele não fique abaixo dos 20 pontos percentuais ao longo da caminhada eleitoral, especialmente se houver repetição do fenômeno da verticalização nacional ocorrido em 2018 e em 2022.
Repeteco
Se esse cenário efetivamente prevalecer, Santa Catarina poderá novamente assistir à forte nacionalização do debate político.
Foi exatamente isso que ocorreu nos dois últimos pleitos estaduais.
Ilustre desconhecido
Em 2018, o candidato associado ao bolsonarismo, Carlos Moisés — absolutamente desconhecido — levou vantagem eleitoral, embora tenha ido ao segundo turno.
Chapa pura
Em 2022, novamente o candidato identificado com a direita bolsonarista saiu vencedor: Jorginho Mello, que também precisou disputar o segundo turno, naquela ocasião enfrentando Décio Lima, hoje novamente no jogo, agora como candidato ao Senado.
Na atualidade, é imperativo salientar, o cenário apresenta diferenças importantes. Jorginho Mello trabalha fortemente para liquidar a eleição já no primeiro turno. Há razões objetivas para isso.
Barbeiragens
Diferentemente de Carlos Moisés — que, além de ilustre desconhecido, chegou ao governo sem estrutura política consolidada, enfrentou o desgaste do episódio dos respiradores e costurou muito mal politicamente —, Jorginho reúne dois fatores decisivos: entregas administrativas e destreza política.
Ventos favoráveis
Por isso, neste momento, a projeção matemática do quadro chama atenção.
Se João Rodrigues permanecer na faixa dos 20%, Gelson Merisio consolidar outros 20% e Jorginho seguir acima dos 50%, o desenho aponta, hoje, para uma eleição resolvida em turno único.
Claro que estamos falando do momento. A campanha, de fato, ainda nem começou. Mas a fotografia atual da sucessão catarinense é exatamente esta.
E o Sul do Estado, nesta semana, deixou isso absolutamente explícito.
O Progressistas de Santa Catarina entrou definitivamente na mesma espiral de divisão interna que há anos corrói o MDB catarinense. E há quem sustente, nos bastidores, que o racha progressista já é ainda mais profundo e equilibrado do que o emedebista.
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Hoje, o partido está literalmente dividido entre os projetos de poder do governador Jorginho Mello e do ex-prefeito de Chapecó, João Rodrigues.
E não apenas no discurso. A fratura exposta alcança parlamentares, dirigentes partidários, estratégias eleitorais e até mesmo a relação com a recém-criada federação União Progressista, que envolve o União Brasil. Essa salada partidária, com siglas mudando de nome constantemente, novas legendas surgindo e a criação das federações, torna o sistema partidário nacional ainda mais esquizofrênico do que já era.
Meio a meio
Dos três deputados estaduais do PP, dois estão alinhados com Jorginho Mello: Pepê Collaço e José Milton Scheffer, ambos do Sul do Estado. Zé Milton, aliás, deverá disputar uma vaga à Câmara Federal e tem boas perspectivas de chegar lá.
Senador e deputado
Do outro lado está o senador Esperidião Amin, que buscou abrigo na composição encabeçada por João Rodrigues para tentar a reeleição à Câmara Alta, feito incomum em Santa Catarina.
Base no Oeste
Com Amin está também o terceiro deputado estadual do partido, Altair Silva, justamente da base política de Chapecó. Ou seja: entre os detentores de mandato, o PP está rigorosamente dividido. Dois a dois.
Amin cuida do Senado
Embora tenha assumido o comando estadual do partido por decisão direta do senador Ciro Nogueira, no melhor estilo goela abaixo, Esperidião Amin está claramente concentrado na própria reeleição ao Senado e no contexto majoritário da disputa estadual.
Dirigentes
O projeto proporcional do partido — Assembleia Legislativa e Câmara Federal — acabou ficando sob os cuidados de outras lideranças internas. E é justamente aí que entra o secretário-geral do PP catarinense, Aldo Rosa.
Antes da intervenção de Ciro Nogueira, quem pilotava o PP no estado era Leodegar Tiscoski. Ele foi destituído para que Amin assumisse a proa do Progressistas.
Governista
Leodegar, hoje secretário da Indústria, Comércio e Serviços (Sicos) do governo Jorginho Mello, integra justamente a ala alinhada ao Palácio Barriga Verde.
Outro nome desse grupo é Silvio Dreveck, que deixou a mesma pasta no prazo fatal das desincompatibilizações para disputar novamente uma cadeira na Assembleia Legislativa.
Pelo correio
O fato novo nesta geleia geral em que se transformou o PP-SC surgiu nesta semana. Aldo Rosa encaminhou uma carta às lideranças municipais do Progressistas catarinense — prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, dirigentes e pré-candidatos — deixando absolutamente explícita a estratégia partidária para 2026.
Cada um por si
Embora exista a federação nacional entre União Brasil e Progressistas, denominada União Progressista, Rosa deixou claro que a construção ocorreu no plano nacional, mas que, nos estados, cada partido cuidará da própria nominata, fortalecerá seus próprios pré-candidatos e estabelecerá estratégias independentes.
Traduzindo para o português político: o União Brasil cuida da vida dele; o PP cuida da sua. E a mensagem tem endereço certo.
Federação rachada
A federação nasce dividida em Santa Catarina. O União Brasil está praticamente fechado com João Rodrigues. O Progressistas, não.
Mais do que isso: a nota de Aldo Rosa sinaliza que a prioridade do PP catarinense será a eleição proporcional, acima de qualquer alinhamento automático decorrente da federação.
Convergência, afinal
Mesmo com Esperidião Amin posicionado do outro lado da trincheira eleitoral, a prioridade progressista passa a ser a reeleição do senador e a ampliação das bancadas.
Hoje, o partido possui três deputados estaduais e pretende eleger cinco.
Meta ousada
Na Câmara Federal, o objetivo do PP-SC é conquistar duas vagas. Atualmente, o partido não possui nenhum deputado federal. Na eleição passada, ficou muito próximo de eleger Silvio Dreveck.
São, portanto, sete candidaturas prioritárias, além da tentativa de reeleição de Esperidião Amin ao Senado.
Recado ao UB
O movimento do PP também contém um recado interno bastante claro ao União Brasil.
Nada de discurso de “voto casado” dentro da federação. Os progressistas querem deixar evidente ao eleitor que PP e União Brasil não serão tratados como uma coisa só na disputa proporcional.
Desidratou
Até porque o União Brasil saiu bastante desgastado da janela partidária de março. Dos três deputados estaduais que possuía, apenas Sergio Guimarães permaneceu na legenda. O partido recebeu Vicente Caropreso, vindo do PSDB.
Hoje, o União Brasil tem dois deputados estaduais e um deputado federal, Fábio Schiochet. O PP tem três estaduais. E todos lutando pela sobrevivência em um cenário não muito favorável.
Labirinto
O cenário é de absoluta complexidade política. O eleitor verá PP e MDB repetindo praticamente o mesmo roteiro: partidos oficialmente vinculados a um projeto, mas internamente divididos entre duas candidaturas ao governo.
Legalidade
Naturalmente, o CNPJ partidário, o tempo de televisão e as formalidades legais caminharão para apenas um palanque. Mas, politicamente, a realidade será completamente diferente.
Lideranças importantes de MDB e de PP estarão apoiando candidaturas distintas ao governo do Estado.
Sanatório geral
E, se os próprios partidos já demonstram dificuldade para explicar suas posições internas, imagine o eleitor comum, cada vez mais disperso, desinteressado e decepcionado com a política. E não é para menos.
O desfecho dessa guerra silenciosa ainda está em aberto.
Queda de braço
Resta saber quem sairá mais fortalecido dentro da federação União Progressista. E, principalmente, no caso de MDB e PP, quais parlamentares eleitos ou reeleitos estarão efetivamente vinculados ao projeto de Jorginho Mello e quais estarão alinhados a João Rodrigues.
Só o tempo dirá.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.