A pesquisa da AtlasIntel, divulgada no meio desta semana, trouxe um retrato que, à primeira vista, parece confortável ao Palácio — mas que, ao ser examinado com lupa, acende um sinal amarelo no núcleo político do governo.
O governador Jorginho Mello aparece na iminência dos 50% das intenções de voto, tanto no cenário com João Rodrigues quanto naquele com Décio Lima. Soma-se a isso uma aprovação elevada de sua gestão e o desempenho consistente de Carol De Toni, que desponta com vantagem na disputa pela primeira vaga ao Senado.
Mas é justamente na segunda vaga que reside o ponto de tensão, de dúvida, de preocupação. A presença de Carlos Bolsonaro — o “Carluxo” — começa a produzir mais ruído do que convergência dentro da engrenagem governista.
E agora não apenas conceitualmente, mas com base em dados reais.
Ameaça
Interlocutores próximos ao governo admitem preocupação com o avanço de Esperidião Amin, preterido pelo próprio Jorginho na formação da chapa governista. O senador aparece à frente de Carlos Bolsonaro, o que altera o equilíbrio inicialmente projetado para a composição.
É a lógica
A tendência, à medida que a campanha se intensifique, é de acirramento. Nesse contexto, Carluxo entra em campo sob pressão — um cenário que, historicamente, não combina com estabilidade política. E muito menos com o temperamento do filho “02” de Jair Bolsonaro.
Temperamento
O histórico do ex-vereador carioca é conhecido. Trata-se de um político de perfil combativo, por vezes imprevisível.
Sentindo-se acuado diante da possibilidade real de derrota, pode recorrer à sua conhecida “metralhadora giratória” — estratégia que tensiona o ambiente e amplia conflitos, internos e externos.
Esse tipo de comportamento, em uma campanha estadual já complexa, não interessa a ninguém — muito menos ao próprio Jorginho Mello, que precisa preservar coesão e foco.
Nacionalização
A simples presença de Carlos Bolsonaro na disputa catarinense já projeta a eleição para além das fronteiras do estado.
Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e irmão do senador Flávio Bolsonaro — pré-candidato do PL à Presidência da República —, Carluxo transforma qualquer movimento local em pauta nacional.
Isso impõe um componente adicional de complexidade: o desempenho dele em Santa Catarina cria vínculos diretos com o projeto nacional do partido.
Articulação
Diante desse quadro, a tendência é de intensificação das articulações.
O governador deve buscar alinhamento não apenas com Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, mas também com Flávio Bolsonaro, no sentido de calibrar estratégia, discurso e posicionamento.
A ideia central é clara: evitar ruídos e construir uma narrativa capaz de impulsionar Carlos Bolsonaro sem comprometer o conjunto da obra, que até aqui está bem encaminhado.
Voto casado
Uma das alternativas mais evidentes é o reforço do chamado “voto casado”: Carol De Toni com Carlos Bolsonaro.
Nesse desenho, caberá a Carol um papel estratégico — semelhante ao que já se viu em eleições anteriores, quando lideranças majoritárias atuaram para puxar seus companheiros de chapa.
Precedente
O paralelo histórico é inevitável. Em 2010, Luiz Henrique da Silveira, ao disputar o Senado após dois mandatos como governador, foi categórico ao vincular seu voto ao de Paulo Bauer.
“Quem não votar em Bauer, não vota em mim”, foi, em essência, o recado. O alvo era conter o avanço de Cláudio Vignatti, então filiado ao PT, que ameaçava a segunda vaga.
O resultado foi uma vitória expressiva: Bauer se elegeu com margem confortável, cerca de 250 mil votos à frente de Vignatti. Sem aquele posicionamento firme, o desfecho poderia ter sido outro.
Incógnita
É exatamente esse tipo de movimento que começa a ser desenhado nos bastidores.
Mas, diferentemente de 2010, há um fator de imprevisibilidade relevante: o próprio Carlos Bolsonaro.
Sua candidatura, hoje, é uma incógnita — e, mais do que isso, um ponto potencial de instabilidade dentro de um projeto que, até aqui, se mostrava linear.
Se o sinal amarelo vai evoluir para algo mais grave, dependerá menos dos números e mais da capacidade de articulação — e de contenção — nos próximos meses.
A conferir.
O mais recente levantamento do AtlasIntel, com cerca de 1.300 entrevistas realizadas entre os dias 25 e 30 de março, não chega a surpreender no cenário do governo do Estado — mas oferece nuances importantes que merecem atenção mais cuidadosa.
Na corrida pelo Executivo, confirma-se aquilo que outros institutos já vinham apontando: a ampla dianteira do governador Jorginho Mello. Ele aparece com 49,4% das intenções de voto, contra 21,4% de João Rodrigues, enquanto Gelson Merisio surge próximo dos 14%.
O quadro, neste momento, aponta para uma eleição com viés de definição ainda em primeiro turno — em favor de Jorginho. Os demais postulantes (fora o trio citado) somados sequer atingem dois dígitos, um indicativo claro da concentração de forças e da dificuldade de fragmentação do voto.
Mas há mais em jogo do que a liderança folgada do atual governador neste momento de definições.
Merisio cresce
O dado mais instigante da pesquisa está no desempenho de Gelson Merisio. Fora da vida político-partidária desde 2018 — quando foi ao segundo turno contra Carlos Moisés e fez menos votos do que havia conquistado no primeiro round —, ele ressurge com densidade eleitoral imediata.
E aqui reside o contraste: enquanto João Rodrigues constrói sua pré-candidatura há cerca de dois anos e meio, Merisio, praticamente recém-reinserido no processo (seu nome começou a ser ventilado há cerca de dois meses), aparece apenas seis a sete pontos atrás.
Projeção
Trata-se de um sinal inequívoco de potencial de crescimento para o ex-pefelista, que agora vai liderar a frente de esquerda em Santa Catarina. Mantida a trajetória, a tendência é que Merisio avance sobre o segundo lugar, alterando o eixo da disputa e reposicionando o campo oposicionista.
Primeiro turno
Com Jorginho Mello beirando os 50%, o cenário atual sugere uma eleição resolvida sem necessidade de segundo turno. Evidentemente, campanhas ainda têm capacidade de alterar tendências, mas o grau de consolidação do governador impõe um desafio considerável aos adversários.
A oposição, fragmentada e ainda em processo de organização, não demonstra, até aqui, musculatura suficiente para forçar uma segunda etapa.
Favoritismo
No Senado, a pesquisa reafirma uma leitura que já vinha sendo feita há mais de um ano: o protagonismo de Carol De Toni.
Com 30,7%, ela lidera com folga e se consolida como o principal nome da disputa. É, sem exagero, “o nome da vez” em Santa Catarina, com capital político suficiente para encaminhar a conquista da primeira vaga.
Segunda vaga
A novidade aparece na briga pela segunda cadeira. Esperidião Amin, de forma até surpreendente, surge numericamente à frente de Carlos Bolsonaro: 20,1% contra 18,3%.
Ainda que dentro da margem de erro — configurando empate técnico —, o dado tem peso político. O petista Décio Lima aparece em quarto, com 14%. Ou seja, há uma disputa clara pela segunda vaga.
Amin demonstra resiliência eleitoral e capacidade de manter competitividade, enquanto Bolsonaro enfrenta resistências mais estruturais.
Resistência
E aqui está o ponto mais sensível da pesquisa: a percepção do eleitor catarinense sobre a candidatura de Carlos Bolsonaro.
Metade dos entrevistados (50%) considera sua eventual candidatura no estado como oportunismo político. Apenas 25,6% veem sua presença como uma boa alternativa, enquanto outros 20,6% até reconhecem legitimidade, mas fazem ressalvas.
Ou seja: há uma rejeição consolidada ou, no mínimo, uma resistência relevante. Não se trata de desconhecimento — mas de juízo formado.
Desafio
Carlos Bolsonaro carrega, evidentemente, o peso do sobrenome e a força eleitoral do pai, Jair Bolsonaro, que teve votações expressivas em Santa Catarina em 2018 e 2022.
Ainda assim, a transferência automática desse capital político não se confirma de maneira plena.
Colando
O cenário exige estratégia: proximidade intensa com Jorginho Mello e, sobretudo, alinhamento com Carol De Toni tornam-se quase obrigatórios.
A eleição passa, necessariamente, por uma tentativa de “colar” sua imagem às lideranças locais consolidadas. Sem essa ancoragem, o caminho se torna significativamente mais difícil.
Histórico pesa
Por fim, há um componente adicional que não pode ser ignorado: o histórico recente.
Santa Catarina já elegeu, em 2022, Jorge Seif, um nome com vínculos externos ao estado — e a avaliação de seu mandato está longe de ser consensual.
Esse fator contribui para elevar o grau de exigência do eleitor em relação a candidaturas percebidas como “importadas”.
Trocando em miúdos
A pesquisa do AtlasIntel não altera o favoritismo no governo, mas reorganiza a leitura estratégica da disputa.
Merisio emerge como variável relevante, Amin mostra fôlego e Carlos Bolsonaro enfrenta um teste real de adaptação ao eleitor catarinense.
No Senado, uma vaga já parece ter destino; a outra, ao contrário, promete uma disputa intensa — e carregada de significado político.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.