Na última sexta-feira à noite, em Joinville, o governador Jorginho Mello participou do sétimo Encontro Estadual do Novo. Estiveram presentes as principais lideranças do partido — com destaque para o ex-prefeito Adriano Silva, vice no projeto de reeleição do governador, sua sucessora Rejane Gambin e todos os candidatos a deputado estadual e federal. Agora é aguardar a convenção para a homologação das candidaturas. Entre o PL e o Novo, tudo às mil maravilhas — pelo menos nessa frente.
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Mas o cenário muda quando o olhar se volta para o interior do próprio PL. Não que Jorginho Mello tenha qualquer dificuldade com seus dois candidatos ao Senado, Carol Detone e Carlos Bolsonaro — ao contrário, está em fina sintonia com ambos. Inclusive, no episódio de ruptura entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, Jorginho tem atuado nos bastidores com destreza, entrando no circuito do presidente nacional Valdemar da Costa Neto para defender que os dois precisam se recompor. Ele se colocou à disposição tanto de Flávio quanto de Michelle, com quem tem excelente relacionamento. O problema está em outro lugar — e tem nome e sobrenome.
Revelação
Na última quarta-feira, em Brasília, num evento feminino do PL, as três deputadas federais catarinenses do partido foram convidadas. Daniela Reinehr e Júlia Zanatta marcaram presença. Carol De TonI ficou em Santa Catarina cumprindo roteiros. Um detalhe pequeno — mas que diz muito.
A história
Vale refrescar a memória. Lá atrás, quando Jorginho Mello esticou a corda com setores do PL por querer Esperidião Amin em uma das duas vagas ao Senado, Carol chegou a ameaçar filiar-se ao Novo. Jair Bolsonaro já havia escalado o filho Carlos para concorrer. A tensão era real. Só que depois Jorginho recuou, confirmando Carol.
Origens diferentes
Mas a grande verdade é que Carlos e Carol chegaram à chapa por caminhos distintos — e isso cobra seu preço. Carluxo veio pelas mãos do pai. Carol foi confirmada pelas mãos de Michelle Bolsonaro. Com Michelle e Flávio em conflito aberto, a divisão é automática: Carluxo fica com o irmão, Carol fica com a ex-primeira-dama. E no seu primeiro vídeo de campanha, apresentando-se para o catarinense, Carlos falou de Flávio, citou Jorginho — mas não falou de Carol.
Duas vagas
Além do racha político, com Flávio e Michelle em rota de colisão, os dois já perceberam o que os números mostram: estão disputando duas vagas — e não está descartada a possibilidade que uma delas fique para Esperidião Amin ou Antídio Lunelli. Décio Lima corre por fora como nome da esquerda. A probabilidade de ambos se elegerem existe e é grande, mas não está descartada a hipótese de um ficar pelo caminho. E quando dois candidatos percebem que podem estar competindo entre si, a dobradinha vira rivalidade silenciosa.
Juntos nunca mais
O resultado está visível a olho nu. Os dois liberais que até pouco tempo atrás não se largavam, que percorriam o estado juntos, que posavam para a mesma foto — curiosamente, ultimamente não têm sido vistos fazendo campanha em conjunto. Nada declarado. Nenhum rompimento público. Mas o estremecimento está lá, discreto e crescente. E, em política, o que começa discreto raramente termina em silêncio.
O defeso eleitoral chegou — e com ele, severas restrições para os agentes públicos candidatos à reeleição. A partir do último sábado, a Justiça Eleitoral está de olho em convênios, ordens de serviço, inaugurações e qualquer aparição pública de detentores de mandato que disputam a recondução. A lógica é simples: garantir igualdade entre as candidaturas. Prefeitos que concorrem foram obrigados a se desincompatibilizar. Governadores que permanecem no cargo precisam ser contidos. O jogo muda de figura.
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Na prática, isso significa que Jorginho Mello deixa de desfilar pelo estado liberando obras. Esse papel passará à vice-governadora Marilisa Boehm, que não é candidata e terá pela frente um período de interinidade até 5 de outubro — para tocar a administração estadual enquanto Jorginho se dedica integralmente ao projeto de reeleição.
PSD domina as cidades
Feita a introdução, vamos ao que importa. O PSD é o partido que protagoniza, ao lado do PL de Jorginho Melo, a disputa pelos votos conservadores em Santa Catarina. E o partido chega a essa eleição numa posição de força nas prefeituras. Como resultado das eleições municipais de 2024, o PSD elegeu ou reelegeu nomes em cidades-chave: Topázio Silveira Neto em Florianópolis, Orvino Dávila em São José, Vaguinho Espíndola em Criciúma, Juliana Pavan em Balneário Camboriú e João Rodrigues em Chapecó — antes de renunciar para concorrer ao governo. Das dez maiores cidades catarinenses, o PSD controlava cinco. Metade.
Topázio já escolheu
Só que de cara um desses prefeitos já saiu do tabuleiro pessedista. Topázio, hoje no Podemos, declarou apoio a Jorginho Mello. Ficaram quatro sob a bandeira do PSD — e três deles em situação delicada: Orvino em São José, Juliana em Balneário Camboriú e Vaguinho em Criciúma, todos declarando apoio a João Rodrigues, mas rasgando elogios a Jorginho Melo.
Costurou bem
E por quê? Porque Jorginho Melo foi muito inteligente nos últimos meses. Tratou o trio com atenção e arrancou declarações simpáticas dos três. Orvino, aliás, sumiu do mapa. A prefeitura de São José estava inviabilizada financeiramente e, se não fosse o governo do estado, fecharia para balanço. Essa dependência tem um preço eleitoral — e Jorginho cobrou na moeda certa.
Apoio de fachada
A questão agora é: como vai ser esse apoio pessedista a João Rodrigues na prática? É participar aqui e ali de algum evento e ficar de braços cruzados? É aquele apoio meio dissimulado, mais para constar do que para de fato mobilizar? Os próximos três meses vão responder. Mas o sinal que vem dos prefeitos pessedistas é de um apoio morno, de conveniência, sem calor e sem convicção.
João enfraquecido
O resultado dessa costura administrativa de Jorginho é claro: João Rodrigues chega enfraquecido. Os prefeitos que deveriam ser sua base mais sólida estão divididos entre a lealdade formal ao partido e a gratidão real ao governador. É uma armadilha silenciosa — e João está dentro dela.
Esquerda irrelevante
Para efeito de comparação, o PT e a esquerda administram apenas sete prefeituras em Santa Catarina, de um total de 295 — todas de pequeno e médio porte. Nenhuma grande cidade. Nenhum polo econômico relevante. A esquerda não tem base municipal para fazer barulho nessa eleição.
Polarização redesenhada
E é aí que chegamos ao ponto central. Jorginho Mello costurou tão bem o terreno que a polarização que se desenha em Santa Catarina pode não ser entre ele e João Rodrigues — mas entre ele e Gelson Merísio. Direita contra esquerda. Jorginho contra o candidato apoiado pelo PT. Num estado essencialmente conservador, esse é o cenário mais favorável para o governador. E ele sabe disso.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.