O chamado “almoço de ideias”, promovido pelo deputado federal Daniel Freitas em Governador Celso Ramos, segue reverberando muito além do encontro em si. O evento consolidou um discurso que já vinha sendo entoado pelo governador Jorginho Mello: o de que o PL trabalha com um cenário de franca hegemonia em Santa Catarina com vistas ao pleito de outubro.
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A presença do presidente nacional da sigla, Valdemar da Costa Neto, deu densidade política ao prognóstico. O dirigente endossou as projeções do próprio governador do estado. Não se trata mais de retórica local. É uma construção estratégica nacional, ancorada em números ambiciosos — e, para muitos, plausíveis dentro da atual configuração política catarinense.
O pano de fundo, no entanto, vai além da matemática eleitoral. O evento também serviu como laboratório para testar a convivência interna, especialmente diante da chegada de Carlos Bolsonaro ao tabuleiro estadual. E é aí que mora o ponto sensível.
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Números
O PL trabalha com metas claras e agressivas. Para a Assembleia Legislativa, a projeção é de eleger 15 deputados estaduais — o que representaria um quarto das 40 cadeiras do Legislativo catarinense. Na Câmara Federal, onde Santa Catarina possui 16 vagas, o partido estima eleger entre sete e oito deputados. Se alcançar oito, chegaria à metade da bancada catarinense em Brasília.
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Cabelo e barba
No Senado, o objetivo é ainda mais ousado: conquistar as duas vagas em disputa neste ano. No cenário mais conservador, a eleição de Carol De Toni é tratada como segura. A segunda cadeira passa, necessariamente, pelo desempenho de Carlos Bolsonaro e de suas iniciativas (ou não) — e menos pelo partido em si.
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Armistício
O encontro também foi palco de um gesto político relevante. Carlos Bolsonaro sinalizou distensão ao elogiar publicamente a deputada estadual Ana Campagnolo. Fez o movimento correto. Na sequência, Ana retribuiu, projetando a reeleição de Jorginho Mello em primeiro turno e a conquista das duas vagas ao Senado — incluindo, implicitamente, o próprio Carlos. Houve, portanto, uma tentativa clara de construção de unidade.
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Risco digital
O problema não está mais nos protagonistas diretos, mas no entorno. O ambiente de redes sociais, marcado por radicalização e impulsividade, pode comprometer o esforço de pacificação. Militâncias digitais, especialmente ligadas a Carlos Bolsonaro, têm potencial para voltar a tensionar o cenário — muitas vezes em descompasso com a estratégia política maior.
E isso não interessa a ninguém, sobretudo ao próprio Carlos, que precisa, antes de tudo, se ambientar em Santa Catarina. Essa é a grande verdade.
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Metralhadora
Há um limite claro para a atuação de Carlos Bolsonaro, o Carluxo, no estado. Ele não pode supor que desembarcará em Santa Catarina acionando uma “metralhadora giratória” contra aliados e correligionários sem custo político. Se insistir nessa linha, abre espaço — e espaço real — para um adversário de peso.
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Amin
Esse adversário tem nome e trajetória: Esperidião Amin. Amin segue sendo, para muitos, o parlamentar mais completo entre os 81 senadores da República. Sua eventual reeleição carrega um simbolismo forte: seria uma consagração não apenas pessoal, mas institucional de Santa Catarina.
E mais: há um movimento consistente, sobretudo em segmentos mais tradicionais do eleitorado, na direção de garantir ao menos um senador “da terra”. Este, obviamente, não seria Carluxo.
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Efeito Bolsonaro
Ainda assim, o fator Bolsonaro pesa — e muito. Flávio Bolsonaro tende a protagonizar uma votação expressiva em Santa Catarina. Esse desempenho tem efeito colateral direto: puxa votos para a chapa ao Senado, especialmente para o irmão.
A lógica é simples: transferência de capital eleitoral dentro de um eleitorado ideologicamente alinhado.
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Engrenagem
O cenário se completa com outros elementos estruturais. O PL tem um governador com a máquina administrativa nas mãos e favoritismo claro à reeleição. Há uma nominata robusta de candidatos proporcionais. E há, ainda, uma possível aliança ampliada envolvendo partidos como Republicanos, Novo, Podemos e até setores do PSDB, além de dissidências do União Brasil/PP e do MDB. Forma-se, portanto, uma engrenagem eleitoral poderosa.
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Condição
Diante desse contexto, a equação de Carlos Bolsonaro é objetiva. Se agir com mínimo de juízo político — o básico, sem necessidade de movimentos espetaculares — entra na disputa com reais chances de vitória. Mas isso passa, necessariamente, por disciplina, integração e leitura correta do ambiente catarinense. Do contrário, transforma uma eleição viável em risco desnecessário.
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Organização
O PL está organizado, o que, aliás, é uma das marcas do governador Jorginho Mello. Está, também, confiante e com um projeto claro de poder em Santa Catarina. Mas, como quase sempre na política, o maior risco não vem de fora. Vem de dentro. A conferir.
O fim de semana político em Santa Catarina foi marcado por um evento que, mais do que reunir lideranças, sinalizou uma tentativa concreta de reorganização interna e alinhamento estratégico do Partido Liberal, o PL, comandado no estado pelo governador Jorginho Mello. O chamado Almoço de Ideias, promovido pelo deputado federal Daniel Freitas, já no segundo mandato, em Governador Celso Ramos, serviu como palco para um gesto político relevante: a busca por distensão entre dois dos principais expoentes do bolsonarismo no estado, Carlos Bolsonaro, o Carluxo, e Ana Campagnolo, a deputada estadual mais votada em 2022.
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O encontro teve peso político não apenas pelo público expressivo — com lideranças empresariais, comunitárias e políticas —, mas também porque atraiu o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e pela participação, ainda que por vídeo, do presidenciável Flávio Bolsonaro, hoje liderando todas as pesquisas eleitorais.
Mais do que um evento, foi uma demonstração clara de que o PL tenta entrar na reta decisiva do processo eleitoral com o mínimo de ruído interno possível — algo que, até aqui, não vinha sendo sua marca. Pacificação, aliás, que parecia difícil de se alcançar.
Distensão
O ponto mais emblemático foi o discurso de Carlos Bolsonaro. Em tom surpreendentemente moderado, reconheceu divergências, mas fez questão de destacar a satisfação de dividir espaço com Ana Campagnolo, sinalizando disposição para caminhar conjuntamente na campanha.
Discurso e prática
O gesto não é trivial. Trata-se de dois polos relevantes dentro do mesmo campo político, com histórico recente de atritos. A imagem construída ali foi de distensão — ainda que, na política, gestos simbólicos precisem ser testados na prática.
Diretrizes
Coube a Ana Campagnolo dar densidade política ao encontro ao elencar três objetivos estratégicos do PL:
A eleição de Flávio Bolsonaro à Presidência da República;
A reeleição do governador Jorginho Mello;
A conquista das duas vagas ao Senado por Santa Catarina (isso inclui a eleição de Carluxo).
Ao fazer isso, Ana não apenas organizou o discurso partidário, mas também deixou claro que o PL entra na disputa com ambição máxima — tanto no plano nacional quanto estadual. Ana Campagnolo, aliás, tem tudo para ser novamente a mais votada para deputada estadual em Santa Catarina.
Projeções
As projeções apresentadas no evento são ousadas: vitória de Flávio Bolsonaro em segundo turno com ampla margem no estado, reeleição de Jorginho Mello ainda no primeiro turno e uma bancada robusta.
Estadual e federal
No plano proporcional, o PL fala em até 15 deputados estaduais — de um total de 40 que compõem a Alesc — e crescimento da bancada federal, passando dos atuais seis para sete ou até oito parlamentares.
É um cenário que, se por um lado revela confiança, por outro exige uma engrenagem política absolutamente afinada para se concretizar. E este ponto está, claramente, na pauta das lideranças liberais.
Cenário
Enquanto o PL demonstra musculatura e tenta ajustar suas peças, o contraste com outros campos políticos é evidente.
A esquerda catarinense já está organizada, com chapa majoritária definida e unidade consolidada. Do outro lado, o pré-candidato João Rodrigues segue enfrentando dificuldades para estruturar sua candidatura ao governo.
Quem?
Falta ao ex-prefeito de Chapecó, até o momento, a composição completa: não há definição de vice nem da segunda vaga ao Senado, restringindo-se, por ora, à parceria com Esperidião Amin.
Esse descompasso organizacional pode custar caro em uma eleição em que tempo e estrutura são ativos decisivos.
Corrigindo a rota
O evento de Governador Celso Ramos mostrou um PL que busca corrigir suas fissuras internas e entrar ainda mais competitivo na disputa. A tentativa de pacificação entre Carlos Bolsonaro e Ana Campagnolo é um passo importante, mas ainda inicial.
Fato
Na política, unidade não se declara — se constrói. E, neste momento, o PL dá sinais de que compreendeu essa necessidade. Resta saber se conseguirá sustentar esse alinhamento até outubro, especialmente diante de um cenário que aponta para uma eleição sangrenta, principalmente no contexto nacional.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.