Estamos caminhando para a grande definição da disputa presidencial. Pesquisas para todos os gostos: algumas apontam vantagem de Flávio Bolsonaro; outras mostram empate ou diferenças mínimas.
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Independentemente dos prognósticos, há uma questão que ultrapassa domingo: como ficará a política brasileira depois das urnas? O resultado decidirá o governo. Mas também começará a redesenhar a disputa de 2030.
A esquerda envergonhada
Entre 1994 e 2014, o país viveu duas décadas de enfrentamento presidencial entre PT e PSDB.
De um lado, a esquerda petista. Do outro, a social-democracia tucana, a esquerda envergonhada, incapaz de representar o conservadorismo que existia na sociedade.
Havia eleitores de direita. Faltava uma candidatura nacional capaz de lhes dar identidade e protagonismo.
A mudança de eixo
Em 2018, Jair Bolsonaro rompeu aquela estrutura e derrotou Fernando Haddad, o poste escalado por Lula, então preso e impedido de concorrer.
Em 2022, depois da anulação de suas condenações, Lula voltou e venceu Bolsonaro numa eleição apertada.
Agora, com Jair fora da disputa, o primogênito representa esse campo. Mudou o candidato. Permaneceu o enfrentamento entre lulismo e bolsonarismo.
Subestimaram Flávio
Lula, o PT e o governo subestimaram o adversário. Imaginaram uma vitória na maciota. Acreditaram que o sobrenome Bolsonaro não bastaria para sustentar uma candidatura competitiva.
O resultado foi outro: Flávio terminou o primeiro turno à frente. Lula ficou com a obrigação de buscar a reação.
Desde 1989, nenhum segundo colocado na primeira rodada venceu o segundo turno presidencial. A escrita existe para ser derrubada. Mas o desafio está colocado para o petista.
O compromisso cobra
Se Flávio vencer, terá de responder pelo compromisso de não disputar a reeleição. A PEC apresentada no Senado depende de aprovação. Promessa não altera a Constituição.
Mas a palavra empenhada também cobra seu preço. Não seria aceitável defender o fim da reeleição na campanha e descobrir suas vantagens depois de sentar na cadeira.
Cumprido o compromisso, 2030 terá uma disputa aberta dentro da própria direita.
Tarcísio no horizonte
Nesse cenário, Tarcísio de Freitas surge como nome natural. Completaria o segundo mandato em São Paulo, à frente do maior estado e do maior colégio eleitoral brasileiro.
Tem experiência administrativa, projeção e condições de dialogar além do eleitorado bolsonarista.
Mais adiante, Nikolas Ferreira também aparece como liderança de uma nova geração. A direita já não depende exclusivamente de um sobrenome. Há nomes disputando espaço e construindo musculatura.
O PT sem o dono
Uma derrota de Lula obrigaria o PT a fazer o que adiou durante décadas: preparar a sucessão de seu comandante.
O caudilhismo tem esse defeito. Concentra o poder, exige fidelidade e trata qualquer autonomia como ameaça.
Haddad foi utilizado como alternativa, mas acumulou derrotas e não se consolidou como herdeiro eleitoral. O partido teria quatro anos para buscar uma liderança capaz de caminhar sem a mão de Lula.
Alternativas nordestinas
Rui Costa e Camilo Santana entram naturalmente nessa discussão. Ambos governaram estados importantes do Nordeste, passaram pelo ministério de Lula e construíram bases próprias.
São nomes com experiência e estrutura partidária. Isso não significa que tenham projeção suficiente para substituir o líder petista nacionalmente.
Uma coisa é administrar um território favorável. Outra é disputar o país inteiro. O PT precisará descobrir se produziu sucessores ou apenas auxiliares.
Se Lula vencer
Uma vitória de Lula também provocaria um rearranjo profundo na direita. Flávio sairia derrotado, e a família Bolsonaro teria de enfrentar a cobrança pelo resultado.
Isso não extinguiria automaticamente o bolsonarismo. Movimentos políticos não desaparecem por decreto. Mas enfraqueceria a pretensão de reservar outra candidatura presidencial ao mesmo núcleo familiar.
Tarcísio ganharia espaço. E a discussão de 2030 dificilmente deixaria de passar por ele.
Chega do personalismo
Direita e esquerda continuarão existindo. Conservadores e progressistas continuarão disputando projetos. Isso faz parte da democracia.
O que precisa ser superado é a submissão do debate nacional a duas figuras e às suas guerras particulares.
Domingo pode começar a encerrar esse ciclo. Não necessariamente a polarização ideológica, mas a dependência de Lula e Bolsonaro como donos exclusivos dos dois campos.
O Brasil precisa discutir seu futuro. Já passou da hora de deixar de viver aprisionado ao destino de duas famílias políticas.
Lula ganhou projeção no movimento sindical dos anos 1970. Em 1980, participou da criação do PT, reunindo sindicalistas, intelectuais, artistas e militantes de esquerda.
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Disputou o governo paulista em 1982 e foi eleito deputado federal constituinte em 1986. A partir dali, o Planalto virou seu destino obsessivo. Quase meio século depois, continua sendo o centro de gravidade do partido.
Três derrotas
Em 1989, chegou ao segundo turno contra Fernando Collor, depois de superar Leonel Brizola por uma diferença estreita. Perdeu.
Em 1994 e 1998, foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso, nas duas vezes em primeiro turno. Mais do que enfrentar um candidato, enfrentou a estabilidade proporcionada pelo Plano Real.
O discurso inflamado não venceu a moeda estável. O eleitor sabia o tamanho do alívio de deixar a inflação para trás.
A embalagem mudou
Para vencer em 2002, o PT mudou a apresentação. José Alencar entrou como vice, Duda Mendonça assumiu o marketing e a campanha tratou de reduzir a resistência ao candidato.
Era a construção do “Lulinha paz e amor”. Alianças e profissionalização eleitoral fizeram diferença.
Lula venceu José Serra e, em 2006, derrotou Geraldo Alckmin. O antigo adversário hoje ocupa sua vice-presidência. A política tem dessas coisas.
A volta apertada
Lula fez Dilma sucessora. Em 2018, preso e impedido de disputar, foi substituído por Fernando Haddad, derrotado por Jair Bolsonaro.
Suas condenações foram posteriormente anuladas pelo STF. Em 2022, voltou à disputa e venceu Bolsonaro por pouco mais de dois milhões de votos.
O retorno já não teve a folga de outras épocas. O líder quase imbatível encontrava os limites de um país profundamente dividido.
A magia se desgastou
Com o tempo, Lula foi perdendo a magia. O sedutor messiânico, o pai dos pobres, o homem que dizia falar ao fundo da alma do brasileiro já não provoca o mesmo encantamento.
A propaganda conserva o personagem. A vida cotidiana cobra resultado. O trabalhador não paga supermercado com lembranças de campanha.
O desgaste não apagou sua força eleitoral. Mas tornou muito mais difícil vender, outra vez, a promessa de redenção.
O desempate
Esta é a sétima candidatura presidencial de Lula. Perdeu as três primeiras, em 1989, 1994 e 1998. Venceu as três seguintes, em 2002, 2006 e 2022.
Domingo será a eleição do desempate.
Buscar um quarto mandato, com toda a estrutura federal à disposição, sem estabelecer uma liderança segura revela o tamanho de sua dificuldade.
O poder continua nas mãos dele. O entusiasmo de outros tempos, não.
Antipetismo resistente
O PT conserva um eleitorado fiel. Indiscutivelmente. Mas também carrega uma rejeição persistente, alimentada pelo mensalão, pelo petrolão e pelo desgaste de tantos anos no comando federal.
O antipetismo foi decisivo contra Haddad em 2018. Agora oferece terreno à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Para uma parcela do eleitorado, a disputa tornou-se uma cobrança por alternância.
Bondades sem freio
Vieram reajuste do Bolsa Família, medidas tributárias, perdão de dívidas para microempreendedores e a proposta de transporte gratuito nos fins de semana.
O governo empilha anúncios. Crédito, renúncia de receita, promessa e despesa, porém, não são a mesma coisa. A cifra de R$ 350 bilhões exige demonstração.
A pergunta permanece: por que tamanha criatividade justamente às vésperas da urna? A disposição que faltou para resolver problemas parece inesgotável quando o assunto é conservar o poder.
Sem deslanchar
Os levantamentos recentes mostram uma disputa apertada. Não existe vitória antecipada.
Mas a sucessão de anúncios tampouco assegurou a Lula a liderança que o Planalto procura. O presidente continua obrigado a conquistar votos e superar resistências.
Depois de três mandatos, sua biografia já não basta. O eleitor conhece o personagem. Quer saber por que deveria lhe entregar mais quatro anos.
O partido depois dele
Uma derrota atingiria um partido que nunca conseguiu se libertar da dependência de seu líder.
Dilma e Haddad ocuparam espaço, mas nenhum substituiu Lula como referência eleitoral nacional do PT. O caudilhismo cobra esse preço: concentra o comando e adia a sucessão.
Se o sentimento de mudança prevalecer, Lula será mandado para casa. E o PT terá de encarar a pergunta que empurrou durante décadas: o que será do partido sem o seu dono?
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.