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Dupla histórica

Por Cláudio Prisco Paraíso
24/03/2026 - 08h27

A política catarinense, ao longo das últimas cinco décadas, foi marcada por uma engrenagem de poder rara e altamente eficiente: a combinação entre articulação estratégica, atuação de bastidores e capacidade eleitoral. Poucas duplas sintetizam tão bem essa dinâmica quanto os ex-governadores Jorge Konder Bornhausen e Esperidião Amin Helou Filho.

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Quando estiveram juntos, venceram. Quando se afastaram, acumularam derrotas — várias delas. É uma equação simples, quase didática, quase matemática. E agora, às vésperas de mais uma eleição decisiva, tudo indica que voltarão a orbitar o mesmo campo político — ainda que em condições muito diferentes das que marcaram seus anos de ouro.



Origens

A relação entre ambos remonta ao final dos anos 1970. Foi Jorge Konder Bornhausen quem levou Esperidião Amin ao primeiro escalão do governo estadual, nomeando-o secretário dos Transportes em 1979.

Antes disso, Amin já havia tido oportunidade com o primo de JKB, Antônio Carlos Konder Reis, seu antecessor no governo — igualmente indicado pelos militares e eleito pela Assembleia Legislativa.



Formação política

Bornhausen presidiu o sistema BESC/CODESC no governo Konder Reis, enquanto Amin foi indicado para a Prefeitura de Florianópolis — nome aprovado pela Assembleia, em um período em que ainda não havia eleições diretas nas capitais.

À época, também cidades consideradas áreas de segurança nacional e instâncias hidro-minerais não elegiam seus prefeitos pelo voto direto — o que só voltaria a ocorrer em 1985.



Prova de fogo

Após a experiência como prefeito biônico da capital, Amin disputou sua primeira eleição e se elegeu deputado federal em 1978, com 72 mil votos — a maior votação proporcional daquela eleição e, até então, da história de Santa Catarina.



Estratégia

A escolha de Bornhausen por Amin na Secretaria dos Transportes não foi casual. Já havia ali um desenho estratégico: prepará-lo para disputar o governo em 1982, quando o país retomaria as eleições diretas.

E foi exatamente o que aconteceu.

Amin disputou o governo.
Bornhausen disputou o Senado.

Um operava a engenharia política.
O outro buscava o voto.



Resultado

Ambos venceram — em disputas apertadas, o que apenas reforça o peso da estratégia combinada.

Não foi coincidência.
Muito menos sorte.

Foi método.



Estrutura

A engrenagem era clara:

Bornhausen articulava, estruturava e viabilizava.
Amin comunicava, mobilizava e convertia em voto.



Repeteco

Esse arranjo se repetiu em 1998, novamente com vitória dupla.

Consolidou-se, ali, uma tese difícil de contestar: juntos, eram praticamente imbatíveis. Separados, acumulavam reveses.



Reencontro

Agora, o cenário sugere uma reaproximação política. Mas o tempo impõe suas condições.

Jorge Konder Bornhausen já não exerce o protagonismo operacional de outrora. Sua influência permanece, mas sem a mesma intensidade na articulação e na logística eleitoral — em função da idade.



Fôlego

Já Esperidião Amin segue em campo.

Será candidato à reeleição ao Senado, possivelmente em uma chapa encabeçada por João Rodrigues, do PSD.

A diferença é evidente: Amin terá que buscar votos sem o operador que, historicamente, lhe garantia as condições ideais de disputa.



Desafio

O contexto atual é francamente adverso.

O favoritismo está concentrado no governador Jorginho Mello, candidato à reeleição pelo PL, que vem ampliando sua base política e ocupando espaços estratégicos.



Será?

Nesse ambiente, Amin aposta em um fator que considera decisivo: o apoio do MDB.

Há sinais de aproximação, inclusive com possibilidade de composição na chapa majoritária — seja na indicação de vice, seja em um alinhamento mais amplo.

O próprio senador tem sinalizado que já recebe manifestações de apoio de lideranças emedebistas.



Contradição

Há, contudo, um elemento incontornável: a memória política.

MDB e Amin foram adversários históricos por mais de quatro décadas. Essa rivalidade não se dissolve por conveniência eleitoral. Ela permanece viva na militância e em parcelas relevantes do eleitorado.



Lembrando

O episódio de 1985 é emblemático.

Naquele ano, com a retomada das eleições diretas nas capitais, Amin — então governador — aliou-se ao seu adversário de 1982, Jaison Barreto, já filiado ao PDT.

Os dois formalizaram a Aliança Social Trabalhista (AST) em Florianópolis, com Francisco de Assis Filho (Chiquinho) como candidato a prefeito e Manoel Maneca Dias como vice.

O resultado foi claro: derrota.

O emedebista Edison Andrino venceu com mais de 16 mil votos de vantagem.



Risco

A eventual aliança entre MDB, PP e PSD pode fazer sentido no papel — envolvendo estruturas partidárias e tempo de televisão —, mas exigirá uma narrativa muito bem construída para ser assimilada pelo eleitor.

Sem isso, o risco é repetir erros clássicos: acordos de cúpula que não se sustentam na base.



Cenário

O fato é que Esperidião Amin entra em uma das disputas mais desafiadoras de sua trajetória.

Sem o mesmo suporte estratégico de outrora e diante de um adversário fortalecido, precisará reinventar sua forma de fazer campanha.



Simbolismo

A eventual reaproximação com Jorge Konder Bornhausen tem valor simbólico e histórico.

Mas, desta vez, isso não será suficiente por si só.

A eleição de 2026 exigirá mais do que memória.

Exigirá estrutura, narrativa e, sobretudo, coerência política.

E isso, como a própria história ensina, não se improvisa.

PSD à deriva

Por Cláudio Prisco Paraíso
21/03/2026 - 08h32

A semana encerra com o PSD em Santa Catarina atravessando um dos momentos mais delicados de sua trajetória recente. Em apenas sete dias, a sigla acumulou perdas políticas relevantes, protagonizou ruídos públicos desnecessários e expôs fissuras internas que comprometem não apenas um projeto eleitoral imediato, mas a própria capacidade de organização para 2026 e o futuro da sigla a partir dos resultados das urnas em outubro.

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Ainda que, ao final, tenha havido um esforço de recomposição interna, com João Rodrigues obtendo o desfecho que desejava — a saída de Topázio Silveira Neto e de Paulinho Bornhausen —, o custo político foi elevado, com um desgaste brutal e inédito na história da sigla. Mais do que isso, toda a “lavação de roupa suja” foi pública demais para quem precisava demonstrar coesão.



Debandada

As perdas não se limitaram à Capital. O movimento mais sensível ocorre em Brasília. O deputado federal Ismael dos Santos, último representante do PSD catarinense na Câmara, já assinou ficha no PL e deve oficializar sua saída nos próximos dias.



Escalada

O esvaziamento da bancada federal não começou agora. Em 2024, Ricardo Guidi já havia migrado para o PL para disputar a Prefeitura de Criciúma. Antes disso, o partido também perdeu o primeiro suplente Darci de Matos, hoje nos Republicanos.

O resultado é direto: o PSD chega fragilizado à montagem da chapa proporcional à Câmara dos Deputados, com poucos nomes de densidade eleitoral.



Chapa frágil

Hoje, sobram como referências o presidente da Assembleia Legislativa, Júlio Garcia, e o ex-governador Raimundo Colombo (cuja candidatura, a qualquer cargo, ainda é uma incógnita). Ainda que sejam quadros de peso, são insuficientes, isoladamente, para sustentar uma nominata competitiva.



Obstáculo

A tentativa de estimular novas candidaturas esbarra em um fator decisivo: insegurança. O que se viu ao longo da semana gerou desconfiança interna e externa — inclusive virou motivo de chacota para os mais críticos. Ninguém se movimenta com tranquilidade em um ambiente de instabilidade.



Crise interna

O desgaste não decorre apenas das saídas do trio Topázio, Ismael e Paulinho, mas da forma como o processo se deu. Trocas públicas de críticas entre João Rodrigues e Jorge Bornhausen, ameaças de desistência de candidatura e recuos sucessivos criaram um enredo errático.



Amadorismo

A decisão de não formalizar a renúncia previamente anunciada sintetiza o momento: improviso, hesitação e exposição desnecessária. Para um partido que já não partia de uma posição confortável na disputa majoritária, o episódio funciona como um agravante severo.



Efeito Capital

Em Florianópolis, a saída de Topázio Silveira Neto — hoje o principal nome político da Capital — e de Paulinho Bornhausen representa uma baixa qualitativa. Não apenas pela densidade eleitoral, mas pela simbologia: perde-se presença institucional e capacidade de articulação em um dos principais colégios eleitorais do Estado.



Arranjo estadual

No tabuleiro mais amplo, o governador Jorginho Mello avança na tentativa de ampliar sua base e segue mirando PP e MDB.

Ainda que essas legendas enfrentem suas próprias tensões internas, há um movimento silencioso de lideranças — prefeitos inclusive — inclinando-se ao projeto de reeleição. Mesmo que não levem integralmente suas estruturas partidárias, levam capital político, o que, na prática, muitas vezes vale mais que o CNPJ.



Favoritismo

O cenário, que já era favorável a Jorginho Mello, torna-se ainda mais confortável. A fragmentação do PP e MDB, somada à crise do PSD, consolida uma vantagem que tende a se refletir na largada da campanha.



Adversário

No campo oposicionista, o nome mais consistente segue sendo o de Gelson Merisio. É ele quem, hoje, apresenta maior capacidade de estruturar uma candidatura minimamente competitiva.



Primeiro turno

A eleição desenha-se, neste momento, com forte tendência de definição ainda no primeiro turno. Caso haja segundo turno, o roteiro mais provável repete a polarização recente: Jorginho Mello contra a esquerda, representada por Gelson Merisio.



Oeste dividido

A fragmentação no Oeste — com João Rodrigues e Gelson Merisio disputando o mesmo espaço político — tende a ser decisiva. Um deles, ao que tudo indica, ficará pelo caminho, caso Jorginho não liquide a fatura já no primeiro turno.



Desconforto

E, hoje, os sinais não são favoráveis a João Rodrigues. Falta-lhe consistência política, densidade de conteúdo e postura compatível com a exigência de uma disputa estadual.

Falta estofo, verniz. Nos debates, mesmo com fluência verbal, perde substância frente aos principais concorrentes.



Ciclo se encerrando

O que se viu nesta semana não foi apenas uma crise episódica. Foi a exposição de fragilidades estruturais.

E, em política, quando o problema deixa de ser circunstancial e passa a ser orgânico, o custo costuma ser alto — e duradouro.

Ao fim e ao cabo, há fortes indícios de que estamos assistindo ao fim de uma era de domínio de lideranças nascidas ainda no velho PDS e no MDB.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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