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Lula querendo minar base oposicionista!

Por Cláudio Prisco Paraíso
11/02/2026 - 08h10

A movimentação do presidente Lula para tentar atrair o MDB de volta ao seu projeto eleitoral não é casual nem meramente simbólica. Ela parte de um diagnóstico político claro: o cenário de 2026 tende a ser mais fragmentado, mais imprevisível e mais dependente de alianças de centro do que foi a disputa anterior. Se, em 2022, Geraldo Alckmin cumpriu o papel de sinalização ao mercado, ao empresariado e ao eleitor moderado, agora o Planalto avalia que será necessário algo além — um movimento que provoque fissuras no bloco adversário e amplie o arco de sustentação institucional.

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Nesse contexto, o MDB surge como peça-chave. Trata-se do partido com maior capilaridade municipal do país, presença consistente no Congresso e tradição de ocupar o centro do tabuleiro político. Trazer o MDB para a chapa presidencial, especialmente na vice, significaria mais do que tempo de TV: representaria um gesto de reaproximação com o chamado “centrão tradicional” e uma tentativa de esvaziar o campo da centro-direita.

Missão paulista

As declarações recentes de Lula sobre Fernando Haddad e Geraldo Alckmin terem “missão em São Paulo” são reveladoras. Haddad foi derrotado por Tarcísio de Freitas no segundo turno de 2022, e Alckmin, ex-governador do Estado por quatro mandatos, hoje ocupa a Vice-Presidência. Ao elogiá-lo publicamente e, ao mesmo tempo, sinalizar novos arranjos, Lula indica que o papel desempenhado por Alckmin na última eleição pode ter sido cumprido.

Reforço

A leitura no Planalto é que o gesto ao centro feito em 2022 precisa agora ser complementado por um movimento de natureza mais política do que simbólica — algo que interfira diretamente na correlação de forças do Congresso e nos palanques estaduais.

Precedente histórico

A aproximação com o MDB também tem lastro na experiência passada. O partido foi peça central nas chapas de Dilma Rousseff em 2010 e 2014, quando Michel Temer ocupou a Vice-Presidência. A aliança garantiu governabilidade inicial, ainda que o desfecho tenha sido traumático, com o impeachment de 2016.

Raposa

Lula sabe dos riscos, mas também conhece a utilidade do MDB como fiador de estabilidade institucional e ponte com o Legislativo. A política, nesse caso, fala mais alto que as cicatrizes do passado.

Resistências internas

O problema é que o MDB não é um bloco monolítico. O partido funciona como uma federação de interesses estaduais. Há alas simpáticas ao governo, como os grupos de Alagoas e do Pará, além da influência da ministra Simone Tebet, que integra o primeiro escalão. Mas há também diretórios fortemente alinhados à centro-direita, que veem com desconfiança uma adesão formal ao lulismo.

No voto

A decisão, se vier, será fruto de convenção — e convenção emedebista nunca é protocolo, é disputa real de forças.

Fator Temer

Michel Temer, embora fora da linha de frente, ainda é referência para parcelas expressivas do partido. Sua relação histórica com Lula é marcada por desconfiança mútua desde o impeachment de Dilma. Mesmo sem comando formal absoluto, o ex-presidente segue influente nos bastidores e pode atuar para frear um alinhamento automático.

Plano B

Se o MDB não fechar, o Planalto não ficará sem alternativas. Movimentos recentes indicam tentativa de diálogo com setores de outras siglas do centro e da direita pragmática. A lógica é clara: provocar divisões no campo adversário, reduzir a coesão de um bloco oposicionista e ampliar a margem de manobra no segundo turno.

Direita fragmentada

Do outro lado, a oposição ainda não apresenta unidade. Lideranças regionais, governadores presidenciáveis e partidos com projetos próprios disputam espaço antes mesmo da definição de uma candidatura hegemônica. Essa pulverização reduz a capacidade de construção de uma frente coesa já no primeiro turno.

Lula aposta justamente nisso: quanto mais dispersão no campo adversário, maior a chance de chegar competitivo ao segundo turno, mesmo com índices de rejeição elevados.

Jogo arriscado

A estratégia do Planalto é agressiva e revela consciência das dificuldades eleitorais. Buscar o MDB não é movimento de conforto, é de necessidade. Ao mesmo tempo, a fragmentação da direita e as disputas internas nesse campo funcionam, na prática, como um aliado indireto do presidente.

Blocos

No fim das contas, a eleição pode ser decidida menos pela força individual dos candidatos e mais pela capacidade de formar — ou desmanchar — blocos. E é exatamente nesse terreno que Lula tenta, mais uma vez, jogar pesado.

MDB no radar de Lula

Por Cláudio Prisco Paraíso
10/02/2026 - 08h11

O presidente Lula trabalha nos bastidores para repetir, em 2026, uma engenharia política que já se mostrou decisiva em 2010 e 2014 na eleição e reeleição de Dilma Rousseff: atrair o MDB para o seu campo de alianças, ainda no primeiro turno. A operação, porém, está longe de ser simples. O partido é uma confederação de forças regionais, com interesses, identidades ideológicas e projetos de poder muitas vezes conflitantes entre si. O resultado é um tabuleiro fragmentado, em que Brasília enxerga oportunidade, mas os estados impõem resistências — e Santa Catarina é um dos casos mais emblemáticos.

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O Palácio do Planalto sabe que a presença formal do MDB na coligação agregaria tempo de televisão, capilaridade municipal e uma simbologia de centro político que dialoga com o discurso de moderação. Por outro lado, qualquer movimento nessa direção esbarra em diretórios estaduais que orbitam a centro-direita ou mantêm alianças estruturais com adversários do PT.

Vice em pauta

Dois nomes do MDB são hoje os mais citados para compor como vice na chapa de Lula: Renan Filho e Helder Barbalho. Ambos governadores ou ex-governadores jovens, com densidade política regional e herdeiros de estruturas partidárias robustas.

Herdeiros

Renan Filho, ministro dos Transportes, tem a vantagem de preservar mandato no Senado em caso de derrota, o que reduz o risco pessoal da empreitada. Já Helder Barbalho, no Pará, está em segundo mandato como governador e teria um movimento mais irreversível ao deixar o cargo para disputar a vice. São perfis diferentes, mas igualmente funcionais à estratégia de ampliar a frente lulista ao centro.

Dinastias

Não é coincidência que os dois principais cotados sejam filhos de caciques históricos do MDB: Renan Calheiros e Jader Barbalho. O partido, em vários estados, ainda se organiza em torno dessas estruturas familiares e regionais de poder. Isso facilita a negociação nacional, mas também acentua a lógica federativa da sigla, em que cada estado pesa mais do que a direção central.

Ala lulista

Hoje, os polos mais alinhados a Lula dentro do MDB estão em Alagoas, no Pará e no grupo ligado à ministra Simone Tebet. Candidata do partido à Presidência em 2022, Tebet apoiou Lula no segundo turno e integra o governo desde o início do mandato. É um dos principais elos entre o Planalto e o MDB institucional.

Tradição emedebista

Ainda assim, essa ala está longe de ser majoritária de forma automática em uma convenção nacional. O MDB não funciona por alinhamento ideológico linear, mas por correlação de forças entre diretórios e bancadas.

Baleia no comando

O presidente nacional da sigla, Baleia Rossi, representa um campo mais cauteloso. Sua posição tem sido a de evitar um alinhamento automático e preservar a autonomia dos estados. Na prática, isso pode resultar na liberação de diretórios para apoiar Lula onde houver interesse local, sem obrigar o partido a embarcar formalmente na coligação presidencial. É a fórmula clássica do MDB: unidade formal, diversidade real.

Efeito Santa Catarina

Em Santa Catarina, o cenário é particularmente sensível. O MDB estadual está majoritariamente posicionado no campo de centro-direita e mantém interlocução histórica com forças que fazem oposição ao PT no plano nacional. Uma guinada pró-Lula teria forte potencial de gerar desconforto e até debandadas.

História

O partido já não vive seu momento de maior pujança no Estado. Perdeu protagonismo nas grandes cidades e enfrenta divisões internas que reduzem sua capacidade de agir de forma coesa. Qualquer movimento que desagrade parcelas significativas da base pode acelerar um processo de esvaziamento.

Sinais locais

Lideranças tradicionais do MDB catarinense observam o cenário com atenção redobrada. Há quem já avalie alternativas partidárias de olho na janela de transferências, caso o partido caminhe para um alinhamento nacional com Lula. Outros preferem aguardar a definição oficial, apostando que a solução será, mais uma vez, a liberação informal dos estados. O histórico recente mostra que o MDB de Santa Catarina reage mal a decisões verticais vindas de Brasília quando elas contrariam a lógica política local.

Risco calculado

Para Lula, atrair o MDB é estratégico, mas envolve custo. Para o MDB, aderir formalmente à coligação presidencial pode render espaços no governo federal, mas também produzir fissuras em estados onde o antipetismo ainda é eleitoralmente relevante.

Cada um por si

O desfecho mais provável, seguindo a tradição da sigla, é uma solução híbrida: apoio declarado em alguns estados, neutralidade em outros e oposição velada em vários. O MDB dificilmente falará com uma só voz — e é justamente essa ambiguidade que o torna, ao mesmo tempo, desejado e imprevisível no xadrez nacional.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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