Na coluna de ontem, foi analisada a ofensiva do governador Jorginho Mello sobre o Progressistas, numa clara tentativa de enfraquecer as bases internas da sigla para atrair setores do partido ao seu projeto de reeleição em 2026. O movimento não é casual. O governador sabe que o senador Esperidião Amin trabalha para conduzir o PP catarinense na direção do prefeito João Rodrigues, pré-candidato do PSD ao governo do estado.
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Dentro dessa estratégia, a nomeação do ex-deputado Leodegar Tiscoski para a Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços foi um gesto cirúrgico. Mais do que preencher espaço administrativo, Jorginho busca criar fissuras internas no Progressistas, isolando Esperidião Amin e atraindo lideranças regionais que enxergam no Palácio Barriga Verde uma rota mais segura para sobrevivência política e eleitoral.
Mas quando o assunto é o MDB, o cenário muda completamente. E muda porque os partidos são estruturalmente distintos.
O PP gravita
Historicamente, o Progressistas catarinense sempre orbitou em torno da família Amin. É uma realidade política consolidada há décadas. Esperidião Amin construiu uma trajetória eleitoral vigorosa, sempre como grande puxador de votos, dono de forte apelo popular e reconhecida capacidade de mobilização.
Em família
Sua mulher, Angela Amin, também acumulou protagonismo político expressivo: foi vereadora, deputada federal, prefeita de Florianópolis por dois mandatos e chegou ao segundo turno da disputa pelo governo estadual em 1994. O filho do casal, João Amin, igualmente teve passagem pela Assembleia Legislativa.
Ponto central
Ou seja: o partido, em Santa Catarina, sempre esteve centralizado na família Amin. Não apenas nas candidaturas majoritárias, mas também no controle político da sigla, na condução partidária e nas lideranças historicamente posicionadas ao redor desse núcleo central.
Brecha
É justamente aí que Jorginho Mello identifica espaço para avançar. Ao atrair quadros regionais do PP para dentro do governo, o governador procura desmontar, gradativamente, a hegemonia política de Esperidião Amin dentro do partido.
MDB é diferente
Com o MDB, a música toca em outro diapasão. O Manda Brasa catarinense possui uma estrutura muito mais robusta, orgânica e pulverizada. Está presente nos 295 municípios do Estado, mantém capilaridade política real e uma militância muito mais ativa do que a do Progressistas.
Várias cabeças
Mais do que isso: o MDB não depende de uma única liderança ou de uma família política para existir. O partido possui lideranças espalhadas por todas as regiões catarinenses, formando uma engrenagem muito mais complexa e menos suscetível a movimentos de cooptação direta.
Essa diferença estrutural altera completamente a estratégia do governador.
Rachado ao meio
Hoje, o MDB está rigorosamente dividido. Cinco parlamentares estão alinhados com Jorginho Mello e outros cinco caminham ao lado de João Rodrigues.
No bloco mais próximo de João Rodrigues estão o deputado federal e presidente estadual do partido Carlos Chiodini, o também deputado federal Rafael Pezenti, além dos deputados estaduais Mauro De Nadal, Volnei Weber e Tiago Zilli.
Trincheira governista
Do outro lado, alinhados ao governador, estão o deputado federal Valdir Cobalchini, a senadora Ivete da Silveira e os deputados estaduais Antídio Lunelli, Jerry Comper e Fernando Krelling.
Meio a meio
Na prática, o MDB está literalmente dividido ao meio: são três deputados federais, seis estaduais e uma senadora distribuídos entre os dois projetos políticos que disputarão o comando de Santa Catarina.
CNPJ x CPF
Há ainda um elemento adicional que diferencia profundamente o MDB do Progressistas: a densidade histórica. O MDB carrega em seus quadros ex-governadores, ex-senadores, ex-deputados e lideranças que marcaram época na política catarinense. É uma estrutura partidária consolidada, com musculatura institucional e raízes municipais profundas.
Campo minado
Por isso, qualquer tentativa de Jorginho Mello de levar o MDB oficialmente para dentro do primeiro escalão poderia produzir efeito contrário ao desejado. Uma nomeação formal de peso abriria conflito interno imediato e colocaria em risco justamente aquilo que o governador já conquistou: o apoio pragmático de grande parte dos prefeitos emedebistas, interessados em convênios, obras e liberação de recursos estaduais. Traduzindo: ao contrário do PP, o MDB não deve voltar formalmente ao governo este ano.
Caminho das pedras
Na leitura predominante dos bastidores, João Rodrigues tende a ficar com o “CNPJ” do MDB — estrutura partidária, comando formal e tempo de televisão. Mas Jorginho trabalha para assegurar o maior número possível de “CPFs”: prefeitos, vereadores, lideranças regionais e operadores municipais alinhados diretamente ao Palácio.
E, neste momento, é exatamente aí que está sendo travada a verdadeira batalha política catarinense para 2026.
O governador Jorginho Mello segue executando, com método e frieza política, uma estratégia que já não pode mais ser considerada episódica ou circunstancial. Trata-se de um movimento contínuo de esvaziamento das estruturas partidárias do PP e do MDB catarinenses, mirando diretamente as lideranças que controlam as duas siglas no estado: Esperidião Amin e Carlos Chiodini.
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Curiosamente — ou nem tanto — ambos estavam desenhados para integrar justamente a chapa majoritária liderada pelo próprio Jorginho em 2026. Amin concorreria à reeleição ao Senado ao lado de Carol De Toni, enquanto Chiodini aparecia como nome natural para a vice-governadoria.
Era um encaminhamento amadurecido dentro do núcleo político do governo. Até que houve uma mudança brusca de rota.
De cima
A intervenção de Jair Bolsonaro, exigindo a presença do filho Carlos Bolsonaro na chapa ao Senado, alterou completamente a engenharia eleitoral inicialmente concebida por Jorginho. Paralelamente, surgiu a movimentação do PSD em torno de Adriano Silva, com a possibilidade de lançá-lo ao governo estadual, o que acendeu o alerta no Centro Administrativo.
Ação certeira
O governador então reagiu rápido. Em vez de correr o risco de enfrentar Adriano Silva no futuro, tratou de atraí-lo para dentro do próprio projeto, oferecendo-lhe a vice. Com isso, a nova composição ficou desenhada: Carol De Toni e Carlos Bolsonaro ao Senado; Adriano Silva de vice; e Jorginho candidato à reeleição. O resultado, na outra ponta, é que Amin e Chiodini ficaram fora do jogo principal.
Progressistas
No PP, o movimento do governador é ainda mais evidente. O partido presidido em Santa Catarina por Esperidião Amin vai, gradativamente, se inclinando para Jorginho Mello por meio de lideranças históricas da própria legenda.
Investidura
A nomeação de Leodegar Tiscoski para a Secretaria da Indústria, Comércio e Serviços não foi um gesto administrativo. Foi um recado político. Leodegar havia sido desalojado do comando estadual do PP por decisão direta de Ciro Nogueira, presidente nacional da sigla, que entregou o partido a Amin. Agora, o ex-presidente reaparece fortalecido dentro do governo estadual.
Nicho progressista
A pasta era ocupada por Silvio Dreveck, que deixou o cargo para disputar novamente uma cadeira na Assembleia Legislativa. Leodegar, Dreveck e Aldo Rosa formam hoje um núcleo de forte interlocução com o Palácio Barriga Verde. E mais: os três sempre foram próximos de Esperidião Amin. Só que, agora, o senador decidiu trilhar um caminho próprio.
Isolamento
Na prática, Amin começa a experimentar um isolamento interno no PP catarinense. Dos três deputados estaduais da sigla, apenas Altair Silva permanece integralmente alinhado ao senador. Altair, de Chapecó, está politicamente vinculado ao projeto de João Rodrigues. Já os outros dois parlamentares progressistas caminham em direção oposta.
Sulistas e governistas
Pepe Collaço, de Tubarão, candidato à reeleição, e Zé Milton, do Vale do Araranguá e pré-candidato à Câmara Federal, estão alinhados ao grupo de Leodegar, Dreveck e Aldo Rosa, todos favoráveis à recondução de Jorginho Mello.
E não são apenas parlamentares. A maioria dos prefeitos progressistas também dá sinais claros de aproximação com o atual governador.
Convenção
A grande dúvida política passa a ser outra: Esperidião Amin conseguirá levar a maioria do PP, em convenção, para apoiar João Rodrigues ao governo? Porque a decisão terá de passar pelo voto interno. E não há mais ambiente tão favorável ao senador como havia meses atrás no contexto nacional.
Tiro no pé
A hipótese de uma intervenção nacional para garantir o controle partidário ao grupo de Amin perdeu força. Principalmente diante do desgaste enfrentado por Ciro Nogueira em função das investigações relacionadas ao caso Master, que continuam avançando após as recentes operações da Polícia Federal.
Respingos
Ainda que Esperidião não tenha qualquer relação com eventual irregularidade e com a banda podre do PP, a simples vinculação política a Ciro, neste momento, produz desgaste. Em campanha majoritária, imagem e simbolismo pesam tanto quanto história, estrutura e a capacidade de vender esperança ao eleitorado. Ciro está enrolado até o gogó na master roubalheira deste país.
Verticalização
Há ainda um componente eleitoral decisivo: a verticalização da disputa. O ato político do último sábado deixou isso cristalino. Carlos Bolsonaro não será candidato isolado em Santa Catarina. Ele será impulsionado por uma engrenagem nacional bolsonarista: Flávio Bolsonaro na corrida presidencial, Jorginho Mello na disputa ao governo e Carol De Toni ao Senado.
Musculatura
É uma chapa montada em torno de CPF’s e de um CNPJ muito bem posicionado, com densidade ideológica, militância digital e forte identificação com o eleitorado conservador catarinense.
Desmontando estruturas
Nesse contexto, Jorginho parece ter feito uma escolha objetiva: menos dependência das estruturas partidárias tradicionais e mais aposta em lideranças individualizadas, conectadas diretamente ao eleitor. E, até aqui, vai conseguindo fragmentar adversários dentro das próprias siglas que, até pouco tempo atrás, pareciam destinadas a compor sua aliança natural.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.