Encerradas as festividades carnavalescas no Brasil, o calendário político volta a impor o seu ritmo e projeta, ainda com muita nebulosidade, o tabuleiro eleitoral de 2026. Em Santa Catarina, a corrida ao Senado — tradicionalmente um dos eixos estruturantes das alianças majoritárias — começa a ganhar contornos mais definidos e, ao mesmo tempo, mais tensos.
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O movimento mais recente, atribuído ao ex-presidente Jair Bolsonaro, reposiciona peças relevantes no xadrez local e sinaliza, de forma inequívoca, a preferência por uma candidatura que altera o equilíbrio previamente costurado entre partidos e lideranças.
Além, evidentemente, do nome do próprio filho, Bolsonaro estaria chancelando também a deputada federal Carol De Toni.
Com o término do prazo de desincompatibilização e a janela partidária abrindo espaço para rearranjos, inaugura-se uma pré-campanha longa, de aproximadamente quatro meses, até o limite das convenções em agosto.
Esse período tende a ser decisivo para a consolidação de candidaturas competitivas, sobretudo ao Senado, onde a antecipação de movimentos costuma ser determinante para a formação de palanques robustos.
Avalista
A notícia divulgada pela CNN Brasil de que Bolsonaro teria sinalizado apoio à deputada Carol De Toni representa mais do que um gesto político: funciona como chancela simbólica e prática.
A parlamentar já condicionava sua permanência no PL à garantia de disputar a vaga — movimento compreensível diante do desempenho consistente nas pesquisas. Com o respaldo do principal líder do campo conservador, sua posição se fortalece de maneira expressiva, dentro e fora do partido.
Chapa pura
A eventual confirmação desse cenário converge com o que, nos bastidores, sempre foi apontado como preferência do governador Jorginho Mello: uma composição sem aliados externos, tendo Carlos Bolsonaro e Carol De Toni como nomes ao Senado.
Tal desenho, no entanto, tensiona acordos anteriores firmados pelo presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, que indicavam espaço para o senador Esperidião Amin, candidato à reeleição. Santa Catarina está no pacote acordado por Valdemar, Ciro Nogueira e Antônio Rueda.
Família e preferências
O movimento também dialoga com a inclinação já manifestada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, defensora da candidatura de Carol De Toni.
Dentro do próprio clã, contudo, não há plena sintonia: o senador Flávio Bolsonaro havia sinalizado simpatia por Esperidião Amin.
Impacto na federação
A consequência imediata desse gesto do ex-presidente pode ser o afastamento da federação formada por União Brasil e PP da chapa liderada pelo governador.
Os dois partidos já atravessam momento delicado, agravado pela profunda indignação de lideranças progressistas — entre elas Esperidião Amin — após manifestações de seus dirigentes, Antônio Rueda e Ciro Nogueira, em solidariedade ao ministro Dias Toffoli. O gesto, aliás, provocou reação pública da bancada do PP no Senado.
Até o gogó
Importante frisar que Ciro Nogueira e Antônio Rueda não foram provocados. A manifestação foi espontânea, gerando enorme mal-estar, pois, na leitura apresentada, a única explicação para apoiarem um cidadão enrolado até o pescoço em falcatruas supremas seria quase uma confissão de culpa.
Tudo leva a crer, segundo essa interpretação, que as investigações poderão alcançar os dois dirigentes partidários.
Federação sob pressão
Nos bastidores, comenta-se que os nomes de ambos constariam na lista daqueles com grande proximidade ao chamado “homem-bomba” da República, Daniel Vorcaro.
Esse contexto sugere que a federação chega fragilizada ao ciclo eleitoral, com risco de perda de protagonismo tanto no plano nacional quanto nos estados.
A janela partidária, nesse ambiente, pode acelerar um processo de esvaziamento dos partidos federados, redesenhando forças e ampliando o espaço para projetos mais coesos — especialmente aqueles que se estruturam em torno de lideranças com maior densidade eleitoral, que, em Santa Catarina hoje, atende pelo nome de Jorginho Mello.
A cena carnavalesca deste ano, tradicionalmente vista como espaço de expressão cultural e crítica social — mas também carregada de erotismo — ganhou contornos políticos explícitos ao trazer uma homenagem ao presidente da República em pleno desfile no Rio de Janeiro. O episódio extrapola o folclore típico do período de Momo e se insere no ambiente de polarização e disputa, narrativa que marca a política brasileira contemporânea.
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A leitura que se faz nos bastidores — especialmente entre observadores mais céticos — é de que a homenagem funcionou como gesto simbólico de afirmação política, ainda que envolta em estética carnavalesca. Ou seja, Lula e o mundo inteiro sabem que foi cometido um crime eleitoral, num momento em que o governo busca recompor imagem e mobilização social, enquanto a oposição reagiu imediatamente, entrando com novas ações na Justiça. Os mais afoitos, contudo, podem achar que isso tornará a deidade vermelha inelegível. Apesar do comício na Sapucaí, com jingle de campanha, material promocional e deboche em relação a Jair Bolsonaro e aos evangélicos, o colunista avalia que nada vai acontecer. No máximo, uma multa para o PT.
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Enredo
A apresentação foi grotesca, chula, sem qualquer glamour — uma baixaria generalizada. O comício em forma de desfile tentou resgatar a trajetória pessoal e política de Lula — do retirante nordestino e líder sindical ao atual chefe do Executivo. Isso todo mundo sabe e, até aí, Lula era mais um cidadão qualquer. Depois tornou-se, na avaliação do autor, o maior corrupto e mentiroso contumaz dos tempos recentes.
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Repercussão
Nos meios políticos e jurídicos, apesar do escracho ao vivo e a cores, prevalece a percepção de que dificilmente haverá consequências eleitorais relevantes. A eventual discussão sobre campanha antecipada tende a permanecer no plano formal, sob a alçada da Justiça Eleitoral e do próprio Supremo Tribunal Federal, sem impacto prático imediato. Essas duas instâncias judiciais, envergonham o Brasil. Estariam absolutamente aparelhadas. Enquanto liberam tudo para Lula e o PT, seguiriam perseguindo quem não “lambe as botas do regime”.
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Comparações
O episódio inevitavelmente reacende paralelos com momentos anteriores de forte exposição política em eventos públicos, inclusive envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro. A lembrança de decisões como as tomadas pelo ministro Alexandre de Moraes, proibindo o uso de imagens do desfile de 7 de setembro de 2022 — que reuniu um milhão de pessoas em Brasília — volta ao debate.
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Clima social
Além do simbolismo político, a reação pública reflete um ambiente mais amplo de inquietação com temas estruturais — economia, segurança e percepção de integridade das instituições. Escândalos e crises recorrentes envolvendo órgãos e empresas estatais, como a Petrobras, alimentam esse pano de fundo de desconfiança. A população já não aguenta mais.
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Perspectiva
No horizonte eleitoral, a tendência é que episódios desse tipo sejam incorporados ao arsenal retórico de ambos os campos. O efeito real desse circo canhoto não se mede pela repercussão imediata, mas pela capacidade de reforçar percepções já existentes no eleitorado — positivas ou negativas.
Em síntese, a homenagem carnavalesca acaba sendo menos relevante pelo espetáculo em si e mais pelo que revela: a política brasileira permanece onipresente, inclusive onde historicamente predominava apenas a festa. O tiro tem tudo para sair pela culatra. E tem tudo para reforçar as perspectivas eleitorais da oposição na corrida presidencial.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.