A semana encerra com o PSD em Santa Catarina atravessando um dos momentos mais delicados de sua trajetória recente. Em apenas sete dias, a sigla acumulou perdas políticas relevantes, protagonizou ruídos públicos desnecessários e expôs fissuras internas que comprometem não apenas um projeto eleitoral imediato, mas a própria capacidade de organização para 2026 e o futuro da sigla a partir dos resultados das urnas em outubro.
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Ainda que, ao final, tenha havido um esforço de recomposição interna, com João Rodrigues obtendo o desfecho que desejava — a saída de Topázio Silveira Neto e de Paulinho Bornhausen —, o custo político foi elevado, com um desgaste brutal e inédito na história da sigla. Mais do que isso, toda a “lavação de roupa suja” foi pública demais para quem precisava demonstrar coesão.
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Debandada
As perdas não se limitaram à Capital. O movimento mais sensível ocorre em Brasília. O deputado federal Ismael dos Santos, último representante do PSD catarinense na Câmara, já assinou ficha no PL e deve oficializar sua saída nos próximos dias.
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Escalada
O esvaziamento da bancada federal não começou agora. Em 2024, Ricardo Guidi já havia migrado para o PL para disputar a Prefeitura de Criciúma. Antes disso, o partido também perdeu o primeiro suplente Darci de Matos, hoje nos Republicanos.
O resultado é direto: o PSD chega fragilizado à montagem da chapa proporcional à Câmara dos Deputados, com poucos nomes de densidade eleitoral.
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Chapa frágil
Hoje, sobram como referências o presidente da Assembleia Legislativa, Júlio Garcia, e o ex-governador Raimundo Colombo (cuja candidatura, a qualquer cargo, ainda é uma incógnita). Ainda que sejam quadros de peso, são insuficientes, isoladamente, para sustentar uma nominata competitiva.
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Obstáculo
A tentativa de estimular novas candidaturas esbarra em um fator decisivo: insegurança. O que se viu ao longo da semana gerou desconfiança interna e externa — inclusive virou motivo de chacota para os mais críticos. Ninguém se movimenta com tranquilidade em um ambiente de instabilidade.
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Crise interna
O desgaste não decorre apenas das saídas do trio Topázio, Ismael e Paulinho, mas da forma como o processo se deu. Trocas públicas de críticas entre João Rodrigues e Jorge Bornhausen, ameaças de desistência de candidatura e recuos sucessivos criaram um enredo errático.
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Amadorismo
A decisão de não formalizar a renúncia previamente anunciada sintetiza o momento: improviso, hesitação e exposição desnecessária. Para um partido que já não partia de uma posição confortável na disputa majoritária, o episódio funciona como um agravante severo.
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Efeito Capital
Em Florianópolis, a saída de Topázio Silveira Neto — hoje o principal nome político da Capital — e de Paulinho Bornhausen representa uma baixa qualitativa. Não apenas pela densidade eleitoral, mas pela simbologia: perde-se presença institucional e capacidade de articulação em um dos principais colégios eleitorais do Estado.
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Arranjo estadual
No tabuleiro mais amplo, o governador Jorginho Mello avança na tentativa de ampliar sua base e segue mirando PP e MDB.
Ainda que essas legendas enfrentem suas próprias tensões internas, há um movimento silencioso de lideranças — prefeitos inclusive — inclinando-se ao projeto de reeleição. Mesmo que não levem integralmente suas estruturas partidárias, levam capital político, o que, na prática, muitas vezes vale mais que o CNPJ.
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Favoritismo
O cenário, que já era favorável a Jorginho Mello, torna-se ainda mais confortável. A fragmentação do PP e MDB, somada à crise do PSD, consolida uma vantagem que tende a se refletir na largada da campanha.
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Adversário
No campo oposicionista, o nome mais consistente segue sendo o de Gelson Merisio. É ele quem, hoje, apresenta maior capacidade de estruturar uma candidatura minimamente competitiva.
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Primeiro turno
A eleição desenha-se, neste momento, com forte tendência de definição ainda no primeiro turno. Caso haja segundo turno, o roteiro mais provável repete a polarização recente: Jorginho Mello contra a esquerda, representada por Gelson Merisio.
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Oeste dividido
A fragmentação no Oeste — com João Rodrigues e Gelson Merisio disputando o mesmo espaço político — tende a ser decisiva. Um deles, ao que tudo indica, ficará pelo caminho, caso Jorginho não liquide a fatura já no primeiro turno.
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Desconforto
E, hoje, os sinais não são favoráveis a João Rodrigues. Falta-lhe consistência política, densidade de conteúdo e postura compatível com a exigência de uma disputa estadual.
Falta estofo, verniz. Nos debates, mesmo com fluência verbal, perde substância frente aos principais concorrentes.
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Ciclo se encerrando
O que se viu nesta semana não foi apenas uma crise episódica. Foi a exposição de fragilidades estruturais.
E, em política, quando o problema deixa de ser circunstancial e passa a ser orgânico, o custo costuma ser alto — e duradouro.
Ao fim e ao cabo, há fortes indícios de que estamos assistindo ao fim de uma era de domínio de lideranças nascidas ainda no velho PDS e no MDB.
Temos destacado aqui, reiteradamente, a atuação parlamentar de Esperidião Amin, hoje, sem exagero, um dos mais completos e qualificados senadores da República. No entanto, o mesmo não se pode dizer quando o experiente líder progressista protagoniza um movimento errático — e, sobretudo, equivocado — no plano político, partidário e eleitoral.
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Vejamos o contexto. Pré-candidatos proporcionais do partido, ao lado de dirigentes e parlamentares, reuniram-se e deliberaram, por ampla maioria, pela permanência no governo de Jorginho Mello e pelo apoio ao seu projeto de reeleição. Amin, discordando frontalmente dessa orientação, retirou-se do encontro. Até aí, um gesto político legítimo. O problema vem na sequência.
Em questão de horas, os progressistas catarinenses foram surpreendidos com a nomeação de Amin para a presidência estadual do partido, com mandato estendido até setembro — portanto, para além das convenções homologatórias, cujo prazo se encerra em 5 de agosto. Um movimento articulado diretamente com Ciro Nogueira, claramente à revelia da base partidária no Estado.
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Fogo no parquinho
A reação foi imediata — e negativa. Aliados históricos e correligionários de longa data, como Leodegar Tiscoski, Aldo Rosa e Silvio Dreveck, além dos deputados José Milton Scheffer e Pepê Collaço, receberam a decisão com evidente desconforto. Prefeitos progressistas, em número expressivo, também reagiram com contrariedade.
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Na surdina
Há dois agravantes nesse movimento. Primeiro, o método: a articulação “na calada da noite”, recorrendo ao comando nacional para reverter uma decisão recém-consolidada internamente. Segundo, o contexto nacional de Ciro Nogueira, que enfrenta desgastes relevantes e incertezas decorrentes do caso envolvendo o Banco Master e a delação do banqueiro Daniel Vorcaro — um ambiente que, por si só, recomendaria cautela, não associação.
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Geleia geral
O resultado imediato é a instabilidade interna. A janela partidária segue aberta até 4 de abril. Nesse intervalo, não é desprezível o risco de evasão: detentores de mandato e lideranças podem buscar abrigo em siglas como PL, Republicanos, Podemos, Novo ou PRD, todas inseridas no arco de alianças do projeto liderado por Jorginho Mello.
Em outras palavras, Amin pode ter fragilizado o próprio partido que agora preside.
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Tiro no pé
Mas o ponto mais sensível está na dimensão eleitoral. Ao assumir o controle do PP nessas condições, Amin sinaliza uma tentativa de viabilizar sua candidatura ao Senado em uma eventual chapa encabeçada pelo PSD — um partido que, até aqui, não conseguiu sequer consolidar um projeto competitivo para o governo do Estado.
Aliás, Amin tem muitas qualidades, mas nunca se destacou como grande articulador político — o que, neste episódio, fica evidente.
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PSD em frangalhos
O cenário no PSD é, no mínimo, turbulento. João Rodrigues, que se coloca como pré-candidato há mais de dois anos, ainda não transformou intenção em viabilidade política concreta.
Mais do que isso: protagonizou um conflito aberto ao exigir a expulsão de Topázio Neto, prefeito da Capital, criando uma fissura interna de grandes proporções. Soma-se a isso a indefinição sobre sua própria desincompatibilização, já revista de última hora.
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Geografia eleitoral
Ao se alinhar a esse ambiente, Amin — que, ao lado da esposa Angela, controlou a prefeitura da Capital por quatro mandatos — automaticamente se posiciona contra atores relevantes, como o próprio Topázio Neto, hoje o principal nome político de Florianópolis, além de Paulinho Bornhausen, e tensiona ainda mais sua relação com a base progressista municipal.
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Tibieza
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento difícil de sustentar. Como candidato avulso, especialmente dentro de um projeto com forte tendência competitiva liderado por Jorginho Mello, Amin poderia preservar capital político e ampliar suas chances — inclusive considerando a rejeição crescente ao nome de Carlos Bolsonaro no eleitorado.
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Castelo de areia
Ao optar por se vincular a um projeto que ainda não se materializou — e que, na prática, segue sem candidato viável —, o senador assume um risco elevado.
Mais do que isso: rompe com aliados, tensiona seu partido e se insere em uma construção política incerta.
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Outubro é ali
Em síntese, o movimento que pretendia reposicionar Esperidião Amin no tabuleiro pode, na verdade, ter comprometido seriamente suas perspectivas eleitorais.
Se antes já havia dificuldades no horizonte, agora o cenário se torna ainda mais desafiador — para não dizer desalentador.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.