Lula da Silva conquistou um quarto mandato e protagonizou a primeira virada entre o primeiro e o segundo turno de uma eleição presidencial desde a redemocratização.
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Terminou com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos, praticamente o dobro daquela que abriu sobre Jair Bolsonaro em 2022.
A esquerda ganhou mais uma. Ignorar isso não altera uma única urna.
Minas deu o recado
Minas Gerais voltou a funcionar como bússola da disputa nacional. Flávio havia conquistado uma vantagem expressiva na primeira rodada. Lula conseguiu inverter o resultado na segunda.
São Paulo também entregou uma diferença menor ao candidato liberal. O Nordeste ampliou a sustentação petista, enquanto outras regiões reduziram a margem conservadora.
A derrota não nasceu de um episódio isolado. Houve uma combinação de movimentos que a direita não conseguiu conter.
O eleitor compareceu
A abstenção caiu para 19,22%, a menor num segundo turno desde 2006. Quase três milhões de eleitores a mais compareceram em relação à primeira rodada.
Esse movimento ajuda a compreender a reação de Lula. Quem precisava buscar votos encontrou caminhos para mobilizar. Quem acreditou que a vitória estava encaminhada descobriu que favoritismo não substitui trabalho.
Eleição termina quando acaba a apuração. Antes disso, comemoração antecipada é uma temeridade.
Santa Catarina respondeu
Santa Catarina ofereceu sua contrapartida conservadora. Flávio conquistou 69,42% dos votos válidos, contra 30,58% de Lula.
Foi uma votação próxima daquela obtida por Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022. O eleitorado catarinense manteve sua posição com clareza.
O resultado nacional não pode ser colocado na conta de um estado que voltou a entregar uma vantagem esmagadora à direita.
Bondades e votos
O pacote de anúncios pode ter contribuído para a reação petista. Reajustes, renegociação de dívidas, benefícios e promessas ocuparam a reta final.
Isso exige análise, não serve de desculpa automática. O eleitor ouviu, comparou e decidiu.
Lula prometeu mundos e fundos. Agora terá de demonstrar que aquelas iniciativas cabem no Orçamento. A generosidade de palanque encontrará a aritmética das contas públicas.
A conta chega
Transporte gratuito nos fins de semana, mudanças na jornada, perdão de dívidas e ampliação de benefícios: como financiar tudo isso?
O governo vai rever prioridades? Cortar despesas? Elevar impostos? Empurrar a conta para o endividamento?
Não existe dinheiro infinito. Gastança e descontrole fiscal cobram preço em juros, investimento, emprego e poder de compra. Uma hora a conta chega. E chega à casa do cidadão comum.
Quatro mandatos
Lula completa 81 anos nesta terça-feira, 27. Ao final do próximo mandato, terá 85 e, se o concluir, somará 16 anos na Presidência.
O PT terá acumulado aproximadamente 22 anos à frente do governo federal desde 2003.
Não haverá espaço para discurso de estreante ou surpresa com os problemas nacionais. A cobrança será proporcional ao tempo de poder. Quem governou tanto não pode continuar se apresentando como solução inédita para dificuldades que também ajudou a administrar.
A direita afrouxou
Discutir agora se Tarcísio de Freitas seria o melhor candidato não modifica o resultado. Não há como transformar uma candidatura que não existiu em vitória garantida.
O fato concreto é outro: Flávio disputou, chegou à frente no primeiro turno e perdeu no segundo.
A direita deu sinais de acomodação. Parte de seus apoiadores tratou a vitória como certa. Cabe examinar os erros com seriedade, sem substituir reflexão por uma caça conveniente aos culpados.
Reconhecer e fiscalizar
Anular a eleição porque o resultado desagradou? Bobagem. Alegar fraude sem prova? Besteira.
A decisão do eleitor precisa ser reconhecida. Isso não obriga ninguém a aplaudir Lula, abandonar convicções ou aliviar a fiscalização.
Há muito a fazer: oposição firme, cobrança parlamentar, acompanhamento dos gastos e preparação de novas lideranças. Aceitar a derrota é obrigação democrática. Fazer oposição é responsabilidade política.
Um fenômeno eleitoral
Mesmo diante da força conservadora no Congresso e nos estados, Lula conseguiu vencer novamente. Há de se reconhecer: trata-se de um fenômeno eleitoral.
Reconhecer essa capacidade não significa aprovar sua gestão, esquecer o histórico petista ou dar um cheque em branco ao próximo governo.
O brasileiro escolheu mais quatro anos de Lula. A direita precisa assimilar, reorganizar-se e trabalhar.
É vida que segue. A urna decidiu o presidente. Não encerrou a fiscalização nem o debate sobre o futuro do país.
Estamos caminhando para a grande definição da disputa presidencial. Pesquisas para todos os gostos: algumas apontam vantagem de Flávio Bolsonaro; outras mostram empate ou diferenças mínimas.
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Independentemente dos prognósticos, há uma questão que ultrapassa domingo: como ficará a política brasileira depois das urnas? O resultado decidirá o governo. Mas também começará a redesenhar a disputa de 2030.
A esquerda envergonhada
Entre 1994 e 2014, o país viveu duas décadas de enfrentamento presidencial entre PT e PSDB.
De um lado, a esquerda petista. Do outro, a social-democracia tucana, a esquerda envergonhada, incapaz de representar o conservadorismo que existia na sociedade.
Havia eleitores de direita. Faltava uma candidatura nacional capaz de lhes dar identidade e protagonismo.
A mudança de eixo
Em 2018, Jair Bolsonaro rompeu aquela estrutura e derrotou Fernando Haddad, o poste escalado por Lula, então preso e impedido de concorrer.
Em 2022, depois da anulação de suas condenações, Lula voltou e venceu Bolsonaro numa eleição apertada.
Agora, com Jair fora da disputa, o primogênito representa esse campo. Mudou o candidato. Permaneceu o enfrentamento entre lulismo e bolsonarismo.
Subestimaram Flávio
Lula, o PT e o governo subestimaram o adversário. Imaginaram uma vitória na maciota. Acreditaram que o sobrenome Bolsonaro não bastaria para sustentar uma candidatura competitiva.
O resultado foi outro: Flávio terminou o primeiro turno à frente. Lula ficou com a obrigação de buscar a reação.
Desde 1989, nenhum segundo colocado na primeira rodada venceu o segundo turno presidencial. A escrita existe para ser derrubada. Mas o desafio está colocado para o petista.
O compromisso cobra
Se Flávio vencer, terá de responder pelo compromisso de não disputar a reeleição. A PEC apresentada no Senado depende de aprovação. Promessa não altera a Constituição.
Mas a palavra empenhada também cobra seu preço. Não seria aceitável defender o fim da reeleição na campanha e descobrir suas vantagens depois de sentar na cadeira.
Cumprido o compromisso, 2030 terá uma disputa aberta dentro da própria direita.
Tarcísio no horizonte
Nesse cenário, Tarcísio de Freitas surge como nome natural. Completaria o segundo mandato em São Paulo, à frente do maior estado e do maior colégio eleitoral brasileiro.
Tem experiência administrativa, projeção e condições de dialogar além do eleitorado bolsonarista.
Mais adiante, Nikolas Ferreira também aparece como liderança de uma nova geração. A direita já não depende exclusivamente de um sobrenome. Há nomes disputando espaço e construindo musculatura.
O PT sem o dono
Uma derrota de Lula obrigaria o PT a fazer o que adiou durante décadas: preparar a sucessão de seu comandante.
O caudilhismo tem esse defeito. Concentra o poder, exige fidelidade e trata qualquer autonomia como ameaça.
Haddad foi utilizado como alternativa, mas acumulou derrotas e não se consolidou como herdeiro eleitoral. O partido teria quatro anos para buscar uma liderança capaz de caminhar sem a mão de Lula.
Alternativas nordestinas
Rui Costa e Camilo Santana entram naturalmente nessa discussão. Ambos governaram estados importantes do Nordeste, passaram pelo ministério de Lula e construíram bases próprias.
São nomes com experiência e estrutura partidária. Isso não significa que tenham projeção suficiente para substituir o líder petista nacionalmente.
Uma coisa é administrar um território favorável. Outra é disputar o país inteiro. O PT precisará descobrir se produziu sucessores ou apenas auxiliares.
Se Lula vencer
Uma vitória de Lula também provocaria um rearranjo profundo na direita. Flávio sairia derrotado, e a família Bolsonaro teria de enfrentar a cobrança pelo resultado.
Isso não extinguiria automaticamente o bolsonarismo. Movimentos políticos não desaparecem por decreto. Mas enfraqueceria a pretensão de reservar outra candidatura presidencial ao mesmo núcleo familiar.
Tarcísio ganharia espaço. E a discussão de 2030 dificilmente deixaria de passar por ele.
Chega do personalismo
Direita e esquerda continuarão existindo. Conservadores e progressistas continuarão disputando projetos. Isso faz parte da democracia.
O que precisa ser superado é a submissão do debate nacional a duas figuras e às suas guerras particulares.
Domingo pode começar a encerrar esse ciclo. Não necessariamente a polarização ideológica, mas a dependência de Lula e Bolsonaro como donos exclusivos dos dois campos.
O Brasil precisa discutir seu futuro. Já passou da hora de deixar de viver aprisionado ao destino de duas famílias políticas.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.