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Racha exposto

Por Cláudio Prisco Paraíso
11/04/2026 - 08h28

O cenário político de Santa Catarina entra na reta decisiva para o pleito com duas estruturas partidárias relevantes profundamente divididas: o MDB e a federação União Progressista (União Brasil e PP). Em ambos os casos, o que se vê não é apenas divergência tática, mas uma ruptura clara quanto ao projeto majoritário para 2026 — e, mais do que isso, quanto ao alinhamento em relação ao governador Jorginho Mello.

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De um lado, lideranças tradicionais insistem na construção de uma alternativa ao atual governo, ancorada na pré-candidatura de João Rodrigues (PSD), que patina e cuja tendência é andar para trás, não avançar. De outro, um contingente expressivo de parlamentares e lideranças regionais já opera, de forma aberta, pela recondução de Jorginho, ainda que isso signifique tensionar — ou até romper — com direções partidárias que vêm sendo impostas goela abaixo.

A consequência é direta: fragilidade organizacional das legendas, perda de coesão interna e impacto potencial significativo nas chapas proporcionais (que é o que realmente interessa tanto para a federação quanto para o velho Manda Brasa).

MDB

O MDB vive um dos momentos mais delicados de sua história recente em Santa Catarina. Sob a presidência de Carlos Chiodini, o partido aposta formalmente na aliança com João Rodrigues. Trata-se de uma decisão estratégica que busca reposicionar a sigla no tabuleiro majoritário, mas que está longe de ser unânime. Muito pelo contrário. Até porque João Rodrigues, no final de 2025, chutou e esnobou o MDB publicamente.

Reeleição

Isso porque uma parcela relevante da bancada e das lideranças municipais já sinaliza alinhamento com o projeto de reeleição de Jorginho Mello. Esse movimento se intensificou após o próprio governador ter descartado, de forma unilateral, a composição inicialmente desenhada com o MDB — que previa o próprio Chiodini como candidato a vice.

Desmoronando

A exclusão do partido da chapa majoritária não apenas feriu o MDB politicamente, como também acelerou o processo de fragmentação interna. Falando com franqueza, o MDB acelera no mesmo rumo do PSDB: o desaparecimento.

Federação

Na União Progressista, o quadro não é diferente — e talvez ainda mais sensível. O senador Esperidião Amin e o deputado federal Fábio Schiochet lideram o movimento de apoio a João Rodrigues. São, inclusive, os dois únicos representantes da federação no Congresso Nacional, o que lhes confere peso institucional. Ainda assim, o movimento parece orientado prioritariamente por seus próprios projetos de reeleição — o que torna a estratégia ainda mais questionável.

Rachaduras

No entanto, assim como no MDB, há uma dissidência crescente. Deputados estaduais, lideranças regionais e operadores políticos já trabalham com o cenário de apoio ao governador.

Fora

A situação se agravou quando Jorginho Mello redesenhou sua chapa: retirou espaço da federação e abriu caminho para novos arranjos, incluindo a chegada de Carlos Bolsonaro e a entrada da deputada federal Carol De Toni na disputa ao Senado, além da escolha de Adriano Silva (Novo) como vice.

O recado foi claro: a federação deixou de ser prioridade no desenho do projeto governista — assim como o MDB.

Chapa

Mesmo que MDB e União Progressista confirmem, mais adiante, uma coligação em torno de João Rodrigues, há um fator incontornável: o controle formal da aliança não garante o engajamento real das bases.

Plim plim

Na prática, o que se desenha é uma campanha com tempo de televisão assegurado, mas com capilaridade comprometida. Prefeitos, vereadores e deputados tendem a seguir seus próprios cálculos eleitorais — e muitos deles já estão posicionados ao lado do atual governador.

Desempenho

Há ainda um elemento objetivo que pressiona esse arranjo: o desempenho de João Rodrigues nas pesquisas. Estacionado entre 15% e 20% das intenções de voto, o pré-candidato ainda não conseguiu converter visibilidade em tração eleitoral, mesmo após mais de dois anos em pré-campanha. Soa como um disco riscado: repete a mesma narrativa, sempre centrada no ataque ao governador.

Se esse quadro persistir, o efeito colateral será inevitável: impacto direto nas chapas proporcionais.

Assembleia

No MDB, a conta é apertada. A bancada atual de seis deputados estaduais deve ser reduzida. A projeção mais realista aponta para quatro cadeiras — com possibilidade remota de uma quinta, na sobra.

Quarteto

E há um agravante: a ausência de renovação. Nomes como Antídio Lunelli, Mauro de Nadal, Jerry Comper e Fernando Krelling largam em clara vantagem. Se o partido fizer quatro vagas, elas já têm dono. Espaço para renovação é praticamente inexistente.

O deputado Tiago Zilli ainda tenta se viabilizar, mas corre por fora — e terá muitas dificuldades.

Federação

Na federação, o cenário é ainda mais competitivo — e, portanto, mais duro.

O PP conta com Altair Silva e Pepê Collaço buscando reeleição. Pelo União Brasil, aparecem Sérgio Guimarães e Vicente Caropreso, que deixou o PSDB.

Potencial

A esse grupo se soma o ex-prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro, que entra na disputa com potencial de alta votação.

O problema é matemático: são cinco nomes competitivos para uma federação que dificilmente fará cinco cadeiras. O resultado provável é direto: deputado com mandato ficando de fora.

Tensão

Esse conjunto de fatores — racha interno, indefinição estratégica e desempenho eleitoral abaixo do esperado — já começa a produzir efeitos concretos.

Nos bastidores, cresce a inquietação. Mandatários pressionam, reavaliam posições e, sobretudo, evitam compromissos definitivos. É o movimento típico de momentos de incerteza: ninguém quer ficar do lado errado da história eleitoral.

E, hoje, tanto MDB quanto União Progressista caminham exatamente sobre essa linha de risco.

O blefe de Lula

Por Cláudio Prisco Paraíso
10/04/2026 - 07h17

A mais recente declaração de Lula da Silva, de que ainda não decidiu se será candidato à reeleição, caiu como uma bomba no já conturbado ambiente político nacional. Não pela novidade em si — afinal, o tema já vinha sendo ventilado nos bastidores —, mas pelo timing e pelo contexto em que surge. A poucos meses das convenções, trata-se de um movimento que, no mínimo, exige leitura cuidadosa.

Lula está na estrada eleitoral desde 1989. Trata-se de uma das trajetórias mais longevas da história política brasileira, com vitórias, derrotas e reviravoltas que moldaram o cenário nacional nas últimas décadas. Agora, diante de um quadro de desgaste evidente, brutal, tanto do governo quanto da sua imagem pessoal, a deidade vermelha vem com essa conversa de possível desistência. Mas será mesmo?

Os indicadores são claros: rejeição elevada e desaprovação crescente do governo. Em alguns levantamentos, ambos os índices já ultrapassam a marca simbólica dos 50%. Para um presidente em busca de reeleição, trata-se de um cenário extremamente adverso.

Fadiga de material

Com três mandatos no currículo — este último usado única e exclusivamente para se vingar do povo brasileiro (como havia alertado Ciro Gomes em 2022) — e às portas de sua última disputa, Lula parece avaliar o custo político de uma derrota. Encerrar a carreira com revés eleitoral não é, evidentemente, o desfecho desejado por quem tem um ego imensurável e um histórico implacável de perseguição e desconstrução de adversários.

Recado interno

Há, no entanto, uma leitura mais sofisticada — e talvez mais plausível — dessa declaração. O movimento pode ser, essencialmente, um recado interno. Um chamado à mobilização da chamada “cozinha” da esquerda: partidos aliados, lideranças regionais e operadores políticos que, até aqui, não demonstraram o nível de engajamento esperado.

Pressão

Ao levantar a hipótese de não concorrer, Lula pressiona sua base. A mensagem é direta: ou há empenho real na construção da reeleição, ou o projeto pode simplesmente não existir.

Ampliação política

Outro vetor importante dessa sinalização é a tentativa de ampliar o espectro de alianças. Hoje, o campo lulista permanece restrito à extrema esquerda: PT, PSB, PDT, PSOL, PV, PCdoB e Rede. Trata-se de um bloco coeso, porém limitado do ponto de vista eleitoral — e jurássico do ponto de vista programático.

Teto vermelho

A ausência de forças de centro compromete a capacidade de crescimento entre o primeiro e o segundo turno — fator historicamente decisivo em disputas presidenciais. Ao colocar sua candidatura em dúvida, Lula também pode estar tentando forçar a abertura desse leque, criando espaço para novas composições.

Plano alternativo

Nos bastidores, começa a ganhar corpo a discussão sobre um eventual plano B. Nomes como Fernando Haddad e Rui Costa são citados, mas sem grande entusiasmo. A alternativa mais promissora, segundo interlocutores, seria Camilo Santana, ex-governador do Ceará e atual ministro da Educação.

Um nome mais jovem, com perfil técnico e político, que poderia ter capacidade de oxigenar a canhotada — embora, evidentemente, sem o capital eleitoral de Lula.

Impacto amplo

Uma eventual desistência teria efeitos profundos. Não apenas na disputa presidencial, mas em toda a engrenagem eleitoral do país. Governos estaduais, Senado, Câmara Federal e Assembleias Legislativas seriam diretamente impactados.

O lulismo ainda é o principal ativo eleitoral da esquerda brasileira. Retirá-lo do tabuleiro, mesmo que substituído por outro nome competitivo, representa um abalo estrutural. E seria o começo do fim meteórico do PT.

Jogo ou realidade

Resta, portanto, a pergunta central: a declaração do petista trata-se de um blefe calculado ou de uma possibilidade concreta?

No histórico de Luiz Inácio Lula da Silva, movimentos táticos não são novidade. Criar tensão para medir reações faz parte do seu repertório político. Mas, desta vez, o contexto é diferente. O desgaste é real, o ambiente é adverso e o tempo é curto.

Timing

Se a reação esperada não vier — seja da base, seja do eleitorado —, a hipótese de uma retirada deixa de ser retórica e passa a ser concreta.

O relógio está correndo. E, como sempre, Lula joga com o tempo — e com o sistema que também dá sinais de que pode estar o abandonando, diante do brutal desgaste.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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