As comemorações pelos 60 anos do MDB catarinense, realizadas na Assembleia Legislativa, produziram um efeito político curioso: tão comentadas quanto as presenças foram justamente as ausências. Dos três principais pré-candidatos ao governo do Estado, nenhum compareceu ao evento. Mas por razões completamente diferentes.
:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui
João Rodrigues estava em roteiro pelo interior catarinense. A ausência foi administrativa, logística e previamente compreendida pelos emedebistas que hoje gravitam em torno do projeto liderado pelo ex-prefeito de Chapecó.
Já no caso de Jorginho Mello, a situação é política. Claramente política.
O governador foi aconselhado a não comparecer. A avaliação no entorno do Centro Administrativo era simples: o ambiente não seria amistoso. E dificilmente seria mesmo.
Expectativa frustrada
Afinal, o MDB permaneceu durante mais de três anos dentro do governo estadual sob a expectativa concreta de indicar o vice na chapa da reeleição. Carlos Chiodini era tratado como nome natural para ocupar esse espaço. Até que Jorginho promoveu um cavalo de pau estratégico e foi buscar Adriano Silva, do Novo. O MDB ficou pelo caminho.
Divisão
Hoje, o cenário interno do MDB catarinense é relativamente claro. Algo próximo de um terço das lideranças mais influentes segue alinhado ao projeto de recondução de Jorginho Mello. São figuras que permaneceram no governo, mantêm espaços administrativos e apostam na força da máquina estadual e da onda conservadora.
Os outros dois terços caminham com João Rodrigues.
Geleia geral
Mas atenção: hoje, dois terços do MDB estão com o ex-prefeito de Chapecó. Amanhã, muita coisa pode mudar. Porque política é fotografia do momento, não escritura definitiva. Ainda mais em um cenário de absoluta volatilidade.
E é exatamente aí que entra um elemento que pouca gente está observando com a devida profundidade.
Atração canhota
A terceira ausência relevante no evento foi a de Gelson Merisio. E ela também carrega simbolismo.
Merisio, que durante décadas orbitou o campo da centro-direita — passando por PFL, Democratas e PSD —, hoje é o candidato da esquerda catarinense ao governo do Estado, abrigado no PSB e respaldado integralmente pelo PT e pelos demais partidos do campo progressista.
Pragmatismo
O ex-deputado passou por uma transformação ideológica? Nem tanto. Estamos falando muito mais de uma reacomodação política e estratégica.
O fato concreto é que Merisio tornou-se o instrumento eleitoral da esquerda na tentativa de ampliar o desempenho de Lula em Santa Catarina em 2026, depois dos cerca de 30% obtidos no segundo turno de 2022 diante dos quase 70% de Jair Bolsonaro.
Parece pouco? Não necessariamente, se olharmos para o contexto dos 27 estados da Federação.
Incógnita
O grande ponto é que faltam poucos meses para a eleição. Quatro, para sermos mais exatos. E campanha eleitoral muda cenários com velocidade impressionante. Especialmente quando há fragilidades evidentes numa pré-candidatura.
João Rodrigues está há mais de dois anos em movimento estadual. Lançou-se antes mesmo da reeleição em Chapecó. Percorreu o estado, intensificou agendas, consolidou alianças e tornou-se, sem dúvida, o principal antagonista de Jorginho Mello.
Patinando
Mas ainda não conseguiu ganhar tração definitiva. Segue patinando, estagnado.
E isso começa a produzir inquietação silenciosa dentro do MDB. Porque aquele um terço alinhado a Jorginho dificilmente abandonará o governador. Esse grupo considera praticamente inevitável sua presença em um eventual segundo turno.
A dúvida está justamente nos outros dois terços.
Migração
Se João Rodrigues continuar patinando nas pesquisas e não demonstrar competitividade efetiva até a reta final da campanha oficial, parte significativa dos emedebistas pode buscar outro caminho.
E esse caminho pode levar exatamente até Gelson Merisio.
Canhotos envergonhados
Sim, porque existe dentro do MDB catarinense uma ala historicamente mais simpática ao PT e ao espectro da esquerda. Isso nunca deixou de existir desde os tempos dos chamados autênticos do velho MDB.
Em muitas regiões do Estado, sobretudo em setores municipais e intermediários da legenda, essa identificação permanece viva — ainda que silenciosa.
Errou
Por isso, uma eventual estagnação de João Rodrigues pode não apenas enfraquecer o PSD, mas fortalecer diretamente a candidatura de Gelson Merisio.
E talvez esse seja hoje o movimento mais subestimado do tabuleiro político catarinense.
Portanto, o candidato da esquerda errou ao não prestigiar o evento do MDB.
A situação do MDB catarinense chega a um momento histórico, delicado e até simbólico. Justamente no ano em que o partido celebra seis décadas de existência em Santa Catarina, cresce internamente a possibilidade concreta de que, pela primeira vez desde a redemocratização e a retomada das eleições diretas em 1982, o velho Manda Brasa fique sem o número 15 na urna majoritária estadual.
:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui
O debate deixou de ser apenas eleitoral. Passou a ser identitário.
Na última segunda-feira, durante sessão especial na Assembleia Legislativa em homenagem aos 60 anos da sigla, o MDB voltou a exibir aquilo que nenhum outro partido conseguiu construir em Santa Catarina: capilaridade, militância orgânica e presença efetiva nos 295 municípios.
Mesmo após perder, em 2024, a condição de partido com o maior número de prefeitos para o PL de Jorginho Mello, o MDB segue sendo a estrutura partidária mais enraizada do Estado.
Mas exatamente aí reside o drama da turma do Manda Brasa.
Preterido
Durante mais de três anos, os emedebistas permaneceram no governo estadual sob a expectativa de ocupar a vaga de vice na chapa de reeleição de Jorginho Mello. Inclusive ocupando cargos de primeiro escalão. Carlos Chiodini era tratado como nome natural para a composição.
Freio de arrumação
Só que, no início deste ano, o governador promoveu um verdadeiro cavalo de pau político. Aproximou-se do Novo e escolheu Adriano Silva, então prefeito de Joinville, como companheiro de chapa. O MDB ficou fora.
Com João
A reação foi inevitável. Ainda existe um grupo alinhado ao projeto de recondução de Jorginho, algo próximo de um terço das lideranças estaduais. Mas a ampla maioria passou a se deslocar para o projeto de João Rodrigues. E justamente levando Chiodini para ocupar, ao lado do prefeito de Chapecó, a mesma vaga que seria sua com Jorginho: a vice-governadoria.
Ausência
O problema é que vice não aparece na urna. E o MDB percebeu que pode chegar a 2026 sem um candidato próprio ao governo e, pior, sem candidato ao Senado. Ou seja, sem o 15 na urna.
Hoje, a composição desenhada ao lado de João Rodrigues contempla apenas um nome ao Senado: Esperidião Amin.
Ajuntamento
E aí surge outro componente histórico carregado de simbolismo. Durante quatro décadas, Amin foi o principal adversário político do MDB catarinense. Para uma geração inteira de emedebistas — especialmente os chamados “de cruz na testa” — o progressista sempre foi tratado como inimigo político preferencial.
Agora, parte do partido se vê diante da necessidade de pedir votos justamente para Amin. A política realmente não é para amadores.
Pressão
É nesse contexto que cresce a pressão sobre o deputado estadual Antídio Lunelli. Empresário bem-sucedido, ex-prefeito de Jaraguá do Sul por dois mandatos e responsável pela eleição do sucessor, Antídio mantém densidade eleitoral, capacidade financeira, recall político e carisma reconhecido até por adversários.
Opção rejeitada
Em 2022, apresentou-se como pré-candidato ao governo justamente para preservar o protagonismo do MDB. Acabou derrotado internamente na convenção partidária.
Agora, muitos emedebistas entendem que ele seria o único nome capaz de manter o 15 vivo na urna majoritária, disputando o Senado numa dobradinha com Esperidião Amin. Não apenas para preservar simbolicamente a presença do partido, mas também para tornar a chapa mais competitiva eleitoralmente.
Declínio
O MDB carrega outra preocupação silenciosa: o desgaste acumulado nas duas últimas eleições estaduais.
Em 2018, Mauro Mariani protagonizou o primeiro grande trauma da sigla ao não conseguir levar o partido ao segundo turno.
Gravidade
Em 2022, a situação se agravou. O MDB abriu mão da cabeça de chapa, indicou Udo Döhler como vice de Carlos Moisés e novamente ficou fora da disputa decisiva.
Ou seja: duas eleições consecutivas sem protagonismo efetivo. Para um partido que governou Santa Catarina durante décadas e construiu parte expressiva da história política do Estado, trata-se de uma mudança brutal de realidade.
Resistência
Antídio Lunelli resiste. Mas a pressão continua aumentando. Não apenas dentro do MDB, mas também entre setores do PSD e até do PP, que enxergam na presença de um candidato emedebista ao Senado uma maneira de ampliar a musculatura política da aliança.
Eleição decisiva
Porque, no fundo, o MDB sabe que 2026 pode representar muito mais do que uma simples eleição.
Pode marcar o momento em que o partido deixará oficialmente de ser protagonista para assumir, pela primeira vez desde 1982, um papel secundário na política catarinense.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.