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Nau à Deriva

Por Cláudio Prisco Paraíso
07/03/2026 - 08h14

A movimentação política em torno da eleição estadual de 2026 em Santa Catarina começa a ganhar contornos mais definidos, ainda que o cenário permaneça aberto. O fato concreto é que algumas pré-candidaturas que surgiram com antecedência não conseguiram, até agora, transformar visibilidade em musculatura eleitoral.

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É justamente o caso do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, cuja pré-candidatura ao governo foi colocada na rua há mais de dois anos. Passado todo esse tempo, o projeto ainda não encontrou tração política suficiente para se consolidar como alternativa competitiva ao atual governador. Não decolou. Não colou. É uma nau à deriva.

O resultado é um ambiente de inquietação entre partidos e lideranças que buscam reposicionamento no tabuleiro eleitoral catarinense.



Pré-candidatura estagnada

A realidade é que a pré-candidatura de João Rodrigues continua praticamente onde começou. Sem perspectiva real de vitória em outubro.

Lançada com antecedência incomum, a estratégia previa acumular apoios regionais e consolidar uma frente política robusta ao longo do tempo. O que se viu, no entanto, foi uma caminhada marcada por patinação política e dificuldades para ampliar alianças.



Norte

O sinal mais evidente dessa fragilidade surgiu no final do ano passado, quando o presidente da Assembleia Legislativa, Júlio Garcia, esteve em Joinville para conversar com o prefeito Adriano Silva.

A proposta era clara: estimular Adriano a disputar o governo pelo NOVO, enquanto João Rodrigues migraria para uma candidatura ao Senado pelo PSD. A articulação não prosperou.



Tacada

Assim que tomou conhecimento da movimentação, o governador Jorginho Mello entrou em campo e tratou de neutralizar o movimento. O resultado foi a aproximação com Adriano Silva, que acabou incorporado ao projeto governista como candidato a vice-governador.



Manda Brasa

A decisão teve outro efeito colateral relevante. Com o acordo entre o governador e o prefeito do maior colégio eleitoral catarinense, o MDB — que até então orbitava a base governista — ficou politicamente desabrigado e passou a buscar uma nova posição no xadrez eleitoral.



Amin também fora

Outro personagem que acabou sendo empurrado para fora da órbita governista foi o senador Esperidião Amin. A situação se consolidou quando o governador Jorginho Mello e o senador Flávio Bolsonaro acertaram uma estratégia de chapa pura para o Senado.

Nesse arranjo, os nomes colocados foram Caroline De Toni e Carlos Bolsonaro.



Bússola

Com isso, tanto Amin quanto a federação formada por União Brasil e Progressistas passaram igualmente a procurar uma nova inserção no cenário majoritário. Muitos ficaram, literalmente, a ver navios.



A carta Colombo

É nesse contexto que surge uma nova hipótese política: a entrada do ex-governador Raimundo Colombo no MDB.

A legenda já fez o convite para que Colombo se filie e dispute o cargo que desejar. Evidentemente, a preferência seria pela candidatura ao governo do Estado. Caso essa alternativa se concretize, abriria caminho para a formação de uma frente mais ampla.



Tudo junto

A ideia seria estruturar uma chapa com Raimundo Colombo ao governo e duas candidaturas de peso ao Senado: Esperidião Amin e João Rodrigues.

Restaria ainda a vaga de vice, que poderia ser utilizada para atrair outro partido — eventualmente o PSDB.

Seria uma composição politicamente densa. Ainda assim, Jorginho seguiria com amplo favoritismo.



Peso histórico

Colombo não é um nome qualquer na política catarinense. Governou o estado por dois mandatos consecutivos e construiu uma trajetória marcada por forte interlocução com o MDB.

Nas duas eleições em que conquistou o governo, teve como vice Eduardo Pinho Moreira, sob o respaldo decisivo do ex-governador Luiz Henrique da Silveira.



Parceria

Aliás, foi Luiz Henrique quem o trouxe para a aliança do MDB em 2006 para disputar o Senado. Colombo venceu aquela eleição e, posteriormente, também triunfou nas duas disputas pelo governo estadual — sempre sob o respaldo dos emedebistas.



Alternativa de centro

Nos bastidores, cresce a avaliação de que setores do próprio PSD já perceberam as limitações eleitorais da pré-candidatura de João Rodrigues.

A eventual volta de Raimundo Colombo ao centro do tabuleiro poderia oferecer algo que hoje parece faltar: um nome capaz de ocupar o espaço político intermediário, dialogando com o eleitorado que não se identifica com o Fla x Flu da política brasileira.

Diferentemente de João Rodrigues, cujo discurso se posiciona na mesma faixa ideológica do governador Jorginho Mello, Colombo poderia dialogar com um eleitorado mais amplo.



Muito jogo pela frente

Nada está definido. O calendário eleitoral ainda oferece tempo considerável para rearranjos. As convenções partidárias que oficializarão as candidaturas só precisam ocorrer até 5 de agosto.

Antes disso, a política atravessa etapas decisivas.



Janela aberta

A janela partidária foi aberta nesta semana e segue até 4 de abril, período em que parlamentares podem trocar de legenda.

Se decidir disputar novamente o governo, Raimundo Colombo necessariamente teria de mudar de partido dentro desse prazo.

Até lá, muita água ainda vai correr por baixo da ponte.

MDB no Muro

Por Cláudio Prisco Paraíso
06/03/2026 - 07h56

O MDB caminha, com cada vez menos margem para dúvida, para uma postura de independência na eleição presidencial de 2026. Em termos práticos, significa liberação geral: o partido não lançará candidato ao Palácio do Planalto e tampouco assumirá apoio formal a qualquer postulante. Cada diretório estadual terá autonomia para definir o seu posicionamento conforme a realidade local.

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Foi exatamente essa orientação que dezesseis diretórios estaduais levaram a Brasília, em reunião com o presidente nacional da legenda, Baleia Rossi. Entre eles está Santa Catarina, representado pelo presidente estadual do partido, o deputado federal Carlos Chiodini, acompanhado dos também deputados Valdir Cobalchini e Rafael Pezenti, além da senadora Ivete Appel da Silveira.

Não se trata de um movimento marginal dentro do partido. Muito pelo contrário. A maioria expressiva dos diretórios mais influentes do MDB aderiu à tese da independência.



Peso real

A lista dos estados que defenderam a neutralidade é reveladora. Estão ali os quatro colégios do Sudeste — São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo — além dos três estados do Sul — Santa Catarina, Rio Grande e Paraná.



Geografia

Também integram o grupo os estados do Centro-Oeste — Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal — além de algumas unidades da região Norte.

Em outras palavras: trata-se da fração mais robusta do MDB. O coração político e eleitoral do partido.



Temer no comando

A formalidade da presidência nacional está com Baleia Rossi, mas quem segue exercendo influência decisiva nos bastidores é o ex-presidente Michel Temer, que comandou a legenda por uma década e permanece como principal fiador da estratégia.



Declinou

Temer, inclusive, chegou a ser convidado para liderar uma candidatura de unidade do MDB ao Planalto. O convite partiu do próprio Baleia Rossi. A resposta foi negativa — sobretudo em razão da idade e do momento político.

Mas a recusa não significou afastamento. Pelo contrário: a linha de atuação do partido continua sendo fortemente influenciada pelo ex-presidente.

E a decisão está tomada.



Sem vice

Com esse cenário consolidado, está descartada a possibilidade de o MDB indicar candidato a vice-presidente em qualquer chapa nacional.

Os apoios mais explícitos ao presidente Lula da Silva permanecem concentrados em grupos políticos ligados às famílias Calheiros, em Alagoas, e Barbalho, no Pará. Mas esses apoios serão regionais e pontuais, sem chancela institucional do partido.



Tebet isolada

A decisão também isola politicamente a ministra do Planejamento, Simone Tebet, que hoje integra o governo federal.

Ex-senadora por Mato Grosso do Sul, Tebet já não encontra respaldo consistente dentro do MDB para sustentar a aliança com o PT. O movimento de bastidores indica, inclusive, a possibilidade de transferência de seu domicílio eleitoral para São Paulo, onde poderia disputar o Senado em uma composição alinhada ao campo governista.

Mas isso já ocorreria fora do MDB.



Sobrevivência

Para Santa Catarina, a neutralidade nacional não é apenas conveniente — é vital.

Caso o MDB aderisse formalmente à candidatura de Lula, o risco de esvaziamento seria imediato. Os três deputados federais dificilmente permaneceriam na legenda, e a debandada poderia alcançar também a bancada estadual.

A decisão, portanto, não tem nada de romântica. É pragmatismo político em estado puro.



Partido em declínio

O MDB já foi o maior partido do Brasil e também a força dominante na política catarinense. Hoje vive outra realidade.

Perdeu capilaridade, perdeu lideranças e perdeu protagonismo.



Tucanou

Ao optar pela neutralidade, o partido repete uma estratégia que marcou durante anos o comportamento do PSDB: subir no muro para garantir sobrevivência política.

Não é exatamente um projeto de poder. Mas, diante das circunstâncias, tornou-se uma estratégia de preservação.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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