A esquerda catarinense, enfim, sai da sombra e apresenta formalmente sua chapa majoritária para 2026. O ato está marcado para esta quinta-feira, dia 16, em Florianópolis — uma data que não foi escolhida por acaso: exatamente quatro meses antes do início formal do processo eleitoral.
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Trata-se de um movimento cirúrgico, pragmático e, sobretudo, alinhado a uma leitura mais fria do cenário político. Diferentemente de outros atores que queimaram largada, a frente de esquerda optou por concentrar forças no momento considerado mais estratégico — e, sob esse aspecto, começa sua caminhada com mais racionalidade do que improviso.
A composição já está posta: Gelson Merisio e Ângela Albino ao governo; Décio Lima e Afrânio Bopré ao Senado.
Timing
Com isso, o grupo terá um intervalo de quatro meses até as convenções — previstas entre 20 de julho e 5 de agosto — e, posteriormente, o período de validação pela Justiça Eleitoral, que ocorre entre os dias 6 e 15 de agosto.
É um calendário enxuto, mas suficiente para quem aposta mais em consistência de discurso — dentro da visão esquerdista, evidentemente — do que em exposição precoce.
Pragmatismo
Aqui reside o ponto central. A esquerda foi pragmática. Enquanto João Rodrigues iniciou sua pré-campanha ao governo ainda antes da reeleição em 2024 — percorrendo o estado, buscando visibilidade e tentando consolidar seu nome —, o resultado prático foi, no mínimo, frustrante. Sua pré-candidatura, até aqui, não se sustentou, não para em pé.
Nada disso
A frente esquerdista observou esse movimento e fez o oposto: aguardou, organizou-se internamente e escolheu o timing. Em política, muitas vezes, o tempo é mais determinante do que a pressa.
Discurso inicial
A grande incógnita agora é o comportamento de Gelson Merisio nesta largada.
Será uma apresentação protocolar nesta quinta-feira ou um lançamento com sinalização clara de estratégia?
Baterias
Mais do que isso: para onde estará direcionado seu discurso? O alvo exclusivo será o governador Jorginho Mello, líder em todas as pesquisas e candidato à reeleição, ou haverá também investidas sobre João Rodrigues, que ainda tenta viabilizar seu projeto?
Escolhas
Essa definição não é trivial. Ela indicará o posicionamento da candidatura: enfrentamento direto ao favorito ou tentativa de capturar espaço no campo da oposição fragmentada. Merisio e João Rodrigues são da mesma região e têm as mesmas raízes políticas. Ah, sim, e não os convidem para um café.
Cenário nacional
Em paralelo, o ambiente nacional adiciona uma variável de alta volatilidade. Lula da Silva surpreendeu ao admitir que pode não disputar a reeleição, jogando a decisão para junho e colocando a esquerda em compasso de espera e apreensão.
Dados
A declaração não surge no vazio. Pesquisas recentes indicam crescimento de Flávio Bolsonaro e queda de Lula, com tendência de aproximação — e, em vários levantamentos, até inversão das curvas, com Flávio à frente.
Datafolha
No Datafolha mais recente (instituto conhecido e reconhecido por sua preferência ideológica, segundo críticos, e por erros já apontados em eleições anteriores), Flávio aparece numericamente à frente, ainda que dentro da margem de erro. Mais relevante do que o número é a trajetória: em março, Lula liderava; agora, há empate técnico com viés de alta para o adversário.
Queda livre
Além disso, a reprovação do governo se aproxima dos 50% em diversos institutos, enquanto a aprovação permanece em patamar mais baixo. É um quadro desafiador para quem chega à sétima disputa presidencial, após três derrotas e três vitórias.
Alternativas
Diante desse cenário, a turma governista começa a trabalhar hipóteses. Nomes como Camilo Santana, Fernando Haddad e até rearranjos envolvendo Simone Tebet entram no radar.
A lógica é conhecida: preservar capital político e evitar um desfecho adverso em uma eventual última eleição de Lula, que, evidentemente, não quer sair da vida pública pela porta dos fundos.
Unidade
Enquanto isso, em Santa Catarina, a esquerda apresenta um ativo que seus adversários não conseguem replicar: unidade.
A chapa reúne PSB, PDT, PT e PSOL, além do apoio de PCdoB e PV — integrantes da federação petista —, e da Rede Sustentabilidade. É um bloco coeso, ao menos neste momento, e com estratégia definida, já conhecida.
Votos preciosos
Num cenário marcado por fragmentação no campo adversário, essa coesão pode não ser suficiente para vencer, mas certamente é condição necessária para competir e tentar melhorar o desempenho do candidato a presidente em Santa Catarina.
Jogo aberto
O que se desenha, portanto, é um quadro de contrastes: de um lado, uma esquerda organizada, pragmática e com timing ajustado; de outro, adversários ainda tentando consolidar alianças e narrativas.
Mas há uma variável que pode reconfigurar tudo: a decisão de Lula.
Se ele ficar, o jogo é um. Se sair, será outro completamente diferente — inclusive em Santa Catarina.
Até lá, a largada está dada. E, desta vez, sem atropelos.
O desenho da disputa eleitoral em Santa Catarina — e, por extensão, no Brasil — começa a revelar contornos cada vez mais claros de estratégia, cálculo e, sobretudo, apreensão, por conta do calendário que vai se afunilando. O movimento da esquerda catarinense parece algo improvisado, concebido em um gabinete do Palácio do Planalto e que não guarda relação com a realidade estadual. Mesmo assim, a propaganda diz que eles têm dois objetivos principais: maximizar resultados onde há viabilidade e minimizar desgastes onde o histórico recente recomenda cautela. Lembrando que Jair Bolsonaro fez 70% a 30% contra a deidade vermelha nas eleições de 2022.
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No epicentro dessa engenharia política está ele, Lula, que, ao mesmo tempo em que organiza o tabuleiro nos estados, reavalia a própria permanência como protagonista na disputa nacional.
Não é segredo nos bastidores que a candidatura ao governo da frente de esquerda em Santa Catarina foi gestada a partir de Brasília, com forte influência do Palácio do Planalto. O objetivo central é cristalino: criar as condições para viabilizar a eleição de Décio Lima ao Senado. Simples assim.
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Desgaste
Décio, presidente estadual do PT, já testado em duas disputas ao governo — com destaque para 2022, quando chegou ao segundo turno (única e exclusivamente pela pulverização de candidaturas à direita) —, surge como o nome mais competitivo dentro da esquerda para uma vaga majoritária. No entanto, uma terceira candidatura consecutiva ao Executivo estadual carregaria o peso da repetição e da fadiga eleitoral. Sem falar no discurso jurássico da canhotada tupiniquim.
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Ressurreição
Daí a escolha de Gelson Merisio. Ex-deputado, com passagem relevante pelo Legislativo e histórico competitivo — o ex-PFL foi ao segundo turno em 2018 —, Merisio oferece o elemento de novidade que, nas cabeças iluminadas do PT, faltava ao projeto. Poderia servir, ainda, como instrumento para reposicionar a esquerda no estado, ampliando o alcance da chapa e, principalmente, pavimentando o caminho para o Senado.
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Contexto eleitoral
O pano de fundo dessa estratégia é conhecido. Como já registramos acima, em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro obteve cerca de 70% dos votos em Santa Catarina, contra aproximadamente 30% de Lula. Um cenário amplamente desfavorável, que exige reposicionamento.
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Guinada
Curiosamente, esse mesmo estado, Santa Catarina, já foi terreno fértil para o petista. Em 2002, Lula registrou a maior votação proporcional do país no primeiro turno e a segunda maior no round decisivo. Ou seja, há precedente histórico — mas o ambiente político mudou radicalmente.
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Sinal amarelo
É nesse contexto que ganha peso a recente declaração de Lula, de que só decidirá sua candidatura em junho. Não se trata de mera retórica.
Pesquisas sucessivas indicam uma tendência preocupante para o Planalto. Aliás, preocupante não — a realidade apavora o Planalto: crescimento consistente de Flávio Bolsonaro e queda gradual de Lula.
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Ele, não
Mais do que isso, o presidente enfrenta um fenômeno politicamente delicado: níveis de rejeição superiores aos do próprio adversário, que já carrega um passivo elevado por associação direta ao pai.
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Datafolha
Mesmo institutos tradicionalmente questionados por setores mais conservadores, como o Datafolha, começam a apontar empate técnico, com leve vantagem para Flávio em determinados cenários. E, nesse caso, mais importante do que o número em si é a tendência: os levantamentos convergem.
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Plano B
Diante desse quadro, cresce a pressão interna no PT por alternativas. O próprio Lula já sinalizou a necessidade de “oxigenar” o ambiente político. Parece piada, mas não é, caro leitor: Lula falando em renovação.
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Fraquinhos
Entre os nomes ventilados, aparecem Camilo Santana, ex-governador do Ceará e ex-ministro da Educação; Rui Costa, ex-governador da Bahia e figura de peso no partido; e Fernando Haddad, nome de confiança pessoal do presidente e já testado em 2018.
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Estilo chinês
A lógica é simples: se o campo adversário optou por um herdeiro político, por que não fazer o mesmo? A diferença, evidentemente, está na densidade eleitoral de quem lidera o processo.
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Efeito dominó
A grande interrogação, no entanto, está nos desdobramentos dessa possível mudança de rota. Caso Lula efetivamente recue, o impacto será imediato e profundo — inclusive em Santa Catarina.
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Insustentável
A estratégia construída em torno de Gelson Merisio se sustentaria? Ou haveria necessidade de recalibrar toda a engenharia eleitoral da esquerda no estado?
Sem Lula na cabeça de chapa nacional, o efeito mobilizador tende a diminuir. E isso pode comprometer diretamente o objetivo maior: a eleição de Décio Lima ao Senado.
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Jogo aberto
O cenário, portanto, está longe de definido. O que se observa é um jogo em andamento, com movimentos calculados, mas também com alto grau de incerteza.
Se, por um lado, a esquerda tenta sofisticar sua estratégia em Santa Catarina, por outro, depende de uma variável central: a decisão de Lula.
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Matemática
E essa decisão, ao que tudo indica, não será apenas pessoal. Será, acima de tudo, um cálculo frio sobre viabilidade eleitoral — e sobre o risco de transformar uma trajetória histórica em um desfecho indesejado.
O relógio avança. E, desta vez, o tempo pode não estar ao lado do principal protagonista da política brasileira nas últimas décadas.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.