A corrida pelo governo de Santa Catarina começa a ganhar contornos mais claros — e, ao mesmo tempo, mais complexos. O ponto de gravidade das articulações está hoje no MDB, o velho Manda Brasa de guerra, cortejado simultaneamente por dois projetos distintos: o da reeleição do governador Jorginho Mello, do PL, e o da candidatura do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, pré-candidato do PSD ao governo do Estado, que já anunciou sua renúncia para o dia 21 de março.
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O pano de fundo dessas conversas revela duas realidades políticas evidentes. De um lado, João Rodrigues enfrenta dificuldades concretas para estruturar uma chapa competitiva — realidade já ilustrada aqui. De outro, o MDB continua dividido, sem rumo definitivo, oscilando entre o pragmatismo eleitoral e as divergências internas que historicamente acompanham o partido em Santa Catarina.
A consequência é que o partido pode acabar se transformando no fiel da balança do processo sucessório.
Primeira perda
Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu com o prefeito de Joinville, Adriano Silva, do Novo. O jovem empresário chegou a ser procurado para assumir a cabeça de chapa de um projeto alternativo. João Rodrigues, inclusive, admitia a possibilidade de disputar o Senado.
A operação, no entanto, foi rapidamente neutralizada pelo governador Jorginho Mello, que agiu com velocidade política e trouxe Adriano Silva para sua própria composição, transformando-o em vice no projeto de reeleição.
Tacada
Com isso, o governo capturou o principal nome do Partido Novo no Estado e esvaziou uma alternativa que poderia reorganizar o tabuleiro pré-eleitoral catarinense.
Base ampliada
Esse não foi um episódio isolado. Antes disso, partidos que inicialmente demonstravam proximidade com o projeto de João Rodrigues foram gradualmente atraídos para a órbita da reeleição do governador.
Legendas
O Podemos é um exemplo. A sigla acabou se alinhando ao bloco governista, que já conta com legendas como o PRD e o Republicanos.
O movimento amplia o arco político do governador e, ao mesmo tempo, reduz o espaço de manobra para Rodrigues. A política também é uma arte matemática.
Caso Lunelli
Mais recentemente, entrou em cena um personagem de peso político e simbólico: o deputado estadual Antídio Lunelli.
Empresário respeitado e ex-prefeito de Jaraguá do Sul, Lunelli construiu reputação administrativa sólida e deixou a prefeitura após dois mandatos muito bem avaliados. Renunciou ao cargo para disputar o governo em 2022, mas acabou preterido pelo próprio partido, que preferiu indicar Udo Döhler como vice de Carlos Moisés.
Desempenho
Mesmo assim, foi eleito deputado estadual como o terceiro mais votado do Estado.
João Rodrigues sondou Lunelli para ser vice em uma eventual chapa que contaria com o MDB. Mais uma vez, porém, o governador entrou em campo: acompanhado da deputada federal Carol De Toni, convidou o deputado para ser primeiro suplente ao Senado na própria chapa de Carol.
Reação interna
O episódio foi relatado por Lunelli na tradicional reunião da bancada estadual do MDB nesta semana.
A reação majoritária dos presentes, entretanto, não foi de entusiasmo com a oferta governista.
Sem argumentos
Há uma percepção interna clara: depois de o partido ter sido afastado da vaga de vice — reservada inicialmente aos emedebistas e posteriormente entregue a Adriano Silva —, torna-se politicamente difícil justificar um alinhamento automático com o projeto de reeleição de Jorginho Mello.
Divisão emedebista
Isso não significa unanimidade. Existe um segmento relevante dentro do MDB que prefere a aproximação com o governo.
Entre os nomes citados nos bastidores estão o secretário de Infraestrutura, Jerry Comper, e o deputado estadual Fernando Krelling. O próprio Lunelli também aparece nesse grupo mais pragmático.
Desafio
Mas a equação não é simples. Mesmo que parte da bancada estadual incline-se nessa direção, permanece a pergunta central: como convencer a base partidária, ainda mais depois da série de reuniões emedebistas realizadas pelo estado?
Resistência
Uma eventual aprovação em convenção poderia formalizar o alinhamento com o governo.
Ainda assim, o caminho não parece pavimentado. O presidente estadual do partido, Carlos Chiodini, não demonstra entusiasmo com essa hipótese. Entre deputados federais e lideranças regionais, o ambiente também está longe de ser consensual.
O MDB, mais uma vez, vive seu clássico dilema interno.
Oferta majoritária
Percebendo esse quadro, João Rodrigues intensificou as conversas. O prefeito chapecoense já admite entregar duas posições da chapa majoritária ao MDB: a vaga de vice-governador e uma candidatura ao Senado.
Parceria inusitada?
Nos bastidores, circula uma possibilidade curiosa: Antídio Lunelli formando dobradinha ao Senado com Esperidião Amin, enquanto o MDB indicaria outro nome para vice.
Movimento Colombo
Outro fator ajuda a explicar a pressa de João Rodrigues. Ele decidiu antecipar o ato de renúncia à prefeitura de Chapecó e o relançamento da candidatura ao governo justamente para neutralizar um movimento paralelo: a tentativa de setores do MDB de atrair o ex-governador Raimundo Colombo para encabeçar uma candidatura própria.
Se isso ocorresse, o projeto de Rodrigues perderia densidade imediatamente — até porque Colombo ainda está filiado ao PSD de Rodrigues e tem perfil de centro-direita.
Aliança improvável
Há quem questione a convivência eleitoral entre MDB e Amin numa mesma chapa — partidos que protagonizaram rivalidades intensas ao longo de mais de quarenta anos da política catarinense.
Mas a política tem seus atalhos.
Outro cenário
Nos bastidores, já se constrói uma narrativa para justificar essa aproximação: impedir a eleição de Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina.
O argumento é simples — e politicamente compreensível: evitar que o estado eleja mais um “senador de fora”, lembrando o episódio da eleição de Jorge Seif em 2022.
Se essa narrativa ganhar corpo, a improvável aliança pode se tornar perfeitamente palatável ao eleitorado catarinense.
A conferir.
A política catarinense terá um fato novo ainda neste mês com o anúncio da renúncia do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, do PSD, que marcou para o próximo dia 21 o ato em que deixará o cargo para oficializar sua entrada na disputa pelo governo de Santa Catarina.
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Trata-se, na prática, de um relançamento de uma candidatura que já havia sido apresentada no ano passado, mas que, até aqui, não conseguiu ganhar densidade política nem musculatura eleitoral. O projeto segue patinando — e isso explica a decisão de antecipar movimentos e tentar demonstrar vigor político em um momento de visível pressão. É uma forma de se manter com alguma esperança no jogo.
A renúncia tem um objetivo claro: evitar a impressão de que sua pré-candidatura perdeu fôlego antes mesmo de a campanha começar. O problema é que os obstáculos continuam surgindo no caminho.
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Fator Colombo
Um dos fatores mais recentes que tensionam o ambiente político é a movimentação do MDB em direção ao ex-governador Raimundo Colombo.
Mesmo ainda filiado ao PSD — o mesmo partido de João Rodrigues — Colombo passou a ser cortejado por lideranças emedebistas para encabeçar uma chapa ao governo estadual.
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Câmara Alta
Nesse desenho, Rodrigues seria deslocado para disputar o Senado, formando dobradinha com o senador Esperidião Amin, hoje ligado à federação União Progressista. A vaga de vice poderia sair do PSDB, com o nome do ex-senador Dalírio Beber entre os cogitados.
A simples circulação dessa hipótese já foi suficiente para acelerar decisões no entorno de Rodrigues.
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Relação distante
A eventual candidatura de Colombo tem um componente adicional: a ausência histórica de sintonia política entre ele e João Rodrigues.
Embora estejam formalmente na mesma legenda, nunca houve entre ambos entrosamento político consistente.
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Observando
Os perfis são distintos, as trajetórias diferentes e a convivência sempre foi marcada por distância. O comportamento de ambos também é bastante diferente.
Colombo, aliás, raramente aparece nas mobilizações partidárias lideradas por Rodrigues — um silêncio que, na política, costuma dizer muito.
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Obstáculos internos
Os problemas de Rodrigues não se limitam à movimentação externa. Dentro do próprio PSD existem resistências e cautelas.
Prefeitos influentes do partido mantêm posição discreta ou distante. Topázio Neto, que comanda a principal prefeitura pessedista, está alinhado com Jorginho Mello.
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Mergulho
Orvino de Ávila, prefeito de São José — quarto colégio eleitoral de Santa Catarina — também tem mantido postura discreta.
Os apoios mais efetivos a João Rodrigues, até aqui, vêm de Vagner Espíndola, o Vaguinho, prefeito de Criciúma, e de Juliana Pavan, prefeita de Balneário Camboriú.
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Incansável
Paralelamente, o governador Jorginho Mello vem realizando intenso movimento de aproximação com prefeitos de diferentes partidos, inclusive do próprio PSD, ampliando sua base municipalista e dificultando ainda mais o avanço do projeto adversário.
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Fantasma de 2022
Há também um elemento psicológico na decisão de Rodrigues. Em 2022, ele já ensaiou disputar o governo estadual. Chegou a cogitar renunciar à prefeitura e chegou a costurar um esboço de chapa que teria o então prefeito de Criciúma, Clésio Salvaro, como vice, e o empresário Luciano Hang como candidato ao Senado.
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Na praia
O projeto acabou naufragando antes de chegar ao mar aberto. Agora, Rodrigues não quer transmitir a imagem de um segundo recuo político, o que ajuda a explicar a decisão de levar adiante a renúncia e reafirmar publicamente a candidatura — nem que seja para disputar o Senado mais adiante.
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Cenário aberto
Caso Raimundo Colombo aceite o convite do MDB, o cenário eleitoral catarinense pode ganhar nova configuração. Teríamos, em tese, quatro candidaturas competitivas:
• Jorginho Mello, buscando a reeleição;
• João Rodrigues;
• Raimundo Colombo;
• Gelson Merisio, representando o campo da esquerda.
Seriam três nomes disputando o eleitorado conservador — fenômeno que sempre produz fragmentação e imprevisibilidade.
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Presenças observadas
O ato de renúncia em Chapecó servirá também como termômetro político.
Não apenas pelo anúncio da candidatura, mas principalmente por quem decidir aparecer no evento.
Evidentemente que Jorginho Mello e Gelson Merisio não estarão presentes. Mas haverá lideranças do MDB? Algum gesto público da federação União Progressista? Esperidião Amin comparecerá? E o próprio Raimundo Colombo dará o ar da graça?
Na política, ausências falam tanto quanto presenças.
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Outra renúncia
Enquanto Rodrigues acelera seu cronograma, outra saída já tem data marcada — até por força da legislação. O prefeito de Joinville, Adriano Silva, deixará o cargo em 2 de abril.
A prefeitura será assumida pela vice, Rejane Gambin. Adriano, do Novo, será o candidato a vice-governador na chapa de reeleição de Jorginho Mello.
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Prazo decisivo
Todas essas movimentações acontecem sob o calendário implacável da legislação eleitoral.
A chamada janela partidária e os ajustes de posicionamento político se estendem até 4 de abril. Depois disso, a política entra em outra fase, que culminará com as convenções partidárias até 5 de agosto.
Até lá, muita água ainda vai correr por baixo da ponte — e, em Santa Catarina, ela costuma correr rápido e turbulenta.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.