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Política não é palco para fanfarronice

Por Cláudio Prisco Paraíso
24/06/2026 - 08h26

Há uma frase clássica, repetida há décadas nos bastidores do poder, que segue atualíssima: política não é para amadores. Talvez seja hora de atualizar o conceito. Política também não é espaço para fanfarrões, aventuras personalistas ou factóides montados exclusivamente para chamar atenção.

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O episódio protagonizado pelo pré-candidato ao governo de Santa Catarina, Marcelo Brigadeiro, encaixa-se exatamente nessa categoria.

Lutador, empresário e figura que já transitou pelo PSL bolsonarista de 2018, além de ter circulado pelo governo Carlos Moisés, Marcelo Brigadeiro surgiu recentemente como pré-candidato ao governo do Estado pelo Missão. Uma pretensão legítima, evidentemente. Todo cidadão tem o direito de disputar uma eleição.

Mas, desde o início, sua movimentação jamais pareceu representar algo politicamente consistente ou minimamente competitivo no cenário catarinense.

Desistência fake

No último domingo, Marcelo Brigadeiro publicou nas redes sociais que anunciaria, no dia seguinte, as razões para retirar sua pré-candidatura ao governo.

O anúncio provocou repercussão imediata. Jornalistas, comunicadores e analistas políticos passaram a avaliar possíveis impactos da suposta desistência. Afinal, mesmo candidaturas sem densidade eleitoral podem produzir efeitos periféricos no tabuleiro político.

Piada

Só que nada disso existia.

Depois de uma live realizada no fim da tarde, Brigadeiro revelou que tudo não passava de uma “brincadeira”. Segundo ele, a encenação serviria para impulsionar uma vaquinha virtual destinada à arrecadação de recursos para sua campanha, mecanismo previsto na legislação eleitoral.

Ou seja: criou-se artificialmente um factóide para tentar ganhar visibilidade e arrecadar dinheiro.

Presepada política

Se antes a pré-candidatura já não inspirava maior seriedade, agora passa a ser encarada como uma completa gozação.

E depois ainda existe quem não compreenda por que a política brasileira mergulha, dia após dia, em descrédito perante a opinião pública.

Na lona

O problema não é apenas Marcelo Brigadeiro. O problema é a banalização absoluta da atividade política.

Transformar uma disputa eleitoral em espetáculo de internet, utilizando o expediente de uma pegadinha para mobilizar audiência, não fortalece candidatura alguma. Apenas desmoraliza ainda mais o ambiente político.

Indução ao erro

Pior: vários profissionais da imprensa foram levados legitimamente a repercutir a falsa desistência, acreditando tratar-se de um movimento real.

No fim das contas, o episódio acabou servindo apenas para reforçar a sensação de improviso, superficialidade e ausência completa de densidade política.

Reforma para valer

O Brasil segue pagando o preço de um sistema político-partidário esgotado.

Há mais de quatro décadas se fala em uma reforma política séria. Mas o país insiste apenas em remendos, atalhos e casuísmos eleitorais que deterioram ainda mais o processo democrático.

Sintoma

A reeleição é um dos exemplos mais simbólicos dessa deformação institucional.

Em vez de fortalecer a representação popular, o sistema passou a estimular estruturas artificiais de poder, distanciando a sociedade da política.

E, quando surgem figuras apostando em factóides, pegadinhas e encenações para sobreviver eleitoralmente, o resultado é ainda mais devastador para a credibilidade das instituições.

Candidato dele mesmo

Marcelo Brigadeiro continua pré-candidato ao governo.

Mas, depois do cavalo de pau que protagonizou, sua candidatura tende a permanecer restrita a ele próprio.

Se já demonstrava baixíssima densidade eleitoral antes da desistência fake, agora corre o risco de transformar-se apenas numa peça decorativa do processo eleitoral catarinense.

E uma peça decorativa de péssimo gosto.

O tabuleiro do Sul e o abalo no projeto de João Rodrigues

Por Cláudio Prisco Paraíso
23/06/2026 - 08h24

Continua repercutindo intensamente nos meios políticos a passagem dos dois principais pré-candidatos ao governo de Santa Catarina pela região Sul do estado na semana passada: o governador Jorginho Mello e o ex-prefeito de Chapecó, João Rodrigues.

João permaneceu praticamente quatro dias no Sul. Jorginho, dois. Tempo suficiente para provocar um verdadeiro alvoroço político na região e gerar forte desconforto dentro do PSD, justamente no momento em que o partido tenta convencer o distinto público de que o projeto eleitoral de João Rodrigues tem alguma viabilidade.

O problema é que, embora o PSD tenha candidatura própria encaminhada, existe também uma engenharia política em construção envolvendo MDB e a Federação União Progressista — fruto da aliança nacional entre Progressistas e União Brasil.

E foi justamente no Sul que começaram a surgir sinais de fissura nesse desenho.

Na veia

O episódio de maior repercussão ocorreu em Criciúma e teve como protagonista o prefeito Vagner Espíndola, o Vaguinho, filiado ao PSD e, portanto, correligionário de João Rodrigues.

Vale rememorar o contexto.

Quiprocó

Vaguinho foi escolhido candidato já em pleno período pré-eleitoral, ainda em 2024. Era o segundo nome apresentado pelo grupo político liderado por Clésio Salvaro, numa campanha extremamente pesada e conflagrada.

Mudança

Naquele momento, Ricardo Guidi rompeu com o PSD, ingressou no PL e recebeu apoio direto do governador Jorginho Mello.

A disputa municipal ganhou contornos dramáticos quando o então prefeito Clésio Salvaro chegou a ser preso durante a campanha.

Sem titubear

Mesmo diante daquele cenário explosivo, Vaguinho manteve sua candidatura.

E, paradoxalmente, a prisão de Salvaro acabou produzindo uma reviravolta eleitoral. O movimento gerou reação negativa contra Ricardo Guidi e acabou impulsionando Vaguinho, que ultrapassou o adversário e venceu a eleição.

Marcante

Posteriormente, Clésio Salvaro foi libertado, mas o ambiente político já havia sido profundamente marcado por uma campanha duríssima.

Sem volta

Jorginho Mello mobilizou toda a estrutura possível para tentar derrotar o PSD em Criciúma. Levou inclusive o ex-presidente Jair Bolsonaro para a campanha. Bolsonaro pernoitou na cidade.

Força eleitoral

Ainda assim, Vaguinho Espíndola, sustentado politicamente pelo peso eleitoral de Clésio Salvaro — liderança de enorme influência em Criciúma e em toda a região Sul —, acabou levando a melhor.

Rota de colisão

Mas bastaram poucos meses de administração para que a relação entre criador e criatura entrasse em rota de colisão.

Salvaro quis continuar comandando politicamente a prefeitura. Vaguinho não aceitou assumir esse papel secundário.

Desfecho

O resultado foi inevitável: estremecimento, críticas públicas do ex-prefeito ao sucessor e uma clara sinalização de rompimento político.

O déjà-vu

O cenário lembra um episódio já vivido por Clésio Salvaro no passado.

Impedido pela Justiça Eleitoral de disputar a prefeitura, ele elegeu seu vice, Márcio Búrigo, prefeito de Criciúma. Depois, os dois também romperam politicamente.

Mais adiante, Salvaro retornou à disputa municipal e derrotou Búrigo quando este tentava a reeleição. Agora, o filme parece ganhar um novo roteiro.

Alesc

Clésio Salvaro é candidato a deputado estadual e deverá fazer uma votação expressiva.

Mas o fato político relevante é outro: ele pode não contar com o apoio decisivo da máquina municipal de Criciúma.

Bomba

Foi nesse contexto que surgiu a declaração que sacudiu os bastidores políticos catarinenses.

Durante a inauguração do terceiro trecho do contorno viário de Criciúma, Vaguinho afirmou que ninguém irá ouvi-lo falar mal do governador Jorginho Mello durante a campanha eleitoral.

A frase

Mais do que isso, o alcaide criciumense disse que a única coisa que teria a dizer ao governador seria: “muito obrigado”.

A manifestação caiu como uma bomba dentro do PSD.

A grande dúvida agora é saber quais serão os desdobramentos políticos dessa posição.

Truculência

João Rodrigues é conhecido pelo estilo truculento. Exigiu a expulsão de Topázio Neto e Paulinho Bornhausen, que não se submeteram aos seus intentos.

E Vaguinho?

Adotará neutralidade? Cruzará os braços na disputa estadual? Não trabalhará nem para Jorginho nem para João Rodrigues? Ou caminhará efetivamente para integrar o projeto de reeleição do governador?

Constrangimento

O detalhe político é ainda mais delicado porque João Rodrigues estava no Sul exatamente quando a declaração foi feita.

E a situação ganhou contornos ainda mais evidentes em um evento noturno.

Tanto João Rodrigues quanto Jorginho Mello receberam o título de cidadão honorário de Nova Veneza, concedido pela Câmara de Vereadores. Depois, ambos participaram da abertura da tradicional Festa da Gastronomia do município.

Fora dessa

Nos bastidores e nos corredores do evento, um detalhe chamou atenção.

Quem circulou politicamente ao lado de Jorginho Mello foi justamente Vaguinho Espíndola, ignorando olimpicamente João Rodrigues.

Desgaste

O episódio ampliou ainda mais a percepção de desgaste interno no PSD do Sul do estado.

E não foi o único problema enfrentado por João Rodrigues na região.

No dia anterior, o pré-candidato do PSD já havia demonstrado irritação com manifestações vindas de Imbituba.

Pessedistas com Jorginho

A vice-prefeita do município e o presidente do PSD local, além de outros dois vereadores do partido, declararam apoio a Jorginho Mello.

João, ao seu melhor estilo, disse que, se pretendem permanecer no PSD, precisam reavaliar suas posições.

Araranguá

Para fechar o giro político pelo Sul, Jorginho Mello ainda arrancou outra manifestação extremamente simbólica em Araranguá.

Durante agenda administrativa e inaugurações no município, o prefeito César Antônio Cesa, do MDB, fez uma declaração de forte impacto político ao governador.

Nas urnas

Disse textualmente o emedebista:

“Deus lhe pague, porque o povo de Araranguá vai lhe pagar nas urnas.”

A fala repercute diretamente dentro do MDB, partido que trabalha na construção da aliança, com a participação de Antídio Lunelli ao Senado, e Carlos Chiodini — presidente estadual da legenda e nome cotado para compor como vice de João Rodrigues.

Tripé

Ao final da passagem dos pré-candidatos pela região Sul, uma pergunta inevitavelmente começou a circular nos bastidores políticos catarinenses:

Das três maiores prefeituras do Sul do estado, os três prefeitos estariam politicamente alinhados com Jorginho Mello?

Naturalidade

Em Tubarão, a situação é natural. Estêner Soratto é aliado e correligionário do governador.

Mas e Criciúma? E Araranguá?

Os próximos movimentos dirão se foram apenas gestos protocolares de cordialidade institucional ou os primeiros sinais concretos de um reposicionamento político com potencial para mexer profundamente no tabuleiro eleitoral catarinense de 2026.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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