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Pressão interna nas hostes do Manda Brasa

Por Cláudio Prisco Paraíso
20/05/2026 - 08h16

O MDB catarinense vive um daqueles momentos típicos de sua longa e complexa trajetória política: oficialmente dividido, mas organicamente em movimento. Enquanto parte expressiva dos mandatários segue alinhada ao projeto de reeleição do governador Jorginho Mello, o presidente estadual do partido, Carlos Chiodini, opera silenciosamente nas bases para reconstruir a unidade interna em torno de um projeto alternativo ao Palácio Barriga Verde.

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E faz isso no velho estilo MDB: no corpo a corpo, município por município, dirigente por dirigente, delegado por delegado. Ou seja, uma movimentação formiguinha.

Convenção

Chiodini sabe exatamente onde pisa. O comando partidário lhe garante relação direta com os presidentes municipais do MDB, que, em última instância, formam o núcleo decisivo da convenção estadual prevista entre 20 de julho e 5 de agosto.

Quem tem voto

É evidente que prefeitos, vices, vereadores e parlamentares possuem peso político relevante. Mas o MDB continua sendo um partido profundamente municipalizado. E nisso reside a força de Chiodini para, muito provavelmente, levar o partido ao repeteco do desastre de 2022.

Cavando fundo

Hoje, o dirigente estadual trabalha não apenas para consolidar maioria convencional, mas também para estimular as bases a pressionarem lideranças regionais e parlamentares ainda simpáticos ao projeto de recondução de Jorginho Mello. A lógica é simples: fazer o MDB de baixo para cima emparedar lideranças.

Militância

Nenhum partido em Santa Catarina possui a capilaridade do MDB. Reafirmamos essa realidade aqui neste espaço várias vezes. Nenhuma legenda tem essa musculatura.

A sigla está organizada nos 295 municípios catarinenses e mantém o maior número de filiados do estado. Trata-se de uma estrutura construída ao longo de décadas, sustentada por tradição, relações comunitárias e presença municipal. E isso, historicamente, sempre teve peso eleitoral.

Tiro n’água

O problema é que militância também depende de perspectiva de vitória. E é justamente aí que começam as preocupações internas. O desempenho de João Rodrigues passou a preocupar parcelas importantes do MDB (no PP a ficha parece que já caiu). Depois de mais de dois anos em pré-campanha, o ex-prefeito de Chapecó ainda não conseguiu romper a barreira que consolidaria sua condição de candidato efetivamente competitivo. Jamais se aproximou de 25% das intenções de voto.

Rival regional

Mais do que isso: perdeu consistência política e eleitoral com a entrada de Gelson Merisio no jogo. Merisio ocupa espaços regionais e eleitorais semelhantes aos de João Rodrigues, especialmente no Oeste catarinense. Chapecó, Xanxerê e arredores compartilham vínculos políticos, econômicos e culturais que aproximam os dois campos. Ali há voto de identificação regional muito antes de existir voto ideológico.

Bala na agulha

E Merisio entra na disputa respaldado por uma estrutura muito mais robusta no campo financeiro, institucional e logístico, sustentada pelo alinhamento com a esquerda nacional, setores empresariais específicos e o governo federal. João Rodrigues terá apoio político relevante, evidentemente. Mas não terá nem a máquina estadual comandada por Jorginho Mello (que também pilota a nada desprezível musculatura do PL catarinense), nem a estrutura partidária nacional que estará por trás da candidatura de Merisio.

Senado

Outro ponto delicadíssimo envolve a composição ao Senado. Hoje, tudo indica que Carlos Chiodini caminhará para formar chapa com João Rodrigues ao governo. Já Esperidião Amin dá sinais claros de que pretende disputar praticamente sozinho a vaga ao Senado. E isso possui uma razão estratégica muito objetiva.

Marcando território

Caso surja um segundo nome competitivo ao Senado dentro da chapa, especialmente um nome do MDB, cresce o risco de divisão do voto conservador e de centro-direita. Mais do que isso. Existe um temor evidente de que o eleitor emedebista priorize um eventual candidato do próprio MDB em detrimento de Amin. E aí reside o problema histórico.

Não se apaga

MDB e PP carregam décadas de rivalidade política em Santa Catarina. Uma disputa estrutural, enraizada nas bases, nas lideranças regionais e na cultura eleitoral do estado. Não se desmonta isso apenas com uma fotografia de aliança. O articulista não consegue visualizar a turma emedebista de cruz na testa pedindo votos para Esperidião Amin e nem os progressistas de quatro costados atuando para eleger deputados do MDB!

Dilema

A grande incógnita passa a ser justamente esta: o MDB conseguirá transferir apoio ao governo sem necessariamente entregar voto ao Senado? Porque uma coisa é apoiar João Rodrigues. Outra, completamente diferente, é convencer o eleitor emedebista histórico a votar em Esperidião Amin. E de graça!

Contas

E essa equação ainda está longe de ser resolvida. As viagens pelo estado, os encontros regionais e o esforço de aproximação entre PP e MDB devem se intensificar nos próximos meses. Amin e Chiodini já começaram a “tricotar” politicamente juntos em diversas agendas lideradas por João Rodrigues. Mas resta saber se essa convivência de cúpula conseguirá descer às bases. Porque, em Santa Catarina, alianças partidárias nem sempre significam pacificação eleitoral.

Efeito cascata

Por Cláudio Prisco Paraíso
19/05/2026 - 08h16

Muito se fala sobre a disputa majoritária em Santa Catarina. E não sem razão. O estado, décimo maior colégio eleitoral do país, já apresenta três polos relativamente consolidados para 2026.

Na esquerda, Gelson Merisio deverá liderar a chapa com Angela Albino de vice, além de Décio Lima e Afrânio Boppré ao Senado.

No campo da centro-direita, João Rodrigues aparece como candidato ao governo, possivelmente tendo Carlos Chiodini na vice e Esperidião Amin na disputa senatorial.

Já o governador Jorginho Mello deve buscar a reeleição ao lado de Adriano Silva, do Novo.

Mas existe uma pergunta tão importante quanto a disputa pelo governo: como ficará a eleição proporcional?

Avalanche

No momento, o PL nada de braçadas. O partido construiu musculatura política, eleitoral e ideológica suficiente para transformar 2026 numa eleição de expansão parlamentar. Tanto na Câmara Federal quanto na Assembleia Legislativa.

Robustez

Hoje, já é perfeitamente plausível projetar o PL elegendo entre sete e oito deputados federais dos 16 catarinenses. Na Assembleia, o partido pode alcançar algo entre 14 e 15 parlamentares dos 40 estaduais. Seria um desempenho avassalador.

E que não nasce apenas da força do bolsonarismo em Santa Catarina, mas também da fragilidade crescente do centro político tradicional.

Esquerda

A esquerda, por sua vez, também pode surpreender. O PT repetiu nas duas últimas eleições estaduais a mesma bancada de quatro deputados estaduais. Os mesmos nomes, inclusive. Mas o cenário de 2026 pode ser diferente.

Baliza

Se Gelson Merisio atingir a faixa dos 20% dos votos ao governo — hipótese hoje bastante factível — o partido tende a ampliar sua densidade eleitoral. E isso pode resultar na eleição do quinto deputado estadual petista.

Detalhes

Em 2022, o PT reelegeu Pedro Uczai e conseguiu levar Ana Paula Lima de volta ao Congresso, depois de ela ter ficado fora da Câmara em 2018 por um único voto.

A depender das sobras eleitorais e da composição das federações, não é impossível que o partido ainda conquiste um terceiro deputado federal.

Dependência

E é justamente aqui que entra o fator decisivo da eleição catarinense: o desempenho de João Rodrigues. O crescimento simultâneo do PL e da esquerda depende diretamente da performance eleitoral do prefeito de Chapecó.

Se João apresentar uma candidatura competitiva, robusta e capaz de consolidar um polo intermediário forte, o centro-direita preserva musculatura parlamentar.

Pato manco

Mas, se João continuar patinando nas pesquisas, com dificuldades para consolidar alianças e transmitir viabilidade eleitoral, abre espaço para uma transferência de votos em duas direções: parte para a esquerda e parte, principalmente, para o PL. Ou seja: quanto mais João enfraquece, mais os extremos crescem.

PSD

O PSD talvez seja hoje o melhor retrato desse fenômeno. Na Assembleia Legislativa, o partido elegeu três deputados em 2022: Mário Motta, Napoleão Bernardes e Júlio Garcia, este último hoje mirando a Câmara Federal. Além deles, Nilso Berlanda filiou-se recentemente ao PSD e tentará a reeleição.

Teoria e prática

Na teoria, o partido poderia repetir os três estaduais. Na prática, isso dependerá diretamente da força da candidatura de João Rodrigues ao governo.

Se o desempenho for abaixo do esperado, o PSD pode cair para duas cadeiras. E alguém sobrará nessa conta.

Linha tênue

Na Câmara Federal, a situação é ainda mais delicada. O partido elegeu dois deputados em 2022, mas ambos migraram para o PL: Ricardo Guidi e Ismael dos Santos.

Hoje, o PSD depende praticamente de Júlio Garcia e talvez de Raimundo Colombo para tentar voltar a Brasília. Ainda assim, o cenário é apertado.

Fator Colombo

Se Colombo disputar, um dos dois pode se eleger. Se não entrar no páreo, nem mesmo Júlio Garcia tem garantia de sucesso. O PSD, inclusive, corre o risco real de permanecer sem representação federal. Eis o tamanho do efeito cascata provocado pela disputa majoritária em Santa Catarina.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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