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Polarização resiste ao bombardeio

Por Cláudio Prisco Paraíso
27/05/2026 - 08h27

A última semana foi devastadora para o PL e, especialmente, para o senador Flávio Bolsonaro. A revelação — confirmada pelo próprio parlamentar — de contatos mantidos com o banqueiro Daniel Vorcaro produziu um estrago político imediato e alimentou uma ofensiva pesada da mídia nacional contra o primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro.

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Primeiro veio à tona uma mensagem de voz enviada pelo WhatsApp. Depois, o próprio senador reconheceu que procurou Vorcaro, que cumpria
prisão domiciliar em São Paulo com uso de tornozeleira eletrônica. O encontro ocorreu na residência do ex-banqueiro.

Ainda que a justificativa apresentada tenha sido a busca de financiamento para um filme sobre a trajetória política e pessoal de Jair Bolsonaro, o episódio deixou evidente uma relação de proximidade absolutamente desconfortável para alguém que tenta chegar ao Palácio do Planalto. Sobretudo considerando o perfil do cidadão em questão.

Daniel Vorcaro é visto, nos bastidores políticos e empresariais, como uma figura altamente tóxica. Um bandido da pior espécie. E foi exatamente essa associação que passou a ser explorada de forma intensa pelos adversários políticos e pelos grandes veículos de comunicação.

Cerco midiático

A repercussão foi imediata e brutal. Tratando-se do filho mais velho do ex-presidente, praticamente toda a grande imprensa passou a trabalhar em cima do desgaste do senador. Em Brasília, a leitura predominante era clara: criar um ambiente político capaz não apenas de enfraquecer Flávio Bolsonaro, mas eventualmente inviabilizar sua pré-candidatura presidencial.

Ainda não

Nos bastidores do centro político e também entre setores da direita não alinhados ao bolsonarismo-raiz, havia quem enxergasse no episódio a oportunidade ideal para abrir espaço a uma alternativa conservadora fora do núcleo familiar dos Bolsonaro.

Dupla

Os nomes colocados sobre a mesa continuam sendo os mesmos: Romeu Zema, do Novo, e Ronaldo Caiado, do PSD.

Frustração no consórcio

Mas o dado político mais relevante veio justamente depois do massacre midiático. As pesquisas realizadas após a explosão do caso não mostraram nenhuma implosão da candidatura de Flávio Bolsonaro. Muito pelo contrário.

Desgaste natural

Na média dos levantamentos estatísticos, o senador perdeu alguma substância eleitoral, é verdade. Houve oscilação negativa de alguns pontos percentuais. Ainda assim, nada remotamente próximo de uma situação que pudesse gerar pressão interna por desistência. O cenário segue polarizado.

Será?

Em alguns institutos, Lula da Silva retomou numericamente a dianteira. Mas o empate técnico permanece predominando dentro da tradicional margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Viés canhoto

Até mesmo no Datafolha — historicamente apontado por conservadores como simpático a candidaturas de esquerda — o quadro continua apertado. Antes da crise, Flávio Bolsonaro e Lula apareciam empatados em 45% a 45%. Depois do episódio, o senador caiu dois pontos e Lula subiu dois. O placar passou para 47% a 43%. Resultado: empate técnico mantido.

Candidato é Flávio

A essa altura, a conclusão nos bastidores do PL é objetiva: a polarização está consolidada e não existe hoje nenhum fato capaz de fulminá-la. O candidato do bolsonarismo é Flávio Bolsonaro. E mais: só deixará de ser se assim decidir o pai. É assim que funciona.

Bênção familiar

Foi Jair Bolsonaro quem escolheu, quem ungiu e quem transformou o filho em herdeiro político direto do seu capital eleitoral. Portanto, apenas o ex-presidente teria autoridade para promover qualquer mudança de rota. Não há, neste momento, qualquer hipótese de rebelião interna no PL.

Uníssono

Nem o presidente da legenda, Valdemar da Costa Neto, tampouco deputados, senadores ou integrantes da executiva nacional trabalham com substituição. Ao contrário. A disposição de Jair Bolsonaro é ir com o filho até as últimas consequências.

Casa Branca

A expectativa política agora se desloca para os Estados Unidos. Há enorme atenção em torno do encontro previsto entre Flávio Bolsonaro e o presidente americano Donald Trump. A reunião pode não ocorrer exatamente na data inicialmente prevista em razão do agravamento da tensão envolvendo Estados Unidos e Irã, além de exames médicos agendados para Trump.

Próximas horas

Mas, nos bastidores, a informação é de que o encontro deverá acontecer — se não imediatamente, entre quarta e quinta-feira. O tom adotado pelo atual ocupante da Casa Branca poderá produzir efeitos políticos importantes no Brasil. A dúvida é objetiva: haverá algum gesto formal ou informal de apoio a Flávio Bolsonaro?

O “troco”

Aliados do senador lembram um detalhe importante. Em 2024, Lula declarou apoio público ao então presidente americano Joe Biden. Depois da saída de Biden da disputa, o presidente brasileiro também manifestou apoio à candidata democrata derrotada por Trump. Daí surge a pergunta que já circula nos bastidores bolsonaristas: Trump poderá agora dar o troco político em Lula?

Parceria estratégica

Para o presidente americano, a eventual eleição de um governante de direita no Brasil teria relevância estratégica dentro do seu movimento de fortalecimento da influência na América Latina — especialmente diante das pressões sobre a Venezuela e também das sinalizações envolvendo Cuba.

E é justamente aí que a eleição brasileira começa, cada vez mais, a ultrapassar as fronteiras nacionais.

Conservadorismo prevalece

Por Cláudio Prisco Paraíso
26/05/2026 - 08h17

Desde o restabelecimento das eleições diretas para os governos estaduais, em 1982, Santa Catarina jamais elegeu um governador identificado claramente com a esquerda ideológica. Esta é uma constatação histórica, eleitoral e sociológica. Não se trata de opinião. Trata-se da leitura fria das urnas ao longo de mais de quatro décadas.

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Em duas oportunidades, contudo, este cenário esteve muito próximo de ser alterado.

A primeira delas ocorreu logo na retomada democrática. Em 1982, Esperidião Amin derrotou Jaison Barreto por apenas 12,5 mil votos. Meio ponto percentual. Jaison era do MDB, mas integrava a ala dos chamados “autênticos”, vinculada a lideranças como Chico Pinto e Fernando Lyra, representantes históricos do campo progressista e de esquerda dentro do antigo MDB. E bem esquerdistas, registre-se.

Onda vermelha

A segunda grande aproximação ocorreu em 2002, na chamada Onda Vermelha. A vitória de Lula da Silva, em sua quarta tentativa presidencial, produziu reflexos profundos em Santa Catarina. O PT elegeu Ideli Salvatti ao Senado com votação histórica, ultrapassando a marca de um milhão de votos, conquistou cinco cadeiras na Câmara Federal e formou uma das maiores bancadas estaduais de sua trajetória.

Por pouco

Ao governo, José Fritsch quase chegou ao segundo turno. Ficou a apenas 27 mil votos de Luiz Henrique da Silveira. A primeira vaga havia sido conquistada novamente por Esperidião Amin, derrotado depois no segundo turno por Luiz Henrique, um feito histórico e lembrado até hoje.

Presidenciais

Nas disputas presidenciais, Santa Catarina oscilou menos do que aparenta. Em 1989, no primeiro pleito presidencial direto pós-redemocratização, Leonel Brizola foi o mais votado no estado. Já no segundo turno, Fernando Collor de Mello venceu Lula por margem apertada.

Realidade

Em 1994 e 1998, embalado pelo Plano Real, Fernando Henrique Cardoso dominou amplamente o eleitorado catarinense. Mas em 2002 ocorreu um fenômeno pouco lembrado: Lula registrou, proporcionalmente, uma de suas maiores votações nacionais justamente em Santa Catarina no primeiro turno. No segundo, teve novamente desempenho extraordinário.

Guinada profunda

A partir de 2006, o eleitorado catarinense voltou a inclinar-se claramente ao centro-direita e à direita. Geraldo Alckmin venceu Lula no estado. Em 2010, José Serra derrotou Dilma Rousseff. Em 2014, Aécio Neves fez votação avassaladora, impulsionando inclusive a candidatura de Paulo Bauer ao governo. Por pouco, o tucano não forçou o round final da eleição contra Raimundo Colombo.

Onda Bolsonaro

Em 2018, Santa Catarina mergulhou na primeira grande onda conservadora contemporânea. Jair Bolsonaro transformou o estado num de seus principais redutos eleitorais do país. No primeiro turno, obteve uma das maiores votações proporcionais nacionais. No segundo, atropelou o poste Fernando Haddad.

Aqui, não

O fenômeno repetiu-se em 2022. Mesmo derrotado nacionalmente por Lula, Bolsonaro voltou a vencer com ampla margem em Santa Catarina. Mais do que isso: o PL construiu a maior bancada estadual, a maior representação federal e ainda elegeu Jorge Seif, um completo desconhecido, ao Senado.

Ou seja, o bolsonarismo deixou de ser apenas uma onda circunstancial para se transformar em estrutura política permanente no estado.

E agora?

E é justamente aí que entra 2026. Tudo indica que Santa Catarina poderá assistir à terceira eleição presidencial consecutiva com um integrante do sobrenome Bolsonaro na disputa nacional. A hipótese de Flávio Bolsonaro representar o campo conservador altera completamente o ambiente político catarinense. O senador saiu ferido pelo episódio Master, mas não morto.

Estado que dá certo

Porque Santa Catarina, gostem ou não alguns setores da elite política e da velha imprensa, continua sendo um estado majoritariamente conservador nos costumes, liberal na economia e refratário à esquerda tradicional.

Dúvida e certeza

A dúvida não é se haverá influência presidencial sobre o pleito estadual. Haverá. A dúvida é o tamanho desta influência. Se Flávio Bolsonaro confirmar candidatura, estará mais próximo do desempenho do pai em 2018 ou em 2022? Terá uma onda mais intensa ou um conservadorismo consolidado, porém menos emocional?

Observando

Ainda é cedo para respostas definitivas. Mas uma conclusão parece evidente: dificilmente o eleitor catarinense abandonará este comportamento político-cultural consolidado ao longo de mais de 40 anos.

Tchau, queridos

Por isso, a possibilidade de um nome identificado com a esquerda conquistar o governo estadual segue extremamente reduzida — ainda que este nome tente reposicionamentos estratégicos ou busque um discurso moderado.

E quanto à Presidência da República, hoje, imaginar Luiz Inácio Lula da Silva vencendo em Santa Catarina soa, no mínimo, como um cenário altamente improvável.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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