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O maior adversário de João Rodrigues

Por Cláudio Prisco Paraíso
25/06/2026 - 08h22

O ex-prefeito de Chapecó, João Rodrigues, segue acumulando erros políticos justamente no momento em que a pré-campanha entra na reta final, com a campanha eleitoral propriamente dita batendo às portas.

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Depois de quase três anos desde que anunciou que disputaria o governo, a pré-candidatura continua sem decolar, estagnada, patinando. E o mais preocupante para os aliados do candidato do PSD: ele insiste em agir por instinto, sem coordenação estratégica clara, sem comunicação profissional consolidada e, sobretudo, sem a disciplina política exigida de quem deseja disputar o governo de Santa Catarina.

E olha que João viu cair em seu colo lideranças importantes do MDB e do PP. Mesmo assim, segue na mesma batida de quando ainda era candidato favorito à Prefeitura de Chapecó.

Nos bastidores, comenta-se que João Rodrigues estaria conversando com um profissional que atuou no marketing político de Jorginho Mello em 2022. Mas, até aqui, continua conduzindo sua pré-campanha pela própria cabeça. Para alegria dos adversários.

Ex-radialista

É inegável que o pessedista possui comunicação popular e espontânea. Contudo, falta-lhe traquejo estratégico para compreender o peso de determinadas declarações e a necessidade de calibrar discurso, timing e posicionamento em uma disputa estadual.

E o relógio corre.

Prazo fatal

As convenções partidárias ocorrerão entre 20 de julho e 5 de agosto. Depois disso, começa uma campanha de tiro curtíssimo, com cerca de 50 dias efetivos.

Ou seja: este era justamente o período em que João Rodrigues deveria estar consolidando imagem, reduzindo rejeição e ampliando pontes. Mas ocorre exatamente o contrário.

Ex-amigo

João tem outro problema em seu caminho. Ele atende pelo nome de Gelson Merisio.

O ex-prefeito de Chapecó carrega uma dificuldade estrutural importante: o candidato da esquerda é justamente seu ex-companheiro de partido, ex-aliado político, amigo pessoal e liderança da mesma região do Oeste catarinense.

Vizinhança

Gelson Merisio é de Xanxerê. João Rodrigues é de Chapecó. Vinte minutos separam as duas cidades. E isso pesa eleitoralmente.

Merisio tende a capturar votos que naturalmente migrariam para João Rodrigues no Oeste.

Equilíbrio

Primeiro porque, até aqui, Merisio formula politicamente com mais racionalidade e equilíbrio. Muito mais do que João Rodrigues.

Segundo porque construiu um discurso moderado, sem estridências.

E terceiro porque o nome do PSD parece ter uma vocação permanente para o improviso político e para o chamado “tiro no pé”.

Derretimento

Você, caro leitor, não vai ler isso em nenhum outro espaço jornalístico do Estado.

Nessa batida, a candidatura de João Rodrigues tende a derreter quando a campanha realmente começar a esquentar.

Tiro de bazuca

O episódio mais recente sintetiza a dificuldade de João.

Quando deveria concentrar o debate em temas estaduais, regionais e locais — até porque o presidenciável apoiado por seu grupo, Ronaldo Caiado, sequer consegue ultrapassar a faixa dos cinco pontos percentuais nacionalmente —, João Rodrigues resolveu atacar Flávio Bolsonaro.

Apostando

Politicamente, foi um movimento de alto risco.

Primeiro porque João vinha tentando se apresentar ao eleitorado como um bolsonarista convicto. Ao atacar Flávio Bolsonaro, gera confusão justamente no segmento conservador que tenta conquistar.

Segundo porque desloca o foco do debate catarinense para uma guerra nacional que não lhe traz qualquer ganho eleitoral concreto.

Inimigo em casa

E terceiro porque cria constrangimento dentro da própria composição majoritária.

Isso porque seus dois nomes mapeados para o Senado têm alinhamento com Flávio Bolsonaro: Esperidião Amin e Antídio Lunelli.

Resultado? João Rodrigues acaba produzindo ruído dentro da própria chapa antes mesmo do início oficial da campanha.

Na proa

Enquanto João Rodrigues tropeça, Jorginho Mello permanece controlando o tabuleiro político estadual.

A ilustração mais clara dessa assertiva é o fato de que praticamente todos os nomes cogitados para a chapa de João Rodrigues estiveram, antes, no radar do governador.

Ex-vice

Carlos Chiodini foi cogitado para compor como vice de Jorginho.

Antídio Lunelli também chegou a ser ventilado para posições estratégicas, como uma suplência ao Senado.

O quadro mudou com a chegada de Carlos Bolsonaro, sem falar na movimentação envolvendo Adriano Silva, nome que o PSD tentou transformar em alternativa ao governo.

Preteridos

No fim, João Rodrigues acabou montando uma chapa com aqueles fruto das negociações maiores conduzidas por Jorginho Mello.

Ainda assim, terá apoios importantes. Deputados, prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e lideranças tanto da União Progressista quanto do MDB devem manter relações paralelas com sua candidatura.

Mas isso está longe de significar competitividade consolidada.

Polarização estadual

O cenário desenhado hoje aponta novamente para uma polarização em Santa Catarina.

Em 2022, Décio Lima chegou ao segundo turno contra Jorginho Mello em um ambiente pulverizado, com cinco candidaturas conservadoras competitivas ao governo.

Agora, o quadro é diferente. A tendência é de concentração de votos.

Patamar canhoto

Mesmo assim, Gelson Merisio dificilmente ficará abaixo da casa dos 20 pontos percentuais.

Já João Rodrigues corre o risco de iniciar um processo de esvaziamento gradual ao longo da campanha, conforme já afirmamos acima.

Patamar rodriguiano

Hoje, há quem já trabalhe com a possibilidade de João ficar pouco acima da metade do desempenho de Merisio, orbitando entre 10% e 15% dos votos válidos.

Enquanto isso, a média das pesquisas continua mostrando Jorginho Mello em torno dos 55 pontos percentuais, com ampla vantagem no controle político, partidário e estrutural da disputa.

Dito isso, a constatação é inevitável:

João Rodrigues é o maior adversário de… João Rodrigues.

Política não é palco para fanfarronice

Por Cláudio Prisco Paraíso
24/06/2026 - 08h26

Há uma frase clássica, repetida há décadas nos bastidores do poder, que segue atualíssima: política não é para amadores. Talvez seja hora de atualizar o conceito. Política também não é espaço para fanfarrões, aventuras personalistas ou factóides montados exclusivamente para chamar atenção.

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O episódio protagonizado pelo pré-candidato ao governo de Santa Catarina, Marcelo Brigadeiro, encaixa-se exatamente nessa categoria.

Lutador, empresário e figura que já transitou pelo PSL bolsonarista de 2018, além de ter circulado pelo governo Carlos Moisés, Marcelo Brigadeiro surgiu recentemente como pré-candidato ao governo do Estado pelo Missão. Uma pretensão legítima, evidentemente. Todo cidadão tem o direito de disputar uma eleição.

Mas, desde o início, sua movimentação jamais pareceu representar algo politicamente consistente ou minimamente competitivo no cenário catarinense.

Desistência fake

No último domingo, Marcelo Brigadeiro publicou nas redes sociais que anunciaria, no dia seguinte, as razões para retirar sua pré-candidatura ao governo.

O anúncio provocou repercussão imediata. Jornalistas, comunicadores e analistas políticos passaram a avaliar possíveis impactos da suposta desistência. Afinal, mesmo candidaturas sem densidade eleitoral podem produzir efeitos periféricos no tabuleiro político.

Piada

Só que nada disso existia.

Depois de uma live realizada no fim da tarde, Brigadeiro revelou que tudo não passava de uma “brincadeira”. Segundo ele, a encenação serviria para impulsionar uma vaquinha virtual destinada à arrecadação de recursos para sua campanha, mecanismo previsto na legislação eleitoral.

Ou seja: criou-se artificialmente um factóide para tentar ganhar visibilidade e arrecadar dinheiro.

Presepada política

Se antes a pré-candidatura já não inspirava maior seriedade, agora passa a ser encarada como uma completa gozação.

E depois ainda existe quem não compreenda por que a política brasileira mergulha, dia após dia, em descrédito perante a opinião pública.

Na lona

O problema não é apenas Marcelo Brigadeiro. O problema é a banalização absoluta da atividade política.

Transformar uma disputa eleitoral em espetáculo de internet, utilizando o expediente de uma pegadinha para mobilizar audiência, não fortalece candidatura alguma. Apenas desmoraliza ainda mais o ambiente político.

Indução ao erro

Pior: vários profissionais da imprensa foram levados legitimamente a repercutir a falsa desistência, acreditando tratar-se de um movimento real.

No fim das contas, o episódio acabou servindo apenas para reforçar a sensação de improviso, superficialidade e ausência completa de densidade política.

Reforma para valer

O Brasil segue pagando o preço de um sistema político-partidário esgotado.

Há mais de quatro décadas se fala em uma reforma política séria. Mas o país insiste apenas em remendos, atalhos e casuísmos eleitorais que deterioram ainda mais o processo democrático.

Sintoma

A reeleição é um dos exemplos mais simbólicos dessa deformação institucional.

Em vez de fortalecer a representação popular, o sistema passou a estimular estruturas artificiais de poder, distanciando a sociedade da política.

E, quando surgem figuras apostando em factóides, pegadinhas e encenações para sobreviver eleitoralmente, o resultado é ainda mais devastador para a credibilidade das instituições.

Candidato dele mesmo

Marcelo Brigadeiro continua pré-candidato ao governo.

Mas, depois do cavalo de pau que protagonizou, sua candidatura tende a permanecer restrita a ele próprio.

Se já demonstrava baixíssima densidade eleitoral antes da desistência fake, agora corre o risco de transformar-se apenas numa peça decorativa do processo eleitoral catarinense.

E uma peça decorativa de péssimo gosto.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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