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João é pré-candidato

Por Cláudio Prisco Paraíso
02/04/2026 - 08h21

João Rodrigues consumou, na noite de terça-feira, 31 de março, a renúncia ao cargo de prefeito de Chapecó — posto para o qual havia sido reeleito em outubro de 2024. O movimento, já esperado, formaliza sua entrada plena na disputa pelo governo do Estado, mas inaugura, ao mesmo tempo, uma travessia eleitoral de elevada complexidade.

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O ex-prefeito entra na corrida com dois desafios estruturais muito claros. O primeiro deles é estabelecer uma polarização direta com o atual governador, Jorginho Mello. Trata-se não apenas de uma disputa eleitoral, mas de uma tentativa de construção de confronto ideológico dentro do mesmo campo — o conservador.

A estratégia é evidente: tensionar o ambiente político à direita, criar contraste suficiente para forçar um segundo turno e, a partir daí, reconfigurar o jogo. Não é uma tarefa trivial. Jorginho Mello ostenta um favoritismo consistente e praticamente indiscutível neste momento, sustentado por máquina, visibilidade institucional, resultados administrativos e alinhamento com o bolsonarismo, inclusive com o apoio de Flávio Bolsonaro e o simbólico “22” na urna.



Fator Merisio

O segundo desafio de João Rodrigues é igualmente sensível: superar Gelson Merisio como alternativa competitiva na disputa estadual.

Se, de um lado, Rodrigues trabalha para assegurar, via convenções homologatórias, o apoio do MDB e da Federação Progressista ao seu projeto, de outro, Merisio avança com uma construção política robusta e já bastante consolidada.



Socialista

O ex-deputado, que entrou para a política via PFL, deve oficializar — se é que já não o fez — sua filiação ao Partido Socialista Brasileiro, chegando com um ativo político relevante: a unidade praticamente absoluta da esquerda em torno de seu nome.



Unidade

Trata-se de um alinhamento que ocorre sem fissuras, mesmo diante de um histórico ideológico pretérito de Merisio vinculado a posições mais conservadoras. Não há espaço para dissenso interno.

Sua escolha foi chancelada diretamente por Lula da Silva, o que, na prática, elimina resistências e inibe qualquer contestação nas fileiras progressistas. Simples assim.



Guarda-chuva

O resultado é uma frente ampla que reúne desde o PT — federado com PCdoB e PV — até legendas como PSOL, PDT e Rede Sustentabilidade, além do próprio PSB e do Solidariedade.

Na prática, estamos falando de um bloco que se aproxima de uma dezena de partidos, operando de forma coesa. É uma realidade que não se pode desprezar.



Contraponto em SC

Mas não é apenas a engenharia partidária que sustenta a pré-candidatura de Gelson Merisio. Há um componente operacional de peso sendo desenhado a partir de Brasília.

O Palácio do Planalto tem interesse direto no desempenho eleitoral em Santa Catarina, especialmente após o resultado de 2022, quando Jair Bolsonaro impôs uma vantagem expressiva sobre Lula em SC — algo próximo de 70% a 30%.

O objetivo estratégico agora é reduzir essa diferença. Nos cálculos do PT nacional, um cenário de 60% a 40% já seria considerado aceitável, ainda que muito difícil de ser alcançado.



Ligações de Merisio

Há, contudo, outro fator relevante além da mobilização da máquina federal e da estrutura partidária. Entra em cena um ator de grande capacidade de influência: o grupo JBS.

Gelson Merisio mantém relação próxima com a empresa há pelo menos meia dúzia de anos, atuando no mínimo como conselheiro, com acesso direto aos irmãos Joesley e Wesley Batista.

Esse vínculo não é periférico — tende a se traduzir em suporte político e, sobretudo, em capacidade operacional de campanha, o bom e velho financiamento do processo eleitoral.



De volta ao passado

É justamente nesse ponto que o ambiente eleitoral ganha um elemento adicional de tensão e expectativa.

Voltou a circular, nos últimos dias, um vídeo de 8 de novembro de 2017, durante os trabalhos conjuntos da CPMI da JBS e da CPI do BNDES. À época, as comissões investigavam as vantagens e os benefícios obtidos pelo grupo JBS em operações de financiamento junto ao banco público.



João “Verdade”

Nas imagens, o então deputado federal João Rodrigues dirige ataques duros a Wesley Batista, tratando-o como bandido, delinquente e associando sua atuação a práticas de quadrilha.

O conteúdo, resgatado em pleno contexto pré-eleitoral, adiciona um componente político sensível à disputa, sugerindo que a campanha será sangrenta.



Indústria da carne

Nos bastidores, a leitura é clara: o episódio não apenas reativa memórias incômodas, como também pode influenciar diretamente o comportamento do grupo JBS na eleição.

As informações que circulam indicam a possibilidade de um incremento ainda maior no apoio à campanha de Gelson Merisio, num movimento que teria também um caráter de resposta política — ou, no mínimo, de reposicionamento estratégico diante do histórico de confrontos.



Terá capacidade?

O fato é que João Rodrigues entra na disputa dispondo de algum capital político, mas ingressa em um tabuleiro mais complexo do que aparentava à primeira vista.

Entre o favoritismo consolidado de Jorginho Mello e a estrutura crescente de Gelson Merisio, sua candidatura dependerá, essencialmente, da habilidade de construir contraste, atrair alianças consistentes e sustentar narrativa em um ambiente de alta competitividade e múltiplos vetores de influência.

Salto e Segurança

Por Cláudio Prisco Paraíso
01/04/2026 - 08h15

A semana é decisiva para o tabuleiro eleitoral catarinense. Além de marcar a reta final das desincompatibilizações — cujo prazo expira no próximo sábado, dia 4, exatamente seis meses antes do pleito —, concentra movimentos que ajudam a definir o desenho das chapas majoritárias ao governo do Estado.

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Dois protagonistas simbolizam bem este momento: os prefeitos de Joinville, Adriano Silva, e de Chapecó, João Rodrigues. Ambos deixam os cargos para disputar as eleições de outubro, mas em condições políticas profundamente distintas — quase antagônicas.

Nesta terça-feira, João Rodrigues formalizou sua saída da Prefeitura de Chapecó para concorrer ao governo do Estado pelo PSD. Na quinta-feira, será a vez de Adriano Silva deixar a Prefeitura de Joinville para integrar, como vice, a chapa de reeleição do governador Jorginho Mello.

Outros prefeitos de cidades de médio porte também devem renunciar, mirando cadeiras na Assembleia Legislativa, o que reforça o caráter estratégico desta semana no calendário político catarinense.



Cenários

A comparação entre Adriano e João expõe dois cenários opostos. Adriano Silva ingressa em uma chapa pronta, estruturada e politicamente assegurada. Será o candidato a vice do atual governador.

Já João Rodrigues se lança à frente de um projeto ainda em construção, sem garantias efetivas de sustentação partidária — apenas com um anunciado protocolo de intenções.



Chapa pronta

No caso de Adriano, não há margem para incertezas. A composição liderada por Jorginho Mello está definida e consolidada, inclusive com as candidaturas ao Senado: Carol De Toni e Carlos Bolsonaro, ambos pelo PL.

Trata-se de uma engenharia eleitoral coesa, com alinhamento partidário claro e sem fissuras aparentes. Adriano entra como peça complementar, agregando densidade administrativa e eleitoral a um projeto já estruturado.



Acordo frágil

João Rodrigues, por sua vez, trabalha — reitere-se — com um protocolo de intenções, ainda distante de uma aliança consolidada. Muito distante.

O desenho envolve PSD, MDB e União Progressista, com a vice devendo ser ocupada pelo MDB e o Senado reservado ao senador Esperidião Amin, candidato à reeleição.

O problema é que esse arranjo depende das convenções partidárias, que ocorrerão entre 15 de julho e 5 de agosto. Até lá, tudo permanece no campo das possibilidades — e das incertezas.



Partidos rachados

MDB e União Progressista vivem divisões internas profundas. Mais do que isso: a ala majoritária — especialmente entre detentores de mandato e lideranças com influência real — inclina-se a apoiar a reeleição de Jorginho Mello.

Ambos os partidos foram, é verdade, preteridos na composição majoritária do governador, apesar de promessas anteriores de espaços relevantes, como a vice e uma vaga ao Senado. Ainda assim, prevalece o pragmatismo, considerando-se a força administrativa e política do governador.



Pragmatismo

A lógica é simples e conhecida: estar próximo do governo facilita a montagem de chapas proporcionais competitivas, amplia o acesso a estruturas e melhora as condições eleitorais.



Caminho

Por isso, mesmo contrariados, MDB e União Progressista tendem a permanecer orbitando o Palácio.

O resultado prático é que João Rodrigues pode até conseguir o apoio formal das siglas — o CNPJ, o tempo de televisão, etc. —, mas dificilmente levará consigo a unidade partidária ou suas principais lideranças.



Salto no escuro

É aqui que reside o ponto central. João Rodrigues renuncia ao cargo sem a segurança de que terá, de fato, uma coligação robusta. Move-se com base em um acordo ainda não homologado e em partidos internamente fragmentados.

Trata-se, portanto, de um movimento de alto risco político — um verdadeiro salto no escuro.



Terceira força

Como se não bastasse o enfrentamento direto com o governador, João ainda terá pela frente uma candidatura que tende a ganhar densidade: a de Gelson Merisio, que agora se posiciona no campo da esquerda.



União

Ali, o cenário é o oposto do centro-direita: há unidade. Angela Albino(PDT) já está definida como vice, enquanto Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) devem concorrer ao Senado.

Merisio, que migra do Solidariedade para o PSB, passa a operar dentro de um campo politicamente coeso — algo que, neste momento, falta ao projeto de João Rodrigues.



Frigir dos ovos

A fotografia da semana é cristalina: enquanto Adriano Silva deixa o cargo para ocupar uma posição segura em uma engrenagem já montada, João Rodrigues abandona a prefeitura apostando em uma construção ainda incerta.

Em política, timing é tudo. E, neste caso, a diferença entre segurança e risco pode ser determinante no resultado de outubro.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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