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Lealdade sem reciprocidade

Por Cláudio Prisco Paraíso
07/02/2026 - 07h43

A relação do governador Jorginho Mello com o bolsonarismo nacional atravessa um momento delicado — e revelador. Depois de anos se posicionando como um dos mais fiéis escudeiros de Jair Bolsonaro, o catarinense começa a perceber que, na política, lealdade nem sempre gera tratamento proporcional. Decisões tomadas em Brasília, muitas vezes sem sintonia com a realidade de Santa Catarina, têm atropelado articulações construídas com cuidado no plano estadual e exposto o governador a constrangimentos desnecessários dentro do próprio campo aliado.

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O problema não é apenas de vaidade ou de protocolo político. Trata-se de autoridade, previsibilidade e comando de grupo. Quando um governador vê acordos locais serem revistos por pressões externas, a mensagem que chega à base é de instabilidade. E, em política, ruído prolongado quase sempre vira oportunidade para adversários.

Fidelidade comprovada

Jorginho nunca economizou gestos em direção a Bolsonaro. Esteve presente em manifestações, fez reiteradas declarações de apoio, manteve proximidade nos momentos mais sensíveis e sempre se posicionou como um aliado de primeira hora do ex-presidente e de seu entorno político e familiar. Não houve ambiguidade, nem distanciamento tático.

Mão única

Esse histórico reforça a percepção de que o tratamento recente dado ao governador pela cúpula nacional do PL e por aliados do bolsonarismo em Brasília está aquém do que seria esperado de uma relação entre parceiros estratégicos.

Interferência em série

O ponto de tensão se concentra na montagem da chapa majoritária em Santa Catarina. Jorginho vinha conduzindo uma engenharia política ajustada à realidade local, acomodando partidos, lideranças regionais e espaços de poder de forma a montar um palanque competitivo e relativamente coeso.

Guinadas

No meio do processo, porém, decisões e pressões externas passaram a reabrir discussões já encaminhadas. Lideranças nacionais, preocupadas com seus próprios acordos e disputas, passaram a tratar a composição catarinense como peça de um tabuleiro maior — ignorando que, no Estado, as variáveis são outras.

A conta do Senado

A disputa pelas vagas ao Senado virou o principal foco de atrito. Partidos aliados em nível nacional começaram a cobrar espaço na chapa catarinense como parte de “compensações” políticas que extrapolam as fronteiras do Estado. O recado foi claro: sem contemplação, não há alinhamento pleno.

Pressões

Jorginho, que já administrava compromissos locais, viu-se pressionado a rever cenários para atender interesses que não nasceram em Santa Catarina. O resultado é um mal-estar evidente e a sensação de que o governador está pagando uma fatura que não foi emitida por ele.

Desgaste desnecessário

Nada disso inviabiliza o projeto eleitoral. Convenções ainda vão acontecer, ajustes são comuns e a política permite reviravoltas até a última hora. Mas o processo, até aqui, gera desgaste.

Passa ao eleitorado e às lideranças regionais a imagem de um governador que, apesar do cargo e da lealdade demonstrada, não tem controle absoluto sobre a própria aliança. Para adversários experientes, esse tipo de narrativa pode fazer a diferença.

Olho vivo da concorrência

Enquanto a esquerda tende a ter um campo mais previsível do ponto de vista ideológico e partidário, a direita não governista acompanha cada ruído com atenção. João Rodrigues, por exemplo, depende diretamente do grau de conforto — ou desconforto — dos partidos dentro da órbita de Jorginho.

Federação

Siglas como PP, União Brasil e a federação que envolve essas forças tornam-se peças-chave. Se estiverem plenamente contempladas, a tendência é de permanência no projeto do governador. Se se sentirem preteridas, passam a ser alvo natural de uma alternativa à direita.

MDB dividido, como sempre

O MDB mantém sua tradição catarinense: divisão interna. Uma ala mais próxima do governo tende a seguir com Jorginho; outra observa o cenário e não descarta novos arranjos. O partido, como bloco, perde força de imposição, mas continua relevante pela capilaridade regional e pelo peso de suas lideranças locais.

Dois tabuleiros

O desafio de Jorginho Mello é claro: harmonizar o tabuleiro estadual, onde tem domínio político e administrativo, com o tabuleiro nacional, onde prevalecem interesses maiores e, muitas vezes, pouco sensíveis às particularidades de Santa Catarina.

Desafio

Se conseguir impor sua lógica local sem romper com o campo nacional, sai fortalecido. Se continuar sendo surpreendido por movimentos de Brasília, corre o risco de transformar lealdade em vulnerabilidade — e oferecer aos adversários um flanco que, até aqui, ele próprio não havia aberto.

Após a ressaca municipal, a esquerda tenta se reorganizar em Santa Catarina

Por Cláudio Prisco Paraíso
06/02/2026 - 07h37

A esquerda catarinense passou 2025 em ritmo de recuperação. A derrota nas eleições municipais de 2024 foi dura, tanto em números quanto em moral política. Num universo de 295 municípios, o PT elegeu apenas sete prefeitos, todos em cidades de pequeno e médio porte. Partidos aliados no campo progressista, como PDT e PSB, não conquistaram nenhuma prefeitura. O resultado expôs a fragilidade estrutural desse campo e impôs um período de recolhimento.

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Mas 2026 se aproxima, e o calendário eleitoral não permite longas pausas. A mudança de postura começou a partir de Brasília.

Com a eleição presidencial no horizonte e a necessidade de montar palanques competitivos nos estados, o Planalto passou a pressionar por reorganização em Santa Catarina. O ex-candidato ao governo Décio Lima, que após 2024 dedicou-se mais às agendas nacionais do que à articulação partidária no estado, voltou ao centro das conversas.

Estratégia

O desenho em construção indica Décio como candidato ao Senado, buscando a segunda vaga na disputa. A avaliação interna é de que, depois de duas campanhas majoritárias ao governo e de ter levado o PT ao segundo turno em 2022, ele mantém recall suficiente para uma candidatura competitiva em uma eleição de duas vagas.

Peça-chave

Para o governo do Estado, o nome que emerge como aposta do campo progressista é o do ex-deputado Gelson Merisio, que deve se filiar ao PSB. Com histórico de articulação e trânsito em diferentes espectros políticos, Merisio surge como tentativa de ampliar o alcance da esquerda para além do eleitorado tradicional do PT.

Amplitude

A leitura estratégica é clara: repetir em Santa Catarina a fórmula de alianças mais amplas, combinando um nome com perfil de centro ou centro-esquerda ao governo e um quadro petista consolidado ao Senado.

O desafio de preencher a chapa

Com Merisio ao governo e Décio ao Senado, restam espaços importantes na composição majoritária. E é aí que aparece um problema estrutural: a esquerda catarinense enfrenta escassez de quadros com densidade eleitoral estadual.

Coadjuvantes

O PDT não dispõe hoje de um nome com capilaridade ampla. O PSOL tem figuras conhecidas em nichos urbanos, como Afrânio Boppré, que poderia integrar a chapa ao Senado, mas sem força para encabeçar um projeto majoritário. Diante desse cenário, cresce dentro do PT a tendência de indicar o nome para a vice.

Pedro Uczai ganha centralidade

O deputado federal Pedro Uczai desponta como opção natural. Um dos parlamentares mais votados do estado, com base consolidada no Oeste e trajetória que inclui mandato como prefeito de Chapecó, Uczai tem tudo para ampliar visibilidade nacional ao assumir nesta semana função de maior projeção na Câmara dos Deputados: a liderança do PT.

Opção

Sua eventual presença como vice numa chapa liderada por Merisio serviria para equilibrar o perfil político: um articulador com trânsito mais amplo ao governo e um quadro orgânico do PT, garantindo mobilização da militância e identidade programática.

Reconstrução, não hegemonia

A esquerda não reaparece como força dominante, mas como campo em reconstrução. A estratégia não é de enfrentamento isolado, e sim de composição ampliada, buscando viabilidade eleitoral em um estado historicamente resistente ao PT em disputas majoritárias.

Ar da graça

Depois de um 2025 de silêncio e reorganização interna, 2026 começa a ser desenhado com mais pragmatismo do que discurso. A esquerda catarinense entendeu que, sozinha, encolheu. Agora tenta crescer por soma — e não por hegemonia.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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