A RealTime Big Data divulgou nesta terça-feira uma pesquisa que coloca Flávio Bolsonaro com 52% dos votos válidos, contra 48% de Lula. Quatro pontos de vantagem numérica, ainda no limite do empate técnico.
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Outros levantamentos também mostram o candidato liberal à frente, embora com diferenças variadas. A eleição continua aberta. Mas quem precisa correr atrás é Lula.
O mapa explica
Mais interessante do que o placar nacional é observar o desenho regional. Lula conserva uma vantagem expressiva no Nordeste. Flávio responde com dianteiras no Sudeste, no Centro-Oeste e, sobretudo, no Sul.
É uma disputa que em que cada região pesa de maneira diferente. Não basta ganhar onde já se ganha. É preciso ampliar a vantagem e reduzir o prejuízo no território adversário.
Nordeste petista
Nos votos totais, a RealTime Big Data mostra Lula com 62% no Nordeste e Flávio com 31%. O petista ainda nada de braçadas.
Isso não torna irrelevante qualquer avanço conservador. Cada voto conquistado nesse território reduz a diferença que Lula precisa carregar para compensar suas dificuldades em outras regiões.
O Nordeste segue sendo o grande sustentáculo eleitoral do PT. Fora dele, o cenário fica muito mais indigesto para o presidente.
Céu de brigadeiro
No Centro-Oeste, Flávio aparece com 60%, contra 30% de Lula. No Sudeste, são 53% a 40%. No Norte, a diferença é menor: 50% a 45%.
São recortes da pesquisa, sujeitos a margens de erro próprias. Ainda assim, o desenho é eloquente: do Centro-Oeste para baixo, Flávio encontra terreno muito mais favorável.
É ali que navega em águas calmas e com céu de brigadeiro.
O dobro no Sul
No Sul, o contraste é ainda mais contundente: Flávio tem 62% dos votos totais, contra 28% de Lula. Mais do que o dobro.
Não é pouca coisa. Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul oferecem uma base de sustentação poderosa ao candidato liberal.
Se esse desenho se confirmar domingo, a região chegará à discussão do próximo governo com votos, lideranças e uma demonstração inequívoca de força.
Peso catarinense
Santa Catarina tem o menor eleitorado entre os três estados, mas apresenta a vantagem percentual mais expressiva para Flávio.
O Paraná é o quinto colégio eleitoral do país. O Rio Grande do Sul, o sexto. Santa Catarina ocupa a décima posição.
Tamanho do eleitorado importa, evidentemente. Mas capacidade de entregar uma diferença esmagadora também pesa. E o território catarinense vem cumprindo esse papel com vigor.
Um bloco musculoso
O Sul terá três governadores do PL: Jorginho Mello, reeleito, Sergio Moro e Luciano Zucco, eleitos para seus primeiros mandatos.
Somam-se os seis senadores eleitos na região, alinhados à direita. É uma estrutura política musculosa, com capacidade de articulação e interlocução nacional.
O Sul não chegará a Brasília apenas para bater palmas. Terá credenciais para cobrar participação e atenção às suas necessidades.
Jorginho se credencia
Jorginho reúne uma combinação particularmente favorável. Foi reeleito no primeiro turno, ampliou a força do PL e ajudou a eleger dois irmãos do presidenciável: Carlos Bolsonaro ao Senado e Jair Renan à Câmara.
Santa Catarina já tinha Jorge Seif, eleito senador em 2022. A bancada catarinense no Senado será inteiramente liberal.
O governador entrega resultado eleitoral, representação parlamentar e proximidade política. Na mesa de negociação, isso tem valor. Muito valor.
Ceretta no horizonte
Confirmada uma vitória de Flávio, abre-se a possibilidade de Jorginho influir na composição ministerial. E um nome que surge nessa perspectiva é o de Luciane Ceretta, secretária estadual da Educação, com trajetória na reitoria da Unesc e na presidência da Acafe.
Não existe indicação assegurada. Existe uma hipótese política amparada no espaço conquistado pelo governador.
Mesmo numa Esplanada reduzida, o Sul terá argumentos para reivindicar representação. Santa Catarina também.
Votos viram cobrança
Antes dos ministérios, porém, vêm as urnas. A eleição precisa ser vencida. Depois, a força eleitoral terá de produzir consequências concretas.
Santa Catarina precisa de rodovias, logística, infraestrutura e respeito ao que entrega ao país. Prestígio político que não se transforma em resultado acaba virando fotografia.
O Sul está mostrando sua força. Confirmada a vitória de Flávio, terá todo o direito de cobrar seu lugar. E Jorginho terá musculatura para entrar nessa conversa.
O primeiro debate do segundo turno, domingo à noite, na Bandeirantes, recebeu críticas pela escassez de propostas. Faltou aprofundamento? Faltou. Mas não há novidade no enfrentamento político ocupar o centro do palco.
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Historicamente, cada candidato procura explorar as fragilidades do adversário. Debate presidencial não é seminário. É disputa pelo poder, com todas as suas asperezas.
Houve conteúdo
Não cabe dizer que não se discutiu absolutamente nada. Flávio Bolsonaro encontrou espaço em segurança pública, economia, responsabilidade fiscal e endividamento dos microempreendedores.
Lula ensaiou uma reação na saúde, seu melhor momento, mas ficou por aí. No confronto direto, o eleitor também observa preparo, equilíbrio e capacidade de responder sob pressão.
Pregação aos convertidos
As manifestações foram dirigidas quase exclusivamente aos convertidos. Cada qual abastecendo seu eleitorado com argumentos, provocações e frases prontas para circular nas redes sociais.
Faltou uma abordagem capaz de arrancar o indeciso de sua posição. O confronto produziu munição para as militâncias. Produziu bem menos razões novas para quem ainda não escolheu.
A surpresa foi Flávio
Na estreia em um debate presidencial, Flávio mostrou uma desenvoltura que impressionou. Seguro, tranquilo, articulado, preparado e treinado.
Não se apequenou diante de um presidente que disputa o Planalto pela sétima vez. Tampouco deixou que a experiência do adversário comandasse o encontro.
O estreante entrou para disputar a condução do debate. E conseguiu fazê-lo em momentos importantes, sobretudo nos primeiros blocos.
O veterano travou
Lula também surpreendeu, mas pela dificuldade de concatenar respostas e organizar algumas abordagens. Apresentou-se travado, irritadiço e, em determinados momentos, colérico.
Desde a fundação do PT, em 1980, são 46 anos de atividade partidária. Mais tempo do que os 45 anos de vida de Flávio.
Experiência não lhe falta. Faltou transformar essa bagagem em superioridade diante das câmeras. O veterano não conseguiu enquadrar o estreante.
A fama não resolve
Pode ter pesado a autossuficiência. A velha fama de encantador de serpentes não substitui preparação. Muito menos garante domínio sobre um adversário que chega sabendo o que pretende dizer.
Há políticos de perfil caudilhesco que se acostumam ao aplauso e confundem trajetória com desempenho assegurado.
Não basta invocar o passado. É preciso responder no presente. Lula esteve longe da desenvoltura de que sua campanha precisava.
A obrigação era dele
Lula já chegou atrás a um segundo turno em 1989, contra Fernando Collor. Agora, disputa a reeleição, com a máquina federal nas mãos, depois de terminar a primeira rodada atrás de Flávio.
Precisava produzir um acontecimento capaz de movimentar a semana decisiva. Necessitava de uma reação contundente. Não conseguiu.
Flávio precisava sustentar sua posição e demonstrar condições de enfrentar o presidente. Saiu mais confortável dessa tarefa.
O risco da abstenção
O indeciso que não encontra motivo para escolher pode terminar na abstenção, no branco ou no nulo. Não é destino certo, mas representa um risco para as duas campanhas.
Para quem corre atrás, deixar de conquistar esse eleitor é desperdiçar uma oportunidade. Lula precisava ampliar. Falar apenas para os seus é insuficiente.
Melhor no confronto
Ganhar um debate não significa ganhar a eleição. Mas Flávio saiu-se melhor na forma e encontrou passagens consistentes no conteúdo.
Não cabe decretar mudança eleitoral antes das pesquisas posteriores. Lula, porém, não impôs a superioridade que seu tempo de estrada sinalizava.
A pressão continua sobre o presidente. A estreia de Flávio não ofereceu ao PT o tropeço de que tanto precisava.
A última oportunidade
Agora vêm os cortes, as redes sociais e o aproveitamento eleitoral de cada passagem. Na sexta-feira, 23, a Globo receberá o último confronto antes da votação de domingo.
Lula terá outra oportunidade. Mas chegará com uma obrigação ainda maior: fazer o que não fez na Band.
A experiência estava do lado dele. A desenvoltura, desta vez, esteve do outro.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.