A terceira visita do presidente Lula a Santa Catarina teve muito mais cheiro de campanha do que de agenda institucional.
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O petista desembarcou em Itajaí para o batismo de uma fragata da Marinha. Evento protocolar. Cerimônia militar. Mas não demorou para transformar o cais em palanque. Criticou Trump. Atacou adversários. Mirou Jorginho Mello. E chegou ao ponto de citar Adolf Hitler para falar sobre cotas raciais em Santa Catarina.
Numa cerimônia da Marinha, o presidente escolheu falar em Hitler. Diz tudo sobre o nível do debate que o PT está disposto a travar em terras catarinenses.
O discurso foi intenso. A substância, nenhuma. Nenhum anúncio concreto para o estado. Nenhuma obra, nenhum investimento, nenhum compromisso que o catarinense possa cobrar depois. Quem esperava agenda de governo saiu de mãos vazias. Quem esperava espetáculo eleitoral foi bem servido.
Contradição
No discurso, Lula defendeu o fortalecimento da soberania nacional e das Forças Armadas. Na prática, seu governo cortou bilhões do orçamento militar. Tirou recursos destinados à proteção das fronteiras. A fragata batizada em Itajaí é fruto de contratos anteriores.
Que prioridade é essa? Discurso eleitoreiro. Oba-oba. Não passa disso.
Eleição
O verdadeiro objetivo da visita parece ter sido outro: 2026.
Ao lado de Lula desfilaram lideranças petistas. Fotos de mãos dadas. Mais parecia que a campanha já tinha começado. O batismo foi só o pretexto.
Ausência
A decisão de Jorginho Mello de não participar da agenda presidencial também produz efeitos.
Do lado bolsonarista, o gesto é lido como coerência. Consolidação de identidade. Alinhamento político com o PL nacional. Funciona para o eleitor que Jorginho quer manter.
Do outro lado, o argumento já está pronto: o governador abre mão de reivindicar obras e investimentos para Santa Catarina. Não dá para só fazer política com a família Bolsonaro e institucionalmente ignorar Brasília. Um governador tem obrigação de reivindicar junto à União — independentemente de quem ocupa o Planalto. Esse flanco vai ser explorado na campanha. E não é de todo injusto.
Estratégia
Os dois lados jogam para públicos diferentes. E sabem exatamente o que fazem.
Lula tenta plantar bandeira em terreno hostil. Quer ampliar votação num estado que o rejeita com consistência. Jorginho quer consolidar o eleitorado de direita e manter o alinhamento com Bolsonaro.
São estratégias opostas. O que está em disputa é a fatia do eleitor catarinense que ainda não decidiu. Esse eleitor vai definir 2026.
Largada
No fim das contas, a fragata ficou em segundo plano.
O principal lançamento em Itajaí não foi o de um navio. Foi o da pré-campanha de 2026 — ao menos do lado petista.
Santa Catarina virou alvo. Os catarinenses fariam bem em prestar atenção nas próximas incursões presidenciais.
A entrada de Antídio Lunelli no jogo do Senado provocou um abalo sísmico na canhotada estadual. O PT ainda tenta entender o tamanho do estrago político causado pela confirmação da pré-candidatura do empresário e deputado estadual emedebista.
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Até então, o partido de Lula trabalhava com a expectativa de que o MDB pudesse ficar fora da disputa majoritária ao Senado em 2026, abrindo espaço para Décio Lima avançar sobre uma fatia relevante do eleitorado emedebista, especialmente no segundo voto.
Mas o tabuleiro mudou.
Com Antídio Lunelli na corrida, formando dobradinha com Esperidião Amin, o cenário embaralha completamente os cálculos petistas. O ex-prefeito de Jaraguá do Sul entra justamente no espaço do MDB moderado, de centro, conservador nos costumes e pragmático na política. E isso atinge diretamente a estratégia de Décio Lima, que sonhava capturar votos órfãos do 15.
Aham
Não por acaso, Décio Lima passou a recorrer, nas entrevistas recentes, a uma verdadeira operação nostalgia.
Ressuscitou figuras históricas do MDB, especialmente Luiz Henrique da Silveira e Casildo Maldaner, numa tentativa quase desesperada de construir uma ponte sentimental com o eleitorado emedebista.
Como assim?
Décio Lima resolveu agora vender a tese de que Luiz Henrique da Silveira tinha alinhamento com a esquerda. Uma forçação de barra monumental.
É verdade que, em 2002, Luiz Henrique surfou parcialmente na onda lulista que levou Lula ao Planalto na quarta tentativa presidencial. Também é fato que o PT apoiou o peemedebista no segundo turno contra Esperidião Amin.
Mas transformar isso em identidade ideológica é reescrever a história política catarinense. Típico dos comunistas nacionais e internacionais.
Pragmatismo
Luiz Henrique era, acima de tudo, um articulador pragmático. Um centrista clássico.
Dialogava com todos os campos, mas nunca pertenceu organicamente à esquerda.
Não vingou
Logo no início do governo Luiz Henrique, houve, sim, uma aproximação com o PT.
Em fevereiro de 2003, o MDB ajudou a eleger o petista Volnei Morastoni para a presidência da Assembleia Legislativa. Num gesto político calculado, Luiz Henrique transmitiu o governo interinamente ao petista durante viagem internacional, levando junto o vice Eduardo Moreira.
Genuinamente
O então presidente nacional do PT, José Genoino, desembarcou em Florianópolis para prestigiar a cerimônia.
Parecia o início de uma aliança estratégica.
Não foi.
Atravessada
A aproximação naufragou principalmente pela resistência interna do PT catarinense.
O então líder petista na Assembleia, Afrânio Boppré, combateu sistematicamente o governo Luiz Henrique.
Extremista
O histórico de Boppré já mostrava um perfil ideológico rígido.
Ex-vice-prefeito de Florianópolis na gestão de Sérgio Grando, carregava a tradição mais radical da esquerda catarinense.
O resultado foi inevitável: Luiz Henrique desistiu do PT e foi buscar o então PFL.
Ovo de Colombo
A ruptura abriu espaço para a construção da aliança entre MDB e PFL em 2006.
Luiz Henrique aproximou-se de Jorge Bornhausen e consolidou Raimundo Colombo como candidato ao Senado na chapa governista.
Ali morreu qualquer possibilidade de alinhamento estrutural entre MDB e PT em Santa Catarina.
Décio Lima sabe disso. Mas, bem ao seu estilo, dissimula, disfarça e faz de conta que não é com ele.
Sério?
Tanto sabe que, agora, faz uma espécie de autocrítica tardia, admitindo que o PT pode ter cometido um erro histórico ao rejeitar a aproximação com Luiz Henrique.
Mas há um detalhe constrangedor nessa narrativa: Afrânio Boppré, o principal opositor daquela composição, hoje está no PSOL — exatamente o partido aliado do PT na atual disputa ao Senado.
Ou seja, Décio tenta condenar o passado sem desagradar o parceiro do presente. Malabarismo de petistas que fazem o diabo pelo poder.
Antídio mudou tudo
O fato concreto é que a entrada de Antídio Lunelli reorganizou o jogo.
Esperidião Amin passa a ter um ativo poderoso: a conexão com o eleitorado emedebista mais tradicional.
Antídio funciona como ponte natural entre os eleitores fiéis do progressista e setores históricos do MDB que jamais migrariam para o PT.
Menos, Décio
Isso reduz sensivelmente o espaço de crescimento de Décio Lima.
Claro, o favoritismo momentâneo ainda recai sobre os nomes mais identificados com o bolsonarismo, como Carol De Toni e Carlos Bolsonaro.
Mas a eleição para o Senado, especialmente com duas vagas em disputa, sempre reserva surpresas no comportamento do segundo voto.
Boa dupla
E é justamente nesse terreno nebuloso que Esperidião Amin ganha musculatura com Antídio Lunelli ao seu lado.
Já o PT segue tentando convencer Santa Catarina de que Luiz Henrique da Silveira era "de esquerda".
Uma narrativa que nem os antigos aliados do ex-governador parecem dispostos a comprar.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.