É difícil esconder a indignação diante do que o Supremo ofereceu ao país nesta terça-feira, dia 15. A sessão que deveria esclarecer suspeitas terminou marcada por confrontos, acusações e uma decisão novamente adiada.
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A Corte precisava demonstrar serenidade e autoridade. Entregou um espetáculo deprimente de divisão interna. Quem esperava respostas assistiu a mais um capítulo da desmoralização institucional.
O “decano” incendeia
De Gilmar Mendes, o ministro mais antigo da casa, seria razoável esperar moderação. Sua atuação no confronto com André Mendonça, porém, reforçou a impressão contrária: em vez de conter o incêndio, acrescentou combustível.
Experiência não pode servir de licença para constranger colegas. O peso de uma toga não aumenta com o volume da voz.
O foco invertido
A sessão deveria avançar na discussão sobre as suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Mas a atuação de Mendonça ocupou o centro do embate.
As condutas de todos podem ser examinadas. O que não convence é transformar questionamentos contra um ministro em obstáculo para esclarecer suspeitas contra outro.
Misturar os casos pode até encontrar defesa processual; politicamente, transmite a imagem de uma proteção corporativa.
Fachin contestado
Flávio Dino questionou a condução do processo e defendeu a análise conjunta dos casos de Moraes e Mendonça. A tentativa de Fachin de apresentar uma Corte organizada voltou a esbarrar na resistência dos próprios colegas.
O resultado foi um tribunal discutindo como julgar, sem chegar à questão que mobilizava o país. Mais uma vez, o rito consumiu a resposta.
A vista conveniente
Dino pediu vista e interrompeu o julgamento. O prazo para devolver o processo é de até 90 dias, o que permite que a indefinição atravesse o calendário eleitoral.
Pedir vista é um instrumento regimental. Isso não impede a crítica ao seu efeito concreto: Moraes ganhou tempo e a sociedade continuou sem resposta.
Para uma Corte mergulhada em suspeitas, a demora cobra um preço que nenhum discurso institucional consegue apagar.
O placar real
Não houve absolvição nem decisão definitiva impedindo uma investigação. O mérito sequer foi analisado. O placar parcial ficou em quatro a três pela separação dos casos.
Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia defenderam análises separadas. Gilmar, Moraes e Cristiano Zanin ficaram pela reunião.
Dino sustentou a análise conjunta, mas seu voto não entrou na contagem após o pedido de vista.
O Supremo adiou a resposta. Não encerrou o assunto.
As cadeiras vazias
Nunes Marques e Dias Toffoli não participaram da votação, após declarações de impedimento ou suspeição. As ausências reduziram ainda mais o número de ministros envolvidos na decisão.
Uma Corte dividida, com integrantes afastados da análise e outros discutindo a própria atuação, oferece ao cidadão uma imagem devastadora.
A conta de Lula
Politicamente, o adiamento também cria dificuldades para Lula. Zanin, seu ex-advogado, votou pela reunião dos processos. Dino, seu ex-ministro da Justiça, defendeu a mesma posição e interrompeu a análise.
Isso não prova comando do Planalto. Mas dificulta o discurso de distanciamento: dois ministros indicados por Lula assumiram posições que, naquele momento, favoreceram a estratégia processual defendida por Moraes.
A oposição continuará explorando essa associação.
Tempo não apaga
Moraes ganhou prazo, mas o Supremo perdeu outra oportunidade de recuperar confiança. E Lula permanece exposto ao desgaste político de uma relação que seus aliados celebraram durante anos.
A eleição não está decidida. Mas uma crise prolongada mantém o assunto vivo justamente na reta final da campanha.
Adiar pode aliviar a situação de um ministro. Não restaura a credibilidade de uma Corte. E muito menos garante alívio nas urnas.
Santa Catarina receberá, no próximo dia 19, os dois protagonistas da disputa presidencial. Lula estará em Florianópolis, enquanto Flávio Bolsonaro terá compromissos em Joinville e Chapecó.
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As visitas colocam a polarização nacional dentro da campanha catarinense. E deixam João Rodrigues diante de um problema: como disputar espaço entre o bolsonarismo de Jorginho Mello e a candidatura de Gelson Merisio, apoiada por Lula?
Lula na Capital
O ato petista está previsto para a manhã de sábado, na Praça Tancredo Neves, repetindo o endereço utilizado na campanha de 2022.
A presença do presidente deverá dar maior visibilidade a Merisio e tornar mais clara sua identificação com o eleitorado de esquerda. Para João, isso representa uma dificuldade adicional: o adversário pode consolidar os votos de quem rejeita Jorginho e procura uma candidatura vinculada a Lula.
Flávio no Norte
Joinville tem peso eleitoral e econômico suficiente para justificar a passagem de Flávio. A agenda também valoriza a composição de Jorginho com Adriano Silva, que deixou a prefeitura para compor de vice.
A recepção de Rejane Gambin, que assumiu o município, reforça a presença dessa aliança na cidade. O encontro oferece uma vitrine para a ligação entre a candidatura presidencial do PL e o projeto estadual.
Disputa no Oeste
Chapecó acrescenta um recado político. É a principal base de João Rodrigues, onde sua trajetória como prefeito lhe assegura identificação com o eleitorado.
Levar Flávio até ali, ao lado de Jorginho, significa disputar o voto conservador no território do adversário. A mensagem é direta: o eleitor pode reconhecer a gestão municipal de João e, ainda assim, escolher o palanque bolsonarista para o governo estadual.
Agenda apertada
A duas semanas da votação, uma nova passagem dos presidenciáveis por Santa Catarina fica praticamente descartada. Os grandes colégios eleitorais e as regiões decisivas para a disputa nacional exigirão atenção.
Sábado será uma oportunidade de transformar apoio presidencial em identificação política. Depois, restará pouco tempo para corrigir uma campanha sem mensagem clara.
Merisio encosta
A aproximação de Merisio já aparece em levantamento divulgado. Na pesquisa AtlasIntel encomendada pelo Grupo ND, Jorginho registra 51,6%, enquanto João e Merisio aparecem tecnicamente empatados na segunda colocação.
Isso não autoriza anunciar Merisio como segundo colocado isolado. Mas desmonta a ideia de que João tem posição confortável entre os adversários do governador. A visita de Lula poderá acirrar essa disputa.
Aliança rachada
João também enfrenta dissidências na própria coligação. Prefeitos do PSD, do MDB e do PP têm declarado apoio a Jorginho, expondo a distância entre os acordos partidários e as escolhas das lideranças municipais.
O efeito vai além da fotografia. Prefeitos ajudam a organizar agendas, reunir apoiadores e sustentar candidaturas nos municípios. Quando escolhem o adversário, enfraquecem a mobilização de quem deveria contar com eles.
Risco para o PSD
Uma candidatura ao governo com dificuldade para crescer também gera insegurança entre os candidatos a deputado. O palanque majoritário deveria impulsionar as nominatas; quando perde força, cada candidato passa a cuidar da própria sobrevivência.
É cedo para cravar cadeiras, mas uma campanha enfraquecida pode comprometer a ambição do PSD de ampliar suas bancadas em Brasília e na Assembleia.
O fantasma de 2022
Jorginho reúne condições para buscar a vitória no primeiro turno, embora a eleição ainda dependa das urnas. João precisa evitar que a disputa se organize inteiramente em torno dos campos de Lula e Flávio.
Enquanto Jorginho e Merisio recebem seus presidenciáveis, João precisa mostrar por que sua candidatura continua indispensável.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.