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Ausências emblemáticas

Por Cláudio Prisco Paraíso
06/06/2026 - 08h26

As comemorações pelos 60 anos do MDB catarinense, realizadas na Assembleia Legislativa, produziram um efeito político curioso: tão comentadas quanto as presenças foram justamente as ausências. Dos três principais pré-candidatos ao governo do Estado, nenhum compareceu ao evento. Mas por razões completamente diferentes.

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João Rodrigues estava em roteiro pelo interior catarinense. A ausência foi administrativa, logística e previamente compreendida pelos emedebistas que hoje gravitam em torno do projeto liderado pelo ex-prefeito de Chapecó.

Já no caso de Jorginho Mello, a situação é política. Claramente política.

O governador foi aconselhado a não comparecer. A avaliação no entorno do Centro Administrativo era simples: o ambiente não seria amistoso. E dificilmente seria mesmo.

Expectativa frustrada

Afinal, o MDB permaneceu durante mais de três anos dentro do governo estadual sob a expectativa concreta de indicar o vice na chapa da reeleição. Carlos Chiodini era tratado como nome natural para ocupar esse espaço. Até que Jorginho promoveu um cavalo de pau estratégico e foi buscar Adriano Silva, do Novo. O MDB ficou pelo caminho.

Divisão

Hoje, o cenário interno do MDB catarinense é relativamente claro. Algo próximo de um terço das lideranças mais influentes segue alinhado ao projeto de recondução de Jorginho Mello. São figuras que permaneceram no governo, mantêm espaços administrativos e apostam na força da máquina estadual e da onda conservadora.

Os outros dois terços caminham com João Rodrigues.

Geleia geral

Mas atenção: hoje, dois terços do MDB estão com o ex-prefeito de Chapecó. Amanhã, muita coisa pode mudar. Porque política é fotografia do momento, não escritura definitiva. Ainda mais em um cenário de absoluta volatilidade.

E é exatamente aí que entra um elemento que pouca gente está observando com a devida profundidade.

Atração canhota

A terceira ausência relevante no evento foi a de Gelson Merisio. E ela também carrega simbolismo.

Merisio, que durante décadas orbitou o campo da centro-direita — passando por PFL, Democratas e PSD —, hoje é o candidato da esquerda catarinense ao governo do Estado, abrigado no PSB e respaldado integralmente pelo PT e pelos demais partidos do campo progressista.

Pragmatismo

O ex-deputado passou por uma transformação ideológica? Nem tanto. Estamos falando muito mais de uma reacomodação política e estratégica.

O fato concreto é que Merisio tornou-se o instrumento eleitoral da esquerda na tentativa de ampliar o desempenho de Lula em Santa Catarina em 2026, depois dos cerca de 30% obtidos no segundo turno de 2022 diante dos quase 70% de Jair Bolsonaro.

Parece pouco? Não necessariamente, se olharmos para o contexto dos 27 estados da Federação.

Incógnita

O grande ponto é que faltam poucos meses para a eleição. Quatro, para sermos mais exatos. E campanha eleitoral muda cenários com velocidade impressionante. Especialmente quando há fragilidades evidentes numa pré-candidatura.

João Rodrigues está há mais de dois anos em movimento estadual. Lançou-se antes mesmo da reeleição em Chapecó. Percorreu o estado, intensificou agendas, consolidou alianças e tornou-se, sem dúvida, o principal antagonista de Jorginho Mello.

Patinando

Mas ainda não conseguiu ganhar tração definitiva. Segue patinando, estagnado.

E isso começa a produzir inquietação silenciosa dentro do MDB. Porque aquele um terço alinhado a Jorginho dificilmente abandonará o governador. Esse grupo considera praticamente inevitável sua presença em um eventual segundo turno.

A dúvida está justamente nos outros dois terços.

Migração

Se João Rodrigues continuar patinando nas pesquisas e não demonstrar competitividade efetiva até a reta final da campanha oficial, parte significativa dos emedebistas pode buscar outro caminho.

E esse caminho pode levar exatamente até Gelson Merisio.

Canhotos envergonhados

Sim, porque existe dentro do MDB catarinense uma ala historicamente mais simpática ao PT e ao espectro da esquerda. Isso nunca deixou de existir desde os tempos dos chamados autênticos do velho MDB.

Em muitas regiões do Estado, sobretudo em setores municipais e intermediários da legenda, essa identificação permanece viva — ainda que silenciosa.

Errou

Por isso, uma eventual estagnação de João Rodrigues pode não apenas enfraquecer o PSD, mas fortalecer diretamente a candidatura de Gelson Merisio.

E talvez esse seja hoje o movimento mais subestimado do tabuleiro político catarinense.

Portanto, o candidato da esquerda errou ao não prestigiar o evento do MDB.

Sem o 15

Por Cláudio Prisco Paraíso
05/06/2026 - 07h54

A situação do MDB catarinense chega a um momento histórico, delicado e até simbólico. Justamente no ano em que o partido celebra seis décadas de existência em Santa Catarina, cresce internamente a possibilidade concreta de que, pela primeira vez desde a redemocratização e a retomada das eleições diretas em 1982, o velho Manda Brasa fique sem o número 15 na urna majoritária estadual.

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O debate deixou de ser apenas eleitoral. Passou a ser identitário.

Na última segunda-feira, durante sessão especial na Assembleia Legislativa em homenagem aos 60 anos da sigla, o MDB voltou a exibir aquilo que nenhum outro partido conseguiu construir em Santa Catarina: capilaridade, militância orgânica e presença efetiva nos 295 municípios.

Mesmo após perder, em 2024, a condição de partido com o maior número de prefeitos para o PL de Jorginho Mello, o MDB segue sendo a estrutura partidária mais enraizada do Estado.

Mas exatamente aí reside o drama da turma do Manda Brasa.

Preterido

Durante mais de três anos, os emedebistas permaneceram no governo estadual sob a expectativa de ocupar a vaga de vice na chapa de reeleição de Jorginho Mello. Inclusive ocupando cargos de primeiro escalão. Carlos Chiodini era tratado como nome natural para a composição.

Freio de arrumação

Só que, no início deste ano, o governador promoveu um verdadeiro cavalo de pau político. Aproximou-se do Novo e escolheu Adriano Silva, então prefeito de Joinville, como companheiro de chapa. O MDB ficou fora.

Com João

A reação foi inevitável. Ainda existe um grupo alinhado ao projeto de recondução de Jorginho, algo próximo de um terço das lideranças estaduais. Mas a ampla maioria passou a se deslocar para o projeto de João Rodrigues. E justamente levando Chiodini para ocupar, ao lado do prefeito de Chapecó, a mesma vaga que seria sua com Jorginho: a vice-governadoria.

Ausência

O problema é que vice não aparece na urna. E o MDB percebeu que pode chegar a 2026 sem um candidato próprio ao governo e, pior, sem candidato ao Senado. Ou seja, sem o 15 na urna.

Hoje, a composição desenhada ao lado de João Rodrigues contempla apenas um nome ao Senado: Esperidião Amin.

Ajuntamento

E aí surge outro componente histórico carregado de simbolismo. Durante quatro décadas, Amin foi o principal adversário político do MDB catarinense. Para uma geração inteira de emedebistas — especialmente os chamados “de cruz na testa” — o progressista sempre foi tratado como inimigo político preferencial.

Agora, parte do partido se vê diante da necessidade de pedir votos justamente para Amin. A política realmente não é para amadores.

Pressão

É nesse contexto que cresce a pressão sobre o deputado estadual Antídio Lunelli. Empresário bem-sucedido, ex-prefeito de Jaraguá do Sul por dois mandatos e responsável pela eleição do sucessor, Antídio mantém densidade eleitoral, capacidade financeira, recall político e carisma reconhecido até por adversários.

Opção rejeitada

Em 2022, apresentou-se como pré-candidato ao governo justamente para preservar o protagonismo do MDB. Acabou derrotado internamente na convenção partidária.

Agora, muitos emedebistas entendem que ele seria o único nome capaz de manter o 15 vivo na urna majoritária, disputando o Senado numa dobradinha com Esperidião Amin. Não apenas para preservar simbolicamente a presença do partido, mas também para tornar a chapa mais competitiva eleitoralmente.

Declínio

O MDB carrega outra preocupação silenciosa: o desgaste acumulado nas duas últimas eleições estaduais.

Em 2018, Mauro Mariani protagonizou o primeiro grande trauma da sigla ao não conseguir levar o partido ao segundo turno.

Gravidade

Em 2022, a situação se agravou. O MDB abriu mão da cabeça de chapa, indicou Udo Döhler como vice de Carlos Moisés e novamente ficou fora da disputa decisiva.

Ou seja: duas eleições consecutivas sem protagonismo efetivo. Para um partido que governou Santa Catarina durante décadas e construiu parte expressiva da história política do Estado, trata-se de uma mudança brutal de realidade.

Resistência

Antídio Lunelli resiste. Mas a pressão continua aumentando. Não apenas dentro do MDB, mas também entre setores do PSD e até do PP, que enxergam na presença de um candidato emedebista ao Senado uma maneira de ampliar a musculatura política da aliança.

Eleição decisiva

Porque, no fundo, o MDB sabe que 2026 pode representar muito mais do que uma simples eleição.

Pode marcar o momento em que o partido deixará oficialmente de ser protagonista para assumir, pela primeira vez desde 1982, um papel secundário na política catarinense.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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