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Lula venceu. A direita precisa reconhecer a derrota e cobrar a conta

Por Cláudio Prisco Paraíso
27/10/2026 - 08h12

Lula da Silva conquistou um quarto mandato e protagonizou a primeira virada entre o primeiro e o segundo turno de uma eleição presidencial desde a redemocratização.

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Terminou com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos, praticamente o dobro daquela que abriu sobre Jair Bolsonaro em 2022.

A esquerda ganhou mais uma. Ignorar isso não altera uma única urna.

Minas deu o recado

Minas Gerais voltou a funcionar como bússola da disputa nacional. Flávio havia conquistado uma vantagem expressiva na primeira rodada. Lula conseguiu inverter o resultado na segunda.

São Paulo também entregou uma diferença menor ao candidato liberal. O Nordeste ampliou a sustentação petista, enquanto outras regiões reduziram a margem conservadora.

A derrota não nasceu de um episódio isolado. Houve uma combinação de movimentos que a direita não conseguiu conter.

O eleitor compareceu

A abstenção caiu para 19,22%, a menor num segundo turno desde 2006. Quase três milhões de eleitores a mais compareceram em relação à primeira rodada.

Esse movimento ajuda a compreender a reação de Lula. Quem precisava buscar votos encontrou caminhos para mobilizar. Quem acreditou que a vitória estava encaminhada descobriu que favoritismo não substitui trabalho.

Eleição termina quando acaba a apuração. Antes disso, comemoração antecipada é uma temeridade.

Santa Catarina respondeu

Santa Catarina ofereceu sua contrapartida conservadora. Flávio conquistou 69,42% dos votos válidos, contra 30,58% de Lula.

Foi uma votação próxima daquela obtida por Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022. O eleitorado catarinense manteve sua posição com clareza.

O resultado nacional não pode ser colocado na conta de um estado que voltou a entregar uma vantagem esmagadora à direita.

Bondades e votos

O pacote de anúncios pode ter contribuído para a reação petista. Reajustes, renegociação de dívidas, benefícios e promessas ocuparam a reta final.

Isso exige análise, não serve de desculpa automática. O eleitor ouviu, comparou e decidiu.

Lula prometeu mundos e fundos. Agora terá de demonstrar que aquelas iniciativas cabem no Orçamento. A generosidade de palanque encontrará a aritmética das contas públicas.

A conta chega

Transporte gratuito nos fins de semana, mudanças na jornada, perdão de dívidas e ampliação de benefícios: como financiar tudo isso?

O governo vai rever prioridades? Cortar despesas? Elevar impostos? Empurrar a conta para o endividamento?

Não existe dinheiro infinito. Gastança e descontrole fiscal cobram preço em juros, investimento, emprego e poder de compra. Uma hora a conta chega. E chega à casa do cidadão comum.

Quatro mandatos

Lula completa 81 anos nesta terça-feira, 27. Ao final do próximo mandato, terá 85 e, se o concluir, somará 16 anos na Presidência.

O PT terá acumulado aproximadamente 22 anos à frente do governo federal desde 2003.

Não haverá espaço para discurso de estreante ou surpresa com os problemas nacionais. A cobrança será proporcional ao tempo de poder. Quem governou tanto não pode continuar se apresentando como solução inédita para dificuldades que também ajudou a administrar.

A direita afrouxou

Discutir agora se Tarcísio de Freitas seria o melhor candidato não modifica o resultado. Não há como transformar uma candidatura que não existiu em vitória garantida.

O fato concreto é outro: Flávio disputou, chegou à frente no primeiro turno e perdeu no segundo.

A direita deu sinais de acomodação. Parte de seus apoiadores tratou a vitória como certa. Cabe examinar os erros com seriedade, sem substituir reflexão por uma caça conveniente aos culpados.

Reconhecer e fiscalizar

Anular a eleição porque o resultado desagradou? Bobagem. Alegar fraude sem prova? Besteira.

A decisão do eleitor precisa ser reconhecida. Isso não obriga ninguém a aplaudir Lula, abandonar convicções ou aliviar a fiscalização.

Há muito a fazer: oposição firme, cobrança parlamentar, acompanhamento dos gastos e preparação de novas lideranças. Aceitar a derrota é obrigação democrática. Fazer oposição é responsabilidade política.

Um fenômeno eleitoral

Mesmo diante da força conservadora no Congresso e nos estados, Lula conseguiu vencer novamente. Há de se reconhecer: trata-se de um fenômeno eleitoral.

Reconhecer essa capacidade não significa aprovar sua gestão, esquecer o histórico petista ou dar um cheque em branco ao próximo governo.

O brasileiro escolheu mais quatro anos de Lula. A direita precisa assimilar, reorganizar-se e trabalhar.

É vida que segue. A urna decidiu o presidente. Não encerrou a fiscalização nem o debate sobre o futuro do país.

Domingo decide o presidente e começa a encerrar a era Lula-Bolsonaro

Por Cláudio Prisco Paraíso
24/10/2026 - 08h22

Estamos caminhando para a grande definição da disputa presidencial. Pesquisas para todos os gostos: algumas apontam vantagem de Flávio Bolsonaro; outras mostram empate ou diferenças mínimas.

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Independentemente dos prognósticos, há uma questão que ultrapassa domingo: como ficará a política brasileira depois das urnas? O resultado decidirá o governo. Mas também começará a redesenhar a disputa de 2030.

A esquerda envergonhada

Entre 1994 e 2014, o país viveu duas décadas de enfrentamento presidencial entre PT e PSDB.

De um lado, a esquerda petista. Do outro, a social-democracia tucana, a esquerda envergonhada, incapaz de representar o conservadorismo que existia na sociedade.

Havia eleitores de direita. Faltava uma candidatura nacional capaz de lhes dar identidade e protagonismo.

A mudança de eixo

Em 2018, Jair Bolsonaro rompeu aquela estrutura e derrotou Fernando Haddad, o poste escalado por Lula, então preso e impedido de concorrer.

Em 2022, depois da anulação de suas condenações, Lula voltou e venceu Bolsonaro numa eleição apertada.

Agora, com Jair fora da disputa, o primogênito representa esse campo. Mudou o candidato. Permaneceu o enfrentamento entre lulismo e bolsonarismo.

Subestimaram Flávio

Lula, o PT e o governo subestimaram o adversário. Imaginaram uma vitória na maciota. Acreditaram que o sobrenome Bolsonaro não bastaria para sustentar uma candidatura competitiva.

O resultado foi outro: Flávio terminou o primeiro turno à frente. Lula ficou com a obrigação de buscar a reação.

Desde 1989, nenhum segundo colocado na primeira rodada venceu o segundo turno presidencial. A escrita existe para ser derrubada. Mas o desafio está colocado para o petista.

O compromisso cobra

Se Flávio vencer, terá de responder pelo compromisso de não disputar a reeleição. A PEC apresentada no Senado depende de aprovação. Promessa não altera a Constituição.

Mas a palavra empenhada também cobra seu preço. Não seria aceitável defender o fim da reeleição na campanha e descobrir suas vantagens depois de sentar na cadeira.

Cumprido o compromisso, 2030 terá uma disputa aberta dentro da própria direita.

Tarcísio no horizonte

Nesse cenário, Tarcísio de Freitas surge como nome natural. Completaria o segundo mandato em São Paulo, à frente do maior estado e do maior colégio eleitoral brasileiro.

Tem experiência administrativa, projeção e condições de dialogar além do eleitorado bolsonarista.

Mais adiante, Nikolas Ferreira também aparece como liderança de uma nova geração. A direita já não depende exclusivamente de um sobrenome. Há nomes disputando espaço e construindo musculatura.

O PT sem o dono

Uma derrota de Lula obrigaria o PT a fazer o que adiou durante décadas: preparar a sucessão de seu comandante.

O caudilhismo tem esse defeito. Concentra o poder, exige fidelidade e trata qualquer autonomia como ameaça.

Haddad foi utilizado como alternativa, mas acumulou derrotas e não se consolidou como herdeiro eleitoral. O partido teria quatro anos para buscar uma liderança capaz de caminhar sem a mão de Lula.

Alternativas nordestinas

Rui Costa e Camilo Santana entram naturalmente nessa discussão. Ambos governaram estados importantes do Nordeste, passaram pelo ministério de Lula e construíram bases próprias.

São nomes com experiência e estrutura partidária. Isso não significa que tenham projeção suficiente para substituir o líder petista nacionalmente.

Uma coisa é administrar um território favorável. Outra é disputar o país inteiro. O PT precisará descobrir se produziu sucessores ou apenas auxiliares.

Se Lula vencer

Uma vitória de Lula também provocaria um rearranjo profundo na direita. Flávio sairia derrotado, e a família Bolsonaro teria de enfrentar a cobrança pelo resultado.

Isso não extinguiria automaticamente o bolsonarismo. Movimentos políticos não desaparecem por decreto. Mas enfraqueceria a pretensão de reservar outra candidatura presidencial ao mesmo núcleo familiar.

Tarcísio ganharia espaço. E a discussão de 2030 dificilmente deixaria de passar por ele.

Chega do personalismo

Direita e esquerda continuarão existindo. Conservadores e progressistas continuarão disputando projetos. Isso faz parte da democracia.

O que precisa ser superado é a submissão do debate nacional a duas figuras e às suas guerras particulares.

Domingo pode começar a encerrar esse ciclo. Não necessariamente a polarização ideológica, mas a dependência de Lula e Bolsonaro como donos exclusivos dos dois campos.

O Brasil precisa discutir seu futuro. Já passou da hora de deixar de viver aprisionado ao destino de duas famílias políticas.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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