A passagem dos presidenciáveis por Santa Catarina deixou um contraste político. Lula apareceu ao lado de Gelson Merísio em Florianópolis. Flávio Bolsonaro percorreu Joinville e Chapecó, reforçando a associação com Jorginho Mello.
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Para Merísio, o encontro mostrou quem é o candidato de Lula ao governo estadual. A fotografia resolveu a identificação. O discurso do presidente, porém, trouxe um problema junto.
De joelhos?
Ao relacionar os recursos destinados pelo governo à agricultura, Lula afirmou que o agro deveria se ajoelhar diante dele. Mesmo apresentada como uma comparação pelo volume de financiamento disponibilizado, a expressão revela uma concepção arrogante da relação entre governo e sociedade.
O produtor trabalha, assume riscos e paga impostos. Crédito e políticas públicas não são presentes tirados do bolso do presidente. Cobrar reverência por administrar recursos públicos é confundir o cargo com um trono.
O preço da fala
Lula tinha uma oportunidade para reduzir resistências em um estado onde o agronegócio tem enorme relevância. Preferiu uma cobrança que oferece munição aos adversários.
O produtor pode reconhecer uma medida positiva e continuar rejeitando o governo. Democracia não estabelece dívida de gratidão eleitoral.
Merísio no quadro
Merísio agora terá de administrar o pacote completo dessa associação. A presença de Lula ajuda a identificá-lo entre os eleitores do presidente, mas também o vincula às declarações que provocam resistência fora desse espectro eleitoral.
A imagem fortalece o vínculo político, enquanto o conteúdo pode dificultar a ampliação da candidatura. O apoio nacional tem valor, mas também tem custo.
Flávio e Jorginho
No Norte e no Oeste, Flávio reforçou a parceria com Jorginho Mello. É uma associação com potencial de benefício recíproco: o governador mobiliza sua estrutura política, e o presidenciável estimula a base bolsonarista.
Na avaliação desta coluna, a passagem foi produtiva para esse projeto. Enquanto Lula abriu uma nova discussão com o agro, Flávio teve espaço para reafirmar sua oposição ao PT e valorizar a gestão catarinense.
Reforço para Carlos
A visita também interessa diretamente à campanha de Carlos Bolsonaro ao Senado. A presença do irmão presidenciável amplia sua exposição e reforça o apelo do sobrenome junto ao eleitorado conservador.
Mas prestígio familiar não elimina a concorrência. Carlos disputa espaço com Carol de Toni, da mesma legenda, e com Esperidião Amin, cuja trajetória em Santa Catarina representa um patrimônio eleitoral próprio.
Três para duas
A pesquisa Real Time Big Data, divulgada em 17 de setembro, apresentou Carol com 24%, Amin e Carlos com 20% cada. O levantamento, com margem de dois pontos, descreveu empate técnico entre os três.
Há duas vagas e três candidaturas competitivas nesse campo. A força do bolsonarismo pode favorecer o PL, mas não garante que os dois eleitos sejam do partido.
Amin resiste
Amin ficou fora da composição do PL para as duas vagas, mas continua na disputa com condições de levar. Sua presença impede que a eleição seja tratada como simples distribuição de cadeiras entre os escolhidos da família Bolsonaro.
O eleitor conservador tem alternativas. Pode apoiar Flávio para presidente, Jorginho para governador e fazer uma escolha diferente para o Senado. Apoio político não equivale a procuração sobre todos os votos.
A reta decisiva
A leitura desta coluna é que Jorginho dispõe de um cenário favorável para buscar a reeleição no primeiro turno. O PL e seus aliados também têm oportunidade de ampliar suas bancadas. O tamanho dessa vantagem, porém, será definido nas urnas.
O Senado permanece como um dos pontos mais disputados da eleição catarinense. Nas duas semanas finais, a direita precisará decidir como distribuir sua força. Lula, por sua vez, deveria aprender: pedir votos exige mais respeito e menos cobrança de reverência. Ninguém gosta de ser humilhado.
Santa Catarina recebe neste sábado os dois protagonistas da disputa presidencial. Na programação apresentada, Lula estará pela manhã na Praça Tancredo Neves, em Florianópolis. Flávio Bolsonaro terá agenda em Joinville e, à tarde, em Chapecó.
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Serão demonstrações de força. Lula tenta renovar o entusiasmo de sua base. Flávio busca transformar o sentimento antipetista em mobilização e votos.
Disputa apertada
O Datafolha divulgado nesta semana apresenta Lula com 46% e Flávio Bolsonaro com 44% no segundo turno. Os números configuram empate técnico, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais. No primeiro turno, Lula aparece com 39%, contra 36% de Flávio.
É um retrato que exige cautela de quem já trata a eleição como resolvida.
Também seria precipitado decretar o favoritismo de Flávio. A oposição tem espaço para buscar a vitória, mas precisa converter expectativa em resultado. Eleição apertada não se ganha com comemoração antecipada.
O peso do Supremo
A crise do STF oferece à direita um argumento de campanha que o Planalto preferiria evitar: a cobrança por limites, transparência e responsabilidade de autoridades que acumularam enorme poder.
Na leitura desta coluna, a associação política de Lula com a defesa de Alexandre de Moraes aumenta seu desgaste. Isso não significa que cada oscilação nas pesquisas possa ser atribuída ao Supremo. Significa que o presidente tem mais um problema para explicar.
Socorro eleitoral
O reajuste de 15,04% do Bolsa Família chega na reta final da eleição. O governo apresenta a medida como recomposição do poder de compra. Politicamente, porém, o calendário fala alto.
O novo valor mínimo do benefício passa de R$ 600 para R$ 691, com os pagamentos reajustados começando em outubro. O governo estima que a medida terá impacto de R$ 5,8 bilhões nas contas de 2026.
Ajudar famílias vulneráveis é necessário. O questionamento é outro: por que a resposta ganha tamanha urgência justamente quando o eleitor está prestes a decidir? Benefício social é política pública e não pode ser tratado como favor de candidato.
A conta fica
O aumento também exige acomodação no Orçamento. A campanha pode celebrar o anúncio, mas alguém terá de explicar como a despesa será financiada.
O brasileiro precisa de renda que dure, emprego e preços que caibam no salário. Medidas de última hora não substituem uma política econômica capaz de devolver tranquilidade às famílias. O palanque passa; a conta permanece.
Senado em foco
O desgaste do Supremo pode pesar especialmente na disputa pelo Senado. A eleição dos senadores ganha importância para quem cobra fiscalização e responsabilidade dos integrantes da Corte.
Para a direita, esse debate precisa sair da indignação genérica. O eleitor deve saber quais compromissos cada candidato assume e como pretende exercê-los dentro da Constituição. Discurso inflamado sem atuação posterior é apenas propaganda.
A força catarinense
Santa Catarina oferece a Flávio um ambiente favorável para ampliar a mobilização conservadora. Mas herança política não é transferência automática de votos.
A referência é a votação expressiva de Jair Bolsonaro em 2022. Aproximar-se daquele desempenho exige organização, presença e capacidade de dialogar também com quem rejeita o PT, mas ainda não se decidiu pelo filho do ex-presidente.
Fadiga de poder
Lula disputa a Presidência pela sétima vez. Sua trajetória assegura reconhecimento, mas também permite à oposição explorar o cansaço com um projeto político que ocupa o centro do debate nacional há décadas.
Flávio tem a oportunidade de apresentar a alternância como caminho. Para aproveitá-la, precisa mostrar o que pretende fazer com a economia, a segurança e o funcionamento das instituições. A rejeição ao adversário abre portas; uma proposta consistente ajuda a conquistar a confiança.
O teste das ruas
Os atos deste sábado serão um teste de mobilização. Público em praça não substitui pesquisa nem urna, mas revela disposição para fazer campanha.
Lula precisa demonstrar capacidade de reação. Flávio precisa dar consistência à promessa de mudança.
Em Santa Catarina, a direita tem terreno para crescer. O ponto de referência é o desempenho de Jair Bolsonaro em 2022, quando recebeu 62% dos votos válidos no primeiro turno e 69% no segundo.
Repetir esses percentuais é outra questão. A atual pesquisa nacional mostra uma disputa apertada, mas não permite projetar automaticamente para Santa Catarina o resultado de 2022. O que o desempenho anterior demonstra é a existência de uma base eleitoral expressiva no Estado, que agora será colocada novamente à prova nas urnas.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.