Fechar [x]
APOIE-NOS
Seara/SC
35 °C
20 °C
Início . Blogs e Colunas .Cláudio Prisco Paraíso

Aliança de circunstância

Por Cláudio Prisco Paraíso
28/03/2026 - 08h32

Em Florianópolis, numa quinta-feira ao meio-dia, antigos adversários dividiram a mesa, cruzaram talheres e, na sequência, apresentaram-se juntos à imprensa. A cena, por si só, carrega simbolismo: lideranças que por décadas ocuparam campos opostos agora ensaiam uma convergência que, ao menos por ora, soa mais protocolar do que propriamente orgânica.

 :: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui

Estavam ali nomes de peso do PSD, como João Rodrigues, Raimundo Colombo e Júlio Garcia, ao lado de Esperidião Amin, figura central do Progressistas, todos oriundos de um mesmo espectro histórico. Mas também compunham o quadro Carlos Chiodini e Eduardo Pinho Moreira, do MDB — adversários tradicionais de Amin — além de Fábio Schiochet, ainda em afirmação no União Brasil, e Gean Loureiro, de trajetória partidária múltipla e igualmente marcada por antagonismos com vários dos presentes.

O que se anunciou foi uma parceria. O que se viu, na prática, foi um arranjo ainda em construção — e cercado de incertezas.

Convenções

Não há como tratar essa aliança como consolidada. O calendário eleitoral impõe um filtro decisivo: as convenções partidárias, entre a segunda quinzena de julho e 5 de agosto. Até lá, qualquer composição é, no máximo, uma intenção.

A pergunta central permanece: haverá musculatura política suficiente para homologar, dentro de cada partido, uma coligação liderada por João Rodrigues? Hoje, não há garantia.

Base dividida

O principal obstáculo não está no discurso das cúpulas, mas na realidade das bases.

No Progressistas, a sinalização foi inequívoca. Em reunião com o governador Jorginho Mello, na noite anterior, compareceram dois dos três deputados estaduais — José Milton Scheffer e Pepê Collaço — além de 41 dos 52 prefeitos do partido. Soma-se a isso o peso de lideranças como Silvio Dreveck, Leodegar Tiscoski e Aldo Rosa. O recado é claro: a maioria está alinhada ao projeto governista.

No MDB, o quadro é semelhante. Metade da bancada estadual — Antídio Lunelli, Jerry Comper e Fernando Krelling — já orbita em torno de Jorginho Mello. Lunelli, inclusive, foi convidado para a primeira suplência ao Senado. Os suplentes Emerson Stein e Cleiton Fossá também caminham nessa direção.

Do outro lado, Mauro De Nadal se posiciona com João Rodrigues. Volnei Weber se afasta da vida pública. Tiago Zilli dá sinais de aproximação com o governo. Na bancada federal, a fragmentação se repete: Valdir Cobalchini, Ivete Appel da Silveira, Carlos Chiodini e Rafael Pezenti seguem trajetórias distintas, sem alinhamento uniforme.

Federação

Há ainda um elemento novo e decisivo: a criação da Federação União Progressista, formalizada pelo TSE.

Na prática, deixam de existir PP e União Brasil como estruturas isoladas. A convenção passa a ser conjunta. Isso altera profundamente o jogo interno.

Mesmo que Amin e Schiochet consigam maioria na convenção federativa, o resultado não significa controle absoluto. Levariam CNPJ e tempo de televisão, é verdade, mas não necessariamente a totalidade da estrutura política. Parte relevante da federação seguirá com Jorginho Mello.

Protocolo

O encontro desta semana, portanto, deve ser interpretado com cautela. Trata-se, essencialmente, de um protocolo de intenções.

Há disposição para caminhar juntos, percorrer o Estado, construir narrativa e tentar viabilizar uma alternativa. Mas falta densidade política, capilaridade nas bases e, sobretudo, segurança quanto à fidelidade interna das siglas envolvidas.

Realidade

A rigor, o que se tem hoje é uma aliança de cúpula diante de bases divididas.

Até as convenções, haverá movimento, articulação e tentativa de consolidação. Mas sem qualquer garantia de desfecho favorável.

No fim das contas, a política — como sempre — será definida não pelas fotos de ocasião, mas pelos votos internos de cada partido.

E isso, neste momento, está longe de ser previsível.

Fim de uma era?

Por Cláudio Prisco Paraíso
27/03/2026 - 08h13

Nos últimos dias, novas pesquisas de opinião voltaram a medir a temperatura da corrida presidencial e trouxeram um dado que, embora ainda situado na margem de erro, é politicamente relevante: Flávio Bolsonaro aparece um ponto percentual à frente de Lula da Silva, que, claramente, entrou em estado de fadiga de material.

:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui

Mais do que a fotografia isolada do momento, o que importa é o filme. E ele vem se repetindo. Levantamentos sucessivos já indicam uma tendência consistente: curva ascendente para Flávio Bolsonaro — um senador “comum” (não fosse o fato de ter sido ungido pelo pai) — e trajetória descendente para a deidade vermelha. Ao longo das últimas oito semanas — ou, se preferirmos, dos últimos dois meses —, o presidente vai consumindo a gordura acumulada que lhe garantia vantagem, enquanto o senador do PL consolida terreno. Para surpresa de muitos, aliás.

Qualidade

Há um componente qualitativo nesse movimento. Flávio Bolsonaro tem adotado um discurso mais equilibrado e sereno, o que lhe permite avançar justamente sobre aquele terço do eleitorado que se mantém distante da polarização clássica — nem lulista, nem bolsonarista; nem alinhado ao PT, nem ao PL. É nesse espaço que, historicamente, se decide uma eleição presidencial. Em 2026, não será diferente.

Fragilidade

Ocorre que, paradoxalmente, essa mesma faixa do eleitorado não tem conseguido, ao longo dos últimos ciclos, viabilizar uma alternativa competitiva fora da polarização — a chamada terceira via, que já virou lenda urbana, ou melhor, eleitoral.

História

Houve tentativas. Marina Silva e Ciro Gomes, em momentos distintos, encarnaram esse papel. Ciro chegou a atingir 22 pontos percentuais em uma eleição. Marina, em 2014, alcançou 12%, num contexto absolutamente atípico, marcado pela morte de Eduardo Campos — de quem era vice — e pela consequente assunção da candidatura da ambientalista.

Nada feito

Ainda assim, nenhuma dessas experiências foi suficiente para romper a lógica dominante da polarização. Em 2022, Simone Tebet surgiu como aposta para furar essa bolha, mas não alcançou sequer 5% dos votos. O padrão se repete: há demanda difusa por uma terceira via, mas não há oferta viável. E o percentual dos que se lançam nessa aventura vem diminuindo.

Manutenção e acirramento

E tudo indica que, em 2026, esse quadro não apenas se manterá como poderá se intensificar. A tendência é de uma polarização ainda mais aguda do que aquela observada no confronto entre Lula e Jair Bolsonaro. Os chamados candidatos nanicos devem novamente registrar votações residuais, incapazes de alterar o eixo central da disputa. Simples assim.

Encruzilhada

É nesse contexto que o PSD se vê diante de uma verdadeira sinuca de bico. O partido insiste na construção de uma candidatura própria, mas esbarra na realidade dos números e na ausência de um nome com densidade nacional suficiente para romper a polarização.

Fora dessa

Ratinho Júnior, governador do Paraná, que chegou a ser ventilado como alternativa, mas já bateu em retirada. Talvez já seja a primeira “vítima” eleitoral do escândalo Master. Naturalmente, todas as atenções se voltaram para Ronaldo Caiado, governador de Goiás, um nome de centro-direita — até com viés mais à direita do que o próprio Ratinho. Havia expectativa de anúncio nesta semana, mas houve um recuo estratégico por parte de Gilberto Kassab, que agora projeta uma definição até o final do mês.

Esquerda disfarçada

Nesse intervalo, ressurge Eduardo Leite como opção. O governador gaúcho, por sua vez, já sinalizou que não pretende disputar o Senado caso não seja o escolhido para a presidência — preferindo concluir seu mandato no Rio Grande do Sul. Trata-se, evidentemente, de um movimento de pressão interna, sobretudo porque o PSD tem como prioridade estratégica a formação de uma bancada robusta no Senado. O gaúcho saiu há pouco das fileiras do PSDB, é esquerdista, embora não pareça extremista como Lula e seus camaradas.

Golpe duplo

Perder Ratinho no Paraná e, eventualmente, Eduardo Leite no Rio Grande do Sul significaria abrir mão de duas cadeiras com alto potencial de vitória. O custo político é elevado para o PSD — o PSDB da vez, de Kassab.

Órbitas

O dilema pessedista agora é estrutural: Eduardo Leite se posiciona no campo da centro-esquerda, enquanto Caiado representa a centro-direita. Ratinho orbitava nesse mesmo espectro. Ou seja, o PSD sequer conseguiu harmonizar internamente uma identidade ideológica clara para sua eventual candidatura presidencial. Não tem nome, não tem projeto, não tem discurso. Alô, João Rodrigues.

Balela

E, mais do que isso, as pesquisas são taxativas: não há, neste momento, espaço político para uma terceira via competitiva. O resto é conversa mole. Aquele eleitor que rejeita a polarização até existe, mas não enxerga — nem em Ratinho, nem em Caiado, tampouco em Leite — uma liderança capaz de protagonizar essa ruptura.

Previsibilidade

O resultado é previsível. Qualquer candidatura alternativa, seja do PSD ou de outra legenda, corre o risco de ser “cristianizada”, como tantas outras no passado recente.

Esgotamento

Diante desse cenário, não é exagero cogitar uma hipótese que, até pouco tempo, pareceria improvável: a possibilidade de definição da eleição ainda no primeiro turno — também pelo fato de Lula estar, politicamente, em fase de desgaste.

Nanicos

Caso os candidatos fora da polarização permaneçam em patamares inexpressivos, a disputa pode se concentrar de tal forma entre os dois polos principais que um deles atinja, já na largada, a maioria necessária.

Tendência

Se isso ocorrer, o Brasil poderá assistir à eleição de seu próximo presidente sem a necessidade de segundo turno — um desfecho que seria, ao mesmo tempo, consequência e símbolo máximo da radicalização do ambiente político nacional.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

24 horas

Portal49
www.portal49.com.br
© 2020 - 2026 Copyright Portal 49

Portaliza - Plataforma de Jornalismo Digital
WhatsApp

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com a nossa Política de Privacidade. FECHAR