Estamos completando a primeira semana da campanha eleitoral e nos preparando para entrar na segunda. O que esses primeiros sete dias revelaram aqui em Santa Catarina? Antes de tudo, a confirmação de que as eleições ao governo e ao Senado sempre estão entrelaçadas, especialmente quando a renovação é de dois terços das cadeiras, como é o caso de 2026. Não é coincidência. É a natureza da política brasileira.
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Senado é o destino natural
A razão é simples. O Senado é a casa dos estados. A representação por unidade federada é a mesma para todos: três senadores para cada um dos 26 estados e o Distrito Federal, independentemente do tamanho do eleitorado. E normalmente quem é governador segue para o Senado. É o caminho natural, o passo seguinte na carreira de quem governou.
As duas exceções catarinenses
Em Santa Catarina, tivemos apenas dois casos de governadores que não chegaram ao Senado. O primeiro foi Ivo Silveira, em 1974, quando perdeu para Evelásio Vieira, o Lazinho, ex-prefeito de Blumenau, por cerca de 60 mil votos. Foi quando eclodiu a primeira grande onda MDBista no Brasil, tanto que em 1978 o governo Geisel enfiou um senador biônico para reduzir o avanço do MDB contra a Arena. O segundo foi Colombo Machado Salles, que em 1986 concorreu entre vários candidatos e ficou pelo caminho. Fora esses dois casos, ex-governadores viram senadores com naturalidade.
Troca-troca
E a relação não é de mão única. Raimundo Colombo foi senador antes de ser governador. Depois de passar pelo governo, tentou duas vezes voltar ao Senado e bateu na trave. A trajetória política em Santa Catarina mostra que quem chega ao Senado caminha para o governo, e quem governa caminha para o Senado. É uma via de mão dupla consolidada pela história.
Na mira de 2030
E é por isso que as eleições de 2026 têm um peso que vai além de outubro. Com Jorginho Mello reconduzido, quem se eleger senador agora passa naturalmente a ser nome cotado para o governo em 2030. Com exceção de Esperidião Amin, candidato à reeleição ao Senado, que completará 79 anos em dezembro.
Futuro em aberto
Carol De Toni poderia sim disputar o governo em 2030. Assim como Antídio Lunelli e Décio Lima. São nomes que, uma vez eleitos senadores, entram automaticamente no radar da sucessão estadual. A eleição de hoje planta a semente do que vem daqui a quatro anos.
E Carluxo?
Carlos Bolsonaro é a incógnita. Veio para Santa Catarina com um objetivo claro: ser senador, combater o bom combate no Senado em nome do pai preso, pressionar o Supremo e propor impeachment contra ministros que hoje não têm freio. Concorrer ao governo em 2030? Particularmente, não acredito. Mas de qualquer forma, não dá para depositar fé pública em integrante de uma família que, convenhamos, mais parece família trapo. Complicada, enrolada e imprevisível.
2030 já tem nome
Reeleito Jorginho Mello, um nome para 2030 já está posto: Adriano Silva. Como vice-governador, assume mandato tampão após Jorginho renunciar para concorrer ao Senado. Outros nomes surgirão, especialmente a partir do resultado da eleição ao Senado deste ano. O tabuleiro de 2030 começa a ser montado agora.
As eleições para os governos estaduais foram restabelecidas em 1982. Os três primeiros pleitos foram de turno único. Aqui em Santa Catarina, tivemos as vitórias, respectivamente, de Esperidião Amin contra Jaison Barreto, de Pedro Ivo Campos contra Vilson Kleinübing e depois Kleinübing contra Paulo Afonso Vieira. O primeiro pelo PDS, o segundo pelo MDB e o último pelo PFL. Um estado que desde o início demonstrou vocação para a alternância no poder e para o equilíbrio de forças.
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A era dos dois turnos
As eleições passaram a ter dois turnos em 1994 e logo na primeira oportunidade já tivemos uma grande final, entre Amin e Paulo Afonso Vieira, que levou a melhor. Uma virada histórica: Ângela Amin fez um milhão de votos e Paulo Afonso virou 300 mil em cinco semanas. Em 1998, Amin derrotou Paulo Afonso ainda no primeiro turno, com 900 mil votos de frente. Foi a primeira eleição em dois turnos liquidada de pronto.
Luiz Henrique venceu duas vezes
Em 2002 e 2006, Esperidião Amin perdeu as duas eleições para Luiz Henrique da Silveira, ambas no segundo turno. Na primeira, Amin inclusive buscava à reeleição. Na segunda, em 2006, foi Amin quem tentou retomar o cargo. LHS ganhou as duas. Em 2002 houve mais uma virada: Amin saiu na frente, mas Luiz Henrique o superou no segundo turno.
Colombo liquidou no primeiro
Depois vieram duas eleições consecutivas liquidadas em turno único, ambas pelo mesmo candidato lajeano: Raimundo Colombo em 2010 enfrentando Ângela Amin e Ideli Salvatti, e em 2014 tendo Paulo Bauer como principal oponente. Dois mandatos, dois primeiros turnos. Uma raridade na história política catarinense.
Viradas e onda Bolsonaro
Nas duas últimas eleições, o segundo turno voltou. Em 2018, Gelson Merísio foi um pouco à frente de Carlos Moisés, que virou no segundo turno e ganhou com larga vantagem, embalado pela onda Bolsonaro. Em 2022, Jorginho Mello confirmou a vitória no segundo turno contra Décio Lima, com mais de 70% dos votos, semelhante ao desempenho de Moisés. Mais uma virada registrada em 2018, fazendo com que o estado tenha vivido três em sua história recente.
O retrato dos números
De 1982 para cá, foram 11 eleições ao governo de Santa Catarina. Três em turno único. Oito em dois turnos. Dessas, apenas três definidas já no primeiro turno. Um histórico que mostra que o segundo turno é a regra, não a exceção. E que quando há segundo turno, a virada é sempre uma possibilidade real, até porque é uma nova eleição.
2026 aponta para turno único
Hoje, todos os institutos de pesquisa sinalizam para uma eleição em turno único, com a recondução de Jorginho Mello. Vale lembrar que em matéria de reeleição, tivemos apenas dois episódios de derrota do incumbente: Paulo Afonso em 1998 e Esperidião Amin em 2002. Os dois foram à reeleição e perderam. Jorginho Mello quer escrever um capítulo diferente.
O que os próximos 44 dias vão dizer
Vamos ver o que as urnas dirão daqui a 44 dias. Se liquida no primeiro turno ou vai para o segundo. Se o governador será reeleito de imediato ou se, no segundo turno, haverá mais uma daquelas viradas que a história de Santa Catarina tão bem conhece. O passado demonstra que nada está escrito. O presente mostra Jorginho Mello na frente. E o futuro? O futuro é 5 de outubro.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.