A movimentação política em torno da eleição estadual de 2026 em Santa Catarina começa a ganhar contornos mais definidos, ainda que o cenário permaneça aberto. O fato concreto é que algumas pré-candidaturas que surgiram com antecedência não conseguiram, até agora, transformar visibilidade em musculatura eleitoral.
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É justamente o caso do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, cuja pré-candidatura ao governo foi colocada na rua há mais de dois anos. Passado todo esse tempo, o projeto ainda não encontrou tração política suficiente para se consolidar como alternativa competitiva ao atual governador. Não decolou. Não colou. É uma nau à deriva.
O resultado é um ambiente de inquietação entre partidos e lideranças que buscam reposicionamento no tabuleiro eleitoral catarinense.
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Pré-candidatura estagnada
A realidade é que a pré-candidatura de João Rodrigues continua praticamente onde começou. Sem perspectiva real de vitória em outubro.
Lançada com antecedência incomum, a estratégia previa acumular apoios regionais e consolidar uma frente política robusta ao longo do tempo. O que se viu, no entanto, foi uma caminhada marcada por patinação política e dificuldades para ampliar alianças.
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Norte
O sinal mais evidente dessa fragilidade surgiu no final do ano passado, quando o presidente da Assembleia Legislativa, Júlio Garcia, esteve em Joinville para conversar com o prefeito Adriano Silva.
A proposta era clara: estimular Adriano a disputar o governo pelo NOVO, enquanto João Rodrigues migraria para uma candidatura ao Senado pelo PSD. A articulação não prosperou.
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Tacada
Assim que tomou conhecimento da movimentação, o governador Jorginho Mello entrou em campo e tratou de neutralizar o movimento. O resultado foi a aproximação com Adriano Silva, que acabou incorporado ao projeto governista como candidato a vice-governador.
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Manda Brasa
A decisão teve outro efeito colateral relevante. Com o acordo entre o governador e o prefeito do maior colégio eleitoral catarinense, o MDB — que até então orbitava a base governista — ficou politicamente desabrigado e passou a buscar uma nova posição no xadrez eleitoral.
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Amin também fora
Outro personagem que acabou sendo empurrado para fora da órbita governista foi o senador Esperidião Amin. A situação se consolidou quando o governador Jorginho Mello e o senador Flávio Bolsonaro acertaram uma estratégia de chapa pura para o Senado.
Nesse arranjo, os nomes colocados foram Caroline De Toni e Carlos Bolsonaro.
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Bússola
Com isso, tanto Amin quanto a federação formada por União Brasil e Progressistas passaram igualmente a procurar uma nova inserção no cenário majoritário. Muitos ficaram, literalmente, a ver navios.
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A carta Colombo
É nesse contexto que surge uma nova hipótese política: a entrada do ex-governador Raimundo Colombo no MDB.
A legenda já fez o convite para que Colombo se filie e dispute o cargo que desejar. Evidentemente, a preferência seria pela candidatura ao governo do Estado. Caso essa alternativa se concretize, abriria caminho para a formação de uma frente mais ampla.
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Tudo junto
A ideia seria estruturar uma chapa com Raimundo Colombo ao governo e duas candidaturas de peso ao Senado: Esperidião Amin e João Rodrigues.
Restaria ainda a vaga de vice, que poderia ser utilizada para atrair outro partido — eventualmente o PSDB.
Seria uma composição politicamente densa. Ainda assim, Jorginho seguiria com amplo favoritismo.
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Peso histórico
Colombo não é um nome qualquer na política catarinense. Governou o estado por dois mandatos consecutivos e construiu uma trajetória marcada por forte interlocução com o MDB.
Nas duas eleições em que conquistou o governo, teve como vice Eduardo Pinho Moreira, sob o respaldo decisivo do ex-governador Luiz Henrique da Silveira.
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Parceria
Aliás, foi Luiz Henrique quem o trouxe para a aliança do MDB em 2006 para disputar o Senado. Colombo venceu aquela eleição e, posteriormente, também triunfou nas duas disputas pelo governo estadual — sempre sob o respaldo dos emedebistas.
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Alternativa de centro
Nos bastidores, cresce a avaliação de que setores do próprio PSD já perceberam as limitações eleitorais da pré-candidatura de João Rodrigues.
A eventual volta de Raimundo Colombo ao centro do tabuleiro poderia oferecer algo que hoje parece faltar: um nome capaz de ocupar o espaço político intermediário, dialogando com o eleitorado que não se identifica com o Fla x Flu da política brasileira.
Diferentemente de João Rodrigues, cujo discurso se posiciona na mesma faixa ideológica do governador Jorginho Mello, Colombo poderia dialogar com um eleitorado mais amplo.
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Muito jogo pela frente
Nada está definido. O calendário eleitoral ainda oferece tempo considerável para rearranjos. As convenções partidárias que oficializarão as candidaturas só precisam ocorrer até 5 de agosto.
Antes disso, a política atravessa etapas decisivas.
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Janela aberta
A janela partidária foi aberta nesta semana e segue até 4 de abril, período em que parlamentares podem trocar de legenda.
Se decidir disputar novamente o governo, Raimundo Colombo necessariamente teria de mudar de partido dentro desse prazo.
Até lá, muita água ainda vai correr por baixo da ponte.
O MDB caminha, com cada vez menos margem para dúvida, para uma postura de independência na eleição presidencial de 2026. Em termos práticos, significa liberação geral: o partido não lançará candidato ao Palácio do Planalto e tampouco assumirá apoio formal a qualquer postulante. Cada diretório estadual terá autonomia para definir o seu posicionamento conforme a realidade local.
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Foi exatamente essa orientação que dezesseis diretórios estaduais levaram a Brasília, em reunião com o presidente nacional da legenda, Baleia Rossi. Entre eles está Santa Catarina, representado pelo presidente estadual do partido, o deputado federal Carlos Chiodini, acompanhado dos também deputados Valdir Cobalchini e Rafael Pezenti, além da senadora Ivete Appel da Silveira.
Não se trata de um movimento marginal dentro do partido. Muito pelo contrário. A maioria expressiva dos diretórios mais influentes do MDB aderiu à tese da independência.
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Peso real
A lista dos estados que defenderam a neutralidade é reveladora. Estão ali os quatro colégios do Sudeste — São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo — além dos três estados do Sul — Santa Catarina, Rio Grande e Paraná.
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Geografia
Também integram o grupo os estados do Centro-Oeste — Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal — além de algumas unidades da região Norte.
Em outras palavras: trata-se da fração mais robusta do MDB. O coração político e eleitoral do partido.
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Temer no comando
A formalidade da presidência nacional está com Baleia Rossi, mas quem segue exercendo influência decisiva nos bastidores é o ex-presidente Michel Temer, que comandou a legenda por uma década e permanece como principal fiador da estratégia.
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Declinou
Temer, inclusive, chegou a ser convidado para liderar uma candidatura de unidade do MDB ao Planalto. O convite partiu do próprio Baleia Rossi. A resposta foi negativa — sobretudo em razão da idade e do momento político.
Mas a recusa não significou afastamento. Pelo contrário: a linha de atuação do partido continua sendo fortemente influenciada pelo ex-presidente.
E a decisão está tomada.
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Sem vice
Com esse cenário consolidado, está descartada a possibilidade de o MDB indicar candidato a vice-presidente em qualquer chapa nacional.
Os apoios mais explícitos ao presidente Lula da Silva permanecem concentrados em grupos políticos ligados às famílias Calheiros, em Alagoas, e Barbalho, no Pará. Mas esses apoios serão regionais e pontuais, sem chancela institucional do partido.
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Tebet isolada
A decisão também isola politicamente a ministra do Planejamento, Simone Tebet, que hoje integra o governo federal.
Ex-senadora por Mato Grosso do Sul, Tebet já não encontra respaldo consistente dentro do MDB para sustentar a aliança com o PT. O movimento de bastidores indica, inclusive, a possibilidade de transferência de seu domicílio eleitoral para São Paulo, onde poderia disputar o Senado em uma composição alinhada ao campo governista.
Mas isso já ocorreria fora do MDB.
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Sobrevivência
Para Santa Catarina, a neutralidade nacional não é apenas conveniente — é vital.
Caso o MDB aderisse formalmente à candidatura de Lula, o risco de esvaziamento seria imediato. Os três deputados federais dificilmente permaneceriam na legenda, e a debandada poderia alcançar também a bancada estadual.
A decisão, portanto, não tem nada de romântica. É pragmatismo político em estado puro.
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Partido em declínio
O MDB já foi o maior partido do Brasil e também a força dominante na política catarinense. Hoje vive outra realidade.
Perdeu capilaridade, perdeu lideranças e perdeu protagonismo.
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Tucanou
Ao optar pela neutralidade, o partido repete uma estratégia que marcou durante anos o comportamento do PSDB: subir no muro para garantir sobrevivência política.
Não é exatamente um projeto de poder. Mas, diante das circunstâncias, tornou-se uma estratégia de preservação.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.