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Bornhausen entra em campo novamente

Por Cláudio Prisco Paraíso
02/06/2026 - 08h26

A movimentação do PSD nacional ganhou novos contornos nos últimos dias e tem, mais uma vez, a digital de Jorge Bornhausen. O ex-senador catarinense, que também governou o Estado, principal fiador da ascensão política de Gilberto Kassab desde os anos 1990, passou a atuar nos bastidores para evitar que o partido perca relevância na construção do cenário presidencial de 2026.

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A reação veio após uma declaração que causou desconforto na cúpula pessedista. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, admitiu publicamente a possibilidade de integrar uma chapa presidencial como vice do ex-governador mineiro Romeu Zema, do Novo.

A sinalização imediatamente acendeu o alerta no PSD. Afinal, caso Caiado abrisse mão da cabeça de chapa, o partido correria o risco de reduzir seu peso político e seu poder de negociação em um eventual segundo turno presidencial.

Kassab de vice

Foi nesse contexto que surgiu a ideia de uma chapa puro-sangue: Ronaldo Caiado para presidente e Gilberto Kassab para vice. Uma construção atribuída à articulação de Jorge Bornhausen, em sintonia fina com o presidente nacional do PSD.

Valorizar o passe

A preocupação do PSD é objetiva. Se Caiado migrasse para uma composição liderada pelo Novo, o partido poderia perder protagonismo justamente no momento em que pretende maximizar seu peso político nacional, colocando em risco a construção nacional de Kassab.

Capilaridade

Hoje, o PSD é a legenda com o maior número de prefeituras do Brasil, superando pela primeira vez o MDB. Trata-se de um ativo eleitoral e institucional extremamente relevante. Naturalmente, os dirigentes pessedistas pretendem valorizar esse patrimônio político.

Esplanada

A avaliação é simples: em uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro contra Lula da Silva em um segundo turno, o PSD deseja ocupar espaço estratégico na futura administração federal, da mesma forma que hoje participa da base de sustentação do governo petista. O comportamento não surpreende. O PSD é herdeiro direto da tradição política do antigo PFL: um partido “vocacionado para o poder”.

Caiado e Zema

A aproximação entre Romeu Zema e Ronaldo Caiado possui uma lógica política evidente. Os dois ex-governadores tentam construir uma alternativa de centro-direita capaz de romper a polarização nacional e avançar nas pesquisas de opinião.

O objetivo seria chegar competitivamente à disputa presidencial e buscar espaço diante de Lula da Silva.

Missão impossível

Mas existe um obstáculo considerável. Antes mesmo de enfrentar Lula, a dupla precisaria ultrapassar o senador Flávio Bolsonaro no campo conservador, missão que está longe de ser simples. Independentemente do sucesso eleitoral da empreitada, a simples hipótese de Caiado assumir a vice-presidência em uma chapa liderada por Zema provocou preocupação dentro do PSD.

Portugal como palco

As articulações ocorrem paralelamente ao tradicional encontro promovido pelo ministro Gilmar Mendes em Portugal, o tal de “Gilmarpalooza”.

O evento reúne lideranças políticas, magistrados, empresários e integrantes dos principais centros de poder do país. Uma verdadeira festa dos donos do poder.

Além-mar

Como ocorre todos os anos, os bastidores fervilham de conversas, especulações e negociações que ajudam a moldar o ambiente político nacional para os meses seguintes. Tudo bem longe dos olhos da sociedade deste país. E é justamente nesse cenário que o PSD procura reposicionar suas peças.

Reflexos em SC

A discussão nacional produz efeitos diretos em Santa Catarina. Se Romeu Zema fosse candidato a presidente tendo Ronaldo Caiado como vice, surgiria uma situação extremamente delicada para o ex-prefeito de Joinville, Adriano Silva, principal liderança do Novo no estado.

Rivais locais

Isso porque Caiado integra o PSD, partido do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, pré-candidato ao governo catarinense e adversário direto de Jorginho Mello. Adriano Silva integra o projeto político de reeleição do governador. Seu nome é apontado como candidato a vice-governador na chapa de Jorginho, condição que só será sacramentada nas convenções.

Fora dessa

Nesse contexto, seria praticamente impossível para Adriano subir no palanque presidencial de Romeu Zema sem gerar constrangimentos políticos relevantes dentro da própria aliança estadual. Na prática, teria de ignorar olimpicamente a campanha do ex-governador mineiro ou alinhar-se ao projeto presidencial apoiado por Jorginho Mello, que dará palanque a Flávio Bolsonaro.

Futuro partidário

Essa circunstância alimenta outra especulação. Caso Jorginho Mello seja reeleito e Adriano Silva se transforme efetivamente em vice-governador, não está descartada, no futuro, uma eventual mudança partidária, com o joinvilense deixando o Novo. Adriano Silva poderia buscar abrigo em uma legenda integrada ao atual arco de sustentação do governador.

Naturalidade

Republicanos e Podemos aparecem como alternativas naturais. Trata-se, evidentemente, apenas de uma hipótese. Não existe qualquer movimento concreto nessa direção e, neste momento, o cenário parece distante.

Correção de rota

A repercussão da declaração de Caiado foi tão significativa que o próprio governador goiano tratou de recalibrar o discurso. Após perceber a reação negativa dentro do PSD, passou a enfatizar as vantagens competitivas de sua própria legenda. Lembrou que a sigla possui tempo de televisão robusto, estrutura nacional consolidada e bancadas expressivas na Câmara dos Deputados e no Senado.

Disparidade

Caiado também destacou que o Novo não dispõe da mesma musculatura política e eleitoral. Na prática, a leitura nos bastidores é que o goiano iniciou um movimento para acomodar o desconforto gerado por sua fala sobre uma eventual vice-presidência.

Chapa própria

Por tudo isso, cresce a possibilidade de o PSD insistir em candidatura própria ao Palácio do Planalto. A alternativa de uma chapa formada por Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab ganha força justamente para preservar o protagonismo partidário e ampliar o poder de negociação da legenda no processo eleitoral. E Kassab, registre-se, não teria nada a perder compondo com o correligionário.

Vertical

Se esse desenho prosperar, João Rodrigues teria um palanque presidencial próprio em Santa Catarina, fortalecendo sua estratégia para a disputa estadual de 2026.

E tudo indica que Jorge Bornhausen, mais uma vez, segue exercendo influência decisiva muito além dos limites de Santa Catarina.

Aula de responsabilidade em Brasília

Por Cláudio Prisco Paraíso
30/05/2026 - 08h30

Santa Catarina saiu maior da tumultuada sessão da Câmara dos Deputados que aprovou, de maneira açodada e sem o necessário amadurecimento, a proposta que altera a escala de trabalho 6x1 e reduz a jornada semanal para 40 horas.

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Dos 16 deputados federais catarinenses, 10 votaram contra a matéria. Um gesto de coragem política, responsabilidade institucional e compromisso com a realidade econômica do país. Em um ambiente contaminado pelo populismo eleitoral, os parlamentares catarinenses que se posicionaram contra tiveram altivez para enfrentar o tema com racionalidade, algo raríssimo na atual legislatura.

Mais do que um simples voto, foi uma demonstração de maturidade diante de uma pauta que mexe diretamente com a vida de mais de 200 milhões de brasileiros, impacta empresas, trabalhadores, cadeias produtivas e a competitividade nacional.

Mostra sua cara

A condução da votação escancarou, definitivamente, o verdadeiro perfil do presidente da Câmara, Hugo Motta.

Com apenas 36 anos, o parlamentar paraibano demonstrou falta de envergadura política e ausência de densidade institucional para ocupar um dos cargos mais importantes da República.

Vassalagem

Atendendo aos interesses do Palácio do Planalto e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Motta atropelou qualquer debate sério sobre uma proposta extremamente complexa, que exigiria estudos aprofundados, diálogo com os setores produtivos e, sobretudo, responsabilidade.

Goela abaixo

Nada disso ocorreu. No afogadilho, sem discussão ampla e sem qualquer fase de transição ou testes preliminares, colocou-se em votação uma mudança estrutural no mercado de trabalho brasileiro.

Tratamento de improviso

O Brasil não é um país homogêneo. É uma nação continental, marcada por profundas diferenças regionais, econômicas e sociais.

Há setores produtivos completamente distintos entre Sul, Sudeste, Norte e Nordeste. Existem realidades econômicas incompatíveis entre si. Há segmentos industriais, comerciais e de serviços com dinâmicas próprias.

Ritmo de festa

Mesmo assim, a Câmara decidiu avançar sobre um tema sensível sem avaliar impactos concretos. Economistas e especialistas da área trabalhista vêm alertando que uma mudança dessa magnitude exigiria implementação gradual, testes de viabilidade e análises técnicas profundas, justamente para evitar efeitos colaterais severos na economia.

Risco generalizado

Entre os riscos apontados estão o aumento dos custos operacionais, o encarecimento de produtos e serviços e a redução da geração de empregos. Mas isso virou detalhe secundário.

Tudo eleitoreiro

O que prevaleceu foi o cálculo eleitoral. Para o governo Lula, o interesse central é construir um discurso politicamente rentável para 2026. A preocupação prioritária deixou de ser o futuro econômico do país e passou a ser a reeleição presidencial.

O Brasil ficou em segundo plano. Primeiro vem o projeto político. Essa é a leitura cada vez mais evidente em Brasília.

O peso do Supremo

Nos bastidores, também chama atenção a posição de Hugo Motta diante do consórcio político que hoje une Planalto e Supremo Tribunal Federal.

O presidente da Câmara possui vulnerabilidades e processos que tramitam na Suprema Corte. E Brasília funciona exatamente assim: relações de conveniência, proteção recíproca e alinhamentos de interesse.

Moeda de troca

Hugo Motta cedeu. E grande parte dos deputados também. Não necessariamente por convicção, mas pelo receio eleitoral. Afinal, estamos a poucos meses de o calendário eleitoral ganhar musculatura definitiva, e muitos parlamentares temeram o desgaste de votar contra uma proposta que, superficialmente apresentada, parece simpática à opinião pública.

SC na contramão

É justamente nesse contexto que Santa Catarina merece reconhecimento. Dos 16 deputados federais do estado, 10 votaram contra a proposta. Um desempenho absolutamente desproporcional em relação ao restante do país. Dos 513 deputados federais, apenas 22 votaram contra. Dez eram catarinenses.

Ilha brasileira

Nenhum outro estado teve comportamento semelhante, nem mesmo São Paulo, que possui quase 80 deputados federais. Santa Catarina destacou-se tanto proporcionalmente quanto em números absolutos.

Foi, sem dúvida, o estado que mais resistiu ao populismo travestido de modernização trabalhista.

Quem votou contra

Entre os sete deputados do PL, seis rejeitaram a proposta: Caroline De Toni, Daniel Freitas, Daniela Reinehr, Ricardo Guidi, Zé Trovão e Júlia Zanatta.

O único do PL que não acompanhou o grupo foi Ismael dos Santos, eleito originalmente pelo PSD.

Manda Brasa

Também votaram contra os emedebistas Carlos Chiodini e Rafael Pezenti, além de Fábio Schiochet, do União Brasil, e Gilson Marques, do Novo.

Os votos favoráveis

Votaram a favor os petistas Ana Paula Lima e Pedro Uczai, líder do partido na Câmara.

Também apoiaram a proposta Jorge Goetten, eleito pelo PL e atualmente no Republicanos, além de Ismael dos Santos.

Os ausentes

Dois parlamentares ainda conseguiram protagonizar situação mais constrangedora.

Preferiram fugir do debate. Geovania de Sá, atualmente no Republicanos, embora eleita pelo PSDB, sequer apareceu para votar. Já Valdir Cobalchini, do MDB, estava em Brasília, mas optou por não votar.

Pressão

Uma ausência especialmente simbólica. Cobalchini é de Caçador, cidade do presidente da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina, Gilberto Seleme. A entidade empresarial catarinense manifestou preocupação com a redução da jornada e destacou que os parlamentares que votaram contra demonstraram compromisso com o desenvolvimento econômico e com a responsabilidade institucional.

Convicção e perfil

É evidente que houve pressão sobre os deputados. Mas não apenas do setor produtivo. Os parlamentares catarinenses que se posicionaram contra a proposta também compreenderam o perfil político do estado. Santa Catarina é, hoje, um dos estados mais conservadores do Brasil, com forte identidade bolsonarista e um eleitorado extremamente politizado — talvez o mais politizado do país.

Fiscalização

E esse eleitor acompanha voto, posicionamento e coerência. No fim das contas, os deputados catarinenses que disseram “não” demonstraram exatamente aquilo que faltou à maioria da Câmara: coragem para pensar no país antes da próxima eleição.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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