A sorte praticamente está lançada. Na véspera de 4 de outubro, o Brasil chega às urnas com uma eleição encabritada, polarizada e carregada de sutilezas. Lula da Silva e Flávio Bolsonaro concentram as preferências e enfrentam rejeição elevada. Nas simulações de segundo turno, os levantamentos mostram uma disputa apertada. Não há espaço para salto alto.
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Quem vai votar?
A primeira incógnita é a abstenção. Uma coisa é declarar preferência ao pesquisador. Outra é sair de casa e confirmar o voto. Numa disputa equilibrada, essa diferença pode custar a Presidência.
O eleitor que se omite também interfere no resultado. As pesquisas podem investigar a disposição de comparecer, mas não antecipam com exatidão quem efetivamente chegará à urna.
O risco da ausência
Lula tem força entre os eleitores com mais de 60 anos, de menor renda e, majoritariamente, localizados no Nordeste. Se a ausência atingir proporcionalmente mais sua base, sofrerá as consequências. Na média das últimas eleições, a elevada abstenção tem subtraído em torno de dois pontos percentuais dos candidatos do PT, considerando os derradeiros prognósticos dos institutos de pesquisa. O desconto está longe de ser automático, mas tem marcado presença no contexto das apurações.
O problema permanece: intenção de voto que não chega à urna não elege ninguém. Campanha que confunde preferência declarada com voto assegurado pode levar um susto desagradável.
A hora do voto útil
O outro ingrediente é o voto útil. Caiado, Zema, Augusto Cury e Renan Santos disputam espaço numa eleição dominada pelos dois principais concorrentes.
Essa transferência não ocorre por decreto. Mas, quando a polarização aperta, as candidaturas menores ficam espremidas. É a hora em que o eleitor decide entre manter sua primeira escolha e reforçar quem pode derrotar seu adversário comum.
Liquidar no domingo?
Uma concentração expressiva de votos em Flávio, combinada com abstenção nordestina, poderia aproximá-lo de uma vitória no primeiro turno. Ainda assim, liquidar a disputa no domingo constitui-se em missão desafiadora.
O Datafolha divulgado em 1º de outubro mostrou Lula com 45% dos votos válidos e Flávio com 40%. Nenhum alcançava a maioria necessária. Lula também pode buscar uma definição imediata. Para ambos, seria preciso avançar além do quadro medido.
O desgaste petista
O antipetismo é um combustível poderoso. Segurança pública, custo de vida e responsabilidade fiscal oferecem terreno para confrontar Lula. Depois de quase 20 anos no poder, o PT não pode tratar toda insatisfação como incompreensão do eleitor.
A gastança merece cobrança dura. Quem administra recursos públicos precisa entregar resultado. Propaganda não substitui segurança nas ruas nem tranquilidade no orçamento familiar. O eleitor não tem obrigação de agradecer por uma vida que continua apertada.
Jorginho confortável
Em Santa Catarina, Jorginho Mello chega em situação bem mais confortável. A Quaest de 24 de setembro mostrou o governador com 54% das intenções de voto. O caminho para a reeleição no primeiro turno está pavimentadíssimo.
Uma votação ainda mais expressiva consolidaria sua liderança estadual e ampliaria seu peso no campo conservador. A dimensão dessa vitória, se confirmada, será conhecida na apuração. Mas os adversários chegam à reta final correndo atrás de uma distância considerável.
A briga pelo segundo
Gelson Merísio tem condições de concentrar os votos de Lula e da esquerda e ultrapassar João Rodrigues, se é que já não ultrapassou. Na mesma Quaest, João apareceu com 13% e Merísio com 10%, tecnicamente empatados.
João entrou para enfrentar Jorginho e agora precisa defender a segunda posição. É o retrato cruel de uma candidatura que não ganhou a força pretendida. Merísio pode crescer sobre esse esvaziamento. João corre o risco de terminar desidratado.
Senado imprevisível
No Senado, a eleição continua eletrizante. Carol de Toni, Carlos Bolsonaro e Esperidião Amin formam o primeiro pelotão numérico, em empate técnico.
O segundo voto, a rejeição e a mobilização final tornam temerário qualquer prognóstico. São duas vagas e nenhuma cadeira reservada. A sorte está praticamente lançada. A sentença pertence ao eleitor.
Faltam três dias para as eleições de 4 de outubro. Em Santa Catarina, o passado ajuda a compreender o que pode sair das urnas no domingo. Nem toda derrota encerra uma trajetória. Algumas pavimentam a próxima vitória. Outras deixam o candidato sem mandato, sem protagonismo e sem perspectiva. É justamente essa diferença que pode separar Gelson Merísio de João Rodrigues.
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Por 1.439 votos
Desde o restabelecimento das eleições diretas para governador, em 1982, tivemos 11 disputas até 2022. Na primeira, Esperidião Amin conquistou o governo, enquanto Pedro Ivo Campos perdeu o Senado para Jorge Bornhausen por apenas 1.439 votos.
Uma derrota apertadíssima. Mas Pedro Ivo permaneceu no jogo e, quatro anos depois, elegeu-se governador. O revés não o liquidou. Deixou um patrimônio eleitoral que seria aproveitado na oportunidade seguinte.
O passaporte
Em 1986, Vilson Kleinübing perdeu o governo para Pedro Ivo, mas saiu da eleição com musculatura política. Venceu a prefeitura de Blumenau em 1988 e conquistou o governo em 1990. A prefeitura foi seu passaporte.
Paulo Afonso Vieira, derrotado por Kleinübing, seguiu caminho semelhante. Voltou em 1994 e virou o jogo sobre Angela Amin no segundo turno. Quem havia perdido quatro anos antes acabou recebendo as chaves da Casa d’Agronômica.
A fila andava
Angela perdeu o governo em 1994, mas venceu a prefeitura de Florianópolis em 1996. A conquista fortaleceu seu grupo e ajudou a preparar o retorno de Esperidião Amin ao governo, em 1998, derrotando Paulo Afonso.
A fila andava. Os derrotados se reorganizavam, encontravam outro espaço e voltavam competitivos. Havia alternância e, sobretudo, lideranças que saíam de uma derrota com condições de disputar a próxima vitória.
Dezesseis anos
Esse movimento mudou com Luiz Henrique da Silveira, em 2002. A onda de mudança que levou Lula à Presidência favoreceu o ambiente para a derrota de Amin, somada à articulação estadual de Luiz Henrique.
Em 2006, Luiz Henrique venceu Amin novamente. Depois, apoiou Raimundo Colombo, eleito em 2010 e reeleito em 2014. Quatro mandatos consecutivos de continuidade de uma aliança política, apesar das acomodações internas. Dezesseis anos no poder. A alternância havia dado lugar à permanência.
O vento Bolsonaro
A ruptura chegou em 2018, impulsionada por uma força nacional avassaladora: a onda Bolsonaro. Carlos Moisés, um ilustre desconhecido do grande eleitorado, foi carregado até o governo.
Quatro anos depois, sequer chegou ao segundo turno. Jorginho Mello ocupou o espaço bolsonarista e venceu. Moisés descobriu nas urnas que a força recebida em 2018 não era um patrimônio pessoal. O eleitorado conservador havia escolhido outro representante.
Caminho pavimentado
Agora, Jorginho tem a reeleição pavimentadíssima, salvo um fato novo de grande proporção. A Quaest de 24 de setembro mostrou o governador com 54%, contra 13% de João Rodrigues e 10% de Merísio.
Em 2022, a pulverização das candidaturas conservadoras ajudou Décio Lima a alcançar o segundo turno. Desta vez, Jorginho concentra esse eleitorado. A esquerda pode chegar em segundo sem ter força para levar a decisão a uma nova rodada.
Perder e ganhar
Merísio tem condições de ultrapassar João Rodrigues. Se confirmar a segunda posição, poderá perder a eleição e, ainda assim, ganhar perspectiva política.
Florianópolis, em 2028, pode entrar nesse horizonte, desde que sejam construídas as condições para a candidatura. Seria um caminho semelhante ao de Kleinübing depois de 1986 ou ao de Angela depois de 1994.
O segundo lugar não entrega mandato. Mas pode entregar visibilidade, liderança e futuro. Uma derrota com endereço para a próxima disputa.
O risco de João
Já João Rodrigues corre o risco de ser o Amilcar Gazaniga de 2026. Gazaniga terminou em terceiro em 1986, atrás de Pedro Ivo e Kleinübing. João pode acabar espremido entre a força de Jorginho e a concentração dos votos de esquerda em Merísio.
Entrou para enfrentar o governador e corre o risco de assistir à ultrapassagem pelo retrovisor.
É uma diferença brutal: Merísio pode sair da derrota com um projeto. João pode sair apenas com a derrota. Para quem pretendia comandar Santa Catarina, é muito pouco.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.