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Amin, os 60 anos do MDB e aliança conveniente

Por Cláudio Prisco Paraíso
04/06/2026 - 08h39

A sessão especial realizada pela Assembleia Legislativa na noite de segunda-feira, em homenagem aos 60 anos do MDB catarinense, produziu muito mais do que celebrações históricas ao velho Manda Brasa. O evento acabou se transformando numa demonstração pública de como a política de Santa Catarina está sendo reorganizada para 2026 — e também numa fotografia eloquente das contradições dessa nova composição.

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A solenidade ocorreu por iniciativa do deputado estadual Mauro De Nadal e reuniu praticamente todo o universo político catarinense. Estavam presentes emedebistas históricos, fundadores da sigla, ex-parlamentares, lideranças tradicionais e representantes de partidos que, durante décadas, fizeram oposição cerrada ao MDB.

Mas houve uma presença específica que monopolizou atenções. Esperidião Amin roubou a cena. E não por acaso.

Durante mais de quatro décadas, Amin foi, disparado, o principal adversário político do MDB em Santa Catarina. Jorge Bornhausen e Vilson Kleinübing tiveram enfrentamentos importantes contra os emedebistas, mas nenhum deles alcançou o nível de antagonismo político representado por Amin desde os anos 1980.

Sinal dos tempos

A presença do senador progressista circulando sorridente pelos corredores da Alesc, conversando descontraidamente com lideranças emedebistas e, principalmente, tratando o presidente estadual do MDB, deputado federal Carlos Chiodini, como “companheiro de jornada”, produziu uma cena que até poucos anos atrás pareceria absolutamente impensável.

Inimigos

Porque, para uma parcela expressiva dos antigos emedebistas, Esperidião Amin nunca foi visto apenas como adversário político. Em muitos momentos, era tratado efetivamente como inimigo político. E “mortal”.

As batalhas históricas

A rivalidade não nasceu ontem. Esperidião Amin enfrentou diretamente o MDB em quatro disputas pelo governo do Estado. Venceu as duas primeiras.

Em 1982, no restabelecimento das eleições diretas para os governos estaduais, derrotou Jaison Barreto. Depois, em 1998, venceu Paulo Afonso Vieira.

Fator LHS

Na sequência, sofreu duas derrotas consecutivas para Luiz Henrique da Silveira: em 2002, quando buscava a reeleição ao governo do Estado, e novamente em 2006.

Mas, curiosamente, o contencioso político mais intenso de Amin não foi exatamente com Luiz Henrique. Foi com Paulo Afonso Vieira.

Ausência justificada

Paulo Afonso, que não compareceu à solenidade porque estava em viagem ao exterior, protagonizou com Amin alguns dos confrontos mais duros da política catarinense contemporânea.

Foi Paulo Afonso quem derrotou Angela Amin no segundo turno de 1994. E, quatro anos depois, recebeu o troco do próprio Esperidião Amin. Foram enfrentamentos antológicos, daqueles que marcaram época na política estadual.

PSD presente

O evento também reuniu lideranças do PSD, partido que historicamente construiu uma relação muito mais próxima com o MDB neste século.

Estavam presentes o presidente da Assembleia Legislativa, Júlio Garcia, e o ex-governador Raimundo Colombo.

Sangue misturado

Colombo, aliás, foi eleito duas vezes governador com apoio decisivo do MDB, numa engenharia política conduzida por Luiz Henrique da Silveira, que já havia ajudado na eleição do próprio Colombo ao Senado, em 2006, quando LHS conquistava a reeleição ao governo estadual.

Aliança desenhada

A presença dos pessedistas reforçou aquilo que já se desenha claramente nos bastidores: a consolidação de uma futura composição entre PSD, MDB e PP para 2026.

Aliança sem convicção

Mas há um detalhe essencial nessa engenharia política. Ela não nasce de afinidade ideológica, nem de identidade programática, tampouco de convergência histórica. Nasce da exclusão. Nasce da conveniência.

Fórmula original

PP e MDB caminhavam naturalmente para permanecer na órbita do governador Jorginho Mello. O espaço de ambos estava reservado no projeto de reeleição do atual governador. E ali estariam.

Perspectiva reeleitoral

Ainda mais tratando-se de um projeto de continuidade administrativa, algo que tradicionalmente facilita acomodações políticas. Mas a equação mudou.

MDB e PP sentiram-se preteridos na composição majoritária diante do avanço de Adriano Silva e da influência do clã Bolsonaro no desenho político do governador. Resultado: aproximaram-se de João Rodrigues.

Registro histórico

E é exatamente isso que explica a imagem mais emblemática da noite: Esperidião Amin circulando como aliado do MDB dentro da festa dos 60 anos do partido que ele combateu ferozmente por décadas.

A dúvida

A grande pergunta, entretanto, permanece sem resposta. Os antigos emedebistas aceitarão plenamente essa aliança? Luiz Henrique da Silveira e Casildo Maldaner, se vivos estivessem, avalizariam essa composição política?

Até que ponto a base histórica do MDB votará em Esperidião Amin para o Senado?

Incógnita

A resistência não é apenas dentro do MDB. Hoje, setores do próprio PP já questionam internamente se acompanharão Esperidião Amin numa composição eleitoral ao lado dos emedebistas. Nas bases, a rivalidade segue praticamente intocada.

Missão delicada

A fotografia da Alesc foi poderosa politicamente. Mostrou maturidade institucional, pragmatismo eleitoral e capacidade de composição.

Mas também deixou evidente que PSD, MDB e PP carregam um desafio gigantesco pela frente: transformar uma aliança circunstancial em palanque eleitoral consistente. E harmônico.

Para os holofotes

Porque uma coisa é dividir o mesmo evento institucional. Outra, completamente diferente, é convencer bases históricas — moldadas durante décadas em confrontos políticos duríssimos — a marcharem juntas nas urnas.

E este talvez seja o principal teste político dessa futura aliança para 2026.

Esquerda joga a toalha no Sul

Por Cláudio Prisco Paraíso
03/06/2026 - 08h22

Junho começou e, com ele, a contagem regressiva definitiva para a campanha eleitoral de 2026. Faltam pouco mais de dois meses para o início formal das disputas, considerando que as convenções partidárias ocorrerão entre 20 de julho e 5 de agosto. E, observando exclusivamente o cenário dos três estados do Sul — Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná —, uma conclusão já se apresenta de maneira cristalina: o PT nacional desistiu das disputas pelos governos estaduais e concentrou toda sua estratégia eleitoral nas eleições ao Senado.

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A decisão não é casual. Ela parte diretamente do Palácio do Planalto e do próprio Lula da Silva, que escalou três figurinhas carimbadas do petismo para a missão: Paulo Pimenta, no Rio Grande do Sul; Gleisi Hoffmann, no Paraná; e Décio Lima, em Santa Catarina.

O objetivo é evidente: preservar influência institucional em Brasília, especialmente numa Casa que será decisiva para o futuro político do país.

Brizolismo de volta

No Rio Grande do Sul, o PT aceitou um papel absolutamente secundário na chapa majoritária.

Depois da experiência de 2022, quando Eduardo Leite conseguiu a reeleição derrotando Onyx Lorenzoni no segundo turno (isso depois de quase perder a vaga para um petista) — numa vitória que contou, inclusive, com apoio decisivo do próprio PT —, Lula enquadrou o partido gaúcho.

Posição

Edegar Pretto, que no último pleito quase chegou ao segundo turno, foi deslocado para compor a chapa ao governo.

Na cabeça da chapa aparece Juliana Brizola, herdeira política do ex-governador Leonel de Moura Brizola. Ex-deputada estadual, a neta de Brizola ainda contará na composição com Manuela D’Ávila. Ou seja: o petismo abriu mão de protagonismo no Piratini para tentar assegurar musculatura em Brasília.

Paraná repete a fórmula

O movimento se repete no Paraná. A candidatura ao governo estadual ficará com Requião Filho, do PDT, herdeiro político do ex-governador e ex-senador Roberto Requião, que governou o estado em três oportunidades.

Coadjuvante

O PT novamente aceita posição coadjuvante na majoritária, dividindo espaços com outros partidos de esquerda. E, mais uma vez, a prioridade verdadeira está no Senado. A escolhida é Gleisi Hoffmann, ex-senadora, ex-presidente nacional do PT e que até abril ocupou o Ministério da Articulação Política.

A fórceps

Na eleição passada, percebendo a dificuldade de reeleição numa disputa de vaga única, preferiu concorrer à Câmara Federal. Agora, porém, sua candidatura ao Senado foi imposta pela estratégia nacional do partido. A orientação é clara: abrir mão dos governos estaduais para concentrar energia na Câmara Alta.

SC na mesma rota

Em Santa Catarina, o desenho político é rigorosamente semelhante. Décio Lima foi candidato em chapa pura em 2018, sem coligações. Em 2022, recebeu o apoio integral das forças de esquerda e conseguiu chegar ao segundo turno. Mas sofreu uma derrota esmagadora para o atual governador.

Esquerda fake

Agora, diante da dificuldade estrutural da esquerda catarinense em disputar o governo estadual, o campo lulista buscou uma alternativa fora do PT. Entrou em cena Gelson Merisio. Historicamente vinculado à centro-direita catarinense, Merisio aproximou-se do projeto petista nos últimos anos, especialmente em razão de sua ligação profissional com o grupo JBS e da proximidade extrema da empresa com o governo Lula.

Para a ribalta

Na eleição passada, ele já havia coordenado a campanha majoritária da esquerda em Santa Catarina, na composição que tinha Dário Berger ao Senado e Décio Lima ao governo. Na época, chegou a ser convidado para vice, mas recusou.

Novo cenário

Agora, a situação mudou completamente. Gelson Merisio será o cabeça de chapa ao governo pelo PSB, enquanto Décio Lima disputará o Senado. A composição ainda inclui Afrânio Boppré, do PSOL, e Ângela Albino, inicialmente vinculada ao PCdoB, mas atualmente no PDT, como candidata a vice-governadora.

PDT renasce

O arranjo regional revela um dado político importante. O PDT comandará as cabeças de chapa no Rio Grande do Sul e no Paraná, além de ocupar a vice em Santa Catarina. Foi a fórmula encontrada para manter o brizolismo integrado ao lulopetismo no Sul do país.

Por fora

Mas há um aspecto decisivo nessa engenharia eleitoral: olhando o quadro natural das disputas, nenhum dos três nomes petistas ao Senado aparece hoje como favorito absoluto. Nem Paulo Pimenta. Nem Gleisi Hoffmann. Nem Décio Lima.

Segundo voto

A possibilidade de êxito passa justamente pela pulverização das candidaturas conservadoras e, principalmente, pela tradição histórica do chamado “segundo voto” nas eleições ao Senado — fenômeno que frequentemente infla candidaturas ao longo da campanha e produz surpresas na reta final.

Estratégia nacional

O cenário deixa explícita a estratégia desenhada pelo PT nacional e pelo Palácio do Planalto. Lula retirou o partido das disputas estaduais nos três estados do Sul para concentrar forças numa batalha considerada mais estratégica: o Senado. E não escolheu qualquer quadro para a missão.

Serviço no regime

Paulo Pimenta foi ministro da Comunicação Social e líder do PT na Câmara. Gleisi Hoffmann de trajetória conhecida. Já Décio Lima passou os últimos três anos no comando do Sebrae Nacional, estrutura bilionária, com orçamento próximo de R$ 6 bilhões — superior, inclusive, ao de boa parte dos ministérios da Esplanada.

Proximidade e cumplicidade

Além disso, Décio mantém relação pessoal estreita com Lula da Silva, de quem é compadre.

Agora, resta observar se a estratégia produzirá resultado eleitoral concreto ou se a esquerda apenas oficializou, antecipadamente, sua incapacidade de competir pelos governos estaduais no Sul do Brasil.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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