Empresário bem-sucedido e até então um ilustre desconhecido da política nacional, Romeu Zema surgiu como um fenômeno eleitoral em 2018. Filiado ao Novo, surpreendeu o establishment político mineiro, chegou ao segundo turno e venceu com folga a disputa pelo comando do segundo maior estado brasileiro.
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Fez um governo considerado eficiente, consolidou imagem de gestor, reelegeu-se com tranquilidade e, naturalmente, passou a trabalhar a hipótese de um voo mais alto: a Presidência da República.
A partir daí, aproximou-se de Jair Bolsonaro. Apoiou o então presidente na campanha de reeleição de 2022 e manteve convivência política harmoniosa com o bolsonarismo, com o PL e com o próprio ex-presidente.
Mesmo após a condenação e a prisão de Bolsonaro — consideradas injustas por seus apoiadores e motivadas por perseguição política —, Zema permaneceu fiel ao campo conservador. Mais do que isso: estreitou relações com Flávio Bolsonaro, justamente no momento em que o senador começou a ser tratado internamente como herdeiro político do pai e possível candidato presidencial.
Vice
O ambiente entre ambos era tão positivo que, nos bastidores de Brasília e do eixo Sul-Sudeste, já se especulava abertamente uma composição entre Flávio e Zema. O mineiro aparecia como nome natural para vice-presidente. Não por acaso.
Minas decide
A história eleitoral brasileira demonstra, de maneira cristalina, que vencer Minas Gerais é praticamente condição obrigatória para conquistar o Palácio do Planalto. Desde 1989, nenhum presidente eleito ignorou essa equação política.
Só que o cenário mudou abruptamente.
A implosão
A revelação dos contatos entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro produziu uma ruptura política imediata.
Até então aliado fiel, Romeu Zema deu um verdadeiro cavalo de pau estratégico. Passou a atacar publicamente Flávio Bolsonaro. Primeiro uma manifestação. Depois outra. E, no último fim de semana, uma terceira investida.
Equipe
Detalhe importante: Zema não foi influenciado por parlamentares mineiros, nem por dirigentes nacionais do Novo, tampouco por deputados ou senadores correligionários.
A decisão foi pessoal e estimulada diretamente por sua equipe de comunicação e marketing político.
Apostando as fichas
O diagnóstico feito pelo entorno do governador é simples: o desgaste provocado pelas revelações envolvendo Flávio Bolsonaro abriu espaço para que Zema tentasse ocupar sozinho o campo conservador liberal, apresentando-se como alternativa viável para enfrentar Lula da Silva em 2026 e chegar ao segundo turno.
Partido em chamas
O problema é que a movimentação de Zema começou a produzir efeitos colaterais pesados dentro do próprio Novo.
A alta cúpula nacional da legenda realizou reuniões com o governador e pediu moderação. O argumento interno é evidente: o adversário comum da direita não está dentro da trincheira conservadora, mas na esquerda, representada por Lula e pelo PT.
Teimosia
Zema, entretanto, não demonstra disposição para recuar.
E a crise já desembarcou em Santa Catarina. Na última visita ao estado, o governador mineiro enfrentou um constrangimento político explícito. Foi praticamente ignorado por Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville e hoje pré-candidato a vice de Jorginho Mello, ambos alinhados politicamente ao projeto de Flávio Bolsonaro.
Regional
Mas a insatisfação não se limita aos catarinenses.
No Paraná, Deltan Dallagnol — ex-procurador federal, candidato ao Senado pelo Novo e aliado do PL — também integra o grupo que vê com preocupação os movimentos de Zema.
No Rio Grande do Sul, Marcel van Hattem, deputado federal e igualmente candidato ao Senado, mantém relação política estreita com os liberais e acompanha o desconforto crescente.
Clima ruim
O que está acontecendo é algo muito mais profundo do que uma divergência eleitoral.
Romeu Zema começou a desorganizar as composições estaduais do Novo, especialmente nos três estados do Sul, onde a legenda construiu alianças estratégicas com o PL e com o bolsonarismo.
O ápice da crise ocorreu nesta segunda-feira.
Fora dessa
O diretório estadual do Novo em Santa Catarina divulgou nota praticamente desconvidando Romeu Zema para o encontro estadual marcado para 4 de julho.
Mais do que isso: o partido deixou claro que, se o governador não se enquadrar numa dinâmica de convivência política minimamente harmônica com o PL, o Novo catarinense não o respaldará na convenção homologatória nacional e tampouco trabalhará por sua candidatura presidencial.
Troco vem
Traduzindo do politiquês: o Novo de Santa Catarina descolou de Romeu Zema.
E fez isso por uma razão objetiva. Hoje, para o partido em Santa Catarina, a parceria com Jorginho Mello é considerada mais estratégica, mais prioritária e mais importante do que o próprio projeto presidencial do governador mineiro.
No entendimento de lideranças catarinenses, Zema resolveu entrar definitivamente no modo “biruta de aeroporto”.
O grande movimento político do fim de semana em Santa Catarina ocorreu em Jaraguá do Sul, com a formalização da pré-candidatura de Antídio Lunelli ao Senado na chapa liderada por João Rodrigues. O evento reuniu justamente o quarteto que hoje tenta se consolidar como alternativa de centro-direita ao projeto de reeleição do governador Jorginho Mello: João Rodrigues, Antídio Lunelli, Esperidião Amin e Carlos Chiodini.
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É um agrupamento político de peso. Não há dúvida. Todos possuem densidade partidária, experiência administrativa ou trajetória institucional relevante. Mas também é uma composição que carrega desafios evidentes diante de um projeto governista já consolidado política e eleitoralmente.
Curiosamente, os nomes hoje alinhados com João Rodrigues já estiveram no radar de Jorginho Mello. Durante praticamente os dois primeiros anos e meio de mandato, o desenho era outro: Carol De Toni ao Senado, Esperidião Amin na segunda vaga e Carlos Chiodini representando o MDB como candidato a vice-governador.
Goela abaixo
Foi então que entrou em cena o ex-presidente Jair Bolsonaro, que impôs o nome do filho, Carlos Bolsonaro, para disputar o Senado por Santa Catarina.
Outro movimento que mudou totalmente o tabuleiro surgiu diante das dificuldades de João Rodrigues em consolidar sua pré-candidatura ao governo. O próprio PSD estimulou o nome do então prefeito reeleito de Joinville, Adriano Silva, como alternativa ao Executivo estadual. Se ele aceitasse, Rodrigues concorreria à Câmara Alta.
Agilidade
Percebendo a movimentação, Jorginho Mello entrou rapidamente no circuito. Convenceu Adriano Silva a ser seu vice. O ex-prefeito de Joinville aceitou, discursando em favor da união da direita no estado.
Reviravolta
O jogo havia mudado completamente. Nesse processo, o governador acabou perdendo Esperidião Amin e também Carlos Chiodini.
Mais adiante, já dentro dessa nova configuração, o governador buscou Antídio Lunelli formalmente para ser primeiro suplente de Carol De Toni ao Senado. O convite sensibilizou o ex-prefeito de Jaraguá do Sul, que chegou a sinalizar apoio ao projeto de reeleição do governador.
Direção oposta
Mas os apelos internos do MDB prevaleceram. Antídio acabou aceitando disputar efetivamente o Senado na aliança liderada pelo PSD.
A chapa de João Rodrigues é consistente. Politicamente, partidariamente e institucionalmente. Ainda que apresente desequilíbrios regionais.
Geografia da urna
João é do Oeste. Amin tem presença estadual consolidada há décadas. Já Antídio Lunelli e Carlos Chiodini possuem raízes políticas em Jaraguá do Sul — embora Chiodini hoje esteja politicamente vinculado também a Itajaí. Foi candidato a prefeito em 2024, ficando na terceira posição.
Peso
Mesmo assim, trata-se de um grupo com forte representatividade partidária.
Agora, eleitoralmente, o cenário exige ponderações mais cuidadosas. João Rodrigues foi deputado estadual, federal e quatro vezes prefeito de Chapecó. Tem trajetória robusta, mas jamais disputou uma eleição majoritária estadual. É uma aposta eleitoral em escala catarinense.
Consolidado
Esperidião Amin dispensa apresentações. Continua sendo o político mais longevo e experiente em atividade em Santa Catarina.
Vida privada
Já Antídio Lunelli carrega uma trajetória pessoal e empresarial extremamente respeitável. Costuma lembrar que veio da roça, foi empregado, tornou-se empresário vitorioso, elegeu-se duas vezes prefeito de Jaraguá do Sul e conquistou a terceira maior votação para deputado estadual em Santa Catarina, sendo o mais votado do MDB.
Tentativa
Lunelli tentou disputar o governo em 2022, acabou barrado internamente e agora retorna ao centro do jogo político como candidato ao Senado.
Mas também é uma aposta majoritária.
Incógnita
Carlos Chiodini, por sua vez, possui trajetória parlamentar consolidada. Foi deputado estadual, federal e presidente estadual do MDB. Contudo, sua tentativa de conquistar a Prefeitura de Itajaí em 2024 terminou frustrada.
Ou seja: há densidade política, mas ainda existem interrogações eleitorais relevantes.
Timidez
Do outro lado, a esquerda apresenta um grupo menos competitivo sob o aspecto político-partidário. Gelson Merisio está há oito anos afastado do protagonismo eleitoral. Angela Albino é reconhecidamente qualificada, mas sem grande densidade eleitoral.
Restrições
Afrânio Boppré possui trajetória respeitável em Florianópolis, mas restrita regionalmente. E Décio Lima, embora tenha disputado o governo duas vezes e ido ao segundo turno na eleição passada, jamais conseguiu consolidar musculatura majoritária suficiente para vencer uma eleição estadual.
Fla x Flu
Ainda assim, há um elemento decisivo que pode alterar completamente a lógica catarinense: a verticalização nacional.
Se a eleição presidencial se transformar novamente em um confronto direto entre PT e PL, como tudo indica, a esquerda poderá ganhar competitividade automática em Santa Catarina.
Nomenclatura
Nesse cenário, Gelson Merisio, embora abrigado no PSB, passa a ter uma referência nacional clara com Lula da Silva, enquanto João Rodrigues ainda busca consolidar qual será exatamente sua conexão nacional dentro do campo da direita.
É justamente aí que reside um dos principais desafios da oposição catarinense ao projeto de reeleição de Jorginho Mello.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.