Desde o restabelecimento das eleições diretas para governador em 1982, vigorou em Santa Catarina uma regra não escrita, mas respeitada: a composição das chapas majoritárias deveria observar a representação regional. O estado tem seis grandes macrorregiões, Sul, Norte, Oeste, Vale do Itajaí, Grande Florianópolis e Serra, cada uma com seu peso eleitoral próprio. O Vale do Itajaí, o maior, concentra 23% dos votos. A Serra, a menor, 7%. E assim, por décadas, montar uma chapa significava equilibrar esses territórios, garantir que cada grande região visse um dos seus na disputa.
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Esse critério começou a ser relativizado com o tempo. Em 2010, Luiz Henrique da Silveira, do Norte, de Joinville, deixava o segundo mandato como governador e passava o bastão a Raimundo Colombo, da Serra. O vice Eduardo Moreira era do Sul. Norte, Serra, Sul: o bom senso recomendaria um nome do Vale ou do Oeste, mas o acordo político exigia o PSDB na chapa. E o nome de maior envergadura era Paulo Bauer, de Jaraguá do Sul, também do Norte. Dois nomes da mesma região numa chapa. O critério cedeu à conveniência. E Luiz Henrique carregou Bauer e o elegeu senador. O sinal estava dado: o componente regional já não era mais intocável.
A onda que mudou tudo
Com a chegada da onda bolsonarista em 2018, repetida e ampliada em 2022, o que prevalece nas chapas majoritárias não é mais a geografia. É a ideologia. O contexto da polarização, Lula contra Bolsonaro, PT contra PL, esquerda contra direita, passou a ditar as regras da composição. O ingrediente regional virou detalhe. O ingrediente ideológico virou o único que importa.
Norte dominando no campo conservador
Olhando as chapas de 2026, o Norte do Estado aparece com força no campo conservador. Jorginho Melo tem Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville, como vice no projeto de reeleição, e conta com Marilise Boehm, também de Joinville, como vice-governadora que poderá responder pelo estado na maior parte dos 50 dias de campanha. João Rodrigues, do Oeste, de Chapecó, tem Carlos Chiodini(transferiu domicílio eleitoral para Itajaí, mas ainda é identificado como representante de Jaraguá do Sul) como vice, além de Antídio Lunelli, também de Jaraguá, completando a dobradinha ao Senado com Esperidião Amin, nome estadualizado com origem na Grande Florianópolis. Dois expoentes do Norte.
Esquerda sem o Norte
Gelson Merísio, por sua vez, não tem ninguém do Norte na sua chapa. Ele é do Oeste, embora já viva há anos na Capital. Décio Lima nasceu em Itajaí e foi prefeito de Blumenau, representando o Vale do Itajaí. Os outros dois nomes são Ângela Albino, vice de Merísio, de São José, e Afrânio Bopré, companheiro de Décio ao Senado, de Florianópolis. Dois aqui da região, um do Vale, um do Oeste. Norte, zero.
E não faz diferença
O detalhe revelador é que essa ausência do Norte na chapa da esquerda não muda nada. Não vai custar votos. Não vai alterar estratégias. Não vai gerar pressão interna. Porque o eleitor catarinense de 2026 não vota pensando em região. Vota pensando em campo. Ou está com a direita, ou está com a esquerda. A macrorregião virou dado estatístico, não fator decisivo.
Nova realidade, nova política
Essa é a grande reflexão que fica. Santa Catarina enterrou o critério regional na composição das suas chapas majoritárias. O que define quem entra numa chapa hoje não é de onde vem, mas o que representa. Não é o mapa, é a bandeira. E num estado que vota com crescente convicção ideológica, essa mudança não é conjuntural. É estrutural.
Desde o início de 2026, o catarinense Pedro Uczai ocupa a liderança do PT na Câmara dos Deputados. Terça-feira, ele resolveu aprontar uma, dando uma declaração que gerou profundo mal-estar no Palácio do Planalto. Bravateiro por natureza, declarou guerra ao presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre, abrindo uma nova crise entre os dois poderes.
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Em alto e bom som, Uczai decretou que Alcolumbre passará a ser tratado como inimigo dos trabalhadores caso não encaminhe à CCJ a PEC que acaba com o regime de trabalho 6×1. A proposta foi aprovada na Câmara, chegou ao Senado há mais de um mês e até agora Alcolumbre não moveu um milímetro. Uczai perdeu a paciência. E ao perde-lá, criou um problema muito maior do que supunha estar resolvendo.
Alcolumbre não engoliu
A resposta veio em nota oficial e sem meias palavras. Alcolumbre deixou claro que não se submete a ultimatos nem a pressões político-eleitorais, afirmando que a definição da pauta e da tramitação das matérias é prerrogativa constitucional da presidência do Senado. Recado dado, recado entendido.
Queixas em série
Não satisfeito em responder publicamente, Alcolumbre foi além. Procurou a nova líder do governo no Senado, Teresa Leitão, para se queixar de Uczai. Reclamou também ao ministro das Relações Institucionais, José Guimarães. O senador cearense Camilo Santana(novo líder do PT) e o próprio Guimarães tentaram intermediar uma conversa entre Alcolumbre e Lula. Alcolumbre parece aberto ao diálogo. Lula tem sido reticente.
6×1 não passa antes do recesso
Alcolumbre já deixou claro que a PEC do 6×1 não será votada antes do recesso parlamentar. Pode acontecer antes das eleições, mas só lá por agosto ou setembro. E com um detalhe importante: ele quer alterações na proposta aprovada pela Câmara. Se o Senado modificar o texto, a matéria volta à Câmara para nova votação. O caminho ficou mais longo, mais tortuoso e mais incerto.
Alcolumbre cria dificuldades
Lula já havia percebido a equação depois da derrota de Jorge Messias para o Supremo, há um mês e meio. Alcolumbre cria dificuldades para vender facilidades. E o Planalto tem outros interesses além do 6×1 tramitando no Senado, como a PEC da Segurança Pública e o projeto que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Cada bravata de Uczai compromete todas essas negociações ao mesmo tempo.
PT catarinense no epicentro
O que chama atenção é que um petista catarinense colocou o governo Lula numa saia justa de proporções nacionais. Se já não bastassem as dificuldades que o próprio presidente enfrenta com Alcolumbre, um líder do PT na Câmara vem agravá-las com declarações de palanque. Uczai muito provavelmente será chamado ao Palácio do Planalto para explicações. O PT catarinense, que raramente aparece no epicentro de questões estratégicas do governo federal, desta vez apareceu. Da pior forma possível.
Bravata tem preço
No final das contas, Uczai quis aparecer, quis mostrar força, quis se posicionar como defensor dos trabalhadores. Conseguiu apenas uma coisa: tornar ainda mais difícil a aprovação da pauta que dizia querer defender. Bravata tem preço em política. E quem vai pagar a conta é o próprio governo que ele deveria estar protegendo.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.