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Encruzilhada Pessedista

Por Cláudio Prisco Paraíso
31/03/2026 - 08h14

O noticiário político do fim de semana trouxe movimentos que, à primeira vista, dizem respeito à sucessão presidencial, mas que, numa leitura mais apurada, têm potencial direto de impacto no tabuleiro catarinense. E não se trata de um detalhe periférico — é uma possível inflexão estratégica no próprio DNA do PSD, partido que vem tentando se estabelecer como terceira via, mas que já emitiu sinais de que estaria fazendo o jogo do PT.

A saída de Ratinho Júnior da corrida presidencial desorganizou completamente o jogo interno do PSD. A decisão, oficialmente ancorada em razões familiares — com peso decisivo da posição do pai, o apresentador e comunicador Ratinho —, também dialoga com o ambiente político no Paraná.

A filiação de Sergio Moro, ex-juiz da Lava Jato, ao Partido Liberal, com apoio de Flávio Bolsonaro, adicionou um componente de instabilidade à sucessão estadual. Ainda assim, prevaleceu o fator doméstico e uma boa dose de pragmatismo por parte da família Massa.



Disputa interna

Com a saída de Ratinho, o PSD afunilou entre dois perfis absolutamente distintos:
Ronaldo Caiado — claramente posicionado à direita — e Eduardo Leite — situado no campo da centro-esquerda, tendo sido, inclusive, apoiado pelo PT na eleição gaúcha.

Kassab, que para bobo não serve, anunciou ontem que o goiano Ronaldo Caiado será o candidato presidencial dos pessedistas.



Posicionamento

E aqui reside o ponto central: não se tratava apenas de nomes, mas de linhas ideológicas incompatíveis dentro de um mesmo partido.

Eduardo Leite, ao sinalizar que pode cumprir o mandato caso seja preterido, fez um movimento calculado. Pressionou Gilberto Kassab e elevou seu poder de barganha. A mensagem era clara: ou é escolhido agora, ou o partido perde densidade nacional a partir de 2027, pois, assim como Ratinho, o gaúcho tem uma eleição muito bem encaminhada ao Senado.

Resta saber agora se, de fato, Leite concluirá o mandato.



Prazo fatal

O calendário impôs urgência. O prazo de desincompatibilização se encerra no dia 4 de abril. Essa era a data final para a definição interna no PSD.

Até porque não há mais espaço para ambiguidade. A decisão terá reflexos nos estados — e em Santa Catarina não será diferente.



Perfis opostos

Ratinho representava uma centro-direita palatável. Caiado é direita assumida. Já Eduardo Leite se posiciona como alternativa de centro-esquerda e teria liberdade discursiva para confrontar tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Flávio Bolsonaro.

Essa flexibilidade, que em nível nacional pode parecer virtude, em Santa Catarina tende a ser um problema — e grande.

Ou seja, João Rodrigues deve estar comemorando a escolha de Caiado.



Impacto SC

Explica-se: ao observar o cenário estadual, o ainda prefeito de Chapecó construiu sua pré-candidatura ao governo com um discurso claramente alinhado à centro-direita.

Se o PSD nacional optasse por Eduardo Leite, criaria uma dissonância estrutural de postura e posicionamento. Não seria apenas desconforto — seria incompatibilidade narrativa. Simples assim.



Risco

Em um cenário de aliança com o MDB e a federação União Progressista no estado, a eventual escolha de Leite poderia produzir um efeito colateral relevante: lideranças desses dois partidos, que ainda têm densidade em SC, mesmo dentro da coligação estadual, tenderiam a gravitar em torno de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.

Ou seja, poderia ocorrer uma coligação estadual com voto presidencial fragmentado — algo politicamente tóxico e, portanto, prejudicial.

O foco da observação agora será o comportamento dessas lideranças: se vão, de fato, abraçar a candidatura de Caiado.



Precedente

O histórico recente reforça o alerta. Em 2018, Gelson Merisio, então no PSD, declarou voto em Jair Bolsonaro já no primeiro turno daquela eleição.

Ainda assim, foi atropelado pela onda que levou Carlos Moisés da Silva, um ilustre desconhecido, ao governo.

Resultado: no segundo turno, Merisio fez menos votos do que no primeiro.



Efeito dominó

Se Eduardo Leite fosse confirmado como candidato do PSD, o cenário catarinense poderia caminhar para uma configuração curiosa — e reveladora: a esquerda concentrada em Merisio; o campo conservador orbitando Flávio Bolsonaro; e o PSD, partido de João Rodrigues, sem um alinhamento orgânico claro no contexto nacional, fragmentando-se no estado.



Conclusão

A decisão de Kassab não foi apenas sobre quem representará o PSD nacionalmente. Na prática, reposiciona o leme do partido mais à direita dentro de um contexto de desgaste do consórcio STF-Planalto.

Em Santa Catarina, essa decisão pode significar a diferença entre competitividade e isolamento.

A conferir os desdobramentos.

Aliança de circunstância

Por Cláudio Prisco Paraíso
28/03/2026 - 08h32

Em Florianópolis, numa quinta-feira ao meio-dia, antigos adversários dividiram a mesa, cruzaram talheres e, na sequência, apresentaram-se juntos à imprensa. A cena, por si só, carrega simbolismo: lideranças que por décadas ocuparam campos opostos agora ensaiam uma convergência que, ao menos por ora, soa mais protocolar do que propriamente orgânica.

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Estavam ali nomes de peso do PSD, como João Rodrigues, Raimundo Colombo e Júlio Garcia, ao lado de Esperidião Amin, figura central do Progressistas, todos oriundos de um mesmo espectro histórico. Mas também compunham o quadro Carlos Chiodini e Eduardo Pinho Moreira, do MDB — adversários tradicionais de Amin — além de Fábio Schiochet, ainda em afirmação no União Brasil, e Gean Loureiro, de trajetória partidária múltipla e igualmente marcada por antagonismos com vários dos presentes.

O que se anunciou foi uma parceria. O que se viu, na prática, foi um arranjo ainda em construção — e cercado de incertezas.

Convenções

Não há como tratar essa aliança como consolidada. O calendário eleitoral impõe um filtro decisivo: as convenções partidárias, entre a segunda quinzena de julho e 5 de agosto. Até lá, qualquer composição é, no máximo, uma intenção.

A pergunta central permanece: haverá musculatura política suficiente para homologar, dentro de cada partido, uma coligação liderada por João Rodrigues? Hoje, não há garantia.

Base dividida

O principal obstáculo não está no discurso das cúpulas, mas na realidade das bases.

No Progressistas, a sinalização foi inequívoca. Em reunião com o governador Jorginho Mello, na noite anterior, compareceram dois dos três deputados estaduais — José Milton Scheffer e Pepê Collaço — além de 41 dos 52 prefeitos do partido. Soma-se a isso o peso de lideranças como Silvio Dreveck, Leodegar Tiscoski e Aldo Rosa. O recado é claro: a maioria está alinhada ao projeto governista.

No MDB, o quadro é semelhante. Metade da bancada estadual — Antídio Lunelli, Jerry Comper e Fernando Krelling — já orbita em torno de Jorginho Mello. Lunelli, inclusive, foi convidado para a primeira suplência ao Senado. Os suplentes Emerson Stein e Cleiton Fossá também caminham nessa direção.

Do outro lado, Mauro De Nadal se posiciona com João Rodrigues. Volnei Weber se afasta da vida pública. Tiago Zilli dá sinais de aproximação com o governo. Na bancada federal, a fragmentação se repete: Valdir Cobalchini, Ivete Appel da Silveira, Carlos Chiodini e Rafael Pezenti seguem trajetórias distintas, sem alinhamento uniforme.

Federação

Há ainda um elemento novo e decisivo: a criação da Federação União Progressista, formalizada pelo TSE.

Na prática, deixam de existir PP e União Brasil como estruturas isoladas. A convenção passa a ser conjunta. Isso altera profundamente o jogo interno.

Mesmo que Amin e Schiochet consigam maioria na convenção federativa, o resultado não significa controle absoluto. Levariam CNPJ e tempo de televisão, é verdade, mas não necessariamente a totalidade da estrutura política. Parte relevante da federação seguirá com Jorginho Mello.

Protocolo

O encontro desta semana, portanto, deve ser interpretado com cautela. Trata-se, essencialmente, de um protocolo de intenções.

Há disposição para caminhar juntos, percorrer o Estado, construir narrativa e tentar viabilizar uma alternativa. Mas falta densidade política, capilaridade nas bases e, sobretudo, segurança quanto à fidelidade interna das siglas envolvidas.

Realidade

A rigor, o que se tem hoje é uma aliança de cúpula diante de bases divididas.

Até as convenções, haverá movimento, articulação e tentativa de consolidação. Mas sem qualquer garantia de desfecho favorável.

No fim das contas, a política — como sempre — será definida não pelas fotos de ocasião, mas pelos votos internos de cada partido.

E isso, neste momento, está longe de ser previsível.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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