A segunda passagem de Romeu Zema por Santa Catarina em menos de 30 dias deixou marcas profundas dentro do Novo catarinense. E, principalmente, escancarou aquilo que até então era tratado apenas nos bastidores: Adriano Silva e Zema definitivamente não estão na mesma trincheira política.
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O ambiente interno do partido ficou estremecido depois que o ex-governador mineiro resolveu atacar publicamente Flávio Bolsonaro por conta do áudio vazado envolvendo o liberal e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Zema classificou o episódio como “um tapa na cara dos brasileiros” e disse tratar-se de algo “imperdoável”.
A declaração teve repercussão nacional. Mas em Santa Catarina o impacto foi ainda mais delicado.
Constrangimento
Aqui, o principal nome do Novo abriu mão do comando da maior prefeitura catarinense — Joinville — para integrar o projeto de reeleição do governador Jorginho Mello, aliado direto de Flávio Bolsonaro.
Ou seja: Zema atingiu frontalmente o presidenciável do grupo político ao qual Adriano Silva está prestes a se integrar oficialmente.
Tiro no pé
O desconforto foi imediato. E tão logo desembarcou em Santa Catarina para o novo roteiro político, Zema precisou sentar à mesa com Adriano, os deputados Gilson Marques e Matheus Cadorin, além de Eduardo Ribeiro, catarinense que preside a agremiação no plano nacional.
Ali houve uma tentativa evidente de pacificação. O próprio Zema sinalizou recuo e tratou de colocar panos quentes na crise que ajudou a criar.
Distância
Mas Adriano Silva agiu cirurgicamente. Nenhuma foto dos dois juntos foi divulgada. Nem na reunião reservada. Nem nas agendas públicas.
Mais do que isso: Adriano simplesmente não acompanhou Zema nos compromissos realizados em Palhoça e São José, tampouco esteve presente no painel do Conexa 26, promovido pela Associação Empresarial de Florianópolis, mediado pelo presidente da entidade, Célio Bernardi.
Incontrolável
E foi justamente ali que Zema voltou a acionar a metralhadora giratória. No calor do debate, reafirmou que não se arrependia das críticas dirigidas a Flávio Bolsonaro. Ou seja: depois de tentar apagar o incêndio nos bastidores, reacendeu tudo em praça pública. Acrescentando, ainda, mais gasolina.
Prudência
A ausência de Adriano no evento não foi casual. Foi política. O ex-prefeito de Joinville buscou transmitir um sinal inequívoco de prudência e distanciamento estratégico. Até porque o Novo catarinense já havia divulgado nota crítica às declarações de Zema. E as lideranças liberais ligadas a Jorginho Mello passaram a cobrar posicionamentos internos mais firmes.
Pisando em ovos
Adriano Silva sabe que, daqui para frente, precisará pilotar essa relação com extremo cuidado. Porque hoje Zema deixou de ser apenas um presidenciável do Novo. Transformou-se em potencial fator de desgaste para a futura chapa majoritária catarinense.
Incômodo
Politicamente, o problema é menos interno do que externo. Em princípio, ninguém trabalha com rompimento da aliança entre Novo e PL em Santa Catarina. Muito menos com a saída de Adriano Silva da composição governista. Mas a exploração política desse ruído tornou-se inevitável.
Sem noção
E o curioso é que os primeiros a explorar o episódio foram justamente aliados liberais do próprio campo governista. Agora, evidentemente, os adversários também passarão a fazê-lo.
Agora, o que estes e estas liberais sem noção não devem estar levando em consideração é que Adriano Silva era cotado para cabeça de chapa numa composição com o PSD. Com potencial de crescimento, diferentemente de João Rodrigues, que tende a derreter. Como diria a sabedoria popular, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém.
Limiar
Principalmente porque a situação criou uma imagem desconfortável: o principal nome nacional do Novo atacando justamente o presidenciável do grupo político ao qual Adriano pretende se vincular. É bastante perceptível que há liberais, com e sem mandato, desfilando em salto 18, o que não é aconselhável em momentos como o que estamos vivendo.
Isolamento
O cenário ainda pode se agravar. Caso Romeu Zema leve sua candidatura presidencial até o fim e Flávio Bolsonaro também confirme presença na disputa nacional, o ex-governador mineiro encontrará enormes dificuldades para voltar a Santa Catarina com protagonismo político. Porque Adriano Silva dificilmente lhe oferecerá palanque no contexto atual.
Tchau, tchau
E isso já ficou bastante claro nesta segunda passagem pelo estado. Na prática, Adriano até pode administrar institucionalmente a convivência com Zema dentro do Novo. O que ele não fará é vinculá-lo politicamente à futura coligação liderada por Jorginho Mello.
As imagens — ou melhor, a ausência delas — falaram por si. A conferir os desdobramentos.
O MDB catarinense vive um daqueles momentos típicos de sua longa e complexa trajetória política: oficialmente dividido, mas organicamente em movimento. Enquanto parte expressiva dos mandatários segue alinhada ao projeto de reeleição do governador Jorginho Mello, o presidente estadual do partido, Carlos Chiodini, opera silenciosamente nas bases para reconstruir a unidade interna em torno de um projeto alternativo ao Palácio Barriga Verde.
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E faz isso no velho estilo MDB: no corpo a corpo, município por município, dirigente por dirigente, delegado por delegado. Ou seja, uma movimentação formiguinha.
Convenção
Chiodini sabe exatamente onde pisa. O comando partidário lhe garante relação direta com os presidentes municipais do MDB, que, em última instância, formam o núcleo decisivo da convenção estadual prevista entre 20 de julho e 5 de agosto.
Quem tem voto
É evidente que prefeitos, vices, vereadores e parlamentares possuem peso político relevante. Mas o MDB continua sendo um partido profundamente municipalizado. E nisso reside a força de Chiodini para, muito provavelmente, levar o partido ao repeteco do desastre de 2022.
Cavando fundo
Hoje, o dirigente estadual trabalha não apenas para consolidar maioria convencional, mas também para estimular as bases a pressionarem lideranças regionais e parlamentares ainda simpáticos ao projeto de recondução de Jorginho Mello. A lógica é simples: fazer o MDB de baixo para cima emparedar lideranças.
Militância
Nenhum partido em Santa Catarina possui a capilaridade do MDB. Reafirmamos essa realidade aqui neste espaço várias vezes. Nenhuma legenda tem essa musculatura.
A sigla está organizada nos 295 municípios catarinenses e mantém o maior número de filiados do estado. Trata-se de uma estrutura construída ao longo de décadas, sustentada por tradição, relações comunitárias e presença municipal. E isso, historicamente, sempre teve peso eleitoral.
Tiro n’água
O problema é que militância também depende de perspectiva de vitória. E é justamente aí que começam as preocupações internas. O desempenho de João Rodrigues passou a preocupar parcelas importantes do MDB (no PP a ficha parece que já caiu). Depois de mais de dois anos em pré-campanha, o ex-prefeito de Chapecó ainda não conseguiu romper a barreira que consolidaria sua condição de candidato efetivamente competitivo. Jamais se aproximou de 25% das intenções de voto.
Rival regional
Mais do que isso: perdeu consistência política e eleitoral com a entrada de Gelson Merisio no jogo. Merisio ocupa espaços regionais e eleitorais semelhantes aos de João Rodrigues, especialmente no Oeste catarinense. Chapecó, Xanxerê e arredores compartilham vínculos políticos, econômicos e culturais que aproximam os dois campos. Ali há voto de identificação regional muito antes de existir voto ideológico.
Bala na agulha
E Merisio entra na disputa respaldado por uma estrutura muito mais robusta no campo financeiro, institucional e logístico, sustentada pelo alinhamento com a esquerda nacional, setores empresariais específicos e o governo federal. João Rodrigues terá apoio político relevante, evidentemente. Mas não terá nem a máquina estadual comandada por Jorginho Mello (que também pilota a nada desprezível musculatura do PL catarinense), nem a estrutura partidária nacional que estará por trás da candidatura de Merisio.
Senado
Outro ponto delicadíssimo envolve a composição ao Senado. Hoje, tudo indica que Carlos Chiodini caminhará para formar chapa com João Rodrigues ao governo. Já Esperidião Amin dá sinais claros de que pretende disputar praticamente sozinho a vaga ao Senado. E isso possui uma razão estratégica muito objetiva.
Marcando território
Caso surja um segundo nome competitivo ao Senado dentro da chapa, especialmente um nome do MDB, cresce o risco de divisão do voto conservador e de centro-direita. Mais do que isso. Existe um temor evidente de que o eleitor emedebista priorize um eventual candidato do próprio MDB em detrimento de Amin. E aí reside o problema histórico.
Não se apaga
MDB e PP carregam décadas de rivalidade política em Santa Catarina. Uma disputa estrutural, enraizada nas bases, nas lideranças regionais e na cultura eleitoral do estado. Não se desmonta isso apenas com uma fotografia de aliança. O articulista não consegue visualizar a turma emedebista de cruz na testa pedindo votos para Esperidião Amin e nem os progressistas de quatro costados atuando para eleger deputados do MDB!
Dilema
A grande incógnita passa a ser justamente esta: o MDB conseguirá transferir apoio ao governo sem necessariamente entregar voto ao Senado? Porque uma coisa é apoiar João Rodrigues. Outra, completamente diferente, é convencer o eleitor emedebista histórico a votar em Esperidião Amin. E de graça!
Contas
E essa equação ainda está longe de ser resolvida. As viagens pelo estado, os encontros regionais e o esforço de aproximação entre PP e MDB devem se intensificar nos próximos meses. Amin e Chiodini já começaram a “tricotar” politicamente juntos em diversas agendas lideradas por João Rodrigues. Mas resta saber se essa convivência de cúpula conseguirá descer às bases. Porque, em Santa Catarina, alianças partidárias nem sempre significam pacificação eleitoral.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.