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Esquerda em Modo de Espera

Por Cláudio Prisco Paraíso
09/04/2026 - 07h30

A menos de quatro meses das convenções homologatórias, o campo da esquerda em Santa Catarina segue operando em ritmo lento, quase protocolar. O silêncio que predominou nos últimos meses não foi casual: reflete uma acomodação interna que, mesmo após o fechamento da janela partidária e o prazo de desincompatibilizações, pouco se alterou — tanto no plano proporcional quanto na disputa majoritária.

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Os movimentos mais recentes indicam que, enfim, poderá haver alguma reação. Mas, até aqui, o diagnóstico permanece claro: ausência de protagonismo, baixa mobilização e um desenho político que ainda carece de densidade eleitoral.

Contraste

O cenário municipal escancara essa limitação estrutural.

Dos oito prefeitos que deixaram seus cargos para disputar as eleições — casos emblemáticos como Adriano Silva e João Rodrigues — nenhum pertence ao campo da esquerda.

Mais do que isso: nas eleições municipais de 2024, apenas o Partido dos Trabalhadores apresentou algum desempenho relevante entre as siglas desse espectro, elegendo sete prefeitos, concentrados em municípios de pequeno e médio porte. Nenhum desses gestores abriu mão do mandato para voos maiores.

O contraste é evidente.

Parlamentar

No Legislativo, o quadro é igualmente estático.

Não houve movimentações relevantes de deputados estaduais ou federais vinculados à esquerda durante a janela partidária. Nenhuma oxigenação. Permanecem os mesmos nomes, com os mesmos discursos e posicionamentos, sem renovação perceptível.

Arranjo tardio

A formação da chapa majoritária começa, finalmente, a ganhar contornos — ainda que de forma tardia e tímida.

O PSOL decidiu integrar a aliança estadual após tensões no plano nacional, onde o partido rejeitou ampliar a federação já composta por PT, PV e PCdoB.

Em Santa Catarina, prevaleceu o pragmatismo: a sigla aderiu à composição local.

Chapa definida

O desenho que se projeta — ainda sem formalização oficial — aponta para a seguinte configuração:

Governo: Gelson Merisio (PSB)
Vice: Ângela Albino (PDT)
Senado: Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL)

Merisio, inclusive, já teria formalizado sua filiação ao PSB em Brasília, com aval do vice-presidente Geraldo Alckmin — embora, até o momento, sem manifestação pública consistente.

Fantasma

A ausência de protagonismo é o ponto mais sensível.

Merisio, virtual cabeça de chapa, praticamente não circula politicamente. Falta agenda pública consistente, articulação visível e presença em debate.

A percepção dominante é a de uma candidatura ainda pouco materializada no campo político.

Na moita

Em menor grau, o mesmo vale para Décio Lima e demais nomes da esquerda estadual.

Falta narrativa. Falta presença. Falta disputa.

Fora do jogo

Quem ficou fora da equação majoritária foi Dário Berger.

Após tentar a reeleição ao Senado em 2022, não encontrou espaço na atual composição. Ainda assim, foi politicamente acomodado com a nomeação de seu irmão, Djalma Berger, para uma diretoria na Itaipu Binacional — movimento de evidente peso político.

Foco nacional

No pano de fundo, o objetivo permanece claro: melhorar o desempenho de Lula em Santa Catarina, especialmente em relação a 2022, quando foi amplamente derrotado por Jair Bolsonaro.

A eleição estadual, nesse contexto, assume papel instrumental para o projeto nacional.

Inércia

A pergunta que se impõe é direta:

quando a esquerda catarinense vai, de fato, entrar em campanha?

O calendário é implacável. As convenções começam em 20 de julho e se encerram em 5 de agosto.

E eleição, como se sabe, não se vence apenas com arranjo — exige disposição real de disputar.

O novo quadro de poder

Por Cláudio Prisco Paraíso
08/04/2026 - 08h24

Encerrada a janela partidária — aquele período de 30 dias que permite a troca de siglas sem risco de perda de mandato — o que se desenha no cenário político nacional e, sobretudo, em Santa Catarina, é menos uma dança de cadeiras e mais uma consolidação de forças.

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E, nesse tabuleiro, o campo conservador saiu claramente mais robusto, enquanto a esquerda permaneceu praticamente estática, imune às movimentações que marcaram o período. Uma esquerda que, sob essa leitura, segue desgastada, sem capacidade de reação no curto prazo.

Plano nacional

No plano nacional, o Partido Liberal (PL) retoma protagonismo ao reassumir o comando da Câmara dos Deputados.

A legenda, que havia eleito 99 parlamentares federais e depois sofrido baixas relevantes, recompôs sua musculatura durante a janela. Entre perdas e ganhos, voltou a flertar com os três dígitos.

Pode haver divergências numéricas, mas o fato político é inequívoco: o PL retorna ao centro do poder legislativo como a maior força da Câmara.

Estagnação da esquerda

Do outro lado do espectro, o Partido dos Trabalhadores (PT) praticamente não se moveu. Manteve sua bancada na casa dos 60 deputados federais, sem ganhos expressivos.

O mesmo ocorreu com outras siglas de esquerda, como PSOL e PSB, que atravessaram a janela sem alterar de forma relevante sua representação. Apenas o PDT que sofreu severas perdas.

O cenário é claro: não houve crescimento, tampouco reorganização. A esquerda, neste momento, assiste ao jogo — não o conduz.

Santa Catarina: retrato cristalino

Em Santa Catarina, o quadro é ainda mais evidente.

O PT manteve seus dois deputados federais e quatro estaduais. PDT, PSB e PSOL também permaneceram inalterados, com representações mínimas.

Nenhuma expansão, nenhuma reorganização relevante.

Força de Jorginho

Se há um vencedor inequívoco no estado, ele atende pelo nome de Jorginho Mello.

Governador e presidente estadual do PL, ele emerge da janela não apenas fortalecido, mas com uma base política ampliada e mais coesa.

Bancada ampliada

O PL saiu de 11 deputados estaduais eleitos para 14 ao fim da janela — um crescimento significativo dentro de um Parlamento de 40 cadeiras.

Mais do que números, isso representa capacidade de articulação e controle de agenda.

Aliados estratégicos

O entorno do governador também cresceu.

O Republicanos passou de um para dois deputados estaduais e ganha ainda mais relevância sob a presidência de Carmen Zanotto.

O Novo manteve posição e o Podemos agregou mais um parlamentar ao bloco governista.

Base consolidada

A conta é objetiva:

PL: 14 deputados
Republicanos: 2
Podemos: 1
Novo: 1

Total: 18 parlamentares.

Somando dissidências alinhadas — três do MDB e dois do PP — chega-se a 23 deputados.

Ou seja: maioria absoluta na Assembleia Legislativa.

Em ano eleitoral, isso significa controle político e legislativo — um ativo decisivo para qualquer projeto de reeleição.

Brasília

Na bancada federal catarinense, a movimentação foi mais discreta.

Ismael dos Santos migrou do PSD para o PL, repetindo o movimento anterior de Ricardo Guidi e zerando a representação federal pessedista.

Com isso, o PL passa de seis para sete deputados federais do estado.

Campo governista ampliado

Somando PL, Republicanos e Novo, o governador conta com 10 dos 16 deputados federais catarinenses.

Com o apoio já sinalizado de Valdir Cobalchini (MDB), o número sobe para 11 parlamentares alinhados ao governo.

Movimentos complementares

O Republicanos também se fortalece em Brasília:

Jorge Goetten já havia migrado para a sigla e agora
Geovania de Sá se incorpora após deixar a federação PSDB-Cidadania.

Movimentos pontuais, mas que reforçam o mesmo eixo: expansão da base governista.

Senado

No Senado, o cenário também revela tensões.

Esperidião Amin tenta viabilizar candidatura ao lado de João Rodrigues, mas enfrenta resistência interna no próprio PP.

Enquanto isso, Ivete Appel da Silveira e Jorge Seif seguem alinhados ao governador.

Conforto político

O balanço final é claro:

Jorginho Mello reúne apoio direto ou indireto de 13 dos 19 representantes catarinenses em Brasília, além de maioria confortável na Assembleia Legislativa.

Conclusão

Trata-se de uma posição politicamente privilegiada — e rara.

Em ano decisivo, com projeto claro de reeleição, o governador não apenas ampliou sua base: estruturou um campo de poder consistente, disciplinado e, até aqui, sem contraponto à altura.
A janela fechou. E deixou evidente quem, de fato, saiu mais forte dela.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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