A movimentação do PSD nacional ganhou novos contornos nos últimos dias e tem, mais uma vez, a digital de Jorge Bornhausen. O ex-senador catarinense, que também governou o Estado, principal fiador da ascensão política de Gilberto Kassab desde os anos 1990, passou a atuar nos bastidores para evitar que o partido perca relevância na construção do cenário presidencial de 2026.
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A reação veio após uma declaração que causou desconforto na cúpula pessedista. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, admitiu publicamente a possibilidade de integrar uma chapa presidencial como vice do ex-governador mineiro Romeu Zema, do Novo.
A sinalização imediatamente acendeu o alerta no PSD. Afinal, caso Caiado abrisse mão da cabeça de chapa, o partido correria o risco de reduzir seu peso político e seu poder de negociação em um eventual segundo turno presidencial.
Kassab de vice
Foi nesse contexto que surgiu a ideia de uma chapa puro-sangue: Ronaldo Caiado para presidente e Gilberto Kassab para vice. Uma construção atribuída à articulação de Jorge Bornhausen, em sintonia fina com o presidente nacional do PSD.
Valorizar o passe
A preocupação do PSD é objetiva. Se Caiado migrasse para uma composição liderada pelo Novo, o partido poderia perder protagonismo justamente no momento em que pretende maximizar seu peso político nacional, colocando em risco a construção nacional de Kassab.
Capilaridade
Hoje, o PSD é a legenda com o maior número de prefeituras do Brasil, superando pela primeira vez o MDB. Trata-se de um ativo eleitoral e institucional extremamente relevante. Naturalmente, os dirigentes pessedistas pretendem valorizar esse patrimônio político.
Esplanada
A avaliação é simples: em uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro contra Lula da Silva em um segundo turno, o PSD deseja ocupar espaço estratégico na futura administração federal, da mesma forma que hoje participa da base de sustentação do governo petista. O comportamento não surpreende. O PSD é herdeiro direto da tradição política do antigo PFL: um partido “vocacionado para o poder”.
Caiado e Zema
A aproximação entre Romeu Zema e Ronaldo Caiado possui uma lógica política evidente. Os dois ex-governadores tentam construir uma alternativa de centro-direita capaz de romper a polarização nacional e avançar nas pesquisas de opinião.
O objetivo seria chegar competitivamente à disputa presidencial e buscar espaço diante de Lula da Silva.
Missão impossível
Mas existe um obstáculo considerável. Antes mesmo de enfrentar Lula, a dupla precisaria ultrapassar o senador Flávio Bolsonaro no campo conservador, missão que está longe de ser simples. Independentemente do sucesso eleitoral da empreitada, a simples hipótese de Caiado assumir a vice-presidência em uma chapa liderada por Zema provocou preocupação dentro do PSD.
Portugal como palco
As articulações ocorrem paralelamente ao tradicional encontro promovido pelo ministro Gilmar Mendes em Portugal, o tal de “Gilmarpalooza”.
O evento reúne lideranças políticas, magistrados, empresários e integrantes dos principais centros de poder do país. Uma verdadeira festa dos donos do poder.
Além-mar
Como ocorre todos os anos, os bastidores fervilham de conversas, especulações e negociações que ajudam a moldar o ambiente político nacional para os meses seguintes. Tudo bem longe dos olhos da sociedade deste país. E é justamente nesse cenário que o PSD procura reposicionar suas peças.
Reflexos em SC
A discussão nacional produz efeitos diretos em Santa Catarina. Se Romeu Zema fosse candidato a presidente tendo Ronaldo Caiado como vice, surgiria uma situação extremamente delicada para o ex-prefeito de Joinville, Adriano Silva, principal liderança do Novo no estado.
Rivais locais
Isso porque Caiado integra o PSD, partido do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, pré-candidato ao governo catarinense e adversário direto de Jorginho Mello. Adriano Silva integra o projeto político de reeleição do governador. Seu nome é apontado como candidato a vice-governador na chapa de Jorginho, condição que só será sacramentada nas convenções.
Fora dessa
Nesse contexto, seria praticamente impossível para Adriano subir no palanque presidencial de Romeu Zema sem gerar constrangimentos políticos relevantes dentro da própria aliança estadual. Na prática, teria de ignorar olimpicamente a campanha do ex-governador mineiro ou alinhar-se ao projeto presidencial apoiado por Jorginho Mello, que dará palanque a Flávio Bolsonaro.
Futuro partidário
Essa circunstância alimenta outra especulação. Caso Jorginho Mello seja reeleito e Adriano Silva se transforme efetivamente em vice-governador, não está descartada, no futuro, uma eventual mudança partidária, com o joinvilense deixando o Novo. Adriano Silva poderia buscar abrigo em uma legenda integrada ao atual arco de sustentação do governador.
Naturalidade
Republicanos e Podemos aparecem como alternativas naturais. Trata-se, evidentemente, apenas de uma hipótese. Não existe qualquer movimento concreto nessa direção e, neste momento, o cenário parece distante.
Correção de rota
A repercussão da declaração de Caiado foi tão significativa que o próprio governador goiano tratou de recalibrar o discurso. Após perceber a reação negativa dentro do PSD, passou a enfatizar as vantagens competitivas de sua própria legenda. Lembrou que a sigla possui tempo de televisão robusto, estrutura nacional consolidada e bancadas expressivas na Câmara dos Deputados e no Senado.
Disparidade
Caiado também destacou que o Novo não dispõe da mesma musculatura política e eleitoral. Na prática, a leitura nos bastidores é que o goiano iniciou um movimento para acomodar o desconforto gerado por sua fala sobre uma eventual vice-presidência.
Chapa própria
Por tudo isso, cresce a possibilidade de o PSD insistir em candidatura própria ao Palácio do Planalto. A alternativa de uma chapa formada por Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab ganha força justamente para preservar o protagonismo partidário e ampliar o poder de negociação da legenda no processo eleitoral. E Kassab, registre-se, não teria nada a perder compondo com o correligionário.
Vertical
Se esse desenho prosperar, João Rodrigues teria um palanque presidencial próprio em Santa Catarina, fortalecendo sua estratégia para a disputa estadual de 2026.
E tudo indica que Jorge Bornhausen, mais uma vez, segue exercendo influência decisiva muito além dos limites de Santa Catarina.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.
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