O noticiário político do fim de semana trouxe movimentos que, à primeira vista, dizem respeito à sucessão presidencial, mas que, numa leitura mais apurada, têm potencial direto de impacto no tabuleiro catarinense. E não se trata de um detalhe periférico — é uma possível inflexão estratégica no próprio DNA do PSD, partido que vem tentando se estabelecer como terceira via, mas que já emitiu sinais de que estaria fazendo o jogo do PT.
A saída de Ratinho Júnior da corrida presidencial desorganizou completamente o jogo interno do PSD. A decisão, oficialmente ancorada em razões familiares — com peso decisivo da posição do pai, o apresentador e comunicador Ratinho —, também dialoga com o ambiente político no Paraná.
A filiação de Sergio Moro, ex-juiz da Lava Jato, ao Partido Liberal, com apoio de Flávio Bolsonaro, adicionou um componente de instabilidade à sucessão estadual. Ainda assim, prevaleceu o fator doméstico e uma boa dose de pragmatismo por parte da família Massa.
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Disputa interna
Com a saída de Ratinho, o PSD afunilou entre dois perfis absolutamente distintos:
Ronaldo Caiado — claramente posicionado à direita — e Eduardo Leite — situado no campo da centro-esquerda, tendo sido, inclusive, apoiado pelo PT na eleição gaúcha.
Kassab, que para bobo não serve, anunciou ontem que o goiano Ronaldo Caiado será o candidato presidencial dos pessedistas.
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Posicionamento
E aqui reside o ponto central: não se tratava apenas de nomes, mas de linhas ideológicas incompatíveis dentro de um mesmo partido.
Eduardo Leite, ao sinalizar que pode cumprir o mandato caso seja preterido, fez um movimento calculado. Pressionou Gilberto Kassab e elevou seu poder de barganha. A mensagem era clara: ou é escolhido agora, ou o partido perde densidade nacional a partir de 2027, pois, assim como Ratinho, o gaúcho tem uma eleição muito bem encaminhada ao Senado.
Resta saber agora se, de fato, Leite concluirá o mandato.
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Prazo fatal
O calendário impôs urgência. O prazo de desincompatibilização se encerra no dia 4 de abril. Essa era a data final para a definição interna no PSD.
Até porque não há mais espaço para ambiguidade. A decisão terá reflexos nos estados — e em Santa Catarina não será diferente.
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Perfis opostos
Ratinho representava uma centro-direita palatável. Caiado é direita assumida. Já Eduardo Leite se posiciona como alternativa de centro-esquerda e teria liberdade discursiva para confrontar tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Flávio Bolsonaro.
Essa flexibilidade, que em nível nacional pode parecer virtude, em Santa Catarina tende a ser um problema — e grande.
Ou seja, João Rodrigues deve estar comemorando a escolha de Caiado.
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Impacto SC
Explica-se: ao observar o cenário estadual, o ainda prefeito de Chapecó construiu sua pré-candidatura ao governo com um discurso claramente alinhado à centro-direita.
Se o PSD nacional optasse por Eduardo Leite, criaria uma dissonância estrutural de postura e posicionamento. Não seria apenas desconforto — seria incompatibilidade narrativa. Simples assim.
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Risco
Em um cenário de aliança com o MDB e a federação União Progressista no estado, a eventual escolha de Leite poderia produzir um efeito colateral relevante: lideranças desses dois partidos, que ainda têm densidade em SC, mesmo dentro da coligação estadual, tenderiam a gravitar em torno de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.
Ou seja, poderia ocorrer uma coligação estadual com voto presidencial fragmentado — algo politicamente tóxico e, portanto, prejudicial.
O foco da observação agora será o comportamento dessas lideranças: se vão, de fato, abraçar a candidatura de Caiado.
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Precedente
O histórico recente reforça o alerta. Em 2018, Gelson Merisio, então no PSD, declarou voto em Jair Bolsonaro já no primeiro turno daquela eleição.
Ainda assim, foi atropelado pela onda que levou Carlos Moisés da Silva, um ilustre desconhecido, ao governo.
Resultado: no segundo turno, Merisio fez menos votos do que no primeiro.
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Efeito dominó
Se Eduardo Leite fosse confirmado como candidato do PSD, o cenário catarinense poderia caminhar para uma configuração curiosa — e reveladora: a esquerda concentrada em Merisio; o campo conservador orbitando Flávio Bolsonaro; e o PSD, partido de João Rodrigues, sem um alinhamento orgânico claro no contexto nacional, fragmentando-se no estado.
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Conclusão
A decisão de Kassab não foi apenas sobre quem representará o PSD nacionalmente. Na prática, reposiciona o leme do partido mais à direita dentro de um contexto de desgaste do consórcio STF-Planalto.
Em Santa Catarina, essa decisão pode significar a diferença entre competitividade e isolamento.
A conferir os desdobramentos.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.
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