Faltam três dias para as eleições de 4 de outubro. Em Santa Catarina, o passado ajuda a compreender o que pode sair das urnas no domingo. Nem toda derrota encerra uma trajetória. Algumas pavimentam a próxima vitória. Outras deixam o candidato sem mandato, sem protagonismo e sem perspectiva. É justamente essa diferença que pode separar Gelson Merísio de João Rodrigues.
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Por 1.439 votos
Desde o restabelecimento das eleições diretas para governador, em 1982, tivemos 11 disputas até 2022. Na primeira, Esperidião Amin conquistou o governo, enquanto Pedro Ivo Campos perdeu o Senado para Jorge Bornhausen por apenas 1.439 votos.
Uma derrota apertadíssima. Mas Pedro Ivo permaneceu no jogo e, quatro anos depois, elegeu-se governador. O revés não o liquidou. Deixou um patrimônio eleitoral que seria aproveitado na oportunidade seguinte.
O passaporte
Em 1986, Vilson Kleinübing perdeu o governo para Pedro Ivo, mas saiu da eleição com musculatura política. Venceu a prefeitura de Blumenau em 1988 e conquistou o governo em 1990. A prefeitura foi seu passaporte.
Paulo Afonso Vieira, derrotado por Kleinübing, seguiu caminho semelhante. Voltou em 1994 e virou o jogo sobre Angela Amin no segundo turno. Quem havia perdido quatro anos antes acabou recebendo as chaves da Casa d’Agronômica.
A fila andava
Angela perdeu o governo em 1994, mas venceu a prefeitura de Florianópolis em 1996. A conquista fortaleceu seu grupo e ajudou a preparar o retorno de Esperidião Amin ao governo, em 1998, derrotando Paulo Afonso.
A fila andava. Os derrotados se reorganizavam, encontravam outro espaço e voltavam competitivos. Havia alternância e, sobretudo, lideranças que saíam de uma derrota com condições de disputar a próxima vitória.
Dezesseis anos
Esse movimento mudou com Luiz Henrique da Silveira, em 2002. A onda de mudança que levou Lula à Presidência favoreceu o ambiente para a derrota de Amin, somada à articulação estadual de Luiz Henrique.
Em 2006, Luiz Henrique venceu Amin novamente. Depois, apoiou Raimundo Colombo, eleito em 2010 e reeleito em 2014. Quatro mandatos consecutivos de continuidade de uma aliança política, apesar das acomodações internas. Dezesseis anos no poder. A alternância havia dado lugar à permanência.
O vento Bolsonaro
A ruptura chegou em 2018, impulsionada por uma força nacional avassaladora: a onda Bolsonaro. Carlos Moisés, um ilustre desconhecido do grande eleitorado, foi carregado até o governo.
Quatro anos depois, sequer chegou ao segundo turno. Jorginho Mello ocupou o espaço bolsonarista e venceu. Moisés descobriu nas urnas que a força recebida em 2018 não era um patrimônio pessoal. O eleitorado conservador havia escolhido outro representante.
Caminho pavimentado
Agora, Jorginho tem a reeleição pavimentadíssima, salvo um fato novo de grande proporção. A Quaest de 24 de setembro mostrou o governador com 54%, contra 13% de João Rodrigues e 10% de Merísio.
Em 2022, a pulverização das candidaturas conservadoras ajudou Décio Lima a alcançar o segundo turno. Desta vez, Jorginho concentra esse eleitorado. A esquerda pode chegar em segundo sem ter força para levar a decisão a uma nova rodada.
Perder e ganhar
Merísio tem condições de ultrapassar João Rodrigues. Se confirmar a segunda posição, poderá perder a eleição e, ainda assim, ganhar perspectiva política.
Florianópolis, em 2028, pode entrar nesse horizonte, desde que sejam construídas as condições para a candidatura. Seria um caminho semelhante ao de Kleinübing depois de 1986 ou ao de Angela depois de 1994.
O segundo lugar não entrega mandato. Mas pode entregar visibilidade, liderança e futuro. Uma derrota com endereço para a próxima disputa.
O risco de João
Já João Rodrigues corre o risco de ser o Amilcar Gazaniga de 2026. Gazaniga terminou em terceiro em 1986, atrás de Pedro Ivo e Kleinübing. João pode acabar espremido entre a força de Jorginho e a concentração dos votos de esquerda em Merísio.
Entrou para enfrentar o governador e corre o risco de assistir à ultrapassagem pelo retrovisor.
É uma diferença brutal: Merísio pode sair da derrota com um projeto. João pode sair apenas com a derrota. Para quem pretendia comandar Santa Catarina, é muito pouco.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.
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