A proximidade de fevereiro coloca o calendário eleitoral no modo acelerado. O prazo de desincompatibilização, fixado para 4 de abril, funciona como um divisor de águas: é ele que vai revelar, com mais nitidez, quais nomes realmente entrarão no jogo e como se darão as composições majoritárias em Santa Catarina. Faltam pouco mais de dois meses para que o cenário deixe o campo das especulações e ganhe contornos concretos.
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Como ocorre a cada ciclo, a eleição seguinte começa a ser desenhada antes mesmo de a atual legislatura amadurecer. A pergunta que paira é recorrente: haverá renovação real ou apenas rearranjos entre figuras já conhecidas do eleitorado?
A esquerda e a tentativa de reposicionamento
No campo da esquerda, o nome que se apresenta é o de Gelson Merisio. Ex-deputado estadual e ex-presidente da Assembleia Legislativa, ele já disputou o governo em 2018, quando estava no PSD, partido de centro. Sua trajetória partidária inclui passagens por siglas de perfil mais conservador, o que torna seu atual posicionamento ideológico um movimento de reacomodação política, não exatamente de novidade.
Estrutura
O desafio é estrutural. Santa Catarina mantém, historicamente, um eleitorado de perfil conservador, tendência que se intensificou nas últimas eleições presidenciais e estaduais. A viabilidade de um projeto de esquerda ao governo é, portanto, limitada. Merisio entra mais como peça de afirmação de campo político do que como favorito real.
Petista
Para o Senado, o nome mais provável nesse espectro é o de Décio Lima. Ex-prefeito de Blumenau, ex-deputado federal e figura tradicional do PT catarinense, ele já disputou o governo em duas ocasiões recentes. Hoje na presidência nacional do Sebrae, Décio representa a manutenção de um núcleo histórico da esquerda no Estado, com densidade política, mas também com alto grau de conhecimento — e rejeição — consolidados.
O centro fragmentado
No centro, aparece João Rodrigues, prefeito de Chapecó, em seu quarto mandato à frente do município. Com passagem pela Assembleia Legislativa e pela Câmara dos Deputados, é um político experiente, de forte presença no Oeste, mas longe de representar renovação. Seu nome está posto, porém ainda carece de musculatura estadual mais ampla e de uma estrutura partidária coesa que sustente um projeto competitivo ao governo.
Trajetória
Nesse mesmo tabuleiro, surge a possibilidade de Esperidião Amin disputar o Senado. Trata-se de uma das trajetórias mais longevas e respeitadas da política catarinense, com quase meio século de vida pública. Amin agrega densidade, memória institucional e eleitorado fiel, mas sua eventual candidatura se insere mais no campo da experiência do que da renovação.
O MDB e a encruzilhada estratégica
O MDB vive, talvez, o momento mais delicado. O partido ainda não definiu se terá candidatura própria, se apoiará João Rodrigues, se caminhará com Gelson Merisio ou se acabará integrado ao projeto de reeleição do governador Jorginho Mello.
Quem?
O nome mais consistente internamente é o de Carlos Chiodini. Deputado federal, ex-secretário de Estado e liderança em ascensão dentro do partido, ele representa uma transição geracional no MDB. Não é um novato, mas simboliza uma tentativa de atualização de quadros. Caso o partido opte por protagonismo ou por compor uma chapa majoritária, Chiodini é a peça mais natural nesse xadrez.
Jorginho Mello e o eixo da reeleição
No campo governista, Jorginho Mello se movimenta para a reeleição apoiado em uma carreira de mais de quatro décadas de mandatos eletivos. Ex-vereador, deputado estadual por vários mandatos, deputado federal, senador e agora governador, ele encarna a continuidade de um grupo político que se consolidou na onda conservadora recente.
Renovação
Mas é ao redor de sua chapa que surgem os sinais mais evidentes de renovação projetada para o futuro. A deputada federal Carol De Toni desponta como um dos principais nomes ao Senado, com forte identificação com o eleitorado conservador e potencial de votação expressiva. Outro nome relevante é o do prefeito de Joinville, Adriano Silva, do Novo, que já anunciou a intenção de deixar o cargo para compor como vice-governador. Ambos são vistos como lideranças com fôlego para ciclos seguintes, especialmente olhando para 2030.
A filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao PSD produz um efeito que vai muito além das divisas do Centro-Oeste. O movimento fortalece o projeto presidencial da sigla e, ao mesmo tempo, provoca um reposicionamento imediato das forças políticas em Santa Catarina, onde partidos que orbitavam uma alternativa nacional agora se veem diante do risco concreto de ficarem sem palanque competitivo ao Planalto.
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Com Caiado, o PSD passa a reunir três governadores presidenciáveis: Eduardo Leite (RS), Ratinho Júnior (PR) e o próprio chefe do Executivo goiano. Já a federação formada por União Brasil e Progressistas (PP) — batizada de União Progressista — perde densidade no debate nacional e começa a olhar para 2026 com uma preocupação central: como manter protagonismo regional sem candidatura própria à Presidência?
O impacto em Santa Catarina é direto.
PSD é centro
A entrada de Caiado reforça o discurso do PSD de ocupar um espaço de centro, fora da polarização direta entre lulismo e bolsonarismo. O presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, já sinalizou que um eventual candidato do partido não fará campanha ancorada na oposição frontal ao governo Lula, mas sim na apresentação de uma alternativa moderada, de perfil administrativo e conciliador.
Será?
Na prática, o PSD tenta se vender como a legenda capaz de “furar a bolha” da polarização. O problema é que, até aqui, as pesquisas nacionais mostram um eleitorado que declara cansaço do embate ideológico, mas que, na hora de manifestar intenção de voto, continua se concentrando nos polos já conhecidos.
Palanque
Ainda assim, a estratégia tem um efeito colateral importante nos estados: oferece um palanque presidencial para alianças regionais.
União Progressista pode ficar sem palanque
Com a saída de Caiado, o União Brasil deixa de ter um nome viável ao Planalto. Isso afeta diretamente lideranças catarinenses da federação, como o senador Esperidião Amin (PP) e o deputado federal Fábio Schiochet (União Brasil). Sem candidatura presidencial própria, a federação corre o risco de entrar na eleição estadual sem uma referência nacional clara.
E, em eleições cada vez mais verticalizadas, isso pesa.
Conexão
A tendência histórica recente mostra que o eleitorado conecta voto nacional e estadual. Foi assim em 2018 e 2022, e tudo indica que o padrão vai se repetir em 2026. Ficar sem palanque presidencial competitivo significa perder tempo de TV qualificado, narrativa nacional unificada e capacidade de mobilização militante.
Caminho natural
Diante desse vácuo, cresce a probabilidade de uma aproximação da União Progressista com o PSD em Santa Catarina. A convergência é vista como mais natural do que uma aliança com o MDB. Há três fatores que empurram nessa direção:
1. Identidade ideológica e programática mais próxima entre o PSD e os partidos da federação.
2. Relações políticas já consolidadas em nível estadual.
3. Rivalidade histórica entre progressistas e MDB em Santa Catarina, que atravessa décadas e ainda influencia decisões estratégicas.
Sem palanque próprio, a federação tende a buscar abrigo em um projeto presidencial viável — e hoje o PSD oferece exatamente isso.
O peso da eleição nacional em SC
O histórico recente reforça a leitura de que o cenário federal molda o estadual. Em 2022, Santa Catarina reproduziu o ambiente nacional polarizado, com Décio Lima (PT) e Jorginho Mello (PL) protagonizando o segundo turno.
Reflexos
Para 2026, a expectativa é de nova influência direta do quadro presidencial sobre a disputa pelo governo catarinense. Caso a polarização nacional se mantenha, o estado tende novamente a se alinhar a campos bem definidos, reduzindo o espaço para candidaturas isoladas ou desconectadas de um projeto nacional forte.
Movimentações
Nesse contexto, a movimentação de Caiado para o PSD não é apenas troca de partido. É um passo que reorganiza alianças, pressiona adversários e antecipa, já agora, o desenho dos palanques em Santa Catarina.
A corrida estadual começou a ser moldada em Brasília — e passou, decisivamente, por Goiânia.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.