O governador Jorginho Mello avança na recomposição do seu colegiado em um momento clássico de transição: o período de desincompatibilizações. Com vários auxiliares deixando cargos para disputar as eleições de outubro, o governo entra em fase de ajustes que misturam técnica, confiança pessoal e, inevitavelmente, cálculo político-eleitoral.
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O movimento desta semana é emblemático. Não se trata apenas de preencher vagas — foram sete mudanças no total —, mas de reposicionar peças num tabuleiro que já está sendo montado com foco na reeleição — e, mais à frente, no desenho de um eventual segundo mandato.
Remanejamento
A principal mudança foi o deslocamento de Edson Moritz da presidência da Casan para o comando da Celesc.
A decisão foi sacramentada em reunião extraordinária do Conselho de Administração da companhia elétrica, presidido pelo empresário Glauco José Côrte.
Dinâmica
Não é uma troca trivial. Ao deslocar Moritz, o governador imprime um perfil mais político à Celesc, justamente no momento em que o ambiente eleitoral exige interlocução mais sofisticada com agentes políticos e institucionais — além do velho e bom jogo de cintura, em um momento em que os ânimos pré-eleitorais já vão se acirrando nos bastidores.
Substituição
Na Casan, a solução foi doméstica: assume o engenheiro Pedro Hostmann, profissional com quatro décadas de atuação na companhia — e respeitado no meio.
Aqui, o critério é claro: continuidade operacional com conhecimento técnico acumulado. Um movimento que preserva a rotina administrativa enquanto o foco político se desloca para outras frentes.
Critério
O padrão das escolhas revela a lógica adotada por Jorginho Mello: nomes de confiança, com formação técnica, mas ajustados ao novo ambiente político.
Não por acaso, algumas mudanças dialogam diretamente com o rearranjo partidário. É o caso de Arão Josino, que deixou a Prefeitura de Ascurra, após dois mandatos, para assumir a Secretaria de Planejamento, representando a chegada ao governo do Novo — legenda que indicou o vice no projeto de reeleição, Adriano Silva.
Reforço técnico
Outro movimento relevante foi a chegada de Valdir Cechinel Filho à presidência da Fapesc.
Ex-reitor da Univali por dois mandatos, Cechinel é reconhecido pela densidade acadêmica e capacidade de gestão. É nome de altíssimo gabarito. Sua nomeação eleva o patamar técnico da fundação e sinaliza uma aposta do governo em inovação e ciência como ativos estratégicos.
Coringa
Na Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços, o escolhido foi Edgar Usuy — um verdadeiro “coringa” do governo.
Homem de absoluta confiança do governador, já passou por duas pastas e agora assume a terceira. É o tipo de quadro que não apenas executa, mas também absorve pressões políticas sem comprometer a linha de comando.
Perfil
A troca no comando da Celesc também revela uma inflexão importante.
Tarcísio Rosa deixa a companhia após uma gestão tecnicamente elogiada, mas sem perfil político. Em seu lugar, entra alguém com maior capacidade de articulação — atributo que ganha peso em ano eleitoral.
É a transição clássica: da técnica pura para a técnica com sensibilidade política. São ajustes impostos pelo calendário eleitoral e pelas projeções políticas.
Horizonte
Há ainda um pano de fundo estratégico que começa a ganhar forma. Em um eventual segundo mandato, Jorginho Mello poderá retomar um debate historicamente adiado em Santa Catarina: a privatização de estatais — notadamente das próprias Celesc e Casan.
Cara de paisagem
Tema que passou pelos governos de Raimundo Colombo e Luiz Henrique da Silveira, mas nunca avançou de fato.
Hoje, apenas duas grandes companhias estaduais de energia permanecem públicas no país. A pressão por investimentos tende a recolocar o tema na agenda.
Base
Paralelamente à reorganização administrativa, o governador também atua no front político.
Em almoço com a bancada do PL na Assembleia Legislativa, reforçou metas eleitorais claras: ampliar a bancada estadual de 14 para 15 deputados e a federal de seis para sete.
A base, que já cresceu desde 2022, deverá contar ainda com o reforço de aliados como Republicanos, Novo e Podemos, além da disputa pelas duas vagas ao Senado.
Síntese
O que se observa é um governo que opera em duas frentes simultâneas: ajusta a máquina administrativa, também por necessidade do calendário, enquanto consolida sua engenharia política.
Nada fora do script. Mas, como sempre, o sucesso dessa equação dependerá da capacidade de equilibrar técnica, política e, sobretudo, timing eleitoral.
Durante anos, Gilberto Kassab foi tratado como um dos mais habilidosos articuladores da política nacional. A imagem foi construída — e alimentada — por figuras de peso, entre elas Jorge Bornhausen, seu padrinho político, responsável por projetá-lo no cenário nacional, inclusive com declarações de JKB durante passagens do pupilo por Santa Catarina.
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Mas a política, como se sabe, não perdoa excessos. E os movimentos mais recentes do presidente nacional do PSD indicam que o capital acumulado ao longo dos anos começa a sofrer desgaste — não por falta de articulação, mas, paradoxalmente, por excesso dela.
Kassab emerge no cenário nacional sob a tutela do ex-senador e ex-governador catarinense, ainda nos tempos de deputado federal. Desde então, construiu uma trajetória marcada pela capacidade de composição, trânsito entre diferentes campos e leitura pragmática do poder.
Essa reputação o levou a comandar o PSD com mão firme, ampliando a presença do partido em estados estratégicos, especialmente em São Paulo, seu principal reduto.
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Excesso de apetite
O problema começa quando a habilidade vira apetite desmedido. Em 2024, às vésperas das eleições municipais, Kassab promoveu uma verdadeira operação de esvaziamento do PSDB paulista. Capturou algo próximo de 95% dos prefeitos tucanos, especialmente no interior — um movimento agressivo, eficiente no curto prazo, mas politicamente custoso.
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Formando inimigos
Para alcançar esse resultado, atropelou aliados históricos e abriu frentes de atrito com MDB, PP, União Brasil e Republicanos.
Criou, deliberadamente, um ambiente de tensão generalizada — e de potenciais inimigos em muitas frentes simultaneamente.
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Atritos
A situação se agravou com a filiação em massa de deputados estaduais à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), ampliando ainda mais o desconforto entre partidos que estiveram ao lado de Tarcísio de Freitas em 2022 e que esperavam reciprocidade no projeto de reeleição.
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Enchendo os ouvidos
O governador paulista passou a receber reclamações constantes — e, mais do que isso, percebeu um problema central: Kassab deixou de atuar como articulador de coalizão para se comportar como operador exclusivo de interesses do próprio partido.
Faltou, claramente, moderação de apetite — algo, aliás, bastante comum na política tupiniquim, sobretudo quando alguma liderança é picada pela famosa “mosca azul”.
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Ruptura
Esse conjunto de movimentos produziu um efeito direto: o esfriamento da relação entre Kassab e Tarcísio de Freitas.
O pessedista trabalhava com um projeto claro — ser vice na chapa de reeleição e, numa eventual desincompatibilização de Tarcísio em 2030 para disputar a Presidência, assumir o governo paulista e buscar a reeleição.
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Script conhecido
Um roteiro já testado no passado, quando foi vice de José Serra e herdou a Prefeitura de São Paulo.
Mas o plano não prosperou. Tarcísio optou por manter o atual vice — curiosamente, indicado pelo próprio Kassab em 2022.
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Nada disso
E a reação foi reveladora: Kassab não aceitou. Exigiu, nos bastidores, que o vice deixasse o PSD caso quisesse permanecer na chapa. Um movimento que, longe de fortalecer, expôs fragilidade política e um olhar apenas para o próprio umbigo — e não para um projeto.
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Erro estratégico
Paralelamente, Kassab decidiu lançar o PSD na disputa presidencial com múltiplas opções — uma estratégia que, na prática, revelou indecisão e gerou mais atrito. Desta vez, internamente.
Colocou na vitrine Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite.
Ratinho recuou. Caiado foi escolhido, contrariando expectativas. E Leite reagiu negativamente. Ou seja, ao tentar demonstrar força, Kassab criou e expôs fissuras.
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Isolamento
A candidatura de Ronaldo Caiado nasce, assim, sob forte questionamento.
Sem capilaridade nacional consistente e, pior, sem apoio integral dentro do próprio partido, enfrenta resistência inclusive entre aliados naturais, muitos dos quais já sinalizam preferência por Flávio Bolsonaro.
É o retrato de uma articulação que perdeu coordenação — e que tem todas as digitais de Kassab.
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Revisão de rota
A trajetória de Gilberto Kassab segue relevante, mas os sinais recentes são claros: o mito do articulador infalível começa a ser confrontado pela realidade.
Na política, acumular poder exige, antes de tudo, saber dosar ambição. Quando esse equilíbrio se rompe, o que era força se transforma em vulnerabilidade.
E Kassab, ao que tudo indica, começa a pagar o preço de ter avançado além do limite.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.