O MDB caminha, com cada vez menos margem para dúvida, para uma postura de independência na eleição presidencial de 2026. Em termos práticos, significa liberação geral: o partido não lançará candidato ao Palácio do Planalto e tampouco assumirá apoio formal a qualquer postulante. Cada diretório estadual terá autonomia para definir o seu posicionamento conforme a realidade local.
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Foi exatamente essa orientação que dezesseis diretórios estaduais levaram a Brasília, em reunião com o presidente nacional da legenda, Baleia Rossi. Entre eles está Santa Catarina, representado pelo presidente estadual do partido, o deputado federal Carlos Chiodini, acompanhado dos também deputados Valdir Cobalchini e Rafael Pezenti, além da senadora Ivete Appel da Silveira.
Não se trata de um movimento marginal dentro do partido. Muito pelo contrário. A maioria expressiva dos diretórios mais influentes do MDB aderiu à tese da independência.
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Peso real
A lista dos estados que defenderam a neutralidade é reveladora. Estão ali os quatro colégios do Sudeste — São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo — além dos três estados do Sul — Santa Catarina, Rio Grande e Paraná.
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Geografia
Também integram o grupo os estados do Centro-Oeste — Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal — além de algumas unidades da região Norte.
Em outras palavras: trata-se da fração mais robusta do MDB. O coração político e eleitoral do partido.
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Temer no comando
A formalidade da presidência nacional está com Baleia Rossi, mas quem segue exercendo influência decisiva nos bastidores é o ex-presidente Michel Temer, que comandou a legenda por uma década e permanece como principal fiador da estratégia.
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Declinou
Temer, inclusive, chegou a ser convidado para liderar uma candidatura de unidade do MDB ao Planalto. O convite partiu do próprio Baleia Rossi. A resposta foi negativa — sobretudo em razão da idade e do momento político.
Mas a recusa não significou afastamento. Pelo contrário: a linha de atuação do partido continua sendo fortemente influenciada pelo ex-presidente.
E a decisão está tomada.
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Sem vice
Com esse cenário consolidado, está descartada a possibilidade de o MDB indicar candidato a vice-presidente em qualquer chapa nacional.
Os apoios mais explícitos ao presidente Lula da Silva permanecem concentrados em grupos políticos ligados às famílias Calheiros, em Alagoas, e Barbalho, no Pará. Mas esses apoios serão regionais e pontuais, sem chancela institucional do partido.
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Tebet isolada
A decisão também isola politicamente a ministra do Planejamento, Simone Tebet, que hoje integra o governo federal.
Ex-senadora por Mato Grosso do Sul, Tebet já não encontra respaldo consistente dentro do MDB para sustentar a aliança com o PT. O movimento de bastidores indica, inclusive, a possibilidade de transferência de seu domicílio eleitoral para São Paulo, onde poderia disputar o Senado em uma composição alinhada ao campo governista.
Mas isso já ocorreria fora do MDB.
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Sobrevivência
Para Santa Catarina, a neutralidade nacional não é apenas conveniente — é vital.
Caso o MDB aderisse formalmente à candidatura de Lula, o risco de esvaziamento seria imediato. Os três deputados federais dificilmente permaneceriam na legenda, e a debandada poderia alcançar também a bancada estadual.
A decisão, portanto, não tem nada de romântica. É pragmatismo político em estado puro.
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Partido em declínio
O MDB já foi o maior partido do Brasil e também a força dominante na política catarinense. Hoje vive outra realidade.
Perdeu capilaridade, perdeu lideranças e perdeu protagonismo.
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Tucanou
Ao optar pela neutralidade, o partido repete uma estratégia que marcou durante anos o comportamento do PSDB: subir no muro para garantir sobrevivência política.
Não é exatamente um projeto de poder. Mas, diante das circunstâncias, tornou-se uma estratégia de preservação.
A semana começou em Santa Catarina com a expectativa de uma movimentação robusta na Assembleia Legislativa. Falava-se em até dez deputados estaduais prontos para mudar de partido na janela que se abre nesta quinta-feira e vai até 4 de abril — exatamente seis meses antes das eleições. Estamos falando da possibilidade de um quarto da composição do Parlamento em trânsito.
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Mas, antes mesmo da abertura formal da janela, o principal movimento previsto foi sustado. E não por acaso.
O deputado Carlos Humberto, de Balneário Camboriú e região, permanece no Partido Liberal. A decisão foi sacramentada após longa conversa com o governador Jorginho Mello, tendo como testemunha o prefeito de Itajaí, Robison Coelho. Carlos Humberto vinha sendo cortejado insistentemente pelo governador.
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Trajetória
Aliado histórico, acompanha Jorginho desde os tempos do antigo Partido da República. No ano retrasado, foi impedido de disputar a prefeitura de Balneário Camboriú — era o nome natural do partido e favoritíssimo — após interferência direta de Jair Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, que pressionaram para que o então prefeito Fabrício de Oliveira indicasse o sucessor. Um desastre, aliás.
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Fator decisivo
O desfecho é conhecido: Carlos Humberto apoiou Juliana Pavan, que venceu a eleição, e o PL perdeu uma das mais simbólicas prefeituras catarinenses.
Contrariado, o deputado já estava decidido a migrar para o PSD. Jorginho agiu. Garantiu-lhe protagonismo regional e a candidatura à reeleição sem a sombra de Fabrício de Oliveira — hoje secretário do Planejamento do Estado —, que deve deixar o PL e buscar abrigo no Republicanos para disputar vaga à Câmara Federal.
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Retorno
Com isso, Carlos Humberto reassume o comando partidário em sua base e permanece no PL. Movimento defensivo com efeito estratégico.
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Baixa isolada
A única perda efetiva do PL na Assembleia será Nilso Berlanda, de Curitibanos. Ele assinará ficha no Partido Social Democrático.
Trata-se, até aqui, da única defecção do arco de influência do governador em direção à oposição. Um movimento pontual, que não altera o eixo de poder no Parlamento.
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Reforço liberal
Se há uma saída, há múltiplas entradas nas fileiras liberais. Júnior Cardoso, hoje no Partido Renovação Democrática, já confirmou filiação ao PL. O mesmo caminho foi trilhado por Marcos da Rosa, que deixa o União Brasil.
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Alcance
A expectativa é que Jair Miotto também migre para a trincheira liberal. E há ainda Camilo Martins, atualmente no Podemos, em rota semelhante.
Se confirmadas essas adesões, o PL não apenas preserva Carlos Humberto como amplia significativamente sua bancada.
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Braço aliado
Parte dessas movimentações orbita o Republicanos, legenda que, na prática, funciona como extensão política do PL em Santa Catarina. O partido tem como principal liderança no Estado o deputado federal Jorge Goetten e conta com a vice-presidência de Juca Mello, irmão do governador.
Lucas Neves vai seguir para o Republicanos, e Sérgio Guimarães está muito perto de buscar o mesmo rumo. Só que a reunião de ontem com Fábio Schiochet abriu novas perspectivas, seguida de uma rodada com o presidente da Assembleia, Júlio Garcia. O PSD se comprometeu de reforçar a chapa do União Brasil.
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União esvaziado
O maior prejudicado pode ser o União Brasil, que ficaria apenas com Guimarães, perdendo dois parlamentares na Assembleia.
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Recalculando
Vicente Caropreso, que já havia sinalizado mudança em direção ao União, passou a repensar o destino. Chegar a uma sigla com bancada fragilizada seria um movimento de elevado risco. Ele próprio já conversou com Jorginho Mello.
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Base ampliada
Por fim, ainda há especulações em torno de Pepê Collaço, do Progressistas, que poderia aproveitar a janela e mudar de endereço.
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Coordenação
O que se vê é um movimento coordenado. Jorginho Mello está, politicamente, “fazendo a roça”: limpa dissidências, recompõe aliados estratégicos e amplia sua base parlamentar.
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Poder
A janela partidária, que tradicionalmente produz incertezas, desta vez tende a consolidar poder. E isso, evidentemente, não é um movimento isolado. É parte estruturante do projeto de reeleição do governador.
Em política, quem controla a janela controla o ambiente. E, ao que tudo indica, o Palácio Residencial já fechou a janela antes mesmo de ela se abrir.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.