Tradicionalmente, a política brasileira — e a catarinense não foge à regra — acostumou-se a deixar as grandes definições para o limite do prazo legal. As convenções homologatórias, realizadas no início de agosto, sempre funcionaram como o palco das surpresas, das desistências e das costuras de última hora. Foi assim em 2018, repetiu-se em 2022 e consolidou-se como prática corrente.
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Desta vez, no entanto, o roteiro foi alterado. E quem rompeu com essa lógica foi justamente quem lidera o processo: o governador Jorginho Mello. Ao antecipar decisões estratégicas e definir sua chapa com antecedência incomum, ele não apenas reorganizou o tabuleiro eleitoral, como passou a conduzir — e não apenas reagir — o processo sucessório em Santa Catarina.
A mudança de postura não é detalhe. Ela redefine o ambiente político, expõe fragilidades dos adversários e força partidos historicamente protagonistas a decidir se acompanham o favorito ou se arriscam em projetos próprios de viabilidade duvidosa.
Lições de 2018: quando todos perderam
Basta lembrar o cenário de 2018. Paulo Bauer lançou-se em Joinville como candidato ao governo pelo PSDB; Esperidião Amin fez o mesmo em Florianópolis, pelo Progressistas. Ambos desistiram no percurso. Bauer acabou candidato ao Senado na chapa de Mauro Mariani; Amin, também ao Senado, na composição liderada por Gelson Merisio.
Onda
O resultado é conhecido: a chamada “onda Bolsonaro” atropelou o establishment político catarinense. Carlos Moisés venceu o governo, enquanto Amin e Jorginho Mello garantiram as vagas ao Senado. Todos os demais protagonistas ficaram pelo caminho.
A história se repetiu, em parte, em 2022, novamente com definições tardias e alianças improvisadas.
O movimento de Jorginho
Agora, o cenário é outro. Jorginho Mello antecipou-se, fez sua escolha e a tornou pública: fechou aliança com o Partido Novo e trouxe para a chapa o prefeito de Joinville, Adriano Silva, como candidato a vice-governador.
Ideologia
A sinalização foi clara e objetiva. A chapa majoritária está definida. Trata-se de uma composição liberal, ideologicamente alinhada, conectada ao campo da direita e em oposição frontal ao governo Lula no plano nacional.
Mais do que isso: ao tomar essa decisão, Jorginho delimitou o espaço dos aliados tradicionais.
MDB e União Progressista fora
MDB e União Progressista — federação que reúne PP e União Brasil — acompanham o governo desde 2023. No entanto, com a definição antecipada da chapa, ficou explícito que, se permanecerem na coligação, será fora da majoritária.
Os nomes que antes orbitavam esse espaço — Esperidião Amin para o Senado e Carlos Chiodini para a vice — perderam viabilidade dentro do projeto governista.
Incógnita
Diante disso, a pergunta inevitável se impõe: seguem com Jorginho, mesmo sem protagonismo, ou buscam caminhos próprios?
Caminhos improváveis
Um projeto conjunto entre MDB e União Progressista é, na prática, inviável. São partidos que se enfrentaram por décadas em Santa Catarina e hoje já não concentram o comando das principais prefeituras nem o protagonismo estadual.
Desunidos
O PSD, por sua vez, vive um impasse interno. João Rodrigues tenta consolidar sua candidatura há dois anos, mas não conta nem com a unidade do próprio partido. O principal prefeito da sigla, Topázio Neto, já declarou apoio à reeleição de Jorginho Mello.
Migração
Restam hipóteses frágeis: o MDB pode migrar para a frente de esquerda, que tende a ser liderada por um ex-conservador (Gelson Merísio) hoje filiado ao Solidariedade e com possível ingresso no PSB, numa chapa que teria Décio Lima ao Senado.
Também se cogita candidatura própria, embora o partido não disponha de um nome competitivo para tal empreitada. Não por acaso, o MDB reúne seu diretório estadual para discutir rumos — sinal inequívoco de incerteza estratégica.
A esquerda e seu teto
Do outro lado do espectro, a esquerda mantém seus partidos, seus quadros e sua organização. Mas também mantém um teto eleitoral conhecido: cerca de 20% no primeiro turno e algo próximo de 30% no segundo.
É um campo competitivo, porém insuficiente para ameaçar, neste momento, a hegemonia do atual governador.
Joinville, o Novo e o setor produtivo
Ao trazer Adriano Silva para a chapa, Jorginho Mello não agregou apenas o prefeito da maior cidade de Santa Catarina, reeleito com expressivos 78% dos votos. Trouxe também o peso econômico, político e simbólico de Joinville e do setor produtivo catarinense para o centro do seu projeto.
Alinhamento
Além disso, incorporou o Partido Novo a uma aliança que se alinha nacionalmente ao PL, reforçando o discurso liberal, empresarial e de oposição ao governo federal.
O comando do jogo
No fim das contas, quem dita o ritmo é quem lidera. Jorginho Mello é, hoje, o único nome sólido no cenário majoritário. Favorito à reeleição, conduz o processo sucessório com antecedência, método e cálculo político.
Tudo indica que Santa Catarina caminhará para uma polarização, no mesmo diapasão do contexto nacional.
O governador Jorginho Mello promoveu, ainda antes do encerramento do primeiro mês do ano eleitoral de 2026, uma das mais profundas reviravoltas do cenário político catarinense dos últimos tempos. Ao anunciar que o prefeito de Joinville, Adriano Silva, deixará o cargo para compor como vice-governador sua chapa à reeleição, Jorginho não apenas redefine sua própria estratégia, como altera por completo os movimentos dos principais atores partidários do Estado.
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Eleito governador em 2022 praticamente de forma solitária, abrigado no PL e impulsionado decisivamente pelo então presidente Jair Bolsonaro, Jorginho Mello construiu sua vitória sem alianças robustas. À época, chegou a ser ironicamente apelidado de “Sozinho de Mello”.
A realidade do governo, no entanto, impôs a necessidade de composição. Sem maioria na Assembleia Legislativa, o governador trouxe para a base tanto o MDB quanto o Progressistas, que mais tarde se fundiria com o União Brasil, formando a União Progressista.
A estratégia funcionou. Ao longo de três anos, Jorginho aprovou todas as matérias de interesse do Executivo e, paralelamente, começou a desenhar o projeto de recondução ao cargo. O plano inicial previa duas vagas majoritárias para o PL: a sua própria candidatura à reeleição e a de Carol De Toni ao Senado, deputada federal mais votada do Estado no último pleito.
O fator Bolsonaro
O desenho começou a se alterar em meados do ano passado, quando Jair Bolsonaro passou a articular a transferência do filho Carlos Bolsonaro para Santa Catarina, com o objetivo de lançá-lo candidato ao Senado. Diante da pressão, Jorginho puxou o freio de arrumação e comunicou a Carol De Toni que a vaga ao Senado estaria reservada ao clã Bolsonaro.
Mudança de rumo
Ao mesmo tempo, o governador reafirmou publicamente o compromisso de manter espaço para a União Progressista, defendendo uma composição que incluísse um nome do partido ao Senado, ao lado de Carlos Bolsonaro, além de um vice indicado pelo MDB. Esse compromisso foi assumido de forma solene durante encontro estadual do MDB, em Balneário Camboriú, com a presença do presidente nacional da sigla, Baleia Rossi.
Família
Com o avançar do calendário político, contudo, novas variáveis entraram em cena. A sinalização de Jair Bolsonaro de que Flávio Bolsonaro poderia ser o nome do PL à Presidência da República levou Jorginho a recalcular sua estratégia.
Ainda antes da virada do ano, o governador voltou a dialogar com Carol De Toni, indicando a possibilidade de uma chapa pura do PL, excluindo, automaticamente, a União Progressista e nomes como Esperidião Amin do tabuleiro majoritário.
A chapa da direita
Esse rearranjo abriu espaço para uma decisão mais ousada: a construção de uma chapa integralmente alinhada à direita. Foi nesse contexto que surgiu o convite ao prefeito de Joinville, Adriano Silva, do Novo, para compor como vice-governador.
Ideologia
Com a escolha, Jorginho agrega o Novo à sua candidatura — partido que, embora crítico ao governo estadual, mantém alinhamento ideológico com o PL no plano nacional — e formata uma chapa de identidade ideológica clara: Flávio Bolsonaro à Presidência da República, Jorginho Mello à reeleição no governo do Estado, Carlos Bolsonaro ao Senado e Renan Bolsonaro à Câmara Federal.
Aposta
O movimento, formalizado nesta semana, é assertivo e calculado. Especialmente se houver, em 2026, a repetição do fenômeno observado em 2018 e 2022: a forte verticalização do voto e a influência decisiva de Jair Bolsonaro em Santa Catarina.
Os excluídos
Ao optar por essa estratégia, Jorginho empurra para fora da sua órbita aliados que estiveram ao seu lado nos últimos três anos. MDB e União Progressista, alijados da chapa majoritária, tendem a buscar outro porto seguro. E esse destino, ao que tudo indica, atende pelo nome de João Rodrigues, prefeito de Chapecó e principal liderança do PSD no Estado.
Rumo
A formação de uma chapa alternativa, liderada por João Rodrigues e sustentada por esses partidos, passa a ser um cenário concreto para enfrentar Jorginho Mello em 2026.
Outro discurso
Paralelamente, a esquerda também começa a se movimentar. O PT sinaliza que não deverá encabeçar a candidatura ao governo do Estado e descarta nomes que vinham sendo ventilados, como Paulo Bauer, alternativa considerada após Raimundo Colombo ter declinado de disputar o cargo.
O retorno
O nome que ganha força agora é o de Décio Lima? Não. A aposta passa a ser Gelson Merísio — de Xanxerê(cidade vizinha de Chapecó), aliado regional de João Rodrigues e figura conhecida no Oeste catarinense. Os dois já militaram no mesmo partido, e João Rodrigues apoiou Merísio em sua candidatura ao governo em 2018, quando acabou derrotado no segundo turno por Carlos Moisés, eleito no embalo da onda bolsonarista.
Tripé do Oeste
Nesse cenário, Santa Catarina pode chegar a 2026 com três candidaturas originárias do Oeste do Estado. E, curiosamente, a eventual candidatura de Merísio tende a capturar mais votos no eleitorado de João Rodrigues do que no de Jorginho Mello.
De cima
Em um ambiente de forte polarização nacional entre PL e PT — tendência que já se manifestou em 2022, quando o PT chegou pela primeira vez ao segundo turno no Estado —, o reflexo local tende a seguir a mesma lógica.
Terremoto
O jogo está longe de terminado. Mas uma coisa é certa: a renúncia de Adriano Silva e sua entrada na chapa de Jorginho Mello inauguram uma nova fase da disputa pelo governo de Santa Catarina. O tabuleiro foi virado — e ninguém saiu ileso.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.