A política catarinense terá um fato novo ainda neste mês com o anúncio da renúncia do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, do PSD, que marcou para o próximo dia 21 o ato em que deixará o cargo para oficializar sua entrada na disputa pelo governo de Santa Catarina.
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Trata-se, na prática, de um relançamento de uma candidatura que já havia sido apresentada no ano passado, mas que, até aqui, não conseguiu ganhar densidade política nem musculatura eleitoral. O projeto segue patinando — e isso explica a decisão de antecipar movimentos e tentar demonstrar vigor político em um momento de visível pressão. É uma forma de se manter com alguma esperança no jogo.
A renúncia tem um objetivo claro: evitar a impressão de que sua pré-candidatura perdeu fôlego antes mesmo de a campanha começar. O problema é que os obstáculos continuam surgindo no caminho.
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Fator Colombo
Um dos fatores mais recentes que tensionam o ambiente político é a movimentação do MDB em direção ao ex-governador Raimundo Colombo.
Mesmo ainda filiado ao PSD — o mesmo partido de João Rodrigues — Colombo passou a ser cortejado por lideranças emedebistas para encabeçar uma chapa ao governo estadual.
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Câmara Alta
Nesse desenho, Rodrigues seria deslocado para disputar o Senado, formando dobradinha com o senador Esperidião Amin, hoje ligado à federação União Progressista. A vaga de vice poderia sair do PSDB, com o nome do ex-senador Dalírio Beber entre os cogitados.
A simples circulação dessa hipótese já foi suficiente para acelerar decisões no entorno de Rodrigues.
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Relação distante
A eventual candidatura de Colombo tem um componente adicional: a ausência histórica de sintonia política entre ele e João Rodrigues.
Embora estejam formalmente na mesma legenda, nunca houve entre ambos entrosamento político consistente.
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Observando
Os perfis são distintos, as trajetórias diferentes e a convivência sempre foi marcada por distância. O comportamento de ambos também é bastante diferente.
Colombo, aliás, raramente aparece nas mobilizações partidárias lideradas por Rodrigues — um silêncio que, na política, costuma dizer muito.
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Obstáculos internos
Os problemas de Rodrigues não se limitam à movimentação externa. Dentro do próprio PSD existem resistências e cautelas.
Prefeitos influentes do partido mantêm posição discreta ou distante. Topázio Neto, que comanda a principal prefeitura pessedista, está alinhado com Jorginho Mello.
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Mergulho
Orvino de Ávila, prefeito de São José — quarto colégio eleitoral de Santa Catarina — também tem mantido postura discreta.
Os apoios mais efetivos a João Rodrigues, até aqui, vêm de Vagner Espíndola, o Vaguinho, prefeito de Criciúma, e de Juliana Pavan, prefeita de Balneário Camboriú.
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Incansável
Paralelamente, o governador Jorginho Mello vem realizando intenso movimento de aproximação com prefeitos de diferentes partidos, inclusive do próprio PSD, ampliando sua base municipalista e dificultando ainda mais o avanço do projeto adversário.
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Fantasma de 2022
Há também um elemento psicológico na decisão de Rodrigues. Em 2022, ele já ensaiou disputar o governo estadual. Chegou a cogitar renunciar à prefeitura e chegou a costurar um esboço de chapa que teria o então prefeito de Criciúma, Clésio Salvaro, como vice, e o empresário Luciano Hang como candidato ao Senado.
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Na praia
O projeto acabou naufragando antes de chegar ao mar aberto. Agora, Rodrigues não quer transmitir a imagem de um segundo recuo político, o que ajuda a explicar a decisão de levar adiante a renúncia e reafirmar publicamente a candidatura — nem que seja para disputar o Senado mais adiante.
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Cenário aberto
Caso Raimundo Colombo aceite o convite do MDB, o cenário eleitoral catarinense pode ganhar nova configuração. Teríamos, em tese, quatro candidaturas competitivas:
• Jorginho Mello, buscando a reeleição;
• João Rodrigues;
• Raimundo Colombo;
• Gelson Merisio, representando o campo da esquerda.
Seriam três nomes disputando o eleitorado conservador — fenômeno que sempre produz fragmentação e imprevisibilidade.
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Presenças observadas
O ato de renúncia em Chapecó servirá também como termômetro político.
Não apenas pelo anúncio da candidatura, mas principalmente por quem decidir aparecer no evento.
Evidentemente que Jorginho Mello e Gelson Merisio não estarão presentes. Mas haverá lideranças do MDB? Algum gesto público da federação União Progressista? Esperidião Amin comparecerá? E o próprio Raimundo Colombo dará o ar da graça?
Na política, ausências falam tanto quanto presenças.
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Outra renúncia
Enquanto Rodrigues acelera seu cronograma, outra saída já tem data marcada — até por força da legislação. O prefeito de Joinville, Adriano Silva, deixará o cargo em 2 de abril.
A prefeitura será assumida pela vice, Rejane Gambin. Adriano, do Novo, será o candidato a vice-governador na chapa de reeleição de Jorginho Mello.
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Prazo decisivo
Todas essas movimentações acontecem sob o calendário implacável da legislação eleitoral.
A chamada janela partidária e os ajustes de posicionamento político se estendem até 4 de abril. Depois disso, a política entra em outra fase, que culminará com as convenções partidárias até 5 de agosto.
Até lá, muita água ainda vai correr por baixo da ponte — e, em Santa Catarina, ela costuma correr rápido e turbulenta.
A nova rodada da pesquisa do Datafolha, divulgada no fim de semana, recolocou no centro do debate político nacional a corrida presidencial de 2026. Como de costume, os números do instituto são recebidos com cautela — quando não com aberta desconfiança — por parcela significativa do eleitorado e do meio político. Ainda assim, o levantamento traz sinais que merecem atenção.
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O dado mais relevante é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece apenas três pontos à frente do senador Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. Dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, trata-se de um empate técnico.
E isso ocorre em um ambiente político extremamente turbulento para o governo federal.
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Margem apertada
Segundo o levantamento do Datafolha, os demais pré-candidatos testados aparecem muito distantes, todos abaixo de dois dígitos.
Na prática, o quadro reforça uma tendência que já vinha sendo apontada por outros institutos: a disputa presidencial tende a se polarizar novamente entre a trincheira esquerdista e o campo conservador.
Nesse contexto, o crescimento de Flávio Bolsonaro chama atenção, sobretudo porque ocorre paralelamente a uma leve erosão nas intenções de voto do atual presidente.
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PSD sem espaço
A pesquisa também testou três nomes do PSD: os governadores Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Eduardo Leite.
Nenhum deles apresentou desempenho capaz de alterar o eixo da disputa. Caiado e Leite permanecem com índices modestos, enquanto Ratinho Júnior só alcança dois dígitos — cerca de 11% — quando o ex-ministro Tarcísio de Freitas aparece como candidato com apoio do PL.
Nos cenários em que Flávio Bolsonaro é testado, Ratinho sequer alcança os 10%.
Traduzindo: o PSD segue sem espaço real na disputa presidencial.
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Desconfiança histórica
Há ainda um componente recorrente quando se fala em Datafolha: a desconfiança histórica sobre suas projeções eleitorais. Ao longo de sucessivas eleições, o instituto acumulou episódios de erros relevantes — as chamadas “barrigadas estatísticas”.
Por isso mesmo, quando o levantamento aponta Lula três pontos à frente, há quem sustente que o quadro real possa ser exatamente o inverso.
Com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos, o cenário prático continua sendo o de empate técnico.
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Governo pressionado
Outro indicador importante do levantamento é o índice de desaprovação do governo federal. Segundo o Datafolha, a rejeição à gestão Lula alcançou 49%.
Mais significativo ainda é o movimento da curva: enquanto a desaprovação cresce, a aprovação registra queda, situando-se na casa dos 47%.
Essa inversão de tendência é politicamente preocupante para o Palácio do Planalto.
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Ambiente explosivo
A conjuntura política do fim de semana trouxe ainda uma sequência de fatos que aumentam a pressão sobre o governo.
Entre eles, a informação de que a Polícia Federal avalia possíveis desdobramentos investigativos envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, em investigações relacionadas a supostas irregularidades envolvendo benefícios de aposentados. Risco de prisão preventiva.
Caso haja avanço judicial, o impacto político pode ser imediato — especialmente em um período de pré-campanha eleitoral.
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Caso Master
Outro foco de tensão política gira em torno do chamado caso envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Nos bastidores de Brasília, comenta-se que eventuais delações ou novos desdobramentos poderiam atingir diferentes esferas de poder. O caso já circula nos corredores políticos e jurídicos como um tema potencialmente explosivo.
Entre os nomes citados em análises políticas aparecem figuras relevantes do governo e do Congresso, incluindo o ministro da Casa Civil, Rui Costa, o senador Jaques Wagner e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
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Nuvens pesadas
Somados, esses fatores formam um cenário político carregado para o governo federal.
A combinação de desgaste administrativo, investigações sensíveis e uma disputa eleitoral cada vez mais polarizada cria um ambiente de alta tensão política.
A pesquisa do Datafolha, portanto, pode até ser recebida com reservas. Mas um ponto é inescapável: se até um instituto tradicionalmente visto como próximo ao campo governista aponta empate técnico, o alerta político no Palácio do Planalto certamente já foi acionado.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.