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Mito em xeque

Por Cláudio Prisco Paraíso
16/04/2026 - 08h08

Durante anos, Gilberto Kassab foi tratado como um dos mais habilidosos articuladores da política nacional. A imagem foi construída — e alimentada — por figuras de peso, entre elas Jorge Bornhausen, seu padrinho político, responsável por projetá-lo no cenário nacional, inclusive com declarações de JKB durante passagens do pupilo por Santa Catarina.

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Mas a política, como se sabe, não perdoa excessos. E os movimentos mais recentes do presidente nacional do PSD indicam que o capital acumulado ao longo dos anos começa a sofrer desgaste — não por falta de articulação, mas, paradoxalmente, por excesso dela.

Kassab emerge no cenário nacional sob a tutela do ex-senador e ex-governador catarinense, ainda nos tempos de deputado federal. Desde então, construiu uma trajetória marcada pela capacidade de composição, trânsito entre diferentes campos e leitura pragmática do poder.

Essa reputação o levou a comandar o PSD com mão firme, ampliando a presença do partido em estados estratégicos, especialmente em São Paulo, seu principal reduto.

Excesso de apetite

O problema começa quando a habilidade vira apetite desmedido. Em 2024, às vésperas das eleições municipais, Kassab promoveu uma verdadeira operação de esvaziamento do PSDB paulista. Capturou algo próximo de 95% dos prefeitos tucanos, especialmente no interior — um movimento agressivo, eficiente no curto prazo, mas politicamente custoso.

Formando inimigos

Para alcançar esse resultado, atropelou aliados históricos e abriu frentes de atrito com MDB, PP, União Brasil e Republicanos.

Criou, deliberadamente, um ambiente de tensão generalizada — e de potenciais inimigos em muitas frentes simultaneamente.

Atritos

A situação se agravou com a filiação em massa de deputados estaduais à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), ampliando ainda mais o desconforto entre partidos que estiveram ao lado de Tarcísio de Freitas em 2022 e que esperavam reciprocidade no projeto de reeleição.

Enchendo os ouvidos

O governador paulista passou a receber reclamações constantes — e, mais do que isso, percebeu um problema central: Kassab deixou de atuar como articulador de coalizão para se comportar como operador exclusivo de interesses do próprio partido.

Faltou, claramente, moderação de apetite — algo, aliás, bastante comum na política tupiniquim, sobretudo quando alguma liderança é picada pela famosa “mosca azul”.

Ruptura

Esse conjunto de movimentos produziu um efeito direto: o esfriamento da relação entre Kassab e Tarcísio de Freitas.

O pessedista trabalhava com um projeto claro — ser vice na chapa de reeleição e, numa eventual desincompatibilização de Tarcísio em 2030 para disputar a Presidência, assumir o governo paulista e buscar a reeleição.

Script conhecido

Um roteiro já testado no passado, quando foi vice de José Serra e herdou a Prefeitura de São Paulo.

Mas o plano não prosperou. Tarcísio optou por manter o atual vice — curiosamente, indicado pelo próprio Kassab em 2022.

Nada disso

E a reação foi reveladora: Kassab não aceitou. Exigiu, nos bastidores, que o vice deixasse o PSD caso quisesse permanecer na chapa. Um movimento que, longe de fortalecer, expôs fragilidade política e um olhar apenas para o próprio umbigo — e não para um projeto.

Erro estratégico

Paralelamente, Kassab decidiu lançar o PSD na disputa presidencial com múltiplas opções — uma estratégia que, na prática, revelou indecisão e gerou mais atrito. Desta vez, internamente.

Colocou na vitrine Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite.

Ratinho recuou. Caiado foi escolhido, contrariando expectativas. E Leite reagiu negativamente. Ou seja, ao tentar demonstrar força, Kassab criou e expôs fissuras.

Isolamento

A candidatura de Ronaldo Caiado nasce, assim, sob forte questionamento.

Sem capilaridade nacional consistente e, pior, sem apoio integral dentro do próprio partido, enfrenta resistência inclusive entre aliados naturais, muitos dos quais já sinalizam preferência por Flávio Bolsonaro.

É o retrato de uma articulação que perdeu coordenação — e que tem todas as digitais de Kassab.

Revisão de rota

A trajetória de Gilberto Kassab segue relevante, mas os sinais recentes são claros: o mito do articulador infalível começa a ser confrontado pela realidade.

Na política, acumular poder exige, antes de tudo, saber dosar ambição. Quando esse equilíbrio se rompe, o que era força se transforma em vulnerabilidade.

E Kassab, ao que tudo indica, começa a pagar o preço de ter avançado além do limite.

Largada calculada

Por Cláudio Prisco Paraíso
15/04/2026 - 08h15

A esquerda catarinense, enfim, sai da sombra e apresenta formalmente sua chapa majoritária para 2026. O ato está marcado para esta quinta-feira, dia 16, em Florianópolis — uma data que não foi escolhida por acaso: exatamente quatro meses antes do início formal do processo eleitoral.

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Trata-se de um movimento cirúrgico, pragmático e, sobretudo, alinhado a uma leitura mais fria do cenário político. Diferentemente de outros atores que queimaram largada, a frente de esquerda optou por concentrar forças no momento considerado mais estratégico — e, sob esse aspecto, começa sua caminhada com mais racionalidade do que improviso.

A composição já está posta: Gelson Merisio e Ângela Albino ao governo; Décio Lima e Afrânio Bopré ao Senado.

Timing

Com isso, o grupo terá um intervalo de quatro meses até as convenções — previstas entre 20 de julho e 5 de agosto — e, posteriormente, o período de validação pela Justiça Eleitoral, que ocorre entre os dias 6 e 15 de agosto.

É um calendário enxuto, mas suficiente para quem aposta mais em consistência de discurso — dentro da visão esquerdista, evidentemente — do que em exposição precoce.

Pragmatismo

Aqui reside o ponto central. A esquerda foi pragmática. Enquanto João Rodrigues iniciou sua pré-campanha ao governo ainda antes da reeleição em 2024 — percorrendo o estado, buscando visibilidade e tentando consolidar seu nome —, o resultado prático foi, no mínimo, frustrante. Sua pré-candidatura, até aqui, não se sustentou, não para em pé.

Nada disso

A frente esquerdista observou esse movimento e fez o oposto: aguardou, organizou-se internamente e escolheu o timing. Em política, muitas vezes, o tempo é mais determinante do que a pressa.

Discurso inicial

A grande incógnita agora é o comportamento de Gelson Merisio nesta largada.

Será uma apresentação protocolar nesta quinta-feira ou um lançamento com sinalização clara de estratégia?

Baterias

Mais do que isso: para onde estará direcionado seu discurso? O alvo exclusivo será o governador Jorginho Mello, líder em todas as pesquisas e candidato à reeleição, ou haverá também investidas sobre João Rodrigues, que ainda tenta viabilizar seu projeto?

Escolhas

Essa definição não é trivial. Ela indicará o posicionamento da candidatura: enfrentamento direto ao favorito ou tentativa de capturar espaço no campo da oposição fragmentada. Merisio e João Rodrigues são da mesma região e têm as mesmas raízes políticas. Ah, sim, e não os convidem para um café.

Cenário nacional

Em paralelo, o ambiente nacional adiciona uma variável de alta volatilidade. Lula da Silva surpreendeu ao admitir que pode não disputar a reeleição, jogando a decisão para junho e colocando a esquerda em compasso de espera e apreensão.

Dados

A declaração não surge no vazio. Pesquisas recentes indicam crescimento de Flávio Bolsonaro e queda de Lula, com tendência de aproximação — e, em vários levantamentos, até inversão das curvas, com Flávio à frente.

Datafolha

No Datafolha mais recente (instituto conhecido e reconhecido por sua preferência ideológica, segundo críticos, e por erros já apontados em eleições anteriores), Flávio aparece numericamente à frente, ainda que dentro da margem de erro. Mais relevante do que o número é a trajetória: em março, Lula liderava; agora, há empate técnico com viés de alta para o adversário.

Queda livre

Além disso, a reprovação do governo se aproxima dos 50% em diversos institutos, enquanto a aprovação permanece em patamar mais baixo. É um quadro desafiador para quem chega à sétima disputa presidencial, após três derrotas e três vitórias.

Alternativas

Diante desse cenário, a turma governista começa a trabalhar hipóteses. Nomes como Camilo Santana, Fernando Haddad e até rearranjos envolvendo Simone Tebet entram no radar.

A lógica é conhecida: preservar capital político e evitar um desfecho adverso em uma eventual última eleição de Lula, que, evidentemente, não quer sair da vida pública pela porta dos fundos.

Unidade

Enquanto isso, em Santa Catarina, a esquerda apresenta um ativo que seus adversários não conseguem replicar: unidade.

A chapa reúne PSB, PDT, PT e PSOL, além do apoio de PCdoB e PV — integrantes da federação petista —, e da Rede Sustentabilidade. É um bloco coeso, ao menos neste momento, e com estratégia definida, já conhecida.

Votos preciosos

Num cenário marcado por fragmentação no campo adversário, essa coesão pode não ser suficiente para vencer, mas certamente é condição necessária para competir e tentar melhorar o desempenho do candidato a presidente em Santa Catarina.

Jogo aberto

O que se desenha, portanto, é um quadro de contrastes: de um lado, uma esquerda organizada, pragmática e com timing ajustado; de outro, adversários ainda tentando consolidar alianças e narrativas.

Mas há uma variável que pode reconfigurar tudo: a decisão de Lula.

Se ele ficar, o jogo é um. Se sair, será outro completamente diferente — inclusive em Santa Catarina.

Até lá, a largada está dada. E, desta vez, sem atropelos.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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