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Esquerda usando a máquina descaradamente

Por Cláudio Prisco Paraíso
03/03/2026 - 07h47

A publicação no Diário Oficial da União, no sábado, oficializando Djalma Berger em uma diretoria estratégica da Itaipu Binacional está longe de ser um ato meramente burocrático. Trata-se, antes de tudo, de um movimento político de alta densidade, com repercussões diretas no tabuleiro eleitoral catarinense e na reorganização da esquerda no estado.

A escolha feita pelo presidente Lula da Silva não tem caráter técnico — trata-se de um quadro eminentemente político. É uma sinalização inequívoca de alinhamento e de preparação de terreno para as eleições de outubro.



Movimento Berger

A nomeação nasce de articulação conduzida pelo ex-senador Dário Berger, consolidando o reposicionamento do grupo no campo da esquerda em Santa Catarina.

Não por acaso, Dário volta a circular com força como potencial candidato ao Senado ao lado de Décio Lima, repetindo a lógica de 2022 e mirando a ocupação das duas vagas que estarão em disputa.



Convicção

Dário, aliás, é um político de convicções flexíveis. Iniciou a carreira no PL, passou por diversos partidos ao longo da trajetória e agora deve se filiar ao PDT, sigla historicamente ligada ao campo progressista e, nos últimos anos, próxima ao PT.



Arranjo da Esquerda

O desenho que se projeta inclui Gelson Merisio ao governo e Ângela Albino como vice, formando uma frente que busca densidade eleitoral e, sobretudo, retenção do chamado “segundo voto” ao Senado — fator decisivo em pleitos com duas cadeiras em disputa.



Lógica

A presença de dois nomes competitivos evita que o segundo voto escape para candidaturas conservadoras. Trata-se de uma lógica clássica do sistema majoritário brasileiro, plenamente compreendida pelo núcleo estratégico da esquerda.

A nomeação de Djalma Berger se insere nesse contexto: fortalecer a chapa e evitar dispersão de votos, especialmente no campo adversário.



Calculando

O mesmo raciocínio se aplica ao campo conservador. Esperidião Amin, assim como o MDB, foi preterido da chapa de Jorginho Mello. O desenho inicial previa o MDB na vice e Amin concorrendo ao Senado ao lado de Carol De Toni. O surgimento do fato novo — Carlos Bolsonaro — alterou completamente a equação.

Esperidião disputaria o Senado em chapa isolada do PP? Evidentemente que não.



Dupla

A alternativa lógica para Amin é compor com João Rodrigues, oferecendo ao eleitorado conservador uma segunda opção ao Senado dentro do mesmo campo político.

Caso contrário, o segundo voto poderia migrar para Carol De Toni ou Carlos Bolsonaro. Em eleições com duas vagas, essa dinâmica é determinante.



Lições

Basta lembrar 2018, quando, assim como agora, os eleitores puderam escolher dois senadores. Em 2022, a disputa foi por vaga única, e Jorge Seif venceu com ampla vantagem sobre Raimundo Colombo.



Miríade

Em 2018, havia diversos candidatos. Elegeram-se Esperidião Amin, na chapa liderada por Gelson Merisio, e Jorginho Mello, na chapa liderada por Mauro Mariani.

Raimundo Colombo e Paulo Bauer foram derrotados.

A eleição ocorreu sob forte influência da chamada “onda Bolsonaro”, que levou Carlos Moisés da Silva ao governo do Estado.



Peixe fora d’água

Carlos Moisés, até então pouco conhecido, surfou na onda nacional. Posteriormente, rompeu politicamente com Jair Bolsonaro, alterando o cenário que o havia impulsionado.



Está na história

O caso de Lucas Esmeraldino é didático. Filiado ao PSL em 2018, disputou o Senado sem parceiro de peso e acabou derrotado por margem estreita — cerca de 18 mil votos.

Caso tivesse formado uma dobradinha sólida, o resultado poderia ter sido diferente.

A lição é clara: disputar o Senado sozinho, quando há duas vagas em jogo, é uma aposta de alto risco.



Segundo voto

Jorginho Mello foi quem superou Esmeraldino naquele pleito. Cumpriu quatro anos no Senado e deixou a Casa ao se eleger governador, em 2022.

Esmeraldino, sem mandato, saiu do centro do debate político.



Tabuleiro 2026

Se há uma conclusão inequívoca, é esta: em eleições com duas vagas, quem não compreender a matemática do segundo voto larga a corrida em desvantagem estrutural.

Polarização Implacável

Por Cláudio Prisco Paraíso
28/02/2026 - 08h15

A corrida presidencial já nasce sob o signo da tensão máxima — e os números iniciais deixam pouco espaço para leituras complacentes. O presidente Lula da Silva aparece diante de um adversário que cresce em ritmo acelerado: o senador Flávio Bolsonaro. O que era visto como um movimento precoce começa a ganhar contornos concretos e inquietantes para o Palácio do Planalto.

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Flávio entra na disputa com menos de dois meses de exposição como presidenciável e já se coloca em patamar competitivo. Não é detalhe. Enfrenta um político que disputou a maior parte das eleições presidenciais desde a redemocratização e construiu uma trajetória marcada por vitórias e derrotas sempre no topo da disputa.

Dos dez pleitos presidenciais desde então — considerando o que ocorrerá este ano — Lula participou de sete. Ou seja, está no palanque há cerca de 40 anos.

Das seis eleições efetivamente disputadas por Lula, venceu três e perdeu três. Este ano será o desempate.

Trata-se de um político carismático, de traços messiânicos, que sabe falar a linguagem popular, mas que, neste ciclo, dá sinais claros de desgaste, derretendo à luz do dia.

É esse contexto que torna o crescimento do senador ainda mais consistente e indica uma transferência real do capital político do bolsonarismo, lastreada na memória eleitoral de Jair Bolsonaro.



Alerta no poder

O efeito imediato foi o acionamento do sinal amarelo no Palácio do Planalto. A movimentação de Fernando Haddad — que passou a admitir publicamente uma nova disputa pelo governo paulista — não é casual nem isolada.

Trata-se de uma tentativa clara de reorganizar trincheiras no maior colégio eleitoral do país e evitar um domínio quase absoluto do campo adversário.



Estratégia em São Paulo

A eventual candidatura de Haddad, possivelmente acompanhada por Simone Tebet e Marina Silva em uma composição majoritária — ambas disputando o Senado —, busca dois objetivos centrais: levar a disputa estadual ao segundo turno e reforçar a presença da esquerda na Câmara Alta.

Tudo isso ocorre sob a sombra do favoritismo estrutural do governador Tarcísio de Freitas, que hoje apresenta vantagem expressiva para a reeleição, com perspectiva real de liquidar a fatura já no primeiro turno.



O peso do Sudeste

A eleição presidencial tende a ser resolvida no eixo decisório formado por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro — os três maiores colégios eleitorais do país.

No Rio, a engrenagem governista passa por Eduardo Paes, historicamente ligado ao atual inquilino do Planalto. Em Minas, o projeto envolve a candidatura do senador Rodrigo Pacheco como palanque para Lula.

O ex-presidente do Senado resistiu inicialmente à ideia, sobretudo após ter ficado fora do STF, mas acabou convencido. Argumentos, ao que tudo indica, não faltaram.



Mineiro

No campo bolsonarista, a articulação mira o governador Romeu Zema como nome forte para compor a vice de Flávio Bolsonaro, além do expressivo poder de mobilização do deputado Nicolas Ferreira, que obteve 1,5 milhão de votos na última eleição. Trata-se de um fenômeno eleitoral e digital.

Importante registrar: esta eleição tem tudo para ser decidida exatamente nesses três estados, os principais colégios eleitorais do Brasil.



Nordeste menos determinante

O dado mais sensível para o lulismo é a tendência de redução da vantagem no Nordeste. A região segue favorável, mas já não com a mesma folga de pleitos anteriores — o que desloca o centro de gravidade da disputa para territórios mais competitivos e menos previsíveis.



Disputa aberta

O diagnóstico é direto: se o campo da direita obtiver desempenho robusto no Sudeste, a eleição deixa de ter um favorito claro.

Nesse ambiente, Lula da Silva enfrentará sua campanha mais dura em décadas, com risco real de encerrar sua trajetória política sob derrota — um cenário que, até pouco tempo atrás, parecia improvável e hoje já não pode ser descartado.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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