O desenho da disputa eleitoral em Santa Catarina — e, por extensão, no Brasil — começa a revelar contornos cada vez mais claros de estratégia, cálculo e, sobretudo, apreensão, por conta do calendário que vai se afunilando. O movimento da esquerda catarinense parece algo improvisado, concebido em um gabinete do Palácio do Planalto e que não guarda relação com a realidade estadual. Mesmo assim, a propaganda diz que eles têm dois objetivos principais: maximizar resultados onde há viabilidade e minimizar desgastes onde o histórico recente recomenda cautela. Lembrando que Jair Bolsonaro fez 70% a 30% contra a deidade vermelha nas eleições de 2022.
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No epicentro dessa engenharia política está ele, Lula, que, ao mesmo tempo em que organiza o tabuleiro nos estados, reavalia a própria permanência como protagonista na disputa nacional.
Não é segredo nos bastidores que a candidatura ao governo da frente de esquerda em Santa Catarina foi gestada a partir de Brasília, com forte influência do Palácio do Planalto. O objetivo central é cristalino: criar as condições para viabilizar a eleição de Décio Lima ao Senado. Simples assim.
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Desgaste
Décio, presidente estadual do PT, já testado em duas disputas ao governo — com destaque para 2022, quando chegou ao segundo turno (única e exclusivamente pela pulverização de candidaturas à direita) —, surge como o nome mais competitivo dentro da esquerda para uma vaga majoritária. No entanto, uma terceira candidatura consecutiva ao Executivo estadual carregaria o peso da repetição e da fadiga eleitoral. Sem falar no discurso jurássico da canhotada tupiniquim.
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Ressurreição
Daí a escolha de Gelson Merisio. Ex-deputado, com passagem relevante pelo Legislativo e histórico competitivo — o ex-PFL foi ao segundo turno em 2018 —, Merisio oferece o elemento de novidade que, nas cabeças iluminadas do PT, faltava ao projeto. Poderia servir, ainda, como instrumento para reposicionar a esquerda no estado, ampliando o alcance da chapa e, principalmente, pavimentando o caminho para o Senado.
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Contexto eleitoral
O pano de fundo dessa estratégia é conhecido. Como já registramos acima, em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro obteve cerca de 70% dos votos em Santa Catarina, contra aproximadamente 30% de Lula. Um cenário amplamente desfavorável, que exige reposicionamento.
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Guinada
Curiosamente, esse mesmo estado, Santa Catarina, já foi terreno fértil para o petista. Em 2002, Lula registrou a maior votação proporcional do país no primeiro turno e a segunda maior no round decisivo. Ou seja, há precedente histórico — mas o ambiente político mudou radicalmente.
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Sinal amarelo
É nesse contexto que ganha peso a recente declaração de Lula, de que só decidirá sua candidatura em junho. Não se trata de mera retórica.
Pesquisas sucessivas indicam uma tendência preocupante para o Planalto. Aliás, preocupante não — a realidade apavora o Planalto: crescimento consistente de Flávio Bolsonaro e queda gradual de Lula.
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Ele, não
Mais do que isso, o presidente enfrenta um fenômeno politicamente delicado: níveis de rejeição superiores aos do próprio adversário, que já carrega um passivo elevado por associação direta ao pai.
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Datafolha
Mesmo institutos tradicionalmente questionados por setores mais conservadores, como o Datafolha, começam a apontar empate técnico, com leve vantagem para Flávio em determinados cenários. E, nesse caso, mais importante do que o número em si é a tendência: os levantamentos convergem.
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Plano B
Diante desse quadro, cresce a pressão interna no PT por alternativas. O próprio Lula já sinalizou a necessidade de “oxigenar” o ambiente político. Parece piada, mas não é, caro leitor: Lula falando em renovação.
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Fraquinhos
Entre os nomes ventilados, aparecem Camilo Santana, ex-governador do Ceará e ex-ministro da Educação; Rui Costa, ex-governador da Bahia e figura de peso no partido; e Fernando Haddad, nome de confiança pessoal do presidente e já testado em 2018.
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Estilo chinês
A lógica é simples: se o campo adversário optou por um herdeiro político, por que não fazer o mesmo? A diferença, evidentemente, está na densidade eleitoral de quem lidera o processo.
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Efeito dominó
A grande interrogação, no entanto, está nos desdobramentos dessa possível mudança de rota. Caso Lula efetivamente recue, o impacto será imediato e profundo — inclusive em Santa Catarina.
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Insustentável
A estratégia construída em torno de Gelson Merisio se sustentaria? Ou haveria necessidade de recalibrar toda a engenharia eleitoral da esquerda no estado?
Sem Lula na cabeça de chapa nacional, o efeito mobilizador tende a diminuir. E isso pode comprometer diretamente o objetivo maior: a eleição de Décio Lima ao Senado.
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Jogo aberto
O cenário, portanto, está longe de definido. O que se observa é um jogo em andamento, com movimentos calculados, mas também com alto grau de incerteza.
Se, por um lado, a esquerda tenta sofisticar sua estratégia em Santa Catarina, por outro, depende de uma variável central: a decisão de Lula.
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Matemática
E essa decisão, ao que tudo indica, não será apenas pessoal. Será, acima de tudo, um cálculo frio sobre viabilidade eleitoral — e sobre o risco de transformar uma trajetória histórica em um desfecho indesejado.
O relógio avança. E, desta vez, o tempo pode não estar ao lado do principal protagonista da política brasileira nas últimas décadas.
O cenário político de Santa Catarina entra na reta decisiva para o pleito com duas estruturas partidárias relevantes profundamente divididas: o MDB e a federação União Progressista (União Brasil e PP). Em ambos os casos, o que se vê não é apenas divergência tática, mas uma ruptura clara quanto ao projeto majoritário para 2026 — e, mais do que isso, quanto ao alinhamento em relação ao governador Jorginho Mello.
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De um lado, lideranças tradicionais insistem na construção de uma alternativa ao atual governo, ancorada na pré-candidatura de João Rodrigues (PSD), que patina e cuja tendência é andar para trás, não avançar. De outro, um contingente expressivo de parlamentares e lideranças regionais já opera, de forma aberta, pela recondução de Jorginho, ainda que isso signifique tensionar — ou até romper — com direções partidárias que vêm sendo impostas goela abaixo.
A consequência é direta: fragilidade organizacional das legendas, perda de coesão interna e impacto potencial significativo nas chapas proporcionais (que é o que realmente interessa tanto para a federação quanto para o velho Manda Brasa).
MDB
O MDB vive um dos momentos mais delicados de sua história recente em Santa Catarina. Sob a presidência de Carlos Chiodini, o partido aposta formalmente na aliança com João Rodrigues. Trata-se de uma decisão estratégica que busca reposicionar a sigla no tabuleiro majoritário, mas que está longe de ser unânime. Muito pelo contrário. Até porque João Rodrigues, no final de 2025, chutou e esnobou o MDB publicamente.
Reeleição
Isso porque uma parcela relevante da bancada e das lideranças municipais já sinaliza alinhamento com o projeto de reeleição de Jorginho Mello. Esse movimento se intensificou após o próprio governador ter descartado, de forma unilateral, a composição inicialmente desenhada com o MDB — que previa o próprio Chiodini como candidato a vice.
Desmoronando
A exclusão do partido da chapa majoritária não apenas feriu o MDB politicamente, como também acelerou o processo de fragmentação interna. Falando com franqueza, o MDB acelera no mesmo rumo do PSDB: o desaparecimento.
Federação
Na União Progressista, o quadro não é diferente — e talvez ainda mais sensível. O senador Esperidião Amin e o deputado federal Fábio Schiochet lideram o movimento de apoio a João Rodrigues. São, inclusive, os dois únicos representantes da federação no Congresso Nacional, o que lhes confere peso institucional. Ainda assim, o movimento parece orientado prioritariamente por seus próprios projetos de reeleição — o que torna a estratégia ainda mais questionável.
Rachaduras
No entanto, assim como no MDB, há uma dissidência crescente. Deputados estaduais, lideranças regionais e operadores políticos já trabalham com o cenário de apoio ao governador.
Fora
A situação se agravou quando Jorginho Mello redesenhou sua chapa: retirou espaço da federação e abriu caminho para novos arranjos, incluindo a chegada de Carlos Bolsonaro e a entrada da deputada federal Carol De Toni na disputa ao Senado, além da escolha de Adriano Silva (Novo) como vice.
O recado foi claro: a federação deixou de ser prioridade no desenho do projeto governista — assim como o MDB.
Chapa
Mesmo que MDB e União Progressista confirmem, mais adiante, uma coligação em torno de João Rodrigues, há um fator incontornável: o controle formal da aliança não garante o engajamento real das bases.
Plim plim
Na prática, o que se desenha é uma campanha com tempo de televisão assegurado, mas com capilaridade comprometida. Prefeitos, vereadores e deputados tendem a seguir seus próprios cálculos eleitorais — e muitos deles já estão posicionados ao lado do atual governador.
Desempenho
Há ainda um elemento objetivo que pressiona esse arranjo: o desempenho de João Rodrigues nas pesquisas. Estacionado entre 15% e 20% das intenções de voto, o pré-candidato ainda não conseguiu converter visibilidade em tração eleitoral, mesmo após mais de dois anos em pré-campanha. Soa como um disco riscado: repete a mesma narrativa, sempre centrada no ataque ao governador.
Se esse quadro persistir, o efeito colateral será inevitável: impacto direto nas chapas proporcionais.
Assembleia
No MDB, a conta é apertada. A bancada atual de seis deputados estaduais deve ser reduzida. A projeção mais realista aponta para quatro cadeiras — com possibilidade remota de uma quinta, na sobra.
Quarteto
E há um agravante: a ausência de renovação. Nomes como Antídio Lunelli, Mauro de Nadal, Jerry Comper e Fernando Krelling largam em clara vantagem. Se o partido fizer quatro vagas, elas já têm dono. Espaço para renovação é praticamente inexistente.
O deputado Tiago Zilli ainda tenta se viabilizar, mas corre por fora — e terá muitas dificuldades.
Federação
Na federação, o cenário é ainda mais competitivo — e, portanto, mais duro.
O PP conta com Altair Silva e Pepê Collaço buscando reeleição. Pelo União Brasil, aparecem Sérgio Guimarães e Vicente Caropreso, que deixou o PSDB.
Potencial
A esse grupo se soma o ex-prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro, que entra na disputa com potencial de alta votação.
O problema é matemático: são cinco nomes competitivos para uma federação que dificilmente fará cinco cadeiras. O resultado provável é direto: deputado com mandato ficando de fora.
Tensão
Esse conjunto de fatores — racha interno, indefinição estratégica e desempenho eleitoral abaixo do esperado — já começa a produzir efeitos concretos.
Nos bastidores, cresce a inquietação. Mandatários pressionam, reavaliam posições e, sobretudo, evitam compromissos definitivos. É o movimento típico de momentos de incerteza: ninguém quer ficar do lado errado da história eleitoral.
E, hoje, tanto MDB quanto União Progressista caminham exatamente sobre essa linha de risco.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.