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Ratinho fora do jogo

Por Cláudio Prisco Paraíso
25/03/2026 - 08h41

A decisão de Ratinho Júnior de não disputar a Presidência da República nunca surpreendeu este articulista — tratava-se de uma hipótese pouco plausível desde a origem. Jamais foi levada a sério, como de fato não deveria ser.

O que, de fato, causa estranheza é a extensão dessa retirada: ao abdicar também de uma candidatura ao Senado, praticamente assegurada diante de índices de aprovação na casa dos 85%, o governador paranaense rompe a lógica política mais elementar.

O movimento desorganiza o tabuleiro do PSD, frustra expectativas nacionais e produz efeitos colaterais relevantes — inclusive em Santa Catarina, onde João Rodrigues insiste em uma candidatura ao governo.

Mesmo sem apoio, sem discurso e sem projeto.



Frustração

Desde o início, a pré-candidatura presidencial de Ratinho Júnior era ventilada, mas jamais se apresentou como consistente. Ainda assim, Gilberto Kassab apostava no seu nome: jovem, gestor bem avaliado e à frente de um estado cuja pujança econômica hoje supera a de Rio Grande do Sul e Goiás, governados por Eduardo Leite e Ronaldo Caiado, respectivamente — ambos recém-filiados ao PSD.

Havia, portanto, uma construção política em curso.

E ela foi abruptamente interrompida.



Incomum

O que realmente destoa dos ritos tradicionais da política brasileira é a recusa ao Senado. Com capital político consolidado, seria uma eleição protocolar — uma vaga praticamente assegurada ao PSD.

Ao optar por concluir o mandato e retornar às atividades empresariais da família, Ratinho Júnior adota um caminho sem paralelo recente.

Não se trata de gesto trivial.
Tampouco de decisão meramente administrativa.



Família

O próprio governador explicitou que a decisão foi tomada em reunião familiar, e não política.

Esse detalhe é revelador.

Ao falar em “família”, não se restringe ao núcleo doméstico. Envolve, sobretudo, o grupo empresarial liderado por Ratinho, seu pai, com forte presença no setor de comunicação.

Nesse contexto, a dimensão empresarial parece ter pesado mais do que qualquer cálculo partidário.



Ruídos

Há elementos sensíveis no entorno de Ratinho Jr. que certamente seriam explorados em uma campanha.

Entre eles, a transferência recente de negócios familiares para o Paraguai, com evidente impacto tributário, e a associação envolvendo familiares do ministro Dias Toffoli em empreendimento no setor hoteleiro no Paraná.

São pontos de desgaste potencial.

Isoladamente administráveis.
Mas politicamente incômodos — e, ao que tudo indica, difíceis de explicar em ambiente eleitoral.



Interrogação

Ao declinar também de compor como vice — hipótese cogitada em uma eventual chapa com Flávio Bolsonaro —, o governador amplia o campo de dúvidas.

A pergunta é inevitável: qual será seu posicionamento?



Caminho

A permanência no PSD indicaria, em tese, apoio natural a Ronaldo Caiado.

Mas há outras possibilidades:
• alinhar-se ao campo de Flávio Bolsonaro, o que implicaria ruptura partidária;
• adotar neutralidade, hipótese que, em política, raramente é neutra.

Quando há silêncio, normalmente há estratégia.



Bastidores

Nesse ambiente, ressurgem especulações sobre aproximações pretéritas com Luiz Inácio Lula da Silva — especialmente encontros que envolveram o próprio Ratinho e seu filho.

Um eventual entendimento, ainda que indireto, poderia ajudar a explicar a decisão de retração, sobretudo considerando interesses empresariais sensíveis, como concessões de radiodifusão, que dependem do governo federal.

Não há confirmação.

Mas a sequência dos fatos recomenda cautela — e atenção aos sinais.



Reflexos em SC

Em Santa Catarina, o impacto é imediato.

A retirada de Ratinho Júnior esvazia ainda mais o já fragilizado projeto de João Rodrigues.

O prefeito de Chapecó sustentava sua pré-candidatura ao governo, em parte, na expectativa de um palanque nacional com o paranaense. Sem essa referência, perde densidade política e narrativa estratégica — algo que, por si só, já era escasso.



Isolamento

A tentativa de recomposição — com movimentos em direção ao MDB e à União Progressista — ocorre em um ambiente já fragilizado por ruídos internos no PSD.

A ausência de um nome nacional competitivo agrava o isolamento.

A eventual substituição por Ronaldo Caiado não produz o mesmo efeito simbólico nem geopolítico. São perfis distintos, com inserções regionais diferentes.



Efeito Jorginho

O principal beneficiado é o governador Jorginho Mello.

A fragilização do adversário potencial fortalece sua caminhada à reeleição.

No plano nacional, a tendência de consolidação de uma chapa com Flávio Bolsonaro e Romeu Zema reproduz, em certa medida, a aliança já firmada em Santa Catarina entre PL e Novo — com Jorginho Mello e Adriano Silva.



Conclusão

Desistir da Presidência era previsível.

Abrir mão do Senado, não.

A decisão de Ratinho Júnior foge ao padrão, tensiona o PSD e redesenha o jogo político — com efeitos que extrapolam o Paraná e chegam, com força, ao tabuleiro catarinense.

Resta observar os próximos movimentos.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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