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Santa Catarina ignorada

Por Cláudio Prisco Paraíso
13/06/2026 - 08h33

A confirmação da terceira visita de Lula da Silva a Santa Catarina, desde o início do atual mandato, acaba reforçando uma leitura política cada vez mais evidente: o governo federal continua tratando o estado com absoluto distanciamento institucional e seletividade política.

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O Palácio do Planalto confirmou para a última semana de junho mais uma agenda presidencial em território catarinense. E novamente em Itajaí.

Vale refrescar a memória.

A primeira visita de Lula ocorreu em agosto de 2024. Na ocasião, passou rapidamente por Florianópolis para a inauguração do Contorno Viário — aquele que atrasou 12 anos — e, em seguida, seguiu para Itajaí, onde participou do lançamento da Fragata Tamandaré.

Porto seguro

A segunda agenda aconteceu em maio de 2025. Mais uma vez em Itajaí. O presidente foi anunciar a retomada das operações e novos investimentos no porto da cidade.

Agora, no fim deste mês, Lula retorna novamente ao município do Litoral Norte para participar da cerimônia de incorporação de outra fragata da Marinha.

Ou seja: das três visitas presidenciais ao estado, nas três Itajaí esteve no roteiro.

Geografia eleitoral

Administrativamente, evidentemente existe explicação institucional para as agendas envolvendo porto e Marinha. Mas há uma leitura política impossível de ignorar.

Itajaí é a terra natal de Décio Lima. É onde reside o amigo pessoal e compadre de Lula da Silva. A família de Décio permanece na cidade. Seus pais residem em Itajaí.

Peixeiro

Décio, aliás, já foi superintendente do porto durante a gestão de Volnei Morastoni, à época prefeito petista no município.

Fora Itajaí, Lula restringiu sua presença em Santa Catarina praticamente a Florianópolis.

Ilha de SC

E Florianópolis, politicamente, sempre foi um ponto fora da curva dentro do mapa eleitoral catarinense. Capital administrativa, fortemente vinculada ao funcionalismo público, às universidades e aos setores mais simpáticos à esquerda, é uma das raras cidades do estado onde Lula e os candidatos petistas historicamente apresentam desempenho eleitoral competitivo.

Ponto esquerdista

Não por acaso, durante toda a campanha presidencial de 2022, antes de ser eleito, Lula fez apenas um ato eleitoral em Santa Catarina. E foi justamente em Florianópolis.

A pergunta inevitável é: para Lula da Silva, Santa Catarina se resume a Florianópolis e Itajaí?

Estado invisível

Cidades de enorme relevância econômica e eleitoral seguem completamente fora do radar presidencial.

Joinville, maior município catarinense, motor industrial do estado e símbolo da pujança econômica catarinense, jamais entrou na rota presidencial petista.

Blumenau, terceira maior cidade e principal polo do Médio Vale, além de uma das regiões mais bolsonaristas do Brasil, igualmente segue ignorada.

Tudo roteirizado

Coincidência? Difícil acreditar.

Até porque o próprio Décio Lima construiu sua carreira política em Blumenau. Foi vereador e depois prefeito por dois mandatos.

Sua esposa, Ana Paula Lima, atual deputada federal, disputou duas vezes a prefeitura blumenauense e bateu na trave em ambas.

Chá de sumiço

Desde então, o PT praticamente desapareceu eleitoralmente da cidade.

Aliás, o legado político da gestão de Décio Lima em Blumenau continua produzindo efeitos até hoje. O partido nunca mais conseguiu eleger prefeito no município e passou a enfrentar enorme dificuldade até para formar quadros proporcionais competitivos.

Pinus elliottii

Tanto que, além do próprio Décio e de Ana Paula, o PT nunca mais conseguiu consolidar novas lideranças relevantes na cidade.

Hoje, Santa Catarina já vive a terceira legislatura consecutiva com quatro deputados estaduais petistas — todos do Oeste catarinense.

Vácuo

Na Câmara Federal, Ana Paula Lima só voltou a conquistar mandato porque o PT catarinense tinha apenas Pedro Uczai como representante, já em seu terceiro mandato consecutivo, igualmente oriundo do Oeste.

Porto, JBS e Merisio

Quando se fala em investimentos federais, o discurso oficial também começa a perder força diante da realidade. Anunciam-se bilhões para Santa Catarina, mas quais investimentos efetivamente estruturantes e públicos foram realizados pelo governo federal?

A retomada do Porto de Itajaí, por exemplo, ocorre essencialmente pela via da iniciativa privada.

Empresa monopolista

Quem assumiu o controle da estrutura portuária foi a JBS.

E aqui existe outro componente político relevante. O ex-presidente da Assembleia Legislativa, Gelson Merisio, apontado como nome da esquerda para a disputa ao governo catarinense em 2026 pelo PSB, integra os quadros da empresa há vários anos.

Não tem almoço grátis

O simbolismo político é inevitável.

Além do porto e das agendas envolvendo as fragatas da Marinha, sobra o quê?

A inauguração do Contorno Viário da Grande Florianópolis, obra executada com recursos privados — o seu, o meu, o nosso dinheiro arrecadado pelos pedágios.

O estado paga

A grande verdade é que Santa Catarina segue vivendo exatamente o mesmo cenário enfrentado durante o governo Jair Bolsonaro.

Mudou o presidente. Mudou o discurso ideológico. Mas o tratamento dispensado ao estado permanece rigorosamente igual.

Santa Catarina continua olimpicamente ignorada por Brasília.

Modelo catarinense

É o estado que funciona. O estado organizado. O estado que faz o dever de casa. O estado padrão da federação brasileira.

E justamente por isso acaba negligenciado pela União.

Santa Catarina segue recebendo menos de 10% em investimentos federais daquilo que arrecada e envia a Brasília em tributos.

Abismo

Além da evidente distância ideológica entre o eleitorado catarinense e o lulismo, existe também uma lógica histórica de concentração política dos investimentos federais em regiões mais dependentes da União.

Na prática, Santa Catarina acaba sendo punida por sua eficiência econômica, por sua organização fiscal e por sua capacidade produtiva.

Premia-se quem não faz o dever de casa.

Nada mais antipedagógico.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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