Aquecimento global reduz locais confiáveis para competições e obriga organizadores a recorrerem cada vez mais à tecnologia
Os organizadores irão produzir cerca de 2,4 milhões de metros cúbicos de neve artificial - Foto: Odd Andersen As Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina, na Itália, que começaram nesta sexta-feira, 06 de fevereiro, evidenciam de forma clara os impactos das mudanças climáticas sobre o esporte. Dados reunidos pelo Instituto Talanoa apontam que 85% da neve utilizada nas competições de 2026 será artificial, uma tendência que vem se intensificando desde os Jogos de Sochi, em 2014.
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Para viabilizar as provas, os organizadores irão produzir cerca de 2,4 milhões de metros cúbicos de neve artificial, processo que exige aproximadamente 946 milhões de litros de água. O volume é comparável a encher o estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, com um terço de sua capacidade. Mais de 125 canhões de neve foram instalados em locais como Bormio e Livigno, apoiados por grandes reservatórios de água em áreas de altitude.
A dependência da tecnologia para garantir as pistas tornou-se regra nos Jogos de Inverno recentes. Em Sochi (2014), cerca de 80% da neve foi produzida artificialmente. Em PyeongChang (2018), o índice chegou a 98%, enquanto em Pequim (2022) todas as competições ocorreram exclusivamente com neve artificial.
Paralelamente, o número de localidades consideradas climaticamente confiáveis para sediar os Jogos vem diminuindo rapidamente. Entre 1981 e 2010, 87 locais atendiam a esses critérios. As projeções indicam que esse número pode cair para 52 na década de 2050 e para apenas 46 até 2080, mesmo em um cenário intermediário de redução das emissões de gases do efeito estufa.
Segundo o Instituto Talanoa, os impactos vão além do esporte. A redução da neve natural compromete o papel da neve como reservatório de água, reduz a vazão de rios, pressiona reservatórios, afeta o turismo de montanha e provoca desequilíbrios em ecossistemas adaptados ao frio, com reflexos diretos em economias locais.
Criados em 1924, nos Alpes franceses, os Jogos Olímpicos de Inverno nasceram da abundância de neve natural em regiões de montanha e altas latitudes. Um século depois, os dados indicam que, sem máquinas, canhões de neve e grandes volumes de água, o evento dificilmente seria realizado, tornando-se um símbolo de como as mudanças climáticas estão remodelando tradições globais consolidadas.