A sessão especial realizada pela Assembleia Legislativa na noite de segunda-feira, em homenagem aos 60 anos do MDB catarinense, produziu muito mais do que celebrações históricas ao velho Manda Brasa. O evento acabou se transformando numa demonstração pública de como a política de Santa Catarina está sendo reorganizada para 2026 — e também numa fotografia eloquente das contradições dessa nova composição.
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A solenidade ocorreu por iniciativa do deputado estadual Mauro De Nadal e reuniu praticamente todo o universo político catarinense. Estavam presentes emedebistas históricos, fundadores da sigla, ex-parlamentares, lideranças tradicionais e representantes de partidos que, durante décadas, fizeram oposição cerrada ao MDB.
Mas houve uma presença específica que monopolizou atenções. Esperidião Amin roubou a cena. E não por acaso.
Durante mais de quatro décadas, Amin foi, disparado, o principal adversário político do MDB em Santa Catarina. Jorge Bornhausen e Vilson Kleinübing tiveram enfrentamentos importantes contra os emedebistas, mas nenhum deles alcançou o nível de antagonismo político representado por Amin desde os anos 1980.
Sinal dos tempos
A presença do senador progressista circulando sorridente pelos corredores da Alesc, conversando descontraidamente com lideranças emedebistas e, principalmente, tratando o presidente estadual do MDB, deputado federal Carlos Chiodini, como “companheiro de jornada”, produziu uma cena que até poucos anos atrás pareceria absolutamente impensável.
Inimigos
Porque, para uma parcela expressiva dos antigos emedebistas, Esperidião Amin nunca foi visto apenas como adversário político. Em muitos momentos, era tratado efetivamente como inimigo político. E “mortal”.
As batalhas históricas
A rivalidade não nasceu ontem. Esperidião Amin enfrentou diretamente o MDB em quatro disputas pelo governo do Estado. Venceu as duas primeiras.
Em 1982, no restabelecimento das eleições diretas para os governos estaduais, derrotou Jaison Barreto. Depois, em 1998, venceu Paulo Afonso Vieira.
Fator LHS
Na sequência, sofreu duas derrotas consecutivas para Luiz Henrique da Silveira: em 2002, quando buscava a reeleição ao governo do Estado, e novamente em 2006.
Mas, curiosamente, o contencioso político mais intenso de Amin não foi exatamente com Luiz Henrique. Foi com Paulo Afonso Vieira.
Ausência justificada
Paulo Afonso, que não compareceu à solenidade porque estava em viagem ao exterior, protagonizou com Amin alguns dos confrontos mais duros da política catarinense contemporânea.
Foi Paulo Afonso quem derrotou Angela Amin no segundo turno de 1994. E, quatro anos depois, recebeu o troco do próprio Esperidião Amin. Foram enfrentamentos antológicos, daqueles que marcaram época na política estadual.
PSD presente
O evento também reuniu lideranças do PSD, partido que historicamente construiu uma relação muito mais próxima com o MDB neste século.
Estavam presentes o presidente da Assembleia Legislativa, Júlio Garcia, e o ex-governador Raimundo Colombo.
Sangue misturado
Colombo, aliás, foi eleito duas vezes governador com apoio decisivo do MDB, numa engenharia política conduzida por Luiz Henrique da Silveira, que já havia ajudado na eleição do próprio Colombo ao Senado, em 2006, quando LHS conquistava a reeleição ao governo estadual.
Aliança desenhada
A presença dos pessedistas reforçou aquilo que já se desenha claramente nos bastidores: a consolidação de uma futura composição entre PSD, MDB e PP para 2026.
Aliança sem convicção
Mas há um detalhe essencial nessa engenharia política. Ela não nasce de afinidade ideológica, nem de identidade programática, tampouco de convergência histórica. Nasce da exclusão. Nasce da conveniência.
Fórmula original
PP e MDB caminhavam naturalmente para permanecer na órbita do governador Jorginho Mello. O espaço de ambos estava reservado no projeto de reeleição do atual governador. E ali estariam.
Perspectiva reeleitoral
Ainda mais tratando-se de um projeto de continuidade administrativa, algo que tradicionalmente facilita acomodações políticas. Mas a equação mudou.
MDB e PP sentiram-se preteridos na composição majoritária diante do avanço de Adriano Silva e da influência do clã Bolsonaro no desenho político do governador. Resultado: aproximaram-se de João Rodrigues.
Registro histórico
E é exatamente isso que explica a imagem mais emblemática da noite: Esperidião Amin circulando como aliado do MDB dentro da festa dos 60 anos do partido que ele combateu ferozmente por décadas.
A dúvida
A grande pergunta, entretanto, permanece sem resposta. Os antigos emedebistas aceitarão plenamente essa aliança? Luiz Henrique da Silveira e Casildo Maldaner, se vivos estivessem, avalizariam essa composição política?
Até que ponto a base histórica do MDB votará em Esperidião Amin para o Senado?
Incógnita
A resistência não é apenas dentro do MDB. Hoje, setores do próprio PP já questionam internamente se acompanharão Esperidião Amin numa composição eleitoral ao lado dos emedebistas. Nas bases, a rivalidade segue praticamente intocada.
Missão delicada
A fotografia da Alesc foi poderosa politicamente. Mostrou maturidade institucional, pragmatismo eleitoral e capacidade de composição.
Mas também deixou evidente que PSD, MDB e PP carregam um desafio gigantesco pela frente: transformar uma aliança circunstancial em palanque eleitoral consistente. E harmônico.
Para os holofotes
Porque uma coisa é dividir o mesmo evento institucional. Outra, completamente diferente, é convencer bases históricas — moldadas durante décadas em confrontos políticos duríssimos — a marcharem juntas nas urnas.
E este talvez seja o principal teste político dessa futura aliança para 2026.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.
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