O PSD decidiu jogar em todos os tabuleiros ao mesmo tempo — e corre o risco de não vencer em nenhum. A filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao partido de Gilberto Kassab amplia a vitrine nacional da sigla, mas também escancara sua maior fragilidade histórica: a dificuldade de assumir uma identidade política clara em um ambiente cada vez mais polarizado.
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O movimento repercute diretamente em Santa Catarina, onde o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, já enfrentava dificuldades para sustentar um projeto competitivo ao governo do Estado. Agora, além dos ruídos regionais, ele passa a carregar nas costas a confusão estratégica de um partido que tem ministérios em Brasília e pré-candidatos que discursam como oposicionistas.
Três nomes, nenhum rumo
O PSD passa a reunir três governadores colocados, em maior ou menor grau, no debate presidencial: Ratinho Júnior (PR), Eduardo Leite (RS) e Ronaldo Caiado (GO). Cada um representa um tom diferente de oposição ao governo Lula.
Perfis
Eduardo Leite adota uma linha crítica moderada. Ratinho Júnior sobe um pouco o volume. Caiado chega com disposição explícita de confronto. O problema é que todos convivem sob o mesmo guarda-chuva partidário que ocupa três ministérios no governo federal e não dá sinais de desembarque.
Espaço
Na prática, o PSD tenta ocupar o espaço do “centro viável”, mas seus potenciais candidatos falam para eleitorados distintos — e, em alguns casos, antagônicos.
O centro que não se firma
Kassab afirma que o partido lançará um nome de centro, sem alinhamento automático nem com Lula nem com o bolsonarismo. A tese é a de que existe um eleitor cansado da polarização. As pesquisas, de fato, mostram esse sentimento.
Diferenças
Mas intenção difusa não é voto consolidado. Quando os cenários são estimulados, os polos continuam concentrando preferência. Foi assim em 2018 e em 2022. O centro político brasileiro tem discurso, mas ainda não demonstrou musculatura eleitoral consistente.
Zero convicção
Ficar “em cima do muro” pode parecer estratégia, mas frequentemente soa como falta de convicção. E partidos percebidos como excessivamente pragmáticos acabam reféns das circunstâncias regionais.
Liberou geral
Historicamente, o PSD funciona como uma confederação de interesses estaduais. A tendência é repetir a lógica: palanque com a esquerda onde convém, aliança com a direita onde for mais vantajoso. Nacionalmente, isso preserva musculatura parlamentar. Eleitoralmente, dilui identidade.
Opção
Esse modelo pode garantir sobrevivência partidária, mas dificulta a construção de um projeto presidencial competitivo. E a desorganização nacional inevitavelmente respinga nos estados.
O efeito colateral em SC
É nesse cenário que João Rodrigues tenta se viabilizar como candidato ao governo. Seu discurso oscilou: de um bolsonarismo enfático para uma tentativa de ocupar um espaço de “centro” que, na prática, já tem dono no Estado — e não é ele.
Liderança
O eleitorado conservador catarinense gravita majoritariamente em torno de Jorginho Mello. Já o campo da esquerda tende a buscar um nome competitivo, com perfil conservador.
Merisio muda o jogo
O cenário se complica ainda mais com a movimentação de Gelson Merisio no campo da esquerda. Ele, que já foi candidato identificado com a direita, hoje é visto como alternativa viável por setores canhotos e ainda mantém pontes com o eleitorado do Oeste.
Pedra no caminho
Isso cria um fenômeno raro: um nome que pode reduzir o espaço de crescimento de João Rodrigues tanto à direita quanto no centro, além de bloquear a fantasia de uma migração de votos da esquerda em um segundo turno.
No mato sem cachorro
Nos bastidores, já se fala na possibilidade de João Rodrigues recuar para uma disputa ao Senado. O problema é que, se ele não encabeça a chapa majoritária, o PSD catarinense fica sem um nome natural ao governo. E não há, hoje, uma liderança estadual pronta para assumir esse protagonismo.
O partido repete, em Santa Catarina, o mesmo dilema que enfrenta nacionalmente: presença, estrutura, tempo de TV — mas nenhuma narrativa unificadora.
Identidade em xeque
O PSD cresceu sendo versátil. Em 2026, pode-se descobrir que versatilidade demais se confunde com indefinição. Em um ambiente político em que o eleitor busca referências claras, a sigla corre o risco de parecer grande por fora e oca por dentro.
E João Rodrigues, que já enfrentava obstáculos próprios, agora precisa sobreviver também às contradições do partido que escolheu como abrigo.
Se há uma característica que define Gelson Merisio na política catarinense, é a capacidade de articulação. Foi assim na Assembleia Legislativa, foi assim na construção de sua candidatura ao governo em 2018 e é assim agora, no movimento de retorno ao centro do debate eleitoral, sinalizado de forma clara em sua festa de aniversário, transformada em ato político.
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Merisio construiu sua trajetória como deputado estadual por três mandatos e presidiu a Alesc em três oportunidades. Ainda durante o ciclo dos governos Raimundo Colombo, consolidou influência política a ponto de viabilizar, com rapidez e estrutura, sua candidatura ao governo pelo PSD. Naquele período, havia uma combinação favorável: ele no comando do Legislativo e seu cunhado, o advogado Antônio Gavazzoni, em posição estratégica na Secretaria da Fazenda, com forte protagonismo na condução administrativa do Estado. Essa engrenagem política facilitou a montagem de um projeto majoritário.
Mas esse mesmo movimento ajudou a implodir a aliança histórica entre PSD e MDB.
A parceria
Até 2018, Raimundo Colombo havia vencido todas as disputas majoritárias com o MDB ao seu lado — em 2006, como senador na chapa de Luiz Henrique; e em 2010 e 2014, como governador, tendo Eduardo Pinho Moreira de vice. A parceria era um dos pilares da estabilidade política do período.
A ruptura
O rompimento, porém, ocorreu quando Merisio decidiu manter sua candidatura ao governo em 2018, mesmo com o MDB já tendo como nome natural o deputado federal Mauro Mariani. O que poderia ser uma transição negociada virou confronto aberto. A divisão enfraqueceu os dois lados e abriu espaço para a onda bolsonarista que acabou levando Carlos Moisés ao segundo turno, deixando Mariani de fora, com Merisio fazendo menos votos do que no primeiro round.
Novo ciclo
Aquela eleição não apenas encerrou um ciclo de poder como também isolou Gelson Merisio politicamente. Ele se afastou da vida pública, voltou-se à iniciativa privada e passou a atuar como conselheiro empresarial, mantendo, porém, a interlocução política nos bastidores.
O retorno pelo campo da esquerda
O cenário agora é outro. O Merisio que ressurge não é mais o líder de centro-direita de 2018. Ele retorna com forte inclinação a integrar um projeto de centro-esquerda, muito provavelmente pelo PSB, alinhado ao palanque do presidente Lula em Santa Catarina.
Cabeça
Nos bastidores, seu nome é tratado como peça-chave na montagem de uma chapa em que disputaria o governo, enquanto Décio Lima buscaria o Senado. A articulação não é improvisada: Merisio teve papel relevante na engenharia política da campanha de Décio em 2022, quando o PT chegou pela primeira vez ao segundo turno em Santa Catarina.
Recado
A festa de aniversário, portanto, funcionou como vitrine desse novo posicionamento — e como demonstração de que ele mantém trânsito entre diferentes campos políticos.
Escola de articulação
A habilidade de Merisio não surgiu por acaso. Ao chegar à Assembleia, aproximou-se de Júlio Garcia, uma das figuras mais experientes do Parlamento catarinense, conhecido justamente pela capacidade de costura política. Júlio, por sua vez, foi formado na tradição de lideranças como Jorge Bornhausen, referência histórica da articulação de bastidores em Santa Catarina e no Brasil. Merisio é herdeiro direto dessa linhagem de operadores políticos.
Esse repertório explica como, mesmo após anos fora de mandatos, ele consegue voltar ao centro das conversas com rapidez e densidade.
MDB: ponte improvável
Apesar de ter boa interlocução com setores emedebistas, a filiação de Merisio ao MDB é considerada inviável. O episódio de 2018 ainda pesa, e a maior parte da cúpula do partido hoje mantém alinhamento com o governador Jorginho Mello, mesmo sem participação formal na chapa majoritária.
Divisão
As bases do MDB vão se pulverizar em relação às várias candidaturas, e a estrutura de poder interna também está fracionada. Parte tende a acompanhar o governo; outra pode buscar alternativas, seja com João Rodrigues, seja com Merisio. Nesse contexto, uma candidatura própria do MDB ao governo é vista como pouco provável ou, se ocorrer, com alto risco de isolamento.
Reinvenção
O movimento de Gelson Merisio é, ao mesmo tempo, retorno e reinvenção. Ele reaparece com o mesmo talento para articulação que marcou sua ascensão, mas agora em um campo ideológico diferente e em um cenário muito mais fragmentado.
Desafio
Se conseguirá transformar essa habilidade em viabilidade eleitoral, é uma equação que dependerá do ambiente nacional, da consolidação do palanque de esquerda no Estado e da capacidade de unir forças que historicamente caminharam separadas. O que já é certo é que Merisio deixou de ser personagem do passado. Voltou a ser ator do presente — e potencial protagonista de 2026.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.