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Fazendo a roça

Por Cláudio Prisco Paraíso
05/03/2026 - 08h03

A semana começou em Santa Catarina com a expectativa de uma movimentação robusta na Assembleia Legislativa. Falava-se em até dez deputados estaduais prontos para mudar de partido na janela que se abre nesta quinta-feira e vai até 4 de abril — exatamente seis meses antes das eleições. Estamos falando da possibilidade de um quarto da composição do Parlamento em trânsito.

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Mas, antes mesmo da abertura formal da janela, o principal movimento previsto foi sustado. E não por acaso.

O deputado Carlos Humberto, de Balneário Camboriú e região, permanece no Partido Liberal. A decisão foi sacramentada após longa conversa com o governador Jorginho Mello, tendo como testemunha o prefeito de Itajaí, Robison Coelho. Carlos Humberto vinha sendo cortejado insistentemente pelo governador.



Trajetória

Aliado histórico, acompanha Jorginho desde os tempos do antigo Partido da República. No ano retrasado, foi impedido de disputar a prefeitura de Balneário Camboriú — era o nome natural do partido e favoritíssimo — após interferência direta de Jair Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, que pressionaram para que o então prefeito Fabrício de Oliveira indicasse o sucessor. Um desastre, aliás.



Fator decisivo

O desfecho é conhecido: Carlos Humberto apoiou Juliana Pavan, que venceu a eleição, e o PL perdeu uma das mais simbólicas prefeituras catarinenses.

Contrariado, o deputado já estava decidido a migrar para o PSD. Jorginho agiu. Garantiu-lhe protagonismo regional e a candidatura à reeleição sem a sombra de Fabrício de Oliveira — hoje secretário do Planejamento do Estado —, que deve deixar o PL e buscar abrigo no Republicanos para disputar vaga à Câmara Federal.



Retorno

Com isso, Carlos Humberto reassume o comando partidário em sua base e permanece no PL. Movimento defensivo com efeito estratégico.



Baixa isolada

A única perda efetiva do PL na Assembleia será Nilso Berlanda, de Curitibanos. Ele assinará ficha no Partido Social Democrático.

Trata-se, até aqui, da única defecção do arco de influência do governador em direção à oposição. Um movimento pontual, que não altera o eixo de poder no Parlamento.



Reforço liberal

Se há uma saída, há múltiplas entradas nas fileiras liberais. Júnior Cardoso, hoje no Partido Renovação Democrática, já confirmou filiação ao PL. O mesmo caminho foi trilhado por Marcos da Rosa, que deixa o União Brasil.



Alcance

A expectativa é que Jair Miotto também migre para a trincheira liberal. E há ainda Camilo Martins, atualmente no Podemos, em rota semelhante.

Se confirmadas essas adesões, o PL não apenas preserva Carlos Humberto como amplia significativamente sua bancada.



Braço aliado

Parte dessas movimentações orbita o Republicanos, legenda que, na prática, funciona como extensão política do PL em Santa Catarina. O partido tem como principal liderança no Estado o deputado federal Jorge Goetten e conta com a vice-presidência de Juca Mello, irmão do governador.

Lucas Neves vai seguir para o Republicanos, e Sérgio Guimarães está muito perto de buscar o mesmo rumo. Só que a reunião de ontem com Fábio Schiochet abriu novas perspectivas, seguida de uma rodada com o presidente da Assembleia, Júlio Garcia. O PSD se comprometeu de reforçar a chapa do União Brasil.



União esvaziado

O maior prejudicado pode ser o União Brasil, que ficaria apenas com Guimarães, perdendo dois parlamentares na Assembleia.



Recalculando

Vicente Caropreso, que já havia sinalizado mudança em direção ao União, passou a repensar o destino. Chegar a uma sigla com bancada fragilizada seria um movimento de elevado risco. Ele próprio já conversou com Jorginho Mello.



Base ampliada

Por fim, ainda há especulações em torno de Pepê Collaço, do Progressistas, que poderia aproveitar a janela e mudar de endereço.



Coordenação

O que se vê é um movimento coordenado. Jorginho Mello está, politicamente, “fazendo a roça”: limpa dissidências, recompõe aliados estratégicos e amplia sua base parlamentar.



Poder

A janela partidária, que tradicionalmente produz incertezas, desta vez tende a consolidar poder. E isso, evidentemente, não é um movimento isolado. É parte estruturante do projeto de reeleição do governador.

Em política, quem controla a janela controla o ambiente. E, ao que tudo indica, o Palácio Residencial já fechou a janela antes mesmo de ela se abrir.

Minas Decide

Por Cláudio Prisco Paraíso
04/03/2026 - 07h45

A história eleitoral brasileira ensina, sem margem para romantismo: quem ignora Minas Gerais costuma pagar a conta na apuração final. São Paulo e Minas somam algo próximo de 35% do eleitorado nacional. Nenhum projeto presidencial competitivo prescinde desse eixo. Nunca prescindiu. O próprio PT sempre levou esse componente histórico muito a sério.

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A chamada política do “café com leite” pode ter ficado nos livros de História do século passado, mas sua lógica — a centralidade mineiro-paulista — segue absolutamente viva e real, influenciando os destinos do país.

Senão, vejamos. Quando Lula da Silva venceu em 2002, escolheu como vice o empresário mineiro José Alencar. Não foi apenas um gesto regional. Foi uma mensagem política e econômica: moderação, diálogo com o setor produtivo e tranquilidade institucional.



Replay

Lula repetiu a fórmula em 2006, mantendo José Alencar na vice. Depois, ao eleger Dilma Rousseff — mineira de nascimento — manteve a sintonia estratégica com Minas. E, quando Dilma compôs com Michel Temer, paulista, reafirmou o eixo decisório entre os dois maiores colégios eleitorais. São Paulo–Minas, Minas–São Paulo.

Há um dado que pesa: nenhum presidente foi eleito no Brasil sem vencer em Minas Gerais.



Aécio e o símbolo

Em 2014, Aécio Neves, ex-governador mineiro por dois mandatos e então senador, perdeu a eleição presidencial — e foi derrotado inclusive em seu próprio estado.

A lição foi cristalina: Minas não é detalhe geográfico; é variável determinante em qualquer pleito nacional.



Alckmin em 2022

Na volta ao poder em 2022, Lula precisou reconstruir pontes após o período de condenação e prisão. Escolheu Geraldo Alckmin, ex-governador paulista, de perfil moderado, para sinalizar estabilidade institucional e afastar temores de revanchismo.



Manutenção?

Hoje, fala-se em eventual troca de vice. Mas Lula enfrenta escassez de nomes com densidade eleitoral em Minas dentro do MDB. Alternativas como Helder Barbalho ou Renan Filho têm peso regional no Nordeste, onde Lula já é forte, mas não agregam competitividade em Minas Gerais.

Mexer em Alckmin pode custar caro. O paulista, portanto, tem fortes chances de permanecer na chapa.



Movimento da Direita

É nesse contexto que ganha relevância a aproximação pública entre Flávio Bolsonaro e o governador mineiro Romeu Zema. A imagem dos dois lado a lado na Avenida Paulista não foi casual. Foi ensaiada.

Assim como Lula, em 2002, buscou um empresário mineiro para transmitir confiança, Flávio precisa compensar sua ausência de experiência executiva. Foi deputado estadual e hoje é senador. Nunca administrou uma máquina pública.



Perfil

Zema, ao contrário, é governador reeleito, com aprovação consistente, empresário com trajetória no setor privado e experiência no Executivo. Soma credenciais administrativas e entrega o que é vital: competitividade em Minas.



Virada

Em 2022, Jair Bolsonaro perdeu Minas por margem apertada. A direita sabe que precisa virar esse jogo. Nenhum nome agrega tanto a uma eventual chapa presidencial de Flávio quanto Romeu Zema.

Se confirmada, a escolha será técnica, eleitoral e simbólica.



Reflexo em SC

Há outro componente relevante nesse xadrez. A equação nacional dialoga diretamente com Santa Catarina. O governador Jorginho Mello terá como vice o prefeito de Joinville, Adriano Silva, principal liderança estadual do Partido Novo.



Verticalização

Se Zema — também filiado ao Novo — integrar a chapa presidencial da direita, cria-se uma verticalização orgânica entre Brasília e Florianópolis.

As duas maiores vitrines do Novo no país estariam associadas aos projetos do Partido Liberal tanto no plano nacional quanto no estadual.

Isso não é detalhe partidário. É estratégia eleitoral coordenada.



Minas é a chave

A disputa presidencial de 2026 tende a ser resolvida no Sudeste. E, dentro dele, Minas permanece como fiel da balança.

A direita aprendeu com a história. Lula sempre soube disso. Agora é a vez de Flávio Bolsonaro aplicar a mesma lógica.

Quem ganhar Minas estará com a mão na taça? A conferir.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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