A Havaianas sempre foi um símbolo popular do Brasil. Justamente por isso causa indignação ver uma marca desse porte optar por envolver militância ideológica, ainda que de forma disfarçada, mas covarde — típica estratégia de quem quer provocar sem assumir o ônus da provocação.
:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui
O recente comercial onde a atriz Fernanda Torres, que sempre admitiu ter viés político de esquerda, não é ingênuo. A escolha do texto, do tom e do jogo de palavras envolvendo a expressão “não entrar o ano com o pé direito” ocorre num país profundamente polarizado. Fingir desconhecimento disso é subestimar nossa inteligência.
A atriz, que há anos se posiciona favorável ao PT, Lula e sempre teve favorecimento com a Lei Rouanet, também não é uma escolha neutra. Ela foi escolhida a dedo, com certeza, para se prestar a esse papel ridículo. Afinal em uma campanha de marketing tudo é muito bem calculado. Quem diz que não há intenção política nessa combinação mente ou faz de conta.
O que incomoda não é a existência de posicionamento. O problema é a militância envergonhada, aquela que provoca. A reação de consumidores conservadores e de direita é legítima e fomentar o boicote nesse caso não é extremismo, mas liberdade de escolha.
Da mesma forma que marcas escolhem discursos, consumidores escolhem onde gastar seu dinheiro. Isso é mercado. Isso é democracia. O que não é democrático é tratar qualquer reação da direita como histeria ou ignorância, enquanto militância explícita de esquerda é romantizada como engajamento social.
A direita brasileira está cansada de ser alvo de ironias travestidas de humor inteligente. Está cansada de pagar a conta de empresas que usam símbolos populares para agradar uma elite ideológica que despreza justamente o consumidor médio que sustenta essas marcas. Se a Havaianas quer fazer ativismo que faça às claras e assuma sua responsabilidade.
As redes sociais se consolidaram como uma das maiores ferramentas de comunicação da história recente. Nunca foi tão fácil participar do debate público. Esse avanço, no entanto, traz junto uma responsabilidade que ainda parece pouco compreendida por parte da sociedade.
:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui
A maioria dos usuários ainda não utilizam esse poder de forma consciente e propositiva. Hoje, especialmente quando o tema é política local, o que se vê com frequência são julgamentos apressados, acusações sem fundamento e comentários movidos muito mais por intolerância do que por informação.
A crítica, quando vazia, não contribui. Ao contrário, apenas desgasta o debate público e afasta soluções. As redes poderiam — e deveriam — ser um espaço de colaboração. Seria muito mais promissor se ao invés te promover ataques a pessoas ou instituições se discutisse mais ideias.
Uma sociedade melhor não se constrói apenas com cobranças, mas com participação qualificada. O poder público, quando provocado com argumentos, dados e propostas, tende a ouvir mais e a agir melhor. Já as acusações infundadas apenas dificulta o diálogo e enfraquece a própria democracia.
A mudança que tanto se deseja — seja para uma cidade melhor, um país mais justo ou um mundo mais equilibrado — passa necessariamente pela politização das pessoas. Politização não no sentido partidário, mas no entendimento do funcionamento da sociedade, dos direitos e deveres de cada um de nós.
Blog do Bordignon
Em 2004, colou grau em jornalismo pela Universidade do Sul de Santa Catarina. É editor da edição impressa da Revista Única e, dos portais, www.lerunica.com.br e www.portal49.com.br.