Fechar [x]
APOIE-NOS
Seara/SC
30 °C
16 °C
Início . Blogs e Colunas .Cláudio Prisco Paraíso

Após a escolha do vice, aliados frustrados recalculam rota em SC

Por Cláudio Prisco Paraíso
05/02/2026 - 08h12

Dez dias depois do anúncio da dobradinha Jorginho Mello (PL) e Adriano Silva (Novo) para a disputa ao governo do Estado, o que predomina entre os partidos que ficaram fora da composição é cautela estratégica. Ninguém correu para a oposição automática, mas também não há gestos de alinhamento irrestrito. O momento é de observação, conversa reservada e avaliação de custo-benefício.

A decisão do governador teve efeito dominó. Ao buscar Adriano Silva — movimento que também neutralizou uma possível investida do PSD sobre o prefeito de Joinville — Jorginho redesenhou o tabuleiro e, inevitavelmente, deixou aliados tradicionais sem o espaço prometido. O caso mais emblemático é o do MDB.

MDB: força estrutural, fragilidade majoritária

Mesmo já não ostentando o título de partido com o maior número de prefeituras — posto hoje ocupado pelo PL — o MDB segue sendo a sigla com maior capilaridade territorial em Santa Catarina. Está organizado nos 295 municípios, possui militância ativa e uma rede histórica de lideranças locais que nenhum outro partido conseguiu replicar com a mesma densidade.

Musculatura histórica

Esse patrimônio político nunca foi ignorado por Jorginho Mello. Ao contrário: durante boa parte do mandato, o governador sinalizou que a vaga de vice estaria reservada aos emedebistas. O acordo, reiterado inclusive de forma pública, acabou atropelado pelo movimento em direção a Adriano Silva.

Opções

O MDB ficou sem o posto que considerava natural — e agora precisa decidir se reage com rompimento, acomodação ou fragmentação interna.

Um gigante que encolheu nas majoritárias

O dilema é agravado por um dado histórico incômodo: o MDB perdeu protagonismo nas disputas majoritárias estaduais. O último governador eleito e reeleito diretamente pela sigla foi Luiz Henrique da Silveira, em 2002 e 2006. Depois disso, o partido participou de vitórias como coadjuvante — com Eduardo Pinho Moreira de vice nas gestões de Raimundo Colombo — mas sem liderar a chapa.

Sem votos

Mesmo quando Moreira assumiu o governo em 2018, foi em mandato-tampão, não por eleição direta. No Senado, as vitórias mais recentes também ficaram para trás. Em outras palavras: a musculatura municipal não tem se convertido em comando de projeto estadual.

Ainda assim, ninguém subestima o MDB. Seu tempo de TV, sua estrutura e sua base de prefeitos e vereadores o tornam peça cobiçada por qualquer candidatura competitiva.

Tendência de divisão interna

Hoje, a leitura predominante nos bastidores é de que o MDB dificilmente caminhará de forma unificada em 2026. Uma ala expressiva, formada por lideranças com participação no governo estadual, tende a manter proximidade com Jorginho Mello. Outra parte olha para alternativas fora do PL.

Nesse campo aparecem dois polos: João Rodrigues (PSD) e Gelson Merisio, que deve se filiar ao PSB e se posicionar no bloco de centro-esquerda.

Isolamento

Se o MDB lançar candidatura própria ao governo, a avaliação corrente é de que o nome corre sério risco de isolamento — o que levaria a um fenômeno clássico da política catarinense: a dispersão informal do partido entre projetos considerados mais viáveis.

Chiodini simboliza o momento do partido

O presidente estadual do MDB, Carlos Chiodini, tornou-se símbolo dessa encruzilhada. Nos últimos dias, foi visto tanto em ambientes ligados a Merisio quanto em conversas com João Rodrigues e outras lideranças de centro-direita.

O movimento não indica indecisão pessoal, mas reflete a tentativa de manter canais abertos enquanto o cenário se consolida. O MDB sabe que, isolado, perde poder de barganha. Unido a um projeto competitivo, volta a ser fiel da balança.

Outros preteridos também observam

Além do MDB, outros partidos que orbitavam a base do governo também adotam postura semelhante: evitam rupturas definitivas e aguardam a evolução do quadro nacional e estadual.

A definição das candidaturas presidenciais e a formação dos palanques terão peso decisivo na escolha dos alinhamentos locais. A eleição catarinense, como já ocorreu em 2018 e 2022, tende a ser fortemente influenciada pelo cenário federal.

Relógio eleitoral

Dois marcos do calendário funcionam como gatilhos para decisões mais firmes: o prazo de desincompatibilização, em 4 de abril, e as convenções partidárias, em agosto. Até lá, o que se verá é intensificação das conversas, gestos calculados e movimentos silenciosos de bastidor.

Feridas abertas

A escolha de Adriano Silva resolveu um problema imediato de Jorginho Mello, mas abriu vários outros no sistema político ao redor. Os aliados que ficaram de fora ainda não bateram o martelo — mas estão, todos, com a calculadora eleitoral na mão.

PSD entre ministérios e palanques – e o labirinto de João Rodrigues

Por Cláudio Prisco Paraíso
04/02/2026 - 08h15

O PSD decidiu jogar em todos os tabuleiros ao mesmo tempo — e corre o risco de não vencer em nenhum. A filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao partido de Gilberto Kassab amplia a vitrine nacional da sigla, mas também escancara sua maior fragilidade histórica: a dificuldade de assumir uma identidade política clara em um ambiente cada vez mais polarizado.

:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui

O movimento repercute diretamente em Santa Catarina, onde o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, já enfrentava dificuldades para sustentar um projeto competitivo ao governo do Estado. Agora, além dos ruídos regionais, ele passa a carregar nas costas a confusão estratégica de um partido que tem ministérios em Brasília e pré-candidatos que discursam como oposicionistas.

Três nomes, nenhum rumo

O PSD passa a reunir três governadores colocados, em maior ou menor grau, no debate presidencial: Ratinho Júnior (PR), Eduardo Leite (RS) e Ronaldo Caiado (GO). Cada um representa um tom diferente de oposição ao governo Lula.

Perfis

Eduardo Leite adota uma linha crítica moderada. Ratinho Júnior sobe um pouco o volume. Caiado chega com disposição explícita de confronto. O problema é que todos convivem sob o mesmo guarda-chuva partidário que ocupa três ministérios no governo federal e não dá sinais de desembarque.

Espaço

Na prática, o PSD tenta ocupar o espaço do “centro viável”, mas seus potenciais candidatos falam para eleitorados distintos — e, em alguns casos, antagônicos.

O centro que não se firma

Kassab afirma que o partido lançará um nome de centro, sem alinhamento automático nem com Lula nem com o bolsonarismo. A tese é a de que existe um eleitor cansado da polarização. As pesquisas, de fato, mostram esse sentimento.

Diferenças

Mas intenção difusa não é voto consolidado. Quando os cenários são estimulados, os polos continuam concentrando preferência. Foi assim em 2018 e em 2022. O centro político brasileiro tem discurso, mas ainda não demonstrou musculatura eleitoral consistente.

Zero convicção

Ficar “em cima do muro” pode parecer estratégia, mas frequentemente soa como falta de convicção. E partidos percebidos como excessivamente pragmáticos acabam reféns das circunstâncias regionais.

Liberou geral

Historicamente, o PSD funciona como uma confederação de interesses estaduais. A tendência é repetir a lógica: palanque com a esquerda onde convém, aliança com a direita onde for mais vantajoso. Nacionalmente, isso preserva musculatura parlamentar. Eleitoralmente, dilui identidade.

Opção

Esse modelo pode garantir sobrevivência partidária, mas dificulta a construção de um projeto presidencial competitivo. E a desorganização nacional inevitavelmente respinga nos estados.

O efeito colateral em SC

É nesse cenário que João Rodrigues tenta se viabilizar como candidato ao governo. Seu discurso oscilou: de um bolsonarismo enfático para uma tentativa de ocupar um espaço de “centro” que, na prática, já tem dono no Estado — e não é ele.

Liderança

O eleitorado conservador catarinense gravita majoritariamente em torno de Jorginho Mello. Já o campo da esquerda tende a buscar um nome competitivo, com perfil conservador.

Merisio muda o jogo

O cenário se complica ainda mais com a movimentação de Gelson Merisio no campo da esquerda. Ele, que já foi candidato identificado com a direita, hoje é visto como alternativa viável por setores canhotos e ainda mantém pontes com o eleitorado do Oeste.

Pedra no caminho

Isso cria um fenômeno raro: um nome que pode reduzir o espaço de crescimento de João Rodrigues tanto à direita quanto no centro, além de bloquear a fantasia de uma migração de votos da esquerda em um segundo turno.

No mato sem cachorro

Nos bastidores, já se fala na possibilidade de João Rodrigues recuar para uma disputa ao Senado. O problema é que, se ele não encabeça a chapa majoritária, o PSD catarinense fica sem um nome natural ao governo. E não há, hoje, uma liderança estadual pronta para assumir esse protagonismo.

O partido repete, em Santa Catarina, o mesmo dilema que enfrenta nacionalmente: presença, estrutura, tempo de TV — mas nenhuma narrativa unificadora.

Identidade em xeque

O PSD cresceu sendo versátil. Em 2026, pode-se descobrir que versatilidade demais se confunde com indefinição. Em um ambiente político em que o eleitor busca referências claras, a sigla corre o risco de parecer grande por fora e oca por dentro.

E João Rodrigues, que já enfrentava obstáculos próprios, agora precisa sobreviver também às contradições do partido que escolheu como abrigo.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

24 horas

Portal49
www.portal49.com.br
© 2020 - 2026 Copyright Portal 49

Portaliza - Plataforma de Jornalismo Digital
WhatsApp

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com a nossa Política de Privacidade. FECHAR